Portal das Reencarnações
Portal das Reencarnações – Parte 21
Introdução 21
[Nesta introdução o Ari explica o significado espiritual da Teshuvá, arrependimento e expiação dos nossos pecados. No entanto, a palavra Teshuvá tem um significado muito especial e pode ser traduzida apenas em hebraico no que diz respeito aos mundos superiores, como será explicado.
A consciência da alma representa a Vontade Divina, que pode ser descrita como o desejo de compartilhar, de ser compassivo e compartilhar a abundância gentilmente com nossos companheiros; enquanto que a consciência do corpo representa o desejo egoísta, conhecido como o desejo de receber para si mesmo.
Isso leva a ações de crueldade para com o nosso próximo, já que ignoramos o seu bem estar, e nos beneficiamos a nós mesmos à custa do outro. A letra Hê - aparece duas vezes no Tetragrama; a primeira letra, ou a letra superior, representa o Desejo Superior - Biná, ou a "Mãe Suprema", enquanto a inferior representa o desejo mundano - Malchut ou o aspecto feminino, conhecido como a "Filha".
E podemos deduzir que o Hê inferior, estando perto dos desejos mundanos do homem, seria danificado e maculado por causa dos desejos egoístas do homem.
Teshuvá, que literalmente significa "voltar", é o processo de elevação do desejo mundano, representado por esta letra Hê, e de fazê-lo "voltar" à sua forma original, como uma Vontade Divina, representada no Tetragrama pela letra Hê superior.
Em outras palavras, é uma transformação do desejo de receber em um desejo de receber para poder compartilhar: que é realmente o desejo original da alma.]
Essa seção trata da relação entre o arrependimento (Teshuvá) e a reencarnação.
Saiba que o arrependimento fica em Ima (Mãe Suprema) e a reencarnação em Aba (Pai Supremo).
Sendo assim, todo aquele que peca, se posteriormente se arrepende, faz com que a Ima superior, chamada de Arrependimento, tenha poder de corrigir a mácula do homem, e isso é o suficiente [para a correção]. Mas se a pessoa não se arrepende, ela precisa reencarnar para corrigir a sua transgressão, e isso se dá por Aba, que é chamado de "Pensamento", e sobre isso se diz "O Santíssimo cogitará pensamentos, para que não se desterre Dele."
Isso significa que é Ele que faz a pessoa voltar por meio de uma encarnação para se corrigir.
Então agora explicaremos o arrependimento, embora já tenhamos começado a explicar esse assunto de maneira parcial na Introdução Seis. Aqui explicaremos isso de outra maneira, mais profunda, e assim ficará claro o que disse o Rabi Matiah ben Charash, de abençoada memória, no último capítulo de Iomá quando falou das quatro partes da expiação: "Se uma pessoa transgride um preceito positivo etc.". O significado geral do assunto é que o arrependimento significa "devolver", ou "fazer voltar" o Hê (Tashuv Hê).
[Teshuvá — devolver ou voltar; quando o homem se arrepende, ele 'devolve' a Letra Hê Inferior para cima, para o lugar da Hê Superior. Assim ela 'volta' ao lugar original e apropriado para ela.] E esse assunto é ligado àquilo que já te informei, de que o homem possui em si todos os mundos.
E mesmo que ainda não tenha recebido todos eles em si, estando apenas com a Néfesh de Assiá, ainda assim, ele tem o potencial de receber todos os mundos conforme vai se corrigindo por meio de seus atos. E tudo isso depende exclusivamente do homem, sendo que de acordo com seus atos ele vai adquirindo [partes de sua alma] do mundo de Ietsirá, ou de Beriá ou de Atsilut.
E esse é o segredo do versículo "E forjou no homem o seu espírito," que os Sábios, de abençoada memória, explicaram como se referindo ao fato de que a alma do homem passa por um processo de diferenciação enquanto está dentro dele.
Embora a Néfesh tenha suas próprias características de como ela foi criada pelas permutações, elementos e ventos, como explicado anteriormente, uma vez que ela entra em um corpo, no entanto, ela continua a crescer e se formar dentro do corpo, de acordo com as ações da pessoa. E ainda pode haver grandes diferenças no modo com que cada pessoa atinge cada um dos mundos, pois existe outra regra geral que diz que a Néfesh do homem possui 248 órgãos e 365 tendões. O mesmo se aplica para o Rúach e para a Neshamá. Quando uma pessoa peca, ela macula um órgão específico dos órgãos da Néfesh, do Rúach ou da Neshamá.
Dependendo do que a pessoa tiver atingido, isso determina o tamanho do seu pecado.
Se ela tiver, por exemplo, uma Néfesh a mácula vai para a Néfesh; se ela tiver Rúach, a mácula é de Rúach e se ela tiver Neshamá, ela macula Neshamá.
[Há uma correlação direta entre as Mitsvot e as partes da consciência de alma. Assim, transgredir um preceito não é apenas um pecado, mas um dano real para a alma de uma pessoa, dependendo do nível em que ela está.]
Portanto, dependendo do "tamanho" da Néfesh do homem, maior é a intensidade da força da sua má inclinação, e é por isso que os Sábios disseram: "Quem é maior que o seu companheiro também tem a má inclinação maior do que a dele”' Isso é assim por causa do que você já sabia, de que Deus criou um oposto ao outro, e assim como existem os quatro mundos de ABIA ["] e os sete palácios em cada mundo, todos do aspecto da Santidade, existe o mesmo do aspecto das Klipot.
Esse é o segredo de "O perverso espreita o justo," pois ele quer se assemelhar à Santidade, igual o macaco em relação ao homem. E com isso você entenderá a grave influência e a severidade que teve o pecado de Adão, que provocou uma impureza e uma mácula em todos os mundos, até o fim de todas as gerações.
O motivo para isso é o que vimos, de que quanto maior o tamanho da alma da pessoa, maior é a mácula que ela causa.
E isso também se pode ver com os justos e os completamente piedosos, como o Rabi lochanan ben Zacai, para quem um pecado leve equivale a muitos pecados severos de outras pessoas.
Sendo assim, aquele que tem uma Néfesh de Assiá só consegue fazer máculas no próprio mundo de Assiá, pois o seu alcance é só aquele e nada mais além.
E, do mesmo modo, quando essa pessoa se arrepende, a sua correção se dá em Assiá, que é o local que foi maculado.
Já foi dito que as quatro letras do Tetragrama são uma alusão aos quatro mundos de ABIA (veja Tabela 10), e em cada uma dessas letras existe, por sua vez, um Tetragrama.
O Iud e o Tetragrama expandido de modo a somar 72 representam Atsilut. A letra Hê e o Tetragrama expandido de modo a somar 63 representam Beriá.
A letra Vav e o Tetragrama expandido de modo a somar 45 representam Ietsirá e a letra Hê e o Tetragrama expandido de modo a somar 52 representam Assiá.
Por isso, o pecador macula, de certa forma, todos os quatro mundos mencionados, e também o Grande Nome Sagrado. Esse é o segredo do versículo "Ao sair, verão os cadáveres dos homens que transgrediram contra Mim"
Literalmente, isto significa: "transgrediram o Meu Nome". Cada um faz isso de acordo com o nível de sua alma, como explicamos. E, sendo assim, quando a pessoa se arrepende, ela faz uma correção no Seu próprio Grande Nome, nas quatro letras que o compõe. E esse é o segredo das quatro partes da Expiação, e do arrependimento para os quatro tipos de pecado.
O que temos é que os quatro tipos de pecados maculam as quatro letras do Tetragrama, e os quatro tipos de arrependimento e de expiação voltam a corrigir as quatro letras desse mesmo Tetragrama. [Como mencionado anteriormente, as transgressões perturbam a ordem divina das permutações do Tetragrama que criou a alma e que determina seu comportamento divino.
A Teshuvá é a tentativa da pessoa se arrepender, corrigir e restaurar a ordem original das permutações.
Por exemplo, uma pessoa pode pecar e como resultado perturbar e perder o recurso divino de ser paciente e tolerante.
Então ela se torna uma pessoa irritada e intolerante. Com a Teshuvá ela pode restaurar sua capacidade de ser paciente novamente.]
Agora que já apresentamos a você essas introduções, explicaremos porque foi dito, e esse será nosso assunto, que se o homem transgredir um preceito positivo ele não se eleva sem antes ser perdoado. Mas antes de explicar esse assunto, vamos repetir outra introdução, que é o seguinte:
Saiba que a palavra "arrependimento," como disseram nossos Sábios, também pode ser lida como "volta do Hê." Já vimos que existem quatro tipos de arrependimento. Às vezes Assiá, que é a letra Hê inferior, [do Tetragrama, e que é o primeiro nível de baixo para cima], desce para as três primeiras [ou superiores] Sefirot das dez que existem na Klipá. Isso é o que se chama de Exílio da Shechiná.
[O termo Galut, exílio, espiritualmente pode ser ligado a uma situação em que qualquer Sefirá não está na sua posição original. Ela está perdida e vagando em lugares estranhos, até encontrar seu caminho de volta.
Semelhante ao mundo fisico, uma pessoa alienada de uma Sefirá torna-se vulnerável a abusos, e pode cair nas mãos das forças do mal e do jogo sujo.]
E se o pecado for mais grave, o homem faz com que, por meio do seu pecado, Assiá desça até as três Sefirot intermediárias das Klipot. E se for ainda mais grave, a descida ocorre até as três inferiores das Klipot. E, por fim, se for ainda mais grave, a descida vai até a Malchut da Perversidade; a décima Sefirá das Klipot.
[Esses são os quatro níveis de Exílio da Shechiná, conhecidos como os exílios de Bavel (Babilônia), Madai (Pérsia), Iavan (Grécia) e Edom (Roma), que é o mundo de Assiá descendo no meio das Klipot.] Porém, aquele que macula Ietsirá, Beriá ou Atsilut não faz com que nada desça para o mundo das Klipot, pois as Klipot ficam abaixo do mundo de Assiá.
Mesmo assim, ainda existem quatro níveis, conforme mencionado, mas eles são diferentes.
O que acontece é que Ietsirá desce para Assiá, se igualando às três primeiras Sefirot dali.
E às vezes isso acontece até as três intermediárias ou até as três inferiores ou ainda com a Malchut de Assiá.
E é assim que ficamos com quatro níveis de descida de Ietsirá em Assiá. E isso também é chamado de Exílio, porém agora do mundo de Ietsirá, que desce da Santidade estrita para uma santidade débil presente em Assiá. E assim esses quatro níveis se aplicam na descida de Beriá em Ietsirá, o que se chama de Exílio de Beriá. E o mesmo vale para a descida de Atsilut em Beriá, chamado de Exílio de Atsilut, contendo os quatro níveis mencionados.
Tudo isso, no geral, é chamado de Exílio da Shechiná. Consequentemente, vemos que existem quatro categorias de pecado e cada uma delas contém quatro subtipos.
Isso quer dizer que existem quatro mundos e paralelos a eles existem quatro tipos de arrependimento.
Por sua vez, em cada um dos mundos existem quatro tipos de arrependimentos específicos para cada nível caído. É isso que já comecei a explicar em relação à primeira categoria [de arrependimento]
(veja anteriormente no parágrafo que diz "Agora que já apresentamos"), e dela ficarão claras as outras quatro.
A primeira é: se uma pessoa transgrediu algum preceito positivo e se arrependeu.
Neste caso, a mácula criada fica em Assiá.
Quando essa pessoa se arrepender, tudo se corrige rapidamente, pois por causa da transgressão deste preceito positivo, ela fez com que a Malchut de Assiá descesse, separando o Hê de Tiféret, e ele desce ao nível das três primeiras Sefirot das Klipot.
Ou seja, o arrependimento, a volta do Hê, nesses casos é fácil. A ascensão da letra dali e a promoção de sua correção não é complexa. Isso por causa do que foi ensinado, de que as três primeiras Sefirot da Klipá conseguem por si só passar a ser da Santidade com facilidade. Este é o segredo do que os nossos Sábios, de abençoada memória, disseram "Ou o Rio Jordão, toma de um e dá a outro." Então, neste caso, o arrependimento consistente faz com que a Malchut de Assiá, que é o Hê, suba de Assiá para cima do seu local, e que volte a se unir com Tiféret.
Isso é o que é chamado de Teshuvá — -, arrependimento, ou a "Volta do Hê".
E esse é o primeiro nível, que se dá no próprio mundo de Assiá.
O segundo tipo de pecado também é no nível de Assiá propriamente dito e ocorre quando se separa a Tiféret de Biná, promovendo uma descida de Assiá até as três Sefirot intermediárias da Klipá. De maneira muito similar ao que aconteceu anteriormente, este caso ocorre quando a pessoa transgrediu um mandamento positivo. E aqui, ao se arrepender, também acontece a volta do Hê, pois o Hê inferior, Malchut, volta ao Hê superior, que é Biná. E junto com ela sobe Tiféret.
O terceiro nível de pecado ainda é em Assiá e se dá quando a pessoa viola um mandamento positivo de modo a macular inclusive Biná e causar sua descida.
Por conseguinte, Assiá desce até as três últimas Sefirot das Klipot, e quando ocorre o arrependimento também ocorre uma volta do Hê, pois o Arrependimento, que é Biná, desce até Malchut e depois disso Malchut e Tiféret voltam juntas, pois por causa da descida de Biná houve uma parceria entre elas.
Isso é o Arrependimento.
O quarto nível é quando a pessoa transgride um preceito positivo causando uma mácula também em Chochmá, fazendo com que ela se separe de Kéter.
Quando acontece o arrependimento, também o consideramos como a volta do Hê, pois a volta do Hê superior, Biná, para Kéter ocorre, e, forçosamente, Chochmá também acaba subindo com ela. E com isso ficou explicado o primeiro tipo de expiação dos pecados. O segundo tipo de expiação ocorre quando a pessoa transgride os preceitos negativos e depois se arrepende.
Nesse caso o arrependimento fica pendente e só o Iud Hê expia totalmente, pois por causa do pecado houve uma mácula em Ietsirá, na Sefirá de Tiféret, sendo que Malchut se separa dali, e ocorre uma cisão também das Seis Extremidades.
[O dano de abster-se de fazer um preceito positivo é menos grave do que transgredir um preceito negativo.
A razão é que o preceito positivo ajuda a alma a crescer e se elevar, enquanto o preceito negativo mantem a ordem divina. Os preceitos positivos se relacionam com as letras Vav e Hê ("), o acasalamento inferior que depende das ações dos seres humanos, enquanto os preceitos negativos se relacionam com as letras (") - o acasalamento superior.]
Quando se dá o arrependimento, a Malchut volta ao seu local pelo segredo do Arrependimento, pela volta do Hê.
Mas no que diz respeito às Seis Extremidades, fica um espaço vazio entre elas e Machut, e apesar de Malchut ficar querendo subir para o local superior ao seu, para se unir a elas, isso ainda não é possível. Consequentemente, ela fica "pendente" até a vinda das luzes de Beriá, chamadas de lom Kipur, e é só assim que elas conseguem subir até ali. Por isso dissemos que aqui o arrependimento fica pendente e só o lom Kipur o expia totalmente.
E também aqui existem quatro níveis de pecado e reparação, iguais aos mencionados em Assiá, mas aqui todos eles ocorrem pelo segredo da descida de Ietsirá para Assiá, e não nas Klipot como era o caso anterior. [Curiosamente, o primeiro serviço do lom Kipur é "Hatarat Nedarim", representado pelo Col Nidrê.
Esta oração foi criada a fim de cancelar votos e promessas não cumpridas, que nós podemos ter aceitado sobre nós mesmos. Estes votos não cumpridos criam um vazio (Chalal) no qual a Luz do Criador não pode entrar, a menos que eles sejam anulados. Esse 'espaço vazio' é o que aparece entre Malchut e as Seis Extremidades, como o Ari explicou.]
O terceiro tipo de expiação ocorre quando a pessoa transgride algo que exige Carêt [a Néfesh é cortada do Rúach, uma espécie de excomunhão], pois a mácula se dá em Beriá.
Quando ocorre o Arrependimento, ele fica pendente e só o Iom Kipur promove a expiação, da maneira que mencionamos. Isso porque Tiferet e Makhut não conseguem subir acima do seu local até que venha ajuda de Aba e Ima.
São eles que ajudam a limpar esse pecado pelo segredo do versículo "Ele ( ") severamente me puniu."
No versículo, "Ele" é escrito com as letras que se referem a Aba e Ima. [O nome sagrado usado neste trecho é — " - IAH, composto pelas letras lud e Hê, que são, respectivamente, as letras de Chochmá e Bina, também chamadas de Aba e Ima.]
E o mesmo ocorre no segredo do versículo "Invoquei o Eterno (") no momento de angústia. E também aqui há quatro níveis, como foi dito. O quarto tipo de pecado se dá quando a pessoa transgrediu a proibição de profanar o Nome do Santíssimo, bendito seja, pois aí a mácula está em Atsilut, chamado de Mundo da Vida, onde não existe de modo algum a morte.
Portanto, ao profanar o Seu nome, a pessoa provocou a morte no Mundo da Vida Eterna.
Consequentemente, tanto o Arrependimento quanto o Iom Kipur ficam pendentes e são insuficientes para corrigir a mácula causada. Neste caso, nenhum dos três mundos consegue subir acima do seu nível do modo mencionado anteriormente.
Isso só pode acontecer quando a pessoa morrer, pois se aplica a lei do "olho por olho".
Só ela [a morte] limpa e promove a expiação total do que foi maculado. E também aqui existem quatro níveis, como dito. E agora vamos explicar também a diferença que existe entre pecado, ofensa e transgressão.
A transgressão (hebraico: Pêsha — ’”) se define quando a pessoa conhece o seu Mestre [referindo-se também ao seu Criador] e ainda assim tem intenção de se revoltar contra Ele e enfurecê-Lo. Ao agir assim, a pessoa entrega toda a abundância [Luz Espiritual, Shefa, ’”] para as Klipot, por causa da transgressão (Pêsha — ’”). E as Klipot não passam nada dessa abundância aos seres inferiores [de baixo], ao povo de Israel.
A ofensa ocorre quando a pessoa age conforme sua vontade, sem querer enfurecer o seu Mestre, como aquele que come carne não casher para se satisfazer.
O que isso provoca é que as Klipot também pegam a abundância que desce. Mas, depois de pegarem esta abundância, elas voltam e pegam uma parte dela que tinham pegado, e nos dão um pouco dela; sendo que esse é o segredo do Exílio, como é sabido.
[Este fenômeno explica o segredo e a raiz de todas as dependências em que o ser humano fica dependente na matéria como a fonte de sua satisfação e não seu Criador]
E com isso você pode entender o que nossos sábios, de boa memória, disseram em dois ensaios que aparecem no Tratado de lomá, no último capítulo/parte 18
Um deles disse: "Grande é o arrependimento, pois ele faz com que as malícias se transformem para a pessoa em erros". Aqui está se falando da malícia, que é chamada 'transgressão proposital', que no início fazia com que as Klipot pegassem para si toda a abundância. Mas agora, por meio do arrependimento, faz com que apesar das Klipot também peguem toda a abundância, mesmo assim, voltam e fazem com que a abundância desça até nós novamente, por elas mesmas, depois que a tinham pegado para si mesmas.
E o outro disse que [através do arrependimento] "as malícias se transformam para a pessoa em méritos".
Aqui se trata das ofensas cometidas somente para sua [própria] satisfação. E quando a pessoa se arrepende, faz com que as Klipot não peguem nada da abundância descendente para si, e impeça delas pegar até aquela abundância que elas iam pegar para si [se tivesse continuado fazer as ofensas].
Continua
Portal das Reencarnações – Parte 22
Introdução 22
[Nesta introdução o Ari explica o conceito de punição e de Guehinóm (Inferno ou Purgatório).
Ele introduz uma nova compreensão sobre o Guehinóm e o Paraíso. É diferente do que a maioria de nós pode pensar sobre Deus, de que Ele envia os ímpios ao Guehinóm e os justos ao Paraíso, porque há um castigo pior do que ir ao Guehinóm.
O Ari vai dar alguns exemplos da alma reencarnada em outras formas e elementos da natureza e não sempre em seres humanos. Sabemos que a lei básica da Justiça Divina é baseada no princípio de "causa e efeito".
Nada acontece sem motivo.
Temos a tendência de esquecer e culpar os outros por aquilo que nos acontece.
É difícil admitir que o único responsável por tudo que acontece somos nós mesmos, e que fomos nós que criamos o nosso destino em vidas passadas, e estamos suportando ou sofrendo as consequências no presente. Isto se deve principalmente ao fato de que nos esquecemos do que aconteceu em vidas passadas.
Infelizmente, não saber das coisas não nos isenta das consequências. Portanto, os ímpios não só sofrem o castigo de suas ações pecaminosas em vidas passadas, como sofrem da punição principal, que é o 'não saber'. E este é um resultado da falta de vontade de assumir a responsabilidade e adquirir a chance de mudar o destino por meio da Teshuvá. Isso pode levar a alma a ter de reencarnar sem qualquer livre-arbítrio até que cumpra a sua sentença.]
Esta Introdução fala da questão do castigo das almas dos perversos, de suas encarnações e em que elas reencarnam.
E agora escreverei um pouco sobre a questão do pecado das almas dos perversos nesse mundo, que reencarnam e vêm muitas vezes a esse mundo para expiar seus pecados.
Saiba que quase não há pessoa nesse mundo que possa eximir-se dessas encarnações.
E saiba que os perversos depois de sua morte entram no Guehinóm e lá recebem seus castigos para poder expiar o que fizeram. E o seu julgamento dura 12 meses.
[Por esse motivo a Halachá do luto sobre o falecido diz que devemos parar de nos enlutar depois de 11 meses, para não agir como se considerássemos o falecido como alguém totalmente iníquo.]
Há perversos sobre os quais se diz "a vida [literalmente: a Néfesh] de teus inimigos ele arremessará como do côncavo de uma funda." Estes não podem entrar no Guehinóm para apagar suas máculas depois de terem morrido.
O que acontece com a Néfesh deles é que ela continua vindo, geração após geração, em encarnações distintas, até que se apaguem um pouco dos seus pecados para que ela possa, depois disso, entrar no Guehinóm e ficar lá por 12 meses para promover a expiação completa.
Embora devamos lembrar, como já aprendemos, que estas almas recebem a oportunidade de reencarnar somente se for garantido que elas não pecarão mais e piorarão a sua situação.
Portanto, em casos onde não há essa garantia, essas almas não podem reencarnar em corpos humanos, mas precisam reencarnar em outras formas de vida que não têm livre-arbítrio e que não são capazes de pecar. E para isso não há um tempo determinado, pois às vezes eles ficam nesse processo de reencarnação por vinte anos, ou talvez cem, ou mil. Tudo depende da natureza dos pecados que cometeram quando estavam nesse mundo.
Mas no caso dos justos e os estudiosos de Torá, a Luz do Guehinóm não tem influência sobre eles, como foi ensinado sobre Elishá Acher, de que ele não poderia ser julgado, pois tinha estudado a Torá. Por isso eles precisam reencarnar nesse mundo para apagar qualquer pecado que porventura possam ter, "Pois não há sobre a terra alguém tão correto que só faça o bem e não peque jamais." [A diferença entre um mau e um justo ao fazer algo de errado é que os maus acreditam que estão fazendo a coisa certa e não são capazes de reconhecer suas más ações, enquanto o justo consegue, e se arrepende imediatamente do que ocorreu.]
E eis que o justo, depois de sua partida desse mundo, está pronto para subir a graus elevados do Mundo Vindouro, mas não tudo de uma vez. Imediatamente após a sua morte ele é punido para apagar os pecados mais pesados que possa ter.
E neste momento ele entra numa primeira divisão de um primeiro grau. Ao chegar o momento de entrar numa divisão superior, ele volta a este mundo e é punido para que possam ser apagados os pecados mais leves do que os primeiros.
E assim ele vai e sobe a um segundo grau, mais elevado. Depois ele retorna e é novamente punido mais um pouco, para expiar os mínimos detalhes dos preceitos não cumpridos, aqueles do tamanho de um fio de cabelo, pelo segredo do "em Seu redor esbraveja [em hebraico "esbraveja" se diz ―nissará‖, que vem da mesma raiz de ―seara‖, que significa "cabelo".] a tempestade." E nesse momento o elevam para seu local real e que lhe é adequado. E abaixo explicaremos como se dá a punição dessas pessoas. Os justos completos, como o Rei David, que a paz esteja com ele, e [o profeta] Daniel, tiveram o mérito de serem avisados pelo Santíssimo, bendito seja, de que iriam descansar no Mundo Vindouro e não precisariam se sujeitar a essas leis da reencarnação e punições. E é por isso que o Rei David, que a paz esteja com ele, disse "Eles me fariam desesperar, não fora minha fé perseverante de que alcançaria neste mundo a bondade do Eterno."
E também está escrito "Um anseio manifestei ao Eterno e sua realização buscarei — que eu habite em Sua Morada por todos os dias de minha vida." E isso que David pediu também foi verbalizado por Abigail, a profetisa, quando ela disse "a Néfesh de meu senhor será atada no feixe dos que vivem com Adonai, teu Elohim"
Também Daniel recebeu esse tipo de informação, "Quanto a ti, segue teu caminho; chegará a época de teu repouso e depois despertarás para receber tua porção."
Vemos isso expresso literalmente no Midrash Haneelam do Zôhar, escrito a mão, a respeito do versículo "por causa do bem que Adonai fez a David e a Seu povo Israel," em que se diz que David ficou no mundo vindouro por sete anos depois de sua morte antes de poder entrar na Jerusalém Celestial.
Também vemos um fato similar com o profeta Shmuel, equiparado a Moshé e Aharon, quando Saul (hebraico: Shaul) o invoca por necromancia e ele diz: "Por que me importunaste, fazendo-me subir?" Os Sábios explicaram que Shmuel disse isso porque ele temeu que talvez fosse o grande dia do Juízo Final.
Ou seja, isso leva a crer que mesmo que a pessoa já tenha passado pelo julgamento no momento de sua morte, ainda há outras punições e castigos para ela sofrer.
Até mesmo o Raban Iochanan ben Zacai, que não esquecia um versículo ou uma mishná, e que conhecia todas as áreas de estudo da Torá, começou a chorar no momento de sua morte, como nos é dito no tratado de Berachot. E os seus alunos lhe perguntaram: "E o que dizer dos outros justos que nem se assemelham a você? E, mais ainda, do resto das pessoas vivendo neste mundo?"
Mas não devemos nos estender sobre este assunto neste local, em que devemos ser breves.
E aconteceu muitas vezes de eu estar com o meu mestre, de abençoada memória, andando pelo campo e ele me dizer: "Existia um homem chamado assim e assim e ele era justo e era um aluno aplicado, e por causa de um pecado específico que fez na sua vida agora está reencarnado nessa pedra, ou nessa planta, etc.", como explicaremos adiante. E tudo isso o meu mestre, de abençoada memória, falava sem ter conhecido a pessoa e sem tê-la interrogado depois da morte. Depois, nós íamos investigar os fatos que ele tinha mencionado sobre o falecido e víamos que se tratava de fatos reais e verdadeiros. Mas não devemos nos estender sobre isso aqui, pois não há livro capaz de conter estas maravilhas.
Às vezes acontecia de ele olhar ao longe, [na direção de um cemitério], a uma distância de cerca de 700 cúbitos [300 metros], e ele se fixava sobre um túmulo dentre milhares de outros que havia. E ele via ali de pé a Néfesh do morto que estava enterrado ali. E ele nos contava que tal e tal pessoa estava enterrada naquele local, e que seu nome era tal e tal e que ela tinha feito tal e tal coisa e recebido tal e tal castigo.
Depois íamos investigar sobre aquela pessoa, e víamos que era tudo verdade.
E como esses, temos vários exemplos grandiosos que são inimagináveis. Mas, voltemos à nossa explicação.
Depois da morte da pessoa começa o pagamento por todos os seus pecados, ainda antes que ele entre no Guehinóm. Existem quatro tipos de "pagamento", todos eles chamados de "reencarnações".
O que eu quero dizer é que ou a pessoa reencarnará em um ser inanimado (mineral), ou em um ser vegetal, ou em um ser vivo ou em um ser que fala (homem).
A maioria das pessoas não consegue escapar da necessidade de reencarnar em uma dessas formas.
Isso porque a pessoa não consegue receber sua punição [pelo pecado] se não existir uma união de corpo físico com a Néfesh. Só quando essa encarnação acontece é que a pessoa pode sofrer e sentir a angústia que precisa, o que promove a expiação dos seus pecados. E, portanto, é o tamanho do pecado que a pessoa cometeu que determina o aspecto e da forma da sua reencarnação, seja em vegetal, ou em animal etc.
Portanto, mesmo entre os justos e os estudiosos de Torá, alguns deles, precisam reencarnar de um dos modos mencionados, pois durante sua vida pode ter havido ocorrência de algum pecado, e a Justiça Divina diz que aquela ofensa requer tal e tal encarnação.
Depois disso, eles podem subir ao local que lhes é apropriado, mas há uma necessidade fundamental de apagar esses pecados primeiro. E nisso o Santíssimo, bendito seja, não é tolerante, pois "Ele é El de fé e sem iniquidade, justo e reto."
Assim, mesmo que a pessoa seja completamente justa não há como subornar ao Santíssimo, bendito seja, Ele não receberá nenhuma recompensa ilícita por causa de suas boas ações, como ensinaram nossos Sábios.
Mais ainda, se essa pessoa tiver que subir para um nível mais alto, ela precisa, primeiro, reencarnar em uma das encarnações mencionadas, o que acontece se ainda houver algo para ser apagado; se ainda houver alguma ofensa que exija esse tipo de encarnação.
Uma vez eu estava com o meu mestre, de abençoada memória, e ele me disse que estava vendo uma pessoa da época dos Tanaítas e que estava encarnada em uma cabra fêmea por ter tido relações à luz de uma vela. Isso pode fazer os filhos nascerem epiléticos, o que de fato acabou acontecendo e, no final das contas, seus filhos morreram ainda jovens. Tudo isso foi considerado derramamento de sangue da parte daquele homem.
Não só isso, mas um derramamento de sangue dos próprios filhos! Em outra ocasião ele nos disse que estava vendo um grande sábio que era de uma geração que antecedia a nossa em alguns anos. Ele disse que tinha chegado o momento daquele sábio subir a uma região mais alta do que a que ele estava no começo.
E naquele momento o meu mestre conseguia ver nos olhos dele que ele estava sendo castigado pelos pequenos detalhes dos preceitos leves, como mencionado, para depois poder subir para aquele grau mais alto. Isso acontece porque quanto mais alto o grau ao qual a pessoa vai subir, mais ela precisa se fortalecer, mesmo que seja em questões de detalhezinhos dos preceitos, coisas tão finas como um fio de cabelo, conforme já foi dito.
E, de maneira geral, ele estava sendo castigado dessa maneira por dois motivos.
O primeiro foi que ele estava distraído ao usar os filactérios e enquanto rezava "que seja da Tua vontade", depois da Kedushá da reza "E veio a Sião".
E se é assim, o que dizer daquele que nem se concentra na reza e nem nos filactérios que estão na cabeça?
Ele também foi castigado porque em uma Shabat específico ele saiu para o recinto público e entrou um pouco de areia no sapato dele. E ele andou por quatro cúbitos nesse espaço público [carregando essa areia], ainda que sem intenção. E com isso se entende por que foi ensinado que não há descanso para os justos no Mundo Vindouro, como disseram os nossos Sábios, de abençoada memória, quando comentaram o versículo "Eles se fortalecerão continuamente."
O que se passa é que a cada grau que eles sobem precisam se esmerar mais e mais, conforme mencionado.
E agora precisamos explicar o que são essas encarnações de que falamos.
Já nos foi explicado que todos os mundos foram criados pela purificação daqueles sete reis que reinavam sobre Edom, morreram e foram fragmentados.
[A morte desses reis era a única maneira de iniciar o processo de retificação depois da Quebra dos Receptáculos - Ets Chaim.] Os reis mais puros foram purificados para criar o mundo de Atsilut; depois deles foram purificados aqueles para criar o mundo de Beriá; depois deles aqueles para Ietsirá e ainda depois, Assiá.
Os mais puros de Assiá acabaram formando o ser humano. Depois dele a pureza começa a decair e temos a criação dos animais, que não é um ser humano, que não fala, e depois das plantas e vegetais e, por fim, o mineral (os inanimados).
No entanto, o justo, por meio de seus atos, e por meio dos preceitos que cumpre até quando come, ou coisas do tipo, possui força para purificar até mesmo partes do mineral (inanimado), fazendo-o elevar-se ao nível de vegetal, de animal ou até de humano.
Isso foi explicado no Shaar Hamitsvot, porção semanal de Êkev, quando se fala do preceito do Bircat Hamazon (Benção recitada ao terminar uma refeição).
E, por outro lado, o perverso, por meio de seus atos, causa o efeito contrário, fazendo com que tudo se rebaixe, e não se eleve. Existem tipos de pecados que fazem com que uma parte do homem se rebaixe ao nível do inanimado, e há aqueles que o rebaixam ao nível de vegetal, ou ainda ao nível de animal, que não fala. Então, existem perversos que depois de morrer reencarnam em uma pedra inanimada, conforme o pecado que cometeram em vida. Existem os perversos que reencarnam em vegetais e os que reencarnam em animais, pois o pecado que cometeram os tornaram iguais a animais. E os que reencarnam nesse tipo de encarnação ficam ali por um tempo determinado até que o pecado que os fez encarnar desse modo seja apagado.
Se a pessoa encarnou, por exemplo, em um vegetal, depois desse tempo ela passa para o nível do animal, e quando o tempo se completa, ela sobe e encarna como humano de fato.
A reencarnação em um ser humano pode acontecer em uma de duas maneiras.
A primeira envolve as almas dos perversos que, depois de morrer, não tiveram o direito de entrar no Guehinóm.
Elas entram nos corpos dos seres humanos que vivem ainda nesse mundo. Elas falam e contam tudo que estão passando, que haja misericórdia sobre elas.[Veja no final do livro o relato de um exorcismo.] A segunda maneira é quando essas almas entram em um ser humano por meio do Ibur, conforme foi explicado em seções anteriores. Nesses casos, a Néfesh se gruda na pessoa de maneira total e discreta, de modo que o receptor nem chega a saber o que está acontecendo. Se, neste caso, a pessoa pecar, a Néfesh que veio nela por meio do Ibur fica fortalecida, começa a influenciá-la e levá-la para o mau caminho, conforme já foi explicado nas seções anteriores. No caso da alma de um justo, quando ela entra se une por Ibur em uma pessoa, ela o faz para bem.
Portanto, no caso do perverso é o oposto e, sendo assim, a Néfesh do perverso influencia para o mal.
Isso tudo já foi explicado, a saber, de que às vezes a Néfesh que vem por Ibur vem por beneficio próprio, isto é, vem para corrigir a si mesma, e, às vezes, o Ibur acontece em beneficio da pessoa, isto é, acontece para que aquela Néfesh influencie a pessoa para o bem.
Esses dois aspectos também valem para a Néfesh do perverso que vem como Ibur.
Ou ela vem para beneficio da própria Néfesh que veio por Ibur, por exemplo, nos casos em que a alma entra em uma pessoa justa, ou nos casos em que a pessoa já é perversa e o Ibur vem para fortalecer ainda mais o seu mal e depois exterminar o indivíduo, Chas Veshalom (Deus nos livre).
E quando a Néfesh que reencarna no ser humano por um dos dois aspectos mencionados, cumprir o prazo de tempo que lhe foi determinado ficar ali, e seus pecados forem expiados, então ela poderá vir depois a esse mundo por meio de uma encarnação completa e verdadeira, nascendo em um corpo desse mundo físico, como acontece com o resto dos seres humanos. E vamos voltar ao assunto, porque é importante conhecê-lo bem. Não é em qualquer época que essas formas de encarnação no inanimado, vegetal, etc. possuem força suficiente para subir de lá e se corrigir. Isto é, não é sempre que uma pessoa encarnada consegue subir do seu nível e se corrigir, pois, [conforme escrito no versículo: "para tudo existe uma época determinada, e para cada acontecimento há um tempo apropriado sob os céus."]
Isso significa que sempre há um período de tempo fixo para a subida dessas pessoas.
Quem encarna em um ser inanimado recebe um prazo de tantos e tantos anos para ficar ali e, quando chega o momento de se elevar, para encarnar no nível de vegetal, isso só pode acontecer durante os quatro meses intermediários dos doze do ano, isto é: Av, Elul, Tishrê e Cheshván. Se o tempo determinado para que ele se elevasse findou quando chegou o período desses quatro meses, ele se eleva.
Se não, ele precisa esperar até o ano que vem, isto é, novamente até chegarem esses quatro meses intermediários que mencionamos. E o tempo de subida do nível vegetal para o animal é nos quatro primeiros meses: Nissan, lar, Sivan e Tamuz.
E o tempo de subida do animal para o humano é nos últimos quatro meses: Kislev, Tevet, Shevat e Adar.
No entanto, apesar da ordem de elevação deles ser conforme mencionado: do inanimado para o vegetal, do vegetal para o animal e do animal para o humano, é possível ocorrer de haver elevação de dois níveis de uma vez. Um exemplo pode ser alguém que encarna na terra, que é inanimada. Imagine que vem um animal e come o pasto e nesse pasto está misturado um pouco de terra, na qual, por sua vez, estava a Néfesh encarnada dessa pessoa.
Nesse caso, a Néfesh dessa pessoa encarna, naquele momento, no animal, sendo que ela acaba de subir dois níveis de uma vez, isto é, do inanimado ao animal.
Ou, para citar outro exemplo, a pessoa que encarnou em um vegetal, em verduras ou frutas de uma árvore, e quando um ser humano as come o que acontece é que a pessoa encarnada ali subirá do nível vegetal para o nível humano, ou seja, dois níveis de uma vez só.
E pode até acontecer de o encarnado subir todos os níveis de uma vez só, isso é, do inanimado ao humano.
Por exemplo, se um ser humano come um pouco de terra que estava em um cozido e quando nessa terra havia alguém encarnado, ele sobe do inanimado ao humano.
E saiba que aquele que encarna na água ou no sal não é considerado como encarnado no inanimado, mas no vegetal.
Isso porque a água é viva.
Ela "nasce" [nascentes] e "corre" [água corrente], e não é algo inanimado como a terra.
E o sal é tirado da água, e por isso ele também é considerado vegetal. E foi isso que os nossos Sábios, de abençoada memória, ensinaram no Tratado de Shabate , quando disseram que aquele que pega sal de um minério [durante a Shabat] passa a violar a proibição de "não colherás" [no dia da Shabat].
É sabido que não existe colheita fora do mundo vegetal. O assunto dos reencarnados é realmente explicado em diversos locais, como por exemplo, no versículo "Salva minha Néfesh da espada; minha vida [literalmente: minha Iechidá, que se refere à luz da alma no nível de Kéter], das presas dos sabujos."
E também o que disseram os nossos Sábios, de abençoada memória, ao afirmarem, no Tratado de Pessachim, que aquele que vê um touro preto em Nissan deve fugir dele e subir em um telhado, pois o Satã [hebraico: Satan] dança entre os seus chifres.
A explicação disso é que o Touro representa o "julgamento severo", e ele é mais adequado para a reencarnação da Néfesh do que qualquer outro animal.
Por isso é preciso fugir dele mais do que de qualquer outro animal.
Sabendo do que vimos anteriormente, de que uma alma não consegue subir do nível vegetal ao animal a não ser [durante o mês] de Nissan em diante. Assim, entendemos por que os Sábios falaram do perigo de encontrar o Touro em Nissan.
Pois é nesse mês que o perverso pode encarnar no animal, e, talvez, por acréscimo de um Ibur perverso, o touro passe a atacar e machucar as pessoas.
Mas isso só acontece no primeiro mês da elevação do nível vegetal para o animal, isto é, o mês de Nissan; pois depois disso o touro já se acostuma com a alma e não fere mais os outros.
E essa alma pode ter chegado ao touro porque ele comeu pasto e vegetal no qual havia um perverso encarnado.
E já foi explicado no Shaar Hapessukim [Portão dos Versículos] sobre a questão de Ionus e Iombrus, filhos de Bilám, o perverso. Foram eles que fizeram o Bezerro de Ouro no mês de Tamuz, e sobre eles se diz "Trocaram a glória do Eterno por uma estátua de um animal comedor de feno."
[Em hebraico, feno se diz "éssev" e as iniciais são as mesmas de 17 de Tamuz, dia em que Moisés quebrou as Tábuas da Lei por ter visto o povo adorando o bezerro de ouro.]
E o assunto da encarnação em seres inanimados ficará explicado com o caso de Nabal (hebraico: Naval), o Carmelita, sobre o qual se escreveu "seu coração morreu dentro dele e ele ficou como uma pedra." E o segredo disso se entenderá com o que foi dito, de que Labão [hebraico: Laban ou Lavan] reencarnou em Bilám e depois em Naval, o Carmelita. Bilám, o perverso, conseguia falar com cobras, enfeitiçando-as, e toda a sua força ficou na sua boca, para amaldiçoar as pessoas. Por isso, quando Bilám morreu, ele reencarnou em uma pedra, que é do nível de inanimado e que não pode falar.
Isso foi feito para que ele expiasse a feitiçaria produzida com sua boca. Quando ele encarnou posteriormente em Naval, o Carmelita, foi o começo da sua vinda a esse mundo, para se corrigir.
No entanto, quando ocorreu o incidente com [o rei] David, ao dizer: "Quem é David, e quem é o filho de Ishai?"
David se irritou e quis matá-lo.
Daqui se vê que ele veio para corrigir a fala perversa de Bilám, mas ao invés de fazer isso, violou mais ainda as coisas. Ele voltou a incorrer em pecado com a sua fala, amaldiçoando a David, Rei de Israel.
Em seguida, Naval lembrou e ficou sabendo que já tinha encarnado como pedra para corrigir a fala perversa de Bilám e que agora tinha voltado a amaldiçoar, e por isso "seu coração morreu dentro dele" quando lembrou que "ele ficou como uma pedra," de início, como dito. E por isso não está escrito "ficará", mas "ficou" [no sentido de 'quando era'].
E não é preciso ficar intrigado com o fato de Naval saber disso, pois ele era um grande homem.
Pode ser que isso lhe foi dito por algum profeta ou por algum sábio. Também pode ser que o espírito dele percebeu isso, mas ele não o fez conscientemente.
A encarnação em inanimados também é aludida no versículo "Pois as pedras do muro clamarão."
Há pessoas que encarnam na pedra de um muro, que é inanimado, ou no tronco da árvore, que é o ser vegetal, e de lá ficam clamando pelos castigos que estão sofrendo ali.
E ainda explicaremos mais alguns versículos posteriormente, com a ajuda do Santíssimo, bendito seja.
E agora vamos explicar alguns tipos de reencarnações:
Aquele que pratica 'má língua' [hebraico: lashon hará][ Conceito que indica o mau uso da linguagem e da fala, como por exemplo, falar mal dos outros, fofocar, ou discutir coisas fúteis e vãs.] e coisas similares reencarna em uma pedra, que fica calada, como explicamos no caso de Naval, sobre quem se disse "e ficou como pedra", pois a compensação por pecados da fala é ser mudo.[Em hebraico, inanimado se diz Domem, que também significa ser mudo.]
Aquele que alimenta alguém [do povo] de Israel com carne de carcaças de animais [mesmo que sejam de animais permitidos, mas que não foram abatidos segundo as Leis de Cashrut [Cashrut— é o conjunto de leis que determina como separar o impuro do puro; nesse caso, a maneira de como abater um animal segundo a Bíblia.] – hebraico: Nevelá] reencarna na folha de uma árvore, que é vegetal.
E a sua punição é que o vento bate nesta folha e a empurra de lá para cá, sem descanso.
E quando termina o seu tempo determinado, essa folha cai da árvore. Ela murcha e cai no solo.
E isso é realmente igual à morte, quando a pessoa é arrancada e extirpada do mundo.
E esse é o segredo do versículo "fenecerão (hebraico: novêl) todas as folhas," pois quem alimenta ao [povo de] Israel com carne de um animal morto (nevelá) reencarna numa folha que murcha e cai (novêl) na terra. Também é esse o segredo de "Serão como uma árvore cujas folhas murcham e caem."
E, às vezes, depois de essa folha murchar e cair, a pessoa volta a encarnar em outra folha, e também ela cairá, sendo que o processo pode se repetir algumas vezes, igual ao processo em que a pessoa vem reencarnando algumas vezes neste mundo, conforme a punição que lhe é merecida. E há aqueles que encarnam na água, sendo que também são chamados de vegetais, como dito acima.
Esses são os que derramam sangue nesse mundo. Estes são os que encarnam na água.
Isso é indicado em "sobre a terra o [o sangue] derramarás como a água," e também está dito "Aquele que derramar o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue derramado."
O castigo é que essa pessoa fica em baixo de uma cachoeira, e essa água fica sempre caindo em cima dela, derramando-se sobre ela. A pessoa fica querendo se levantar e ficar de pé, mas a água a derruba sempre, sem que ela tenha descanso.
Essa pessoa reencarna sempre em um local próximo a uma cachoeira. Isso também está aludido no versículo "Porque certamente morreremos, e seremos como águas derramadas na terra."
Do mesmo modo, aquele que deveria morrer sendo enforcado mas que não foi punido pela corte terrena reencarna na água, e lá ele fica sendo asfixiado constantemente.
Aquele que comete adultério com a mulher do outro, e que deveria receber a pena de estrangulamento, reencarna na pedra de moinho, aonde se joga o trigo e se mói o produto por meio da água que gira o moinho. Tanto o homem como aquela mulher adúltera ficam presos ali e lá serão julgados, pelo segredo do "que procure [literalmente: fique moendo] minha esposa um outro e que se entregue em braços estranhos." Também aquele que despreza a ablução das mãos reencarna na água. E esse é o segredo do versículo "Torrentes impetuosas teriam submergido nossa Néfesh. Bendito seja o Eterno, que não permitiu sermos nós uma presa para suas garras e dentes."
O mesmo vale para os que não fazem a benção de apreciação antes de desfrutar de diversos tipos de comida.
O mesmo para quem furta de seu pai e sua mãe, pois se torna "companheiro do destruidor."
Todos estes reencarnam na água.
E há aqueles que reencarnam em animais.
O líder comunitário que se sente superior à sua comunidade reencarna em uma abelha.
E é isso que disse o Rav Nachman bar Itschac: "O orgulho não cai bem nas mulheres. Havia duas mulheres orgulhosas, e o nome de ambas não era positivo, uma se chamava "abelha" e a outra se chamava "ratazana." Ele estava se referindo a Débora, a profetisa, cujo nome, em hebraico, significa "abelha".
Ela se ostentou sobre Barac quando mandou gente para que o fosse chamar, sendo que ela mesma não queria ir.
A outra mulher era Chuldá, a profetisa, cujo nome em hebraico significa "ratazana".
Ela insultou o Rei Tsidquiahu quando disse "Dizei ao homem que vos enviou a mim" [em vez de "Dizei ao Rei", como os Sábios mostram que seria o correto].
E com as suas palavras, o que se deixa entrever é que Débora era orgulhosa e não trabalhava.
Além disso, ela era falante demais e não conseguia ficar quieta nunca [daí vemos que ela ostentava orgulho em sua fala]. E, portanto, um líder comunitário que fala de maneira orgulhosa quando se apresenta ao público e que fala de uma maneira indigna, reencarna em uma abelha, como as duas características que tinha Débora. E saiba que não há nenhuma pessoa reencarnada de um dos modos mencionados anteriormente, ou alma que foi punida pelo Tribunal Celestial, que não possua um acusador que fique declarando seus pecados e ofensas sempre ao longo de todo o tempo em que fica reencarnada ou punida — como mencionado, e não se afasta dela.
Essa alma [ou pessoa] ainda possui um vigia que a castiga com o castigo que lhe é adequado, ou que a faz encarnar na própria encarnação que ela merece.
Por exemplo, aquelas que encarnam na água terão sempre um vigia ao seu lado que fica afundando-as na água, até que expire o tempo determinado delas.
Além disso, a maioria dos que reencarnam ou que são castigados, dos modos que falamos acima, passam por um Tribunal que os julgam na hora de sua reencarnação ou de sua punição.
E seu castigo é mudado a cada momento, de um para outro, de acordo com o julgamento e a sentença que lhe é cabível.
[É importante dizer que a Teshuvá cancela todos esses graves decretos.]
Shmuel disse: Eu achei também coletâneas de ensinamentos de pessoas que são muito próximas do Isaac Luria.
E apesar de eu as ter encontrado entre as coisas do meu mestre, de abençoada memória, não acredito que sejam coisas que o meu mestre tenha dito.
Mesmo assim, não achei que devia deixar de publicá-las ao leitor, e ei-las aqui.
Isso foi o que eu encontrei em forma de panfleto no livro do Rav Eliezer Halevi.
Repito que me parece, conforme minha humilde opinião, de que não há dúvidas de que não é nada que meu mestre, de abençoada memória, tenha dito.
Aquele que se deita com um animal reencarna como morcego. Aquele que se deita com a mulher menstruada reencarna em uma idólatra. Aquele que se deita com uma mulher casada reencarna em um burro. Aquele que se deita com a própria mãe reencarna em uma jumenta. O homem que se deita com um homem reencarna numa lebre ou em um coelho, dependendo se ele foi o que cometeu o ato de se deitar ou o que sofreu o ato.
Aquele que se deita com sua nora reencarna em uma mula. Aquele que se deita com uma idólatra reencarna em uma meretriz judia. Aquele que se deita com a mulher do pai reencarna em um camelo. Aquele que se deita com a mulher do seu irmão reencarna em uma mula (macho).
Aquele que se deita com sua irmã, seja de pai ou de mãe, reencarna em uma cegonha [hebraico: Chassidá] e ela será morta pelo seu grupo de cegonhas. [Neste caso, a palavra Chéssed é usada para indicar "indecente", que é muito próxima à palavra "cegonha" - Chassidá, em hebraico.] E esse é o segredo do versículo "E o homem que tomar a sua irmã — filha de seu pai ou filha de sua mãe — e ele vir a nudez dela e ela vir a nudez dele, é indecente.
O mesmo vale para aquele que se deita com sua sogra. Aquele que se deita com um animal ou ave reencarna em um corvo.
Aquele que sempre olha a nudez e que a expõe reencarna no urubu branco, que é a ave que vê mais longe do que qualquer outra ave. E tudo isso só ocorre se a pessoa não se arrepender. Shmuel disse: O próximo capítulo já estava copiado em outro texto meu, mas mesmo assim não quis tirá-lo daqui, pois este é seu verdadeiro local e porque ele trata da recompensa dos justos e dos tormentos depois que a pessoa é enterrada no túmulo.
Continua