Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 50 de 63

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Obras Posthumas

Decima.

Se não fordes o juiz,

Perderei de certo a herança.

 

Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico

das Caldas.

 

Meu Doutor, bem sei que quer

Que eu venha ás Ave-Marias;

Mas olhe: ha huns certos dias

Em que isto não póde ser.

Dona Antonia Xavier

(Que o Ceo por seculos guarde)

Faz annos, e eu esta tarde

Perco á Medicina o medo:

N'outros dias virei cedo;

Mas neste, ha de ser bem tarde.

 

DECIMA.

 

A hum Prégador celebre (Fr. João Jacintho)

estando jantando com o A.

Se deste potente vinho

Não cerceias as rações,

Temo que nos teus Sermões

Allegues só São Martinho.

Se lhe dás largo caminho

Pelo teu fecundo peito

Seu fatal magico effeito

Deixando-te a tres de fundo,

Te fará ser o segundo

Que diga: [8] sempre me deito .

 

Carta a Lourenço da Mota, Official da

Secretaria.

 

Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com

muito bom estomago.

Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão, morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e arde agora a vela pelas duas pontas.

Tu que tens bom coração, e que estás ao pé do Senhor Marquez, que o tem melhor, pede-lhe por caridade o despacho dessa petição.

Não te assustem os tres annos; porque ainda mal que ouço que no de 93 não tiverão cabimento. Pede-lhe que já que me livrou de crianças, me livre tambem de velhas, gado ainda mais impertinente, e que se não contenta com figuras de Rhetorica. Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo, e Collega, e sabe que, se lhe não mandas as Portarias, terás a vergonha de o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á tua efficacia.

O teu fiel Amigo

N. T.

 

Peço que mates a fome

A este meu povo immenso,

E peço-te, meu Lourenço,

Pelo Santo do teu Nome.

Por hum bom serviço tome

A paga das taes tencinhas.

Pois teve as carnes mesquinhas

Em vivas brazas vermelhas,

Em louvor das suas grelhas

Peço me livres das minhas.

Com esta tenho enviado

Tres cartas, segundo penso,

Ao meu amigo Lourenço:

Nem reposta, nem mandado.

A dôr de que estou tomado

Sim desejo allivialla:

Mas a tua mais me aballa,

E parece mais intensa: