Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 47 de 63

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Obras Posthumas

Gloza.

Hei de amar-te até á morte,

Quer tu me queiras, quer não:

Serei no amor desgraçado;

Mas com discreta eleição.

 

GLOZA.

 

Não fujo, pódes rasgar

Este peito desgraçado;

Que o teu gesto retratado

Has de, cruel, nelle achar.

Posto que veja roubar

Á Parca a tesoura forte,

E dar-me na vida córte,

Inda ouvirás, que te digo:

«Ingrata, não me desdigo,

Hei de amar-te até á morte.»

Vem, Amor, auctorizar

O sagrado juramento

De até ao final alento

Firmemente te adorar.

De joelhos, no Altar

Co'a devida submissão

Resoluto ponho a mão;

Juro nas settas tremendas

De te amar, quer tu me offendas,

Quer tu me queiras, quer não.

Amor co'as mãos apressadas

Ergue dos olhos a venda,

E pasma da jura horrenda,

Que assusta as aras sagradas.

«Eis as correntes pezadas,

Que te esperão,» diz irado.

Eu as acceito humilhado,

«Não, ó Deos, não esmoreço

C'os ferros, posto conheço

Serei no amor desgraçado.»