Obras Posthumas
Decima.
Se não fordes o juiz,
Perderei de certo a herança.
Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico
das Caldas.
Meu Doutor, bem sei que quer
Que eu venha ás Ave-Marias;
Mas olhe: ha huns certos dias
Em que isto não póde ser.
Dona Antonia Xavier
(Que o Ceo por seculos guarde)
Faz annos, e eu esta tarde
Perco á Medicina o medo:
N'outros dias virei cedo;
Mas neste, ha de ser bem tarde.
DECIMA.
A hum Prégador celebre (Fr. João Jacintho)
estando jantando com o A.
Se deste potente vinho
Não cerceias as rações,
Temo que nos teus Sermões
Allegues só São Martinho.
Se lhe dás largo caminho
Pelo teu fecundo peito
Seu fatal magico effeito
Deixando-te a tres de fundo,
Te fará ser o segundo
Que diga: [8] sempre me deito .
Carta a Lourenço da Mota, Official da
Secretaria.
Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com
muito bom estomago.
Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão, morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e arde agora a vela pelas duas pontas.
Tu que tens bom coração, e que estás ao pé do Senhor Marquez, que o tem melhor, pede-lhe por caridade o despacho dessa petição.
Não te assustem os tres annos; porque ainda mal que ouço que no de 93 não tiverão cabimento. Pede-lhe que já que me livrou de crianças, me livre tambem de velhas, gado ainda mais impertinente, e que se não contenta com figuras de Rhetorica. Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo, e Collega, e sabe que, se lhe não mandas as Portarias, terás a vergonha de o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á tua efficacia.
O teu fiel Amigo
N. T.
Peço que mates a fome
A este meu povo immenso,
E peço-te, meu Lourenço,
Pelo Santo do teu Nome.
Por hum bom serviço tome
A paga das taes tencinhas.
Pois teve as carnes mesquinhas
Em vivas brazas vermelhas,
Em louvor das suas grelhas
Peço me livres das minhas.
Com esta tenho enviado
Tres cartas, segundo penso,
Ao meu amigo Lourenço:
Nem reposta, nem mandado.
A dôr de que estou tomado
Sim desejo allivialla:
Mas a tua mais me aballa,
E parece mais intensa: