Obras Posthumas
Mote.
Cupido, que tem jurado
Crua guerra á humana gente,
Das nuas costas pendente
Dura aljava, e passadores,
Fará conquistas menores
Que hum vosso girar sómente.
Quando desses claros lumes
Sahem as chammas brilhantes;
De mil rendidos amantes
Ouço saudosos queixumes.
Não chameis loucos ciumes,
Ó Lize, os que em mim causaes:
Do poder de huns olhos taes
Quem ha que livrar-se possa,
Se a menor perfeição vossa
Me faz temer mil rivaes?
MOTE.
Tu teimas em desprezar-me,
Eu teimo em te idolatrar,
Juntarei teima com teima,
Teimando te hei de abrandar.
GLOZA.
De ser comigo piedosa
Não dás, Marilia, esperanças:
Inda, cruel, não te cansas
De ser esquiva, e teimosa!
Que importa, ó Ninfa formosa,
Vir neste pégo arriscar-me,
De mergulho ao mar lançar-me,
E os livres peixes colher-te;
Se quanto eu teimo em querer-te,
Tu teimas em desprezar-me?
C'os olhos ao Ceo erguidos,
Ou postos nos longos mares,
Por ti encho os vagos ares
De mil saudosos gemidos:
Nos rochedos desabridos,
Que em vão bate o rouco mar,
Devorando o meu pezar,
Já que de ouvi-lo te cansas,
Sem premio, sem esperanças
Eu teimo em te idolatrar.
Teimando, se mal não penso,
Hei de abrandar teus rigores;
Porque assim como em amores,
Tambem em teimas te venço.
Juro pelo Sol intenso,
Que a prumo estas rochas queima,
Que mais do que eu ninguem teima.
São as causas desiguais:
Mas por vêr quem teima mais,
Juntarei teima com teima.
Se alva fonte murmurando
Gasta em torno os duros seixos,
E vai dos annosos freixos
As raizes escarnando: