Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 35 de 63

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Obras Posthumas

Mote.

Se duras rochas quebrando

Vai c'o tempo o bravo mar:

Se bronzes póde cortar

Mordente lima teimosa:

Tambem eu, Ninfa formosa,

Teimando te hei de abrandar.

 

MOTE.

 

Não sei que quer a desgraça,

Que atraz de mim corre tanto:

Hei de parar, e mostrar-lhe

Que de ve-la não me espanto.

 

GLOZA.

 

Não sei que outro mal profundo

Inda a desgraça me guarda,

Se me tirou em Anarda

O que tem de bom o mundo!

Foi este golpe tão fundo,

Que outro não tem que me faça:

Se em levar-me o gesto, e a graça

De huns olhos, por quem vivia,

Me fez quanto mal podia,

Não sei que quer a desgraça!

Debalde outros gostos pintas,

Amor, para cativar-me:

Já não tornas a enganar-me,

Por mais, e mais que me mintas.

Inda tens as settas tintas,

Inda enxugo inutil pranto:

Ao teu venenoso encanto

Novas victimas procura;

E dá-lhe dessa ventura,

Que atraz de mim corre tanto.

Fizeste, ó desgraça, hum erro

Em vires do Amor valer-te:

Como ha de elle socorrer-te,

Se eu já conheço o seu ferro?

Á sua voz o ouvido cerro:

Custou-me sangue o escapar-lhe:

E para melhor provar-lhe,

Que eu já sou dos seus cortados,

Sinaes inda mal fechados

Hei de parar, e mostrar-lhe.

Tu só me déste hum desgosto,

Outro já não pódes dar-me:

Já agora sempre has de achar-me

A mesma alma, e o mesmo rosto,

Se em ferros por ti for posto,

Verás que ao som delles canto;

Se envolta em sanguineo manto

Me pões a morte diante,

Notarás no meu semblante,

Que de ve-la não me espanto.