Portal das Reencarnações

Isaac Luria · Capítulo 15 de 35

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Portal das Reencarnações

Portal das Reencarnações – Parte 16

Introdução 16

[Nesta introdução, o Ari explica como o cumprimento dos preceitos (hebraico: Mitsvot) — se relaciona com o Ticun (correção) da alma. E a controvérsia que pode aparecer devido a dois pareceres diferentes: um diz que uma pessoa tem que prestar atenção igual a todos os preceitos, seja de maior ou de menor importância; e outro que se baseia na conduta de alguns sábios, que eram exigentes em sua seleção de certos preceitos. Do ponto de vista da reencarnação e do nível de consciência, uma pessoa que já conhece a raiz da sua alma e as reencarnações anteriores de pessoas que pertencem a ele, e que sabe os preceitos que foram realizados e os que não foram, poderia ter o privilégio de concentrar-se apenas nos preceitos que ainda não foram concluídos, sem, obviamente, descuidar dos obrigatórios e dos mais básicos.

Outras pessoas, que ainda não atingiram esse nível, têm que cumprir os preceitos igualmente, já que elas não têm o conhecimento de suas reencarnações passadas.]

Nessa Introdução será explicado que aquele cuja alma é 'Nova’ tem a obrigação de cumprir todos os 613 preceitos:

Saiba que todo aquele é uma alma nova precisa cumprir todos os 613 preceitos.

Já sabemos que existem algumas Raízes que se dividem e formam todas as almas que existem no mundo, e cada uma dessas Raízes é um órgão dos órgãos que pertenciam às almas de Adão, como será explicado. E cada uma dessas Raízes se divide, por sua vez, em infinitas Centelhas de almas, como também será explicado.

E cada uma dessas Centelhas, se for uma Centelha nova, precisa cumprir todos os 613 preceitos, pois não há órgão que não esteja incluído nos 248 órgãos, como se sabe.

Mas a alma que não é nova, já tendo reencarnado e vindo a este mundo, não precisa cumpri-los todos, mas só os preceitos que ficaram faltando; aqueles que não foram cumpridos na primeira encarnação que a precedeu. E com isso ficará claro o visto no Talmud, quando se diz que um sábio em particular se esmerava mais com um preceito do que com todos os outros, e que outro sábio se esmerava mais com outro preceito Isso também pode ser visto quando um Amora [sábio do Talmud-Guemará] perguntava ao seu amigo: 'Teu pai, em qual deles [dos preceitos] mais se empenhava?', e o amigo respondia dizendo que ele mais se empenhava com o Tsitsit ou com os Filactérios e assim por diante.

Aparentemente, isso vai contra a Mishná, que diz "Cuide dos preceitos leves como você cuidaria dos severos."

O segredo desse assunto é que cada sábio era mais cuidadoso com o preceito que estava lhe faltando desde a encarnação passada, seja ele todo ou uma parte particular e especializada dele.

Também é esse o segredo do que vemos no Talmud de que fulano focava em tais e tais virtudes, e sicrano focava em tais e tais virtudes. Conforme está escrito, quando perguntaram a beltrano: "O que te faz ter uma vida longa?" e ele respondeu: "Jamais violei minhas ética, etc."

Isso mostra que cada um constrói suas virtudes e características de personalidade de acordo com o aspecto de sua reencarnação. E, portanto, há diferenças entre a pessoa que não cumpriu os preceitos, mas cujas centelhas de alma anteriores à dele, e que pertencem a sua alma raiz, cumpriram todos os 613 preceitos, e aquele cujas centelhas anteriores também não os cumpriram.

Explicaremos isso adiante.

E saiba que dos preceitos que a pessoa é capaz de cumprir; se a oportunidade de cumprir um deles se apresentar a ela e ela não o cumpre, ou se ela tiver a possibilidade de cumpri-lo e ela não o cumpre, então ela deve [continuar] reencarnar até cumpri-lo. E se for um preceito que a pessoa não pode cumprir a não ser que o Santíssimo, bendito seja, crie as condições para ela cumprir [como aparece em Êxodo 21:13 — 'E Elohim o permitiu, etc.']; como a Redenção do Primogênito, ou o Ibum, ou a Chalitsá, [escrever] a Carta de Divórcio, etc., então aqui tem uma divisão: Se o Santíssimo, bendito seja, faz com que a oportunidade para cumprir um desses preceitos seja apresentada a pessoa, e ela não o cumpre, o seu veredicto é igual ao caso anterior, ou seja, ela deve [continuar] reencarnar para cumpri-lo. Mas, por outro lado, se a oportunidade não apareceu, a pessoa não precisa reencarnar por causa destes preceitos.

Porém, ela virá pelo segredo do Ibur em uma pessoa, à qual a oportunidade se apresentará, para poder cumpri-los.

E depois disso, ela parte e volta ao local que lhe é de direito — assim que termine de cumpri-los.

Há um terceiro grupo de preceitos; os que estamos impedidos de cumprir em nossos tempos, como os preceitos dos sacrificios e outros similares. Agora, segundo o que foi explicado, a pessoa tem que cumprir todos os 613 preceitos, e teria que reencarnar até que os cumpra. Contudo, em nossos tempos, ela não reencarnará para cumprir estes preceitos, porque não há como cumpri-los.

Mas depois da vinda do Messias, quando o Templo Sagrado for reconstruído, e que seja breve em nossos dias, amém, todas essas pessoas reencarnarão por uma encarnação propriamente dita para cumprir estes preceitos.

Foi a isso que aludiu o Rabi Ishmael ben Elishá, Sumo Sacerdote6 quando inclinou a vela na noite de Shabat e disse "Escreverei isso em meu diário para que quando o Templo Sagrado seja reconstruído eu possa levar gordura como 'oferta por pecado'.

[A lei formal da Halachá nos ensina que na Shabat não se pode ler usando uma vela para que a pessoa não a incline.

No Tratado de Shabat, o Rabi Ishmael bem Elishá desafiou esse decreto dizendo: "Eu vou ler e não vou inclinar".

Com o passar do tempo, ele ficou concentrado em seu livro e se esqueceu do decreto, e acabou inclinando a vela para ver melhor. Ao fazer isso, ele alimentou a chama com a gordura da própria vela e aumentou a sua chama.

Foi assim que ele violou a santidade da Shabat, durante a qual é proibido acender fogo e nem mexer nele.

Por isso, precisava trazer uma expiação, uma 'oferta por pecado'. Percebendo que não ia conseguir oferecer o sacrifício até que o Templo Sagrado fosse construído, ele escreveu no seu diário um voto: "Eu, Ishmael ben Elishá, li e inclinei a vela na Shabat.

Quando o Templo Sagrado for reconstruído vou levar gordura para oferecê-la como "oferta por pecado' (Chatat Shamná — sacrifício de 'pecado de gordura')".

Daqui aprendemos que esse Sábio estava ciente da reencarnação e da possibilidade de uma encarnação futura na qual ele poderá expiar a sua transgressão de mexer no fogo da vela na Shabat para ler. A "Shamná" (gordura) refere-se à gordura que foi utilizada para alimentar a chama da vela.]

E há uma divisão de opiniões sobre o assunto tratado, que é a respeito do que acontece com a pessoa que tem preguiça de cumprir um preceito obrigatório, como a leitura do Shemá, o uso dos filactérios, ou outros similares; ou um preceito que a pessoa não é obrigada a correr atrás, como o da Mãe-pássaro, ou quando a pessoa não tem casa e se abstém de construir o parapeito no telhado, ou ainda similar. O que acontece se a pessoa não se apressava para ir atrás deles e cumpri-los?

Essa pessoa é obrigada a reencarnar, como já dissemos, mas ela recebe uma garantia de que não pecará nessa encarnação. Mas se a oportunidade apareceu para a pessoa e a pessoa se absteve, não querendo cumprir o preceito, passa a ser obrigatório reencarnar, e ao acontecer isso não há garantias de que não pecará, como aconteceu no primeiro caso.

E quanto a quem reencarnou por ter transgredido alguma proibição, esse certamente continuará pecando, como foi explicado nas partes anteriores deste estudo.

[A única maneira de corrigir o pecado e expiar o fato de tê-lo cometido em uma vida passada é cometê-lo novamente.

Mas na vida seguinte essa pessoa vai sentir o estrago que fez para sua alma e vai desfazê-lo por meio da Teshuvá.]

Ainda é preciso saber que uma pessoa precisa cumprir todos os 613 preceitos na Ação, na Fala e no Pensamento.

E é essa a explicação dos nossos Sábios sobre o versículo "Esta é a lei para a oferta de elevação, para a oblação," de que todo aquele que se ocupa com a porção semanal que trata da oferta de elevação é como se estivesse fazendo este sacrifício de fato.

Então, eles quiseram dizer que a pessoa deve ter a intenção de cumprir todos os 613 preceitos na Fala e o mesmo vale para o Pensamento. [Assim, pelo aspecto da cavaná (intenção meditativa) e da fala, nós somos obrigados a recitar as passagens das oferendas. Mas pelo aspecto da ação física destes preceitos, temos que esperar pela construção do Templo Sagrado.]

E se a pessoa não cumpriu os 613 [preceitos] nos três níveis mencionados ela precisa reencarnar até que os complete.

Saiba também que a pessoa precisa se ocupar da Torá em 4 níveis, aqueles indicados no PaRDeS [ "], que são, o Peshat, o Remez, o Derash e o Sod.

E é preciso reencarnar até que isso seja cumprido. [Em relação a este preceito, nossos sábios deixaram claro que ele é relativo a cada indivíduo.

Cada pessoa deve dar o melhor de si, e nem todos são iguais em suas habilidades de compreensão, mas todos são iguais em sua obrigação de se esforçar e de tentar.

Porque a recompensa não é concedida pelo entendimento, mas sim pelo esforço investido na tentativa de entender.

É o esforço que leva ao mérito, que, em hebraico, significa purificação - Zechut.

Por exemplo, uma pessoa que entende menos do que seu colega pode ser recompensado mais, meramente por ter investido mais esforço e ter alcançado um elevado nível de purificação.

Desnecessário dizer que o entendimento em si tem sua própria importância.]

Continua