Portal das Reencarnações
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Portal das Reencarnações - Introdução
Rabino Isaac Luria
O Rabino Isaac Luria, que também é conhecido pelo apelido Ha Ari Ha-Cadosh, que em hebraico, significa o Santo Leão ("), nasceu em Jerusalém em 1534, filho de pai ashquenazita e de mãe sefaradita. Faleceu em Safed, então parte do Império Otomano, em 25 de julho de 1572 (5 de Av de 5332).
Ainda criança, perdeu seu pai e foi criado por seu rico tio, Mordechai Francis, um coletor de impostos no Cairo, Egito, e que o entregou aos melhores professores de Judaísmo da época.
Luria se revelou um aluno aplicado da literatura rabínica; e sob tutoria do Rabino Bezalel Ashkenazi (mais conhecido como autor do livro Shitá Mecubétset) se tornou, bastante jovem, proficiente naquele ramo de estudos judaicos.
Aos quinze anos se casou com sua prima, e tendo amplo respaldo financeiro, foi capaz de continuar seus estudos. Embora no começo ele tenha tentado uma carreira como comerciante, ele logo se voltou ao ascetismo e o misticismo.
Por volta dos vinte e dois anos, começou a se concentrar no estudo do Zôhar, uma obra prima da Cabalá que, na época, tinha sido impressa pela primeira vez.
Na mesma época, adotou um estilo de vida de reclusão. Ele se retirou para as margens do Rio Nilo, e por sete anos viveu isolado em uma cabana, se dedicando totalmente à meditação. Ele visitava sua família apenas no Shabat, falando muito pouco, e sempre em hebraico.
Os chassidim dizem que ele tinha constantes encontros com Elias por conta do seu estilo de vida ascético.
E foi com Elias que ele foi iniciado nas sublimes doutrinas e na divina Sabedoria da Cabalá.
Foi o Rabino Isaac Luria que abriu a Cabalá para todos, ao apresentar um método especial de aprendizado desta sabedoria. Esse método ficou conhecido como o "Sistema Luriânico". Nas palavras do Rabino Ashlag: "Com o surgimento do Rabino Isaac Luria, o decreto de não ensinar Cabalá para o público foi anulado e a permissão dos Céus foi dada, permitindo que a Cabalá fosse estudada abertamente e que chegasse às massas".
Mas o que quer dizer "permissão dos Céus"?
Ele mesmo responde: "Trata-se da sagrada alma do Rabino Isaac Luria, que, por meio de seus ensinamentos, abriu os portões de entendimento para todos" (retirado de "A Gift of the Bible", do Rabino Iehudá Ashlag).
Os Escritos do Ari (Kitvê Ha Ari) incluem:
• Árvore da Vida — Ets Chaim
• Entrada para os Portais — Mevô Shearim • Ditos do Rabino Shimon bar lochai e dos Sábios — Maamarê Rashbi ve Chazal
• Portal das Introduções — Sha'ar Hahacdamot • Portal dos Preceitos — Sha'ar Hamitsvot • Portal dos Versículos — Sha'ar Hapessukim • Portal das Meditações — Sha'ar Hacavanot • Portal do Espírito de Santidade — Sha'ar Rúach Hacódesh • Portal das Reencarnações — Sha'ar Haguilgulim • Excertos da Torá e o Significado dos Preceitos — Licutê Torá Ve-Ta'amê Hamitsvot
• Quatrocentos Siclos de Prata — Arba Meot Shêkel Késsef • Fruto da Árvore da Vida — Pri Ets Chaim • Livro dos Excertos — Sefer Halicutim
Sobre o Tradutor
Joseph Saltoun, Rabino e Cabalista; é um dos poucos privilegiados a serem ordenados como Rabino por um dos maiores sábios e líderes da Cabalá em nossa geração — Rabino P. S. (Shraga Feivel) Berg, fundador do Centro Internacional para os Estudos da Cabalá e reitor de Ieshivá Kol-Iehudá (Jerusalém-1922).
Autor, tradutor e comentarista de livros da Cabalá - Joseph Saltoun, começou a sua carreira como estudante e professor da Cabalá em 1982, aos 22 anos.
Participou na tradução de muitos livros modernos e antigos da Cabalá. Traduziu (do hebraico para o inglês) o livro Portal das Reencarnações (da autoria do sábio Cabalista Isaac Luria, século 16). Entre os anos 1994 e 1996 participou do projeto de tradução (do hebraico/aramaico para o inglês) do Zôhar - uma obra divina da Cabalá do primeiro século que foi revelada por Rabino Shimon Bar-Iochai. Como presidente do Centro dos Estudos da Cabalá, nos anos 1997-2004 em São Paulo, contribuiu em estabelecer, difundir e disseminar os estudos da Cabalá no Brasil.
Da sua autoria são os livros; Árvore da Vida (2012); As Chaves Secretas do Universo (2013); o Hagadá (Livro de orações para a festa de Pêssach) escrito em hebraico com texto traduzido ao português e transliterado, e o livro Orações Cabalistas (2014).
Atualmente, Joseph Saltoun dirige o Instituto Meron/Dinâmica Cultural, e oferece seminários de Cabalá no Brasil, no Canadá, em Israel e em outros países, com a ideologia de transcender as barreiras entre os povos através do resgate de sua cultura original.
Comentários do Tradutor
Tentei ser o mais fiel possível ao texto original escrito por Chaim Vital, discípulo do Rabino Isaac Luria, que pus em escrito os ensinamentos recebidos oralmente dele.
Estes ensinamentos depois foram passados para o filho do Rabi Chaim Vital, Shemuel Vital.
Ele juntamente a seu pai, se encarregaram de organizar e compilar todos estes ensinamentos no que hoje se conhece como 'Escritos do Ari' (heb. Kitvê Ha'Ari).
Na minha tentativa de preservar a maneira original de falar do Rabino Isaac Luria, e a maneira de escrever do Rabi Chaim Vital, conforme apresentado por seu filho, o Rabino Shemuel, em alguns casos eu não mudei a estrutura das frases, embora nem sempre elas estejam gramaticalmente perfeitas. Existem alguns trechos do livro que exigem conhecimento prévio e um entendimento profundo de Cabalá.
Meu conselho para quem está iniciando no estudo, ou para aqueles que talvez não entendam o que está escrito nestas partes, é que leiam estes trechos assim mesmo, sem pulá-los.
Isso porque este livro contém conhecimento e sabedoria que penetram no subconsciente e, eventualmente, chegam à nossa mente consciente. Então, a simples leitura destes trechos, mesmo sem o seu imediato entendimento intelectual, aumenta a compreensão espiritual da mente e purifica a alma.
Isso ajuda quem os lê a se elevar e ter insights espirituais. Deixei meus comentários em chaves quadradas no transcorrer do texto para facilitar a leitura e fazer com que o leitor leia fluentemente com o mínimo de interrupções.
Prólogo
Infelizmente, a reencarnação é um dos assuntos que fora banido de nossa civilização por muitos séculos.
É por isso que hoje se torna difícil acreditar que ela realmente exista. No entanto, uma vez que procuramos nas Sagradas Escrituras e nos comentários de nossos Sábios, ficamos surpreendidos com a importância e centralidade desse assunto e do seu papel integral em nossa vida. Eu sei que é difícil, para não dizer impossível, provar que a reencarnação existe e que já estivemos aqui antes, em outro corpo, em outro local, em outra época, com outro nome ou identidade.
Mas entre nós há aqueles que passaram por uma experiência espiritual que lhes permitiu se lembrar de suas vidas passadas. Pode ter sido um evento de quase morte (do qual a pessoa se recuperou, obviamente), do qual a pessoa tem a possibilidade de contar sobre sua experiência fora do corpo.
Para estas pessoas não há necessidade de provas, a experiência em si basta.
Para o resto de nós, elas podem servir de prova viva do que estamos buscando.
O assunto da reencarnação explica as leis universais que governam o destino de toda a humanidade, sem diferenciação de raça ou nacionalidade. Então, não importa onde vivemos ou que lei humana nós seguimos, as leis divinas sempre prevalecerão.
Não importa se acreditamos em reencarnação ou não — todos nós reencarnamos e estamos sujeitos às mesmas leis da ordem divina. A reencarnação é outra maneira de explicar como Deus é Universal, pois por meio dela nós chegamos ao profundo entendimento de que todos vivemos sob o mesmo guarda-chuva da Divina Providência e de Seu poder regente!
Aceitar as leis da reencarnação pode nos ajudar a aceitar o fato de que nosso destino está entrelaçado com o destino de outras pessoas, e, mais importante, é que o nosso bem-estar depende do bem-estar do outro, e não do seu extermínio.
Que este estudo e os ensinamentos de nossos Mestres e Mentores possam servir como um facho de Luz para iluminar nossa alma — Amém!
- Rabino Joseph Saltoun Uma oração antes de estudar um texto do Ari Soberano dos Mundos e Senhor dos Senhores, Pai da Compaixão e do Perdão — nos curvamos perante Ti, Adonai, nosso Elohim, e Elohim de nossos pais, prostrando-nos com gratidão por ter nos trazido para perto da Tua Torá e da Tua Obra — Obra de Santidade, bem como por ter nos dado uma parte do segredo da Tua Sagrada Torá.
O que somos nós e o que vale a nossa vida para que Tu nos demonstres tamanha bondade e amor?
Portanto nós despejamos nosso coração perante Ti com súplicas para que Tu possas nos perdoar e nos absolver de todos os nossos pecados e transgressões, e para que nossas iniquidades não nos separem de Ti. E que seja a Tua Vontade, Adonai, nosso Elohim, e Elohim de nossos pais, preparar nossos corações para reverenciar e amar a Ti. E que Teus Ouvidos possam escutar estas nossas palavras; e que Tu possas abrir nosso imprudente coração para os segredos da Tua Torá. Que este nosso estudo possa trazer deleite diante do Trono da Tua Glória, como uma fragrância agradável, e que Tu possas despejar sobre nós a Luz da Origem de nossa alma em todos os nossos aspectos. Que as Centelhas de Teus santos servos, por meio dos quais Tu revelaste estas Tuas Palavras, possam brilhar e iluminar o mundo, e que o mérito deles e dos pais deles, e o mérito do seu estudo de Torá, e que a sua inocência e santidade possa nos dar forças e méritos, para que não falhemos nestas palavras.
E que nossos olhos possam ter o mérito de se iluminarem com o que estamos estudando, como o amável cantor de Israel disse: "Desvenda meus olhos para que eu possa perceber as maravilhas de Tua Torá"'; pois é Adonai quem dá Sabedoria da Sua Boca — Conhecimento e Entendimento. Que o que minha boca proclama e o meu coração pondera possam ser do Teu agrado, ó Elohim, minha Rocha e minha salvação — Amém!
Portal das Reencarnações – Parte 1
Introdução 1
[Comentário: A reencarnação é um estudo profundo da evolução espiritual da consciência humana.
Como o Ari explica, citando partes do Talmud, existem cinco níveis básicos da inteligência humana, veja a tabela 1.
A evolução e o desenvolvimento humano envolvem um crescimento gradual, espiritual e físico, passo a passo, de um nível para o outro. Este processo pode ser governado, por um lado, pelas leis da natureza, que são impostas sobre o homem ou, por outro lado, pelo livre-arbítrio. A principal intenção deste estudo é expor essas leis, a fim de permitir que o homem pratique seu livre-arbítrio e participe conscientemente no processo de sua própria evolução.
Todos conhecem a Teoria da Evolução de Darwin, que explica o processo de evolução do corpo físico do homem.
Mas as questões são: quais são as origens da inteligência humana? A lei da seleção natural pode ser controlada? O homem pode conscientemente navegar ao topo da escada da evolução ou ele só é regido pelas leis da natureza?
A reencarnação não tem a ver somente com vidas passadas. É também sobre como conduzir-nos no presente e no futuro. Estudar o processo de evolução humana através da reencarnação e compreender os níveis de inteligência humana e sua origem, não só melhora a nossa compreensão de nós mesmos, como também pode apressar este processo e oferecer controle sobre o nosso destino. Isso porque tudo o que acontece em nossa vida segue a lei básica de causa e efeito.
Consequentemente, nada acontece por acaso.
Reconhecer a causa principal dá a possibilidade de modificar o efeito.
É assim que o ser humano exerce o seu livre-arbítrio. Evoluir sendo regido pelas leis da seleção natural envolve dor e sofrimento, morte e nascimento, e uma vida vivida sem consciência e sem livre-arbítrio. Uma profunda compreensão das leis espirituais, que regem a nossa alma-consciência, pode nos libertar do caminho da dor e levar-nos ao caminho do prazer.
A justiça divina e a compreensão da Vontade do Divino têm sido um grande desafio para o homem, se não o maior deles.
O versículo que aparece em Deuteronômio (29:28) diz: "As coisas ocultas pertencem a Adonai, nosso Elohim. Porém, as reveladas pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para cumprir todas as palavras desta Torá". Isso pode nos dar ainda mais desânimo na tentativa de compreender a Vontade Divina, pois se as coisas ocultas pertencem apenas ao Santíssimo, como então podemos seguir todas as palavras desta Torá sem entendermos o motivo delas?
A reencarnação explica as coisas ocultas, que se estendem para além das nossas expectativas lógicas, que são baseadas em nossa percepção física. Ela nos permite participar das "coisas ocultas" e entender as leis cósmicas que regem a consciência da nossa alma.
Nada é um mistério, tudo tem uma razão, mesmo que esteja oculto de nossa percepção atual.
Nesta primeira introdução, o Ari apresenta os níveis da alma (Neshamá) e os seus nomes. [O termo alma ou Neshamá é usado com duas acepções: 1) para se referir exclusivamente ao seu próprio nível, ou 2) para falar de todos os cinco níveis de alma — Néfesh, Ruach, Neshamá, Chaiá e lechidá.]
Recomenda-se aprender os seus nomes em hebraico, por causa do significado preciso que cada nome representa em relação ao seu nível específico.
Assim, de baixo para cima, a Néfesh, que pode ser traduzida como os poderes instintivos e impulsivos do ser humano, é a parte mais baixa da alma, e é como a Bíblia diz: "(...) porque o sangue é a Néfesh" (Deuteronômio 12:23).
Isto significa que o sangue é o elemento físico do corpo humano que conecta o mundo da matéria com o espírito.
Tirar todo o sangue do corpo provoca a morte.
O nível de consciência de Néfesh está relacionado com nossas necessidades básicas e instintivo de sobrevivência.
Caçar e consumir outros seres vivos para sustentar o nosso corpo; adquirir riquezas físicas e posses para se sentir seguro e protegido; satisfazer desejos luxuriosos, de sexo e de prazer, etc.
Moralmente, é, portanto, mais provável que a Néfesh leve uma pessoa a sucumbir a suas fraquezas e cometer pecados. Esses pecados podem ser vistos como atos que prejudicam a pessoa e seu companheiro.
Poderíamos comparar o termo Néfesh com o termo Anima descrito por Aristóteles, sendo a percepção do eu através dos sentidos (consciência de si) e a automoção.
Já para Jung, o `anima' e o animus' (masculino e feminino), são descritos como elementos de sua teoria do inconsciente coletivo, um domínio do inconsciente que transcende a psique pessoal.
Ela pode ser entendida como a consciência e o autoconhecimento que uma pessoa tem de ser e de se tornar uma parte do todo. Ela pode estar dormente ou desperta.
Cabalisticamente falando, é o Rúach (Espírito), de cima, que desperta a Néfesh.
O Rúach, traduzido como Espírito, é o próximo nível. É aqui que a pessoa se torna "espiritual".
A primeira centelha de consciência espiritual aparece quando o homem faz as perguntas mais básicas: Por que estou vivo? Qual é o sentido da vida? Há um propósito para eu viver? Há alguém lá fora olhando para mim? Estas questões levam o homem a pensar, contemplar e aspirar pelos estudos superiores de vida; filosofia, astrologia, meditação, sabedoria esotérica, tudo em uma tentativa de desmistificar o mistério de sua própria existência.
As respostas estão dentro de nós!
O Rúach (Espírito) serve como um intermediário entre a Néfesh e a Neshamá (Alma).
Em geral, o Rúach ajuda a Néfesh em sua constante luta para escolher entre o bem e o mal.
A Neshamá (Alma) é um nível muito alto de consciência que reside no paraíso.
Ele não passa pelos ciclos de reencarnação.
Ela não sofre os altos e baixos que o corpo atravessa. Ela se conecta com a pessoa uma vez que ela corrigiu os dois primeiros níveis, de Néfesh e Rúach.
Os outros dois níveis, Chaiá (Forma Viva) e Iechidá (Unidade) não participaram no pecado de Adão (hebraico Adam), assim, as leis da reencarnação também não se aplicam a eles.
Isto nos ensina que as leis da reencarnação surgiram no universo para ajudar o homem corrigir o pecado de Adão.
Esta é a origem da palavra Ticun em hebraico, que significa "corrigir". Isso vale embora estas duas partes não estejam inclusas no processo geral do Ticun.
Para uma compreensão mais simples e prática dos níveis da alma, por favor, consulte a Tabela 3]
Rabino Isaac Luria, Ha'Ari Ha-Cadosh:
Vamos começar falando sobre o que os nossos Sábios, de abençoada memória, disseram, de que a alma (Neshamá) possui cinco partes. A ordem delas, de baixo para cima, é:
Néfesh, Rúach, Neshamá, Chaiá e Iechidá [ou em resumo NaRaNCHaI] [Para ter uma visão mais clara disso, por favor, consulte a Tabela No. 1. Nós podemos nos perguntar de onde é que os níveis da alma, conhecidos como "luzes", surgiram?
- As origens dos níveis da alma vêm do infinito, conhecido como Ein Sof. Depois que o Tsimtsum ocorreu, o Receptáculo criado, receptor da Luz do Criador, rejeitou a abundância infinita do Ein Sof e voluntariamente saiu do Infinito.
Esta ação causou a descida gradual tanto do Receptáculo como da Luz para a dimensão dos mundos.
A descida do Receptáculo causou o aparecimento dos mundos, enquanto que a da Luz, o aparecimento das "Luzes".
Para um estudo mais profundo sobre este assunto, consulte o Talmud Esser HaSefirot (Estudo das Dez Emanações Luminosas), do Rabino Iehudá Ashlag.]
E não há dúvidas de que estas partes não possuem esses nomes por acaso. Saiba que a pessoa de fato é o elemento espiritual que fica dentro de um corpo, e o corpo nada mais é do que uma vestimenta para a pessoa real, e não a pessoa em si.
É por isso que no Zôhar se diz que o homem conecta e une todos os quatro mundos: Emanação (Atsilut), Criação (Beriá), Formação (Ietsirá) e Ação (Assiá), porque nele existem partes de todos estes quatro mundos, sendo que cada uma dessas partes é designada por um dos cinco nomes mencionados anteriormente: NaRaNChaI, (’') como será explicado. Uma pessoa não adquire todos os níveis de sua alma (Neshamá) de uma só vez, mas de acordo com o mérito.
Então, primeiro a pessoa recebe o nível mais baixo deles, que é chamado de Néfesh.
Depois, se merecer mais, ela também adquire o Rúach. Tudo isso é conforme o que está explicado em algumas partes do Zôhar, como na Porção Semanal de Vaiechi e, parcialmente, na de Terumá; e especialmente no início da Porção Semanal de Mishpatim: "Quando a pessoa nasce, ela recebe uma Néfesh, etc."
E agora que explicamos isso, é preciso falar um pouco, de maneira introdutória, sobre o assunto trazido aqui.
O tema de Néfesh, Rúach e Neshamá (’' - NaRaN), bem como a divisão [da alma] segundo os nossos Sábios, já foi explicado em detalhes no Shaar Hapessukim (Portão dos versículos), quando se falou do versículo "E sua mãe fazia-lhe uma túnica pequena".
Isso também foi explicado no Shaar Hamitsvot (Portão dos Preceitos), na Porção Semanal de Vaiechi, quando se falou das leis do luto. E falaremos mais disso... [Para ter uma visão mais clara disso, por favor, consulte as Tabelas No. 1 e 2 abaixo.]
Saiba, que toda Néfesh é do mundo de Assiá; todo Rúach é do mundo de Ietsirá e toda Neshamá é do mundo de Beriá.
No entanto, a maioria das pessoas não tem as cinco partes da alma, chamadas de NaRaNChaI ( ’'), mas apenas a Néfesh, que é de Assiá. No entanto, mesmo nela existem diversos níveis, pois o próprio mundo de Assiá também se divide em cinco Partsufim [Literalmente. "faces". Partsuf significa um Receptáculo completo, constituído por dez Sefirot.] chamados: Arich Anpin (Face Longa), Aba (Pai), Ima (Mãe), Zachar (Pequena Face, Aspecto Masculino) e Nucvá (Aspecto Feminino). Antes de a pessoa ter mérito para poder adquirir seu Rúach, que é do mundo de Ietsirá, ela precisa estar completa em todos os cinco Partsufim da Néfesh, que é de Assiá.
E mesmo sabendo que existem pessoas cuja Néfesh é de Malchut de Assiá e outras cuja Néfesh é de Iessód de Assiá, etc., independente disso, cada pessoa tem o dever de corrigir todo o mundo de Assiá, e só depois disso a pessoa consegue receber o seu Rúach, que é de Ietsirá, já que o mundo de Ietsirá é maior do que todo o mundo de Assiá.
Isso segue e, portanto, de modo similar, para poder adquirir a Neshamá, que é do mundo de Beriá, a pessoa precisa corrigir todas as partes do seu Rúach, em todo o mundo de Ietsirá.
Depois, a pessoa pode receber a Neshamá, que é de Beriá. Não basta retificar apenas o local específico que é a Raiz de sua alma, mas a pessoa tem que corrigir as coisas da maneira mencionada, até ser digna de receber todo o mundo de Assiá, e aí, então, ela pode receber o Rúach de Ietsirá.
E desse modo ela segue por todos os mundos.
[O Ari explica o princípio da responsabilidade coletiva e mútua que surge na consciência de uma pessoa quando ela se entrega à correção espiritual. É de importância vital transcender a percepção individualista de nosso ser e envolver-se no que está acontecendo em todo o mundo de Assiá, ao qual a nossa Néfesh está conectada.
E não se deve pensar que basta corrigir a raiz da Néfesh do indivíduo, ignorando os outros níveis.
Esta expansão da consciência é uma preparação para merecer o nível seguinte, que é o Rúach.]
Isso quer dizer que a pessoa deve se ocupar com a Torá e o cumprimento dos preceitos, que correspondem a todo o mundo de Assiá — e não apenas com aqueles preceitos que correspondem ao local específico ao qual sua Néfesh está ligada.
Então, este é o aspecto [de estudar] a Torá e cumprir os preceitos. [O termo preceito [Hebraico: Mitsvá] significa um ato feito com a consciência e a intenção para corrigir um nível específico da alma da pessoa, elevando-a a um local superior.]
[O objetivo de uma pessoa entregar-se ao cumprimento da Torá e dos preceitos é para purificar e expandir sua consciência, à medida que ela se torna consciente da unicidade que une a todos os seres humanos.] Sendo assim, se a pessoa pecou e causou uma mácula em qualquer parte do mundo de Assiá, mesmo que não seja o local ao qual sua Néfesh está unida, ela precisa corrigir isso.
No entanto, se outra Néfesh deixar de cumprir um preceito, que é do mundo de Assiá, ou se ela cometer algum pecado e causar alguma mácula, a primeira Néfesh não tem obrigação de sanar esta falta do cumprimento do preceito, nem de reparar a mácula causada por esta segunda Néfesh, a não ser que ambas as Nefashot (plural de Néfesh) sejam do mesmo local, como será explicado adiante.
Pode ser que o conceito do Ticun [Literalmente: "correção"; refere-se à correção ou ao processo da retificação por qual a alma passa de uma encarnação a outra.] aplique-se aqui apenas em relação ao Ticun da mácula da transgressão, e não do cumprimento de todos os 248 preceitos positivos. Ou, possivelmente, o que é o mais correto, seria conforme o seguinte exemplo, alguém de Malchut de Nucvá de Assiá, o que se chama Néfesh de Assiá, é obrigado a corrigir todos os aspectos de Malchut: o de Néfesh, de Rúach, de Neshamá, de Chaiá e de Iechidá de Assiá. Portanto, quem corrigiu apenas Malchut de Assiá, só atinge a Néfesh da Néfesh de Assiá.
A pessoa que também corrigiu Zeir Anpin de Assiá atinge tanto a Néfesh quanto o Rúach de Assiá.
E se a pessoa corrigiu também a Ima de Assiá, então ela atinge a Néfesh, o Rúach e a Neshamá de Assiá.
Isso continua até que a pessoa corrija os cinco Partsufim de Assiá; e nesse caso ela atinge todo NaRanCHaI (’'). E cada aspecto dos cinco níveis mencionados está completo quando possui três partes, que são: Ibur, Ienicá e Mochin.
Só neste momento falamos de uma Néfesh completa de Assiá e a partir daí a pessoa já tem mérito para receber o Rúach de Ietsirá. [O processo de correção dos níveis da alma é comparado com o processo e os ciclos da vida:
(1) Gestação ou Concepção Espiritual (Ibur),
(2) amamentação (lenicá) e
(3) aquisição de consciência ou de amadurecimento espiritual (Mochin). Este é o processo de evolução que vemos no desenvolvimento de uma pessoa desde o estado do feto até se tomar adulta. Cada um dos níveis da alma tem que passar por essas três fases para que ela se tome completa em maturidade e, assim, fique pronta para receber outro nível.]
Esta parte chamada Rúach também possui os cinco níveis mencionados. Todos eles juntos são chamados de Rúach completo de Ietsirá.
O mesmo vale para a Neshamá de Beriá; para a Chaiá e para lechidá. Mas aqui não é o local para elaborar sobre isso.
Agora precisamos explicar uma diferença que existe entre a Néfesh de Assiá e as outras partes da alma (Neshamá), que são de Ietsirá, Beriá e Atsilut. Com isso também explicaremos a difícil questão: Como uma pessoa cuja raiz está em Malchut de Assiá consegue subir para Kéter de Assiá? Porque se é verdade que todo ser humano deve reencarnar até que todo o NaRaNCHaI (( ’') esteja completo, temos que concluir que todo mundo deve subir até Kéter de Assiá, depois Kéter de Ietsirá e, por fim, Kéter de Beriá.
E se fosse assim, todos os outros níveis não teriam sentido de existir! Isso é impossível, porque é um fato bem conhecido entre nós, que dentro dos Filhos de Israel [a principal referência do Ari é aos Filhos de Israel, mas os mesmos princípios podem ser aplicados a todas as nações] existem aqueles que vêm do nível de Malchut, outras do nível de Iessód, etc., como mencionado no começo do Sêfer HaTicunim: "Existem 'líderes de milhares de Israel' do lado de Kéter, 'Sábios' do lado de Chochmá (Sabedoria), e 'homens de entendimento' do lado de Biná (Entendimento)..." Portanto, é à luz disso que explicamos o seguinte: existe uma diferença entre Assiá e todos os outros três mundos.
Isso é conforme o seguinte: Saiba que apenas no mundo de Assiá é dessa forma: a pessoa que tem raiz de alma em Malchut de Assiá é um caso simples, porque sua Néfesh vem de Malchut de Assiá, obviamente. Mesmo assim, ao corrigir suas ações ela consegue purificar sua Néfesh, nível após nível, até atingir e chegar a Kéter de Assiá, onde ela praticamente se integra àquele nível de fato.
No entanto, a pessoa deve se refinar antes de poder ascender de fato para Kéter de Assiá, ainda que lá só se possa dizer que ela está no aspecto de Malchut de Kéter de Assiá, porque sua raiz é de Malchut. Isso vale para todos os outros níveis de Assiá: sempre se diz que a pessoa só estará de fato no aspecto de Malchut daquele nível. Como a Néfesh é aderida e fortemente ligada ao corpo, então ela é menos flexível e menos transiente do que o Rúach.
Como a Néfesh se relaciona com um certo nível (ou Sefirá) no Mundo de Ação, ela é obrigada, por si só, e não outra Néfesh, a subir de um nível (ou Sefirá) para o outro no Mundo da Ação e corrigir cada um deles. Este não é o caso uma vez que o Rúach é alcançado. O nível de Rúach é mais flexível e transitório, já que ele não está tão ligado ao corpo como a Néfesh.
Assim, uma pessoa pode adquirir diferentes Ruchot, cada um relativo a um grau diferente (ou Sefirá) no Mundo de Ietsirá (Formação). Mesmo assim, é a Néfesh e suas obras que determinam o destino e o nível de evolução de uma pessoa.
Assim, mesmo que uma pessoa suba para o nível de Rúach, a Néfesh continua ativa, e determina a culpa ou mérito dessa pessoa. No entanto, nos mundos de Ietsirá, Beriá e Atsilut, a situação não é essa. A pessoa que tem a raiz de seu Rúach em Malchut de Ietsirá e que corrigiu e completou este nível, indo para Iessód de Ietsirá, receberá também um Rúach do lessód de Ietsirá em si.
O primeiro Rúach que essa pessoa tem de Malchut de Ietsirá permanece abaixo, em Malchut de Ietsirá, já que esse é o seu local.
Do mesmo modo, quando a pessoa completa o Hod de Ietsirá, ela deixa o segundo Rúach que ela tinha de Iessód em Iessód de Ietsirá e, em seu lugar, recebe outro Rúach, de Hod de Ietsirá.
E isso continua até Kéter de Ietsirá.
E isso é assim porque a pessoa corrigiu sua Néfesh em todos os níveis de Assiá, então ela consegue receber o Rúach de todos os níveis de Ietsirá. O mesmo vai se dar com respeito à Neshamá, que é de Beriá. [O fato de que uma pessoa tenha corrigido todos os níveis da Néfesh no Mundo de Assiá (Ação), permite que ela continue a evoluir e alcance diferentes Ruchot no mundo de Ietsirá (Formação). E assim por diante, até as Neshamot no Mundo de Beriá (Criação)] É preciso que expliquemos o motivo do que foi dito, que é o seguinte: o fato de que Assiá é o mais baixo dos mundos, fica no meio das Klipot e é rodeado por elas.
Consequentemente, mesmo que a pessoa já tenha corrigido a sua Néfesh conforme o local da raiz dela em Assiá, se a Néfesh for deixada ali, existe o receio de que as Klipot a segurem.
É por isso que a pessoa deve constantemente refinar seus atos até que chegue o mais alto possível, até o local da sua raiz, em Kéter de Assiá. No entanto, no Mundo de Ietsirá, e ainda mais nos outros mundos, que são superiores a ele, não há nenhum receio de que as Klipot a segurem, como ocorria em Assiá.
[Klipot literalmente: "Cascas". As Forças Negativas.] Sendo assim, quando uma pessoa corrige a raiz do seu Rúach em Ietsirá, se ela continuar se corrigindo, o seu primeiro Rúach pode ficar no seu local, na sua raiz, e a pessoa consegue receber um segundo Rúach, de um local mais alto.
Isso ocorre sem ter que elevar o primeiro Rúach para um lugar superior, pois o receio [de que as Klipot a segurem] não existe. [Como resultado da Néfesh ser fortemente ligada ao corpo e aos desejos corporais, há sempre um risco de que, apesar de ter se corrigido, ela seja alvo de desejos negativos e fique presa nas Klipót] Esse é o segredo do versículo: "Elohim não favorecerá [literalmente: elevará] nenhuma Néfesh (...) cogitará pensamentos, para que não se desterre Dele." (2 Samuel 14:14).
Isso significa que todo pensamento que Ele cogita é apenas direcionado ao aspecto da Néfesh, por estar em Assiá.
Então, existe o receio de deixá-la para trás, pois ela ficaria vulnerável às Klipot que ali existem.
Sendo assim, o Ticun que Ele proporciona para a Néfesh, por causa deste receio é que Elohim não elevará nenhuma Néfesh. Quer dizer: O Santíssimo não 'eleva a pessoa' para dar a ela outra Néfesh mais elevada e mais exaltada do que aquela da sua raiz. Porque se fizesse assim, a primeira Néfesh teria que ficar no seu local inferior e estaria sujeita às Klipot dali.
Então, em vez de dar uma nova Néfesh mais elevada, é a própria primeira Néfesh que se eleva, de acordo com os seus atos, até Kéter de Assiá. A pessoa jamais recebe outra Néfesh.
["Para que não se desterre" é um versículo que se refere ao filho do rei Davi (hebraico:. David), Absalão (hebraico: Avshalom), que fugiu de seu pai depois de matar seu meio-irmão, Amnom (hebraico: Amnon), em vingança por violar sua irmã, Tamar.
Portanto, este versículo chama pelo rei David, pedindo-lhe para perdoar a Avshalom e permitir que ele volte para casa.
O raciocínio por trás deste episódio é que, de qualquer modo, o Santíssimo não vai permitir que a Néfesh suba e atinja o seu Rúach, a menos que expie seus pecados.
Mas se abandonada, será sobrepujada e pega pelas Klipot, se perdendo. Então o rei David está sendo solicitado a não negar a Avshalom esta oportunidade, e permitir-lhe que salve a sua Néfesh. Outra explicação é que a Néfesh do Rei David e a Néfesh de Avshalom vêm da mesma raiz da alma, e, portanto, uma parte da Néfesh do Rei David estaria perdida entre as Klipot e não subiria - "Elohim não favorecerá nenhuma Néfesh (...) cogitará pensamentos, para que não se desterre Dele."]
No entanto, não é esse o caso em Ietsirá e nos outros mundos, em que o Rúach, ou sua Neshamá, etc., permanecem abaixo, no nível da raiz e a pessoa ganha um Rúach adicional e mais elevado, condizente com a perfeição dos seus atos, como dissemos antes. Esse é o significado secreto do famoso adágio: "Qualquer pessoa pode ser como Moshé".
Para isso basta que a pessoa esteja disposta a aperfeiçoar seus atos, pois ao fazer isso ela pode adquirir outro Rúach mais elevado, do alto de Ietsirá. De modo similar, uma Neshamá, da parte mais alta de Beriá, etc. [Aqui o Ari explica como uma pessoa é capaz de mudar o seu destino predeterminado, já que o conceito da dívida cósmica que a deixa presa ao passado se aplica principalmente ao nível da Néfesh. Seguindo esse principio, quando a pessoa refina e purifica a sua Néfesh ela se toma capaz de se desconectar do passado para assumir um novo futuro. Mas com o novo futuro aparecem mais responsibilidades, conforme a ajuda que ela merece receber dos outros níveis mais elevados de alma. Assim, uma pessoa 'simples' pode receber um Rúach de um grande líder e incorporar as características e as habilidades dessa nova alma para vencer desafios e resolver problemas.
Isso é algo que a primeira pessoa jamais seria capaz de fazer.] Com isso em mente, também é possível entender outro famoso conceito dos nossos Sábios: o Rúach ou a Neshamá dos justos podem descer e serem gestados por uma pessoa, de acordo com o segredo do que se chama Ibur (gravidez espiritual, ou gestação).
E isso é feito para ajudar a pessoa no seu serviço ao Santíssimo. Isso está conforme o que está escrito no Midrash Neelám, na versão manuscrita, de que "Quando a pessoa vem se purificar, lhe ajudam". O Rabi Nathan disse: Isso quer dizer que as almas dos justos vêm e ajudam a pessoa.
O mesmo tema aparece na Introdução ao Zôhar, sobre a Porção Semanal de Bereshit, quando o Rav Hamnuna Saba aparece para o Rabi Elazar e o Rabi Aba na forma de um condutor de jumentos. Mas, que não haja dúvidas: o Rúach e a Neshamá dos justos estão "amarrados" e guardados na Árvore da Vida, cada um na sua raiz respectiva, juntamente com o Santíssimo, o Elohim deles, e eles não descem de lá de modo algum.
No entanto, os primeiros Ruchot (plural de Rúach) destes Sábios, que ficaram abaixo em todos os níveis e aspectos de Ietsirá e que, portanto, não subiram - como dissemos anteriormente, são os que descem e entram por Ibur na pessoa, para lhe ajudar.
O nível mais alto de Rúach que uma pessoa adquiriu por conta dos seus atos, que é o seu Rúach principal, fica ligado e amarrado para sempre na Árvore da Vida, sem se mover dali.
Isso também é válido para a Neshamá, a Chaiá e a Iechidá. [Como entendemos a partir do acima exposto, a Néfesh tem de se elevar de um nível para o outro em Assiá, para não ficar abaixo, devido ao perigo das Klipot e a possibilidade de pecar novamente.
Este não é o caso com os níveis de Rúach e os acima dele. Eles permanecem no nível relacionado com a sua raiz, uma vez que não há perigo das Klipot no mundo de Ietsirá para cima. Assim, o Rúach ou Neshamá original do Tsadic que está ligado à sua raiz, seja no mundo de Assiá ou Ietsirá, e que foram adquiridos através do mérito da sua Néfesh em Assiá, não descem para passar pelo Ibur. Aqueles que de fato descem são apenas os outros Ruchot ou Neshamot que não necessariamente pertencem a sua raiz, mas que foram utilizados para ajudar na elevação da alma.]
Existe um segundo motivo para Assiá ser diferente dos outros mundos. Como é sabido, todos os mundos possuem dez Sefirot. Mas Assiá, em sua totalidade, tem apenas uma Sefirá, que é Malchut. Sendo assim, a Néfesh que é dali só pode subir até Kéter de Assiá, pois tudo está em apenas uma Sefirá.
No entanto, Ietsirá corresponde a seis Sefirot: Chéssed (Misericórdia), Guevurá (Julgamento), Tiferet (Beleza), Nétsach (Vitória), Hod (Glória) e Iessód (Fundação), cada uma delas sendo um nível separado. Portanto, se a raiz de alguém é de Malchut de Ietsirá e esta raiz é corrigida, ela não pode subir e se tomar parte de Iessód de Ietsirá. Então esta Néfesh deve permanecer abaixo e a pessoa precisa adquirir um novo Rúach de Iessód de Ietsirá se quiser subir mais através das suas boas ações.
Isso é válido para o resto das Seis Extremidades de Ietsirá. Saiba que, como foi explicado por nós, em todos os mundos existem cinco Partsufim: Arich Anpin, Aba, Ima, Zachar (Zeir Anpin) e Nucvá. Correspondentes a eles, existem os cinco níveis da alma de uma pessoa, que são - de baixo para cima: Néfesh, Rúach, Neshamá, Chaiá e Iechidá. A Néfesh é de Nucvá de Zeir Anpin, enquanto o Rúach é do próprio Zeir Anpin.
A Neshamá é de Ima, e Chaiá é de Aba, que é chamado de Chochmá, pois esta é a fonte da vida, como o significado secreto do versículo: "O valor da Sabedoria (Chochmá) preserva a vida de quem a possui" lechidá é de Arich Anpin, chamado de Kéter, porque ele é um e único,' isolado do resto das Sefirot, pois ele não tem sua contraparte feminina, como se sabe do versículo: "Vede, agora, que Eu sou o único, Eu mesmo, e que não há outro Elohim Comigo.", e conforme elucidado no Zôhar, na Porção Semanal de Bereshit.
[O termo "Eu", que representa certo nível de consciência, não é fixo, ele tem vários níveis: Quando ele aparece nos textos bíblicos e outras Escrituras Sagradas, o nível de consciência do "Eu" muda de acordo com o que ele representa segundo o que corresponde aos níveis específicos da alma.
Há casos em que o "Eu" representa o nível da consciência da Néfesh da Sefirá de Malchut, e em outros, o da consciência do Rúach de Ietsirá, etc. Uma característica muito particular que distingue entre os níveis divinos e mundanos da existência é o aspecto da dualidade e dos opostos, principalmente o do masculino e do feminino.
Quanto mais mundano, maior é a dualidade, e vice versa. O nível da consciência humana, mais próximo do divino, aparece no nível de Arich Anpin, onde não há dualidade - não há Masculino ou Feminino, apenas um ser único onde os opostos estão unidos.
Neste caso, o "Eu" alude ao nível de consciência da luz de lechidá — Unidade.]
Saiba, que se uma pessoa merece receber sua Néfesh, seu Rúach e sua Neshamá e depois as macula através de um pecado, ela precisará voltar e reencarnar para retificar o estrago feito.
Quando ela volta em uma encarnação, a Néfesh entra na pessoa, e mesmo que ela já tenha corrigido sua Néfesh, o seu Rúach não vem e não se une a ela, porque o Rúach ainda não foi corrigido e continua maculado. Como ele poderia ficar sobre uma Néfesh que está sendo corrigida? Portanto, este Rúach vai ser reencarnado em outra pessoa, se unindo à Néfesh de um convertido.
O mesmo se dará com a Neshamá.
E a Néfesh que ficou corrigida totalmente receberá um Rúach corrigido, de um justo que se assimilava à pessoa em algumas boas ações específicas que fazia.
Na verdade, esse Rúach recebido substituirá o próprio Rúach da pessoa. O assunto do prosélito ou do convertido (em hebraico guêr) é realmente um muito profundo.
Nada acontece sem motivo e orientação divina. Portanto, a Néfesh do convertido tem que ter alguma ligação com o Rúach da outra pessoa que se junta a ela, caso contrário, não haveria nenhuma afinidade entre eles em relação ao seu Ticun para atraí-los a ponto de estarem juntos.
[A conversão, do aspecto da reencarnação, está relacionada com a essência de uma pessoa e não pode ser feito de modo superficial, por motivos ou interesses externos.
É sabido que uma pessoa que se converte para a Nação Hebreia já teve uma Néfesh hebraica, mas essa Néfesh estava "perdida" e agora está voltando a suas origens.
A razão para a Néfesh estar perdida tem a ver com um comportamento pecaminoso da pessoa em vidas passadas, que podem ter feito com que uma pequena parte de sua consciência de alma, ou seja, a Néfesh seja separada da maior parte da Néfesh e vague entre outras nações. Ao todo, há 70 Nações.
A conversão de uma nação para a outra não se aplica aqui. Cada nação tem o seu próprio Ticun coletivo.
Os indivíduos de cada uma das nações têm sua própria consciência de alma específica que pertence ao específico Ticun coletivo da nação à qual aquele indivíduo pertence.
Portanto, a conversão neste caso realmente não serve para nada e não tem significado espiritual.
O termo hebraico gói não se refere às 70 nações.
Assim, no caso da conversão hebraica, o Gói é uma pessoa cuja Néfesh não está ligada a qualquer uma dessas nações.
É por isso que um prosélito em "potencial", ou seja, um Gói se sentirá deslocado e como se não pertencesse à nação na qual nasceu. No caso. de conversão de volta para a nação hebraica, o Gói se toma um Guêr (um prosélito hebraico ou convertido).
Neste caso há uma "vantagem" para a Néfesh do Guêr, que merece o nível do Rúach graças à sua conversão.
O processo de conversão adequada acelera a entrada do Rúach ou da Neshamá no mundo, já que a Néfesh do guer está isenta de ter que ir se aperfeiçoando, passando pelo longo processo de realização de Mitsvot. De qualquer modo, a pessoa convertida que ganhou o Rúach tem que cumprir os preceitos, sendo esta uma obrigação do Rúach para se aperfeiçoar.
Outra vantagem é que como o Rúach imperfeito não pode se unir à Néfesh aperfeiçoada, a pessoa tem que morrer imediatamente e reencarnar outra vez a fim de permitir que o Rúach encarne; no caso da conversão, essa pessoa não precisa morrer e pode continuar a viver, já que seu Rúach encarnou.
E isso pode explicar por que a Torá adverte (Êxodo 23:9): "E não oprimirás ao peregrino (ou estrangeiro — guêr, referindo-se ao convertido ou prosélito), pois vós conhecestes a alma do peregrino (guêr), porque fostes peregrinos (guerim) na terra do Egito".
É obvio, que o guêr serve como uma salvação para o Rúach.]
De modo similar, se a pessoa corrigir o seu Rúach completamente, ela vai receber a Neshamá de um justo, como dito acima, e essa Neshamá vai atuar como sua própria Neshamá.
Esse é o segredo do que os nossos Sábios, de abençoada memória, disseram: "Os justos são maiores na sua morte do que na sua vida". (Veja Introdução 2 — aspecto do Ibur). Assim, depois que essa pessoa parte do mundo, sua Néfesh se vai juntamente com esse Rúach do justo e através dele a Néfesh receberá a parte que lhe é de direito.
Quando o seu próprio Rúach, que se uniu com a Néfesh de outra pessoa, no corpo de um convertido, ficar totalmente corrigido, a Néfesh da pessoa dirá: "Eu me vou e retomarei ao meu primeiro marido" [referindo-se ao primeiro corpo], pois ele ficou corrigido.
[Podemos questionar a justiça e equidade deste conceito, mas a Torá, na Porção de Mishpatim — Êxodo 21:3 — declara: "Se entrar sozinho, sozinho sairá; se ele tinha mulher, sua mulher sairá com ele".
A Torá está descrevendo as leis da escravidão e o Zôhar nos ensina que todas essas leis, na verdade, se aplicam à reencarnação. Neste caso, o escravo hebreu é o Rúach.
Portanto, se o Rúach veio a este mundo porconta própria ou em cima de um Néfesh de outra raiz de alma, então ele deve deixar este mundo sozinho. Mas se ele teve uma mulher, referindo-se à Néfesh do prosélito, então ele deve partir e deixar este mundo com ela.
Deste modo, a Néfesh do prosélito é libertada e se une ao seu marido, o Rúach, e continua a sua evolução espiritual.
Assim, quando o Rúach é aperfeiçoado e está pronto para ser libertado, e a Néfesh daquela outra pessoa deseja se unir a ele, o Rúach não parte sem a sua Néfesh do prosélito, e eles se tomam como vizinhos no Mundo Vindouro.]
Isso funciona do mesmo modo para a Neshamá com respeito ao Rúach depois que a pessoa morre, quando eles voltam juntos em uma encarnação para se corrigirem juntos.
Continua