Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 42 de 63

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Obras Posthumas

Mote.

Pois se conta o seu cuidado,

Além de ser desgraçado,

Chamão-lhe em cima atrevido.

Até quasi tem perdido

De olhar o livre direito;

Vive sempre contrafeito;

E entre mil contrarios posto,

Mostra alegria no rosto,

Sente mil ancias no peito.

Busca alegres companhias,

Por curar o mal que sente:

Entra a ingrata de repente,

Despertão-se as cinzas frias.

Ternas Arias, Synfonias,

Tudo aviva o seu amor;

Mas dos fados o rigor

Tem sobre elle taes poderes,

Que no meio dos prazeres

Vive cercado de dôr.

 

MOTE.

 

Nos olhos o amor explico

Que trago no coração;

Que não se póde occultar

No peito a doce paixão.

 

GLOZA.

Mandas-me, ó Anarda, em vão

Os olhos meus reprimir;

Que elles sempre hão de seguir

O impulso do coração.

Sem querer sinaes daráõ

Do affecto, que não publíco:

Co'a boca, que mortifico,

Que importa que o não revele,

Se eu, por mais que me acautele,

Nos olhos o amor explico?

Amor os faz descuidados:

Em vão, Anarda, os abaxo;

Pois dahi a pouco os acho

Outra vez nos teus pregados.

Trazellos mais castigados

Não está na minha mão:

Esta continua omissão,

Este erro, como tu dizes,

He hum fructo das raizes,

Que trago no coração.

De que serve olhar a medo,

E fallar acautelado,

Se hum suspiro descuidado

Vem descobrir o segredo?

Este artificio, este enredo

Pouco poderá durar:

Meus olhos me hão de entregar;

Que hum amor na alma arraigado

He como hum fogo ateado,

Que se não póde occultar.

Tempo, e arte tenho posto

Para disfarçar-me em tudo:

Mas sae-me perdido o estudo,