Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 58 de 63

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Obras Posthumas

Ode

Pois inda que soubesses dirigi-los,

Quer merece-los; mas não quer ouvi-

los.

Engana-te o dezejo, que te inspira,

Reconhece o teu erro;

Se vês, que só ajustão nesta lyra

Negras cordas de ferro,

Não torças, não, teu misero fadario:

Torna ao Gamão, e ao triste Boticario.

 

ODE

 

Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas.

 

Clio huma setta tira

Da aljava de ouro, que pelo ar vazio

Longe correndo fira

Junto ao Mondego saudoso rio:

Alli em torno ás suas margens vôe,

E por feliz tres vezes o apregôe.

As claras aguas regão

Plantas bellas, fecundas, generosas:

Com desvelo se empregão

Em cultiva-las mãos industriosas:

Quão doces fructos, quão cheirosas

flores

De taes aguas, taes plantas, taes

cultores:

Ergue, illustre Mondego,

Ergue tua cabeça sobre as agoas:

Assás no fundo pégo

Choraste hum tempo tuas tristes

magoas.

Olha teus campos como esmalta agora

Em formosa união Pomona, e Flora.

Ó seio de candura,

Mascarenhas, Tu és o alvo, a méta,

Que anciosa procura

Da minha Clio a empennada setta.

Tu na alma paz, na sanguinosa guerra

Pódes ornar a tua, e alheia terra.

Mas boa sorte mude

Meu dito, e a outra parte te não chame

E onde tanta virtude

Tem a raiz, os fructos seus derrame;

Nem menos tempo o Sol illustre, e

aquente

A quem o vio desde o seu claro

oriente.

Porém, se he ordenado

Da Providencia sabia, santa, eterna,

Christão peito humilhado

Adora o Summo Ser que assim

governa:

Antes se goza, e dentro n'alma estima

Que Astro tão bello alegre mais d'hum

clima.

Entre tanto diffunde Na Patria tua luz copiosa, e clara;

Que, se logo confunde

Os fracos olhos, depois guia, e aclara.

Arda ante incertos pés (e gritem vicios)

Alta tocha, que mostre os precipicios.

Constancia! que guardado

Está o galardão a teus suores,

Onde em cume estrellado

Vibra o Templo da Gloria resplandores.

Dalli olhos não tires; que ao trabalho

He doce viração, he fresco orvalho.

Tu, e esse Coro illustre

De mancebos Heróes, que se

obrigárão

A dar ao mundo lustre,

Quando o alto sangue dos Avós

herdárão;

Concebei novo fogo, e novo brio

Ouvindo onde vos chama a minha Clio.

Oh, se alguem me puzesse

Nas margens do Mondego claro, e frio:

Certo me não vencesse

Cysne de Dirce sobre o patrio rio.

Alli tão docemente vos cantára,

Que a ouvir-me feras, montes abalára.

Mas engenho ir recusa

Onde ir Amor, e Gratidão me incita:

Nescia, se o esperas, Musa!

Não corre lasso pé 'strada infinita.

Almas illustres, havereis sómente

O dom sincero de hum dezejo ardente.

Só mal sonora rima,