Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 57 de 63

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Obras Posthumas

Ode

Que hoje as rédeas tomais do Reino

vosso,

Os Fastos Lusitanos

Dirão de Vós o que eu dizer não

posso:

Vossa Augusta Memoria

Abrirá largo campo á longa Historia.

Sem trabalho podeis

Fazer feliz a gente Portugueza,

Seguindo as santas leis,

Que n'alma vos gravou a Natureza,

A rara humanidade

A incorrupta Justiça, a sã Verdade.

 

No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo

Senhor Marquez de Angeja.

 

ODE

 

A rouca Lyra, Musa, temperemos,

Cordas de ouro lhe ponho:

O triste Boticario em paz deixemos,

E o Gamaõ enfadonho;

Inspira-me huma vez sonoros hinos,

Que Apollo julgue deste dia dinos.

Ensina-me a louvar do Illustre Angeja

Talentos sup'riores;

Que soffreo os assaltos d'alta inveja,

Como soffre os louvores;

Cuja alma não conhece vís mudanças,

Ou corrão tempestades, ou bonanças.

Sem temor estalar o raio ouvia,

Que ao perto fuzilava;

O recto coração tendo por guia,

Seguro caminhava;

Em vão medonha tempestade freme,

Seu grande coração só crimes teme.

Ao pé do Throno Augusto em fim

chamado

Venceo a crua inveja;

Quem no Conselho o poz dos Reis ao

lado

Não foi sangue de Angeja,

Não foi de Hespanha antigo Filhamento,

Foi sã justiça, foi merecimento.

Não revolvo a Real Genealogia

De Henrique, e de Fernando;

Os sãos louvores deste grande dia

De ti mesmo tirando,

Só louvarei com paternaes façanhas

Quem seu nome dever a mãos

estranhas.

Vias correr teus dias socegados

Nutrindo esse alto esp'rito

No que ficou dos seculos dourados

Em prosa, ou verso escrito;

Recolhendo na próvida memoria

De estranhos Reis, e de teus Reis a

historia.

Outras vezes rasgando á vasta terra

Seu peito cavernoso,

Ou descobrindo quanto o mar encerra

De raro, e precioso,

Profundavas com seria madureza

Os segredos da occulta natureza.

De tão doces estudos arrancado

Por mais altos destinos,

Da Lusa gente, e de seus Reis

chamado

A empregos de ti dinos,

Sacrificas aos novos Soberanos

De maduro saber teus cheios annos.

Permitta o Ceo que em taes trabalhos

vivas

Claro nome estendendo;

E que as douradas horas fugitivas,

As azas encolhendo,

Fação que o tempo demorando o

passo

Sinta a fouce cahir do frouxo braço.

Que cem vezes raiando este bom dia

O Oriente esclareça;

Que imperturbavel solida alegria

Com elle te amanheça;

Que em naturaes ternissimos affetos

A mão te beijem Netos de teus Netos.

Mas deixa, ó Musa, a frouxa poesia

Para assumptos menores;

Não profanem de Angeja a gloria, e o

dia

Importunos louvores;