Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 53 de 63

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Obras Posthumas

Quintilhas

Vinguem meus esforços vãos:

Musas zombão de Jarretas:

Pedem-me as tremulas mãos,

Mais do que Lyra, muletas.

Fogosos Vates emprehendão

Altos vôos neste dia:

Musas com Musas contendão:

Sáião Odes á porfia;

E queira Deos que se entendão.

 

QUINTILHAS

 

Em louvor de huma Senhora.

 

Lyra minha, rouca lyra,

Hoje afinada consente,

Que a tremula mão te fira:

Cante huma só vez contente

Quem por costume suspira.

Louvemos Anarda bella;

Eu vejo aos astros subir

Meus versos em honra della,

E possa quem os ouvir

Adora-la antes de vê-la.

Já lédo as vozes desato:

Ouve, ó Nynfa, os teus louvores:

Não pertendo ser-te grato

Traçando com vivas cores

Teu angelico retrato.

Permitte, Anarda piedosa,

Que se farte o meu desejo

N'outra empreza mais gloriosa;

Que o menor dom que em ti vejo,

He o dom de ser formosa.

Rubra boca, os olhos bellos,

Que brandamente movidos,

São de Amor agudos zelos;

Sobre alvo collo esparzídos

Louros ondados cabellos;

Braço airoso, a mão de neve;

Proporcionada cintura;

Eis a tua copia breve:

Porém vôa a formosura

Nas azas do tempo leve.

Outros bens mais duradouros

Não são á tua alma esquivos,

Bens que nos annos vindouros

Valem mais que huns olhos vivos,

Que huns soltos cabellos louros.

A destruir a belleza

A curva velhice corre:

Nada conserva firmeza;

Só a virtude não morre:

Vence as leis da Natureza.

Tu, que prezas a verdade;

Que tratas falsos sujeitos

Só com a côr de amizade,

E para os sinceros peitos

Mostras ter sinceridade;

Tu, que os enganos deslizas;

Que sabes vencer desgostos;

Que a lisonja ufana pizas;

Que não vês sómente os rostos;

Que até corações divizas;

Tu, que da seria prudencia

Segues os dictames puros;

Que tens amado a innocencia,

E nos conselhos maduros

Mostras de idade experiencia;

Teu nome eterno ha de ser

Estampado entre as estrellas;

Has de as mais Nynfas vencer,

Que sómente em serem bellas

Fundão todo o seu poder.

Amão a fofa vaidade;

Dos homens a seu sabor

Prendem a solta vontade:

Trazem nos olhos amor,

No coração falsidade.

Muitas fingem desprezar

Finezas de amante rude;

Fingem os sabios amar:

Não o fazem por virtude,

Querem talentos mostrar.

De que serve huma alma pura,

Se os pezados membros cobre

Rota humilde vestidura?

Nada val hum peito nobre

N'huma grosseira figura.

Corpo esbelto, onde ajustado

Brilha, cheio de ouro immenso,

Curto fraque afrancezado;

Cheiroso, candido lenço;

O cabello apolvilhado;

Jocosas palavras ôcas;

Estes os dons relevantes,

Que deixão de vencer poucas

Das que fingem ser amantes,

E não passão de ser loucas.

Tu tens outro entendimento:

És sempre igual: não te vales

Das côres do fingimento:

Quer séria, quer rindo falles,

Não fundas torres no vento.

Rís da baixa adulação,

Mal que os teus ouvidos toca

A contrafeita expressão:

Conheces na falsa boca

O enganoso coração.

Ver sobre molle tapete,

Curvando as pernas, e os braços,

Peralta de alto topete,

Com destros miudos passos,

Dançar Francez minuete;

Vê-lo nutrindo esperanças

Entre agradaveis parceiras,

Fazer rapidas mudanças,

Torcendo as mãos nas ligeiras

Buliçosas contradanças;

Fervente rebeca ouvir,

Que infunde vivos prazeres,

Jámais te faz distrahir;

Pois antes dos Sabios queres

Sabios conceitos ouvir.

Só te vejo attenta em quanto

Ouves palavras discretas;

As Musas estimas tanto,

Que até dos tristes Poetas

Te commove o triste pranto.

Conheces seu duro mal;

Que sempre tributão fé

A coração desleal:

Que por isso em todos he

A tristeza natural.

Que ás Nynfas endurecidas

Lhes não causão terno effeito;

Que triunfão das fingidas,

Guardando dentro do peito

Inda frescas as feridas.

Porém já que ouzei fallar

De Amor nas sanguineas reixas,

Vou a lyra pendurar:

Não quero com minhas queixas

Teus louvores misturar.

Tu dirás que não tens parte

No meu mal cruento, e fero;

Que vou tristezas lembrar-te;

Dirás que affligir-te quero,

Quando desejo louvar-te.