Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 34 de 63

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Obras Posthumas

Mote.

Cupido, que tem jurado

Crua guerra á humana gente,

Das nuas costas pendente

Dura aljava, e passadores,

Fará conquistas menores

Que hum vosso girar sómente.

Quando desses claros lumes

Sahem as chammas brilhantes;

De mil rendidos amantes

Ouço saudosos queixumes.

Não chameis loucos ciumes,

Ó Lize, os que em mim causaes:

Do poder de huns olhos taes

Quem ha que livrar-se possa,

Se a menor perfeição vossa

Me faz temer mil rivaes?

 

MOTE.

 

Tu teimas em desprezar-me,

Eu teimo em te idolatrar,

Juntarei teima com teima,

Teimando te hei de abrandar.

 

GLOZA.

De ser comigo piedosa

Não dás, Marilia, esperanças:

Inda, cruel, não te cansas

De ser esquiva, e teimosa!

Que importa, ó Ninfa formosa,

Vir neste pégo arriscar-me,

De mergulho ao mar lançar-me,

E os livres peixes colher-te;

Se quanto eu teimo em querer-te,

Tu teimas em desprezar-me?

C'os olhos ao Ceo erguidos,

Ou postos nos longos mares,

Por ti encho os vagos ares

De mil saudosos gemidos:

Nos rochedos desabridos,

Que em vão bate o rouco mar,

Devorando o meu pezar,

Já que de ouvi-lo te cansas,

Sem premio, sem esperanças

Eu teimo em te idolatrar.

Teimando, se mal não penso,

Hei de abrandar teus rigores;

Porque assim como em amores,

Tambem em teimas te venço.

Juro pelo Sol intenso,

Que a prumo estas rochas queima,

Que mais do que eu ninguem teima.

São as causas desiguais:

Mas por vêr quem teima mais,

Juntarei teima com teima.

Se alva fonte murmurando

Gasta em torno os duros seixos,

E vai dos annosos freixos

As raizes escarnando: