Obras Posthumas

Nicolau Tolentino · Capítulo 54 de 63

Páginas do PDF

Obras Posthumas

Quixotada.

Não te deves admirar:

Sei que em vão me estou

queixando;

Mas quem sente o seu pezar,

Se principia cantando,

Sempre acaba a suspirar.

 

QUIXOTADA.

 

Espicaça esse animal,

Companheiro Sancho Pança,

Entremos em Portugal,

E vamos molhar a lança

A pró do triste Pombal.

Poetas principiantes,

Já estou em circo raso:

Tambem Apollo he Cervantes,

Tambem cria no Parnaso

Seus cavalleiros andantes.

Não vos chamo, ó sujo rancho,

Que até os versos errais;

Em tal sangue as mãos não

mancho:

Para vós, e outros que taes

Sobeja a espada do Sancho.

Sobre vós carrego a mão,

Sobre vós, ó folhas velhas,

Que dais n'hum homem no chão,

Sem vos lembrar, que entre ovelhas

He fraqueza ser leão.

Essa boca enganadora,

Que he hoje da maldição,

Mil vezes se poz outra hora

Sobre a praguejada mão,

E lhe chamou bemfeitora.

Pois já que vós sois assim,

Povo revoltoso, e ingrato,

Hoje castigar-vos vim:

Ireis pelo pó do gato,

Nem esp'reis quartel em mim.

Santo Téjo, o curso enfreia,

E montando rochas duras

Torna atraz a clara veia:

Conta novas aventuras

Á formosa Dulcineia.

Nova guerra o mundo veja,

Guerra em que pouco se arrisca:

Serão armas na peleja,

Provado fuzil, e isca,

Secca, espinhosa carqueja.

Irmão Sancho, põe-te a pé,

Põe essas Rimas a prumo,

Principio á obra se dê,

Tolde o ar o negro fumo

Deste novo Auto da Fé.

Queima essas Satyras frias,

Faltas de sizo, e conselho:

Queima prosas, e poesias:

Acabe o cansado velho

Em paz os seus tristes dias.

Porém poupa sempre alguma

Das raras que tem sabor:

Das outras nem deixes huma,

Dessas que tudo he rancor,

E poesia nenhuma.

Em tanto as armas pendura:

Mas se houver desassizados,

Que queirão guerra mais dura,

Da minha lança cortados

Descerão á sepultura.

Já nuvens de fumo vejo:

Já chamma brilhante o arreda:

Já se farta o meu desejo;

Já da viva lavareda

Dá o clarão sobre o Tejo.

Essas cinzas denegridas,

Que ao velho poupão mil magoas,

Leve-as o Téjo envolvidas,

Fiquem no fundo das aguas

Para sempre submergidas.

Vês, Sancho, do nome meu

Como vôa a clara fama?

Nem viva alma appareceo

A apagar a voraz chamma,

Ninguem, ninguem se atreveo!

Vês como ajuda o destino.

A hum bom cavalleiro andante?

Não precizei de aço fino,

Nem de pés de Rocinante,

Nem de elmo de Mambrino.

Ó tu que alçaste a viseira

Forcejando os nervos velhos,

E para ver a fogueira

Limpaste os olhos vermelhos

Na felpuda cabelleira:

Abaixa a proa huma vez,

Chega a Dulcinea bella,

E dize posto a seus pés:

«Formosissima Donzella,

Eu sou hum triste Marquez,

«Que fugindo a hum povo inteiro,

A quem mettêra em furor

Minha privança, e dinheiro,

Vim achar mantenedor

Em teu nobre cavalleiro.

«Disse este povo malvado,

Que eu tinha o reino extorquido;

Que era gatuno afamado,

E que em jogos de partido

Tinha com todos levado;

«Que no Tabaco levava

Hum quinhão avantajado;

Que o Sabão não me escapava;

E que sem ser Deputado

Nas Companhias entrava.

«Das minhas Leis murmuravão:

E os seus pequenos juizos

Tão pouco o ponto tocavão,

Que sempre me erão precisos

Assentos que as declaravão.

«Té na lingoa sem motivo

Dérão criticos revezes:

Fiz nella estudo excessivo,

Bebi nos bons Portuguezes

Monopolio, e respectivo.

«Disse mais o povo insano,

Que perdi de Roma o trilho;

Que fui Sultão soberano;

Que andei cazando meu filho

Segundo o rito Othomano.

«Mas toda a maldade he sua:

Vêm riquezas, e palacio,

Comem-se de inveja crua:

São huns novos cães de Horacio

Ladrando debalde á lua.

«Já se me dá pouco, ou nada

Da sua guerra pequena:

Tenho gente em campo armada,

Tenho Mendoça co'a penna,

E Dom Quixote co'a espada.»

Esta falla, ou outra igual

Acabada, meu Marquez,

Faze rev'rencia formal,

E arrastra os gotozos pés

Para a villa do Pombal.

Nella vive descansado,

Porque as aguas vão serenas;

Sempre Ministro de Estado,

Mandando cousas pequenas