Portal das Reencarnações
Portal das Reencarnações – Parte 7
Introdução 7
[A Cabala explica que a Bíblia é um código e que não devemos entender as narrativas que aparecem nela literalmente.
Adão e Eva não devem ser entendidos como seres humanos físicos que foram criados pelo Divino.
Eles são entidades espirituais que representam o total de todas as almas (neshamot) da humanidade.
Antes do pecado eles eram um só ser, completo, que pode ser visto como um único corpo espiritual inteiro.
Mas depois que eles pecaram, eles perderam a sua unidade e se dispersaram em muitas almas.
Isso criou o mundo da fragmentação e separação, que acabou resultando no aparecimento de almas em corpos físicos.
O processo de reencarnação, que é uma consequência da pena de morte que se abateu sobre Adão e Eva, ajuda as almas a expiar seus pecados. Porém, nem todas as almas participaram do pecado com o mesmo nível de gravidade.
A categorização das almas é feita com base em sua localização no corpo espiritual de Adão e Eva, e do nível de seu pecado. Isto também afeta o modo pelo qual elas reencarnam. Nesta introdução, o Ari vai elaborar mais sobre a questão de 'Almas Novas' e 'Almas Velhas' (ou Antigas).]
Vamos discutir mais sobre o assunto das almas novas e velhas e quem são elas.
Nós já explicamos que existem algumas almas que não faziam parte da alma de Adão quando ele foi criado.
[Com o termo "criado", refere-se ao mundo da Criação (Beriá), mas há almas que pertencem ao mundo da Emanação (Atsilut) - o pecado de Adão foi cometido no mundo da criação e afetou a esse mundo e os abaixo dele apenas].
Essas são as almas verdadeiramente e completamente novas, enquanto as almas que já estavam incluídas em Adão são chamadas de "almas antigas", por oposição.
E destas existem dois tipos.
Portanto, no total existem três tipos de almas.
O primeiro é daquelas almas que não estavam incluídas em Adão [e não faziam parte do pecado], e são completamente novas. O segundo tipo de alma é resultante do pecado de Adão, pois depois desse fato seus órgãos caíram dele e ele foi reduzido a não mais do que 100 cúbitos de altura.
Esse é o segredo do versículo "sobre mim estendes Tua mão protetora." [No Tratado de Chaguigá 12a diz-se que como resultado do pecado de Adão o Santíssimo, bendito seja, colocou a Sua mão sobre ele e encolheu sua altura a 100 Ama (=50 metros).
A palavra 'mão' em hebraico é Caf - 12, que tem o valor numérico de 100. Antes de pecar, sua altura era de 500 Amot (=250 metros)]. O mesmo que aconteceu com o seu corpo aconteceu com sua alma.
As centelhas de alma que permaneceram com ele depois do pecado ficaram ali, pois eram necessárias ao próprio Adão.
Depois do pecado, ele se tomou pai de Cáin e Hével e, como os Sábios e o Zôhar dizem, foi dessas centelhas que eles nasceram. Esse é o segundo tipo de alma.
O terceiro tipo é das centelhas de sua alma que partiram dele no momento em que ele pecou e caíram nas profundezas das Klipot. Essas foram chamadas pelos Sábios de "os órgãos que caíram". E saiba, que foi deste terceiro tipo de alma que a alma de Seth, filho de Adão, surgiu.
Sendo assim, a alma do primeiro tipo é chamada 'uma alma completamente nova'.
É sobre essa alma, quando ela desce ao mundo e encarna em um corpo, que os Sábios disseram "Venha e veja: Quando uma pessoa nasce ela ganha uma Néfesh, e se ela merecer mais...".
Como essa é sua primeira vez em que vem ao mundo, a pessoa consegue atingir da Néfesh de Assiá até a Neshamá da Neshamá de Atsilut, nível após nível, como está dito: "e se ela merecer mais". E isso tudo pode ser feito com grande facilidade e sem muito esforço. Nós já explicamos esse primeiro tipo antes.
No entanto, se durante esse período a pessoa peca, causa uma mácula e morre, e seria necessário para ela voltar a este mundo. Neste momento ela será chamada de "reencarnada" e de "antiga". Como já explicamos antes, a Néfesh vem para a pessoa ao nascimento, mas o Rúach não pode vir até que a pessoa tenha treze anos de idade e mais um dia.
A Neshamá não pode vir até a pessoa ter vinte anos ou mais. Desse modo a pessoa avança e vai ganhando os níveis de acordo com seus atos, até atingir NaRaN ["]de Atsilut, tudo conforme a sua idade. O segundo tipo de almas consiste das centelhas de alma que ficaram em Adão depois do pecado, e que ele passou para Cáin e Hével quando eles nasceram.
Elas são consideradas novas até certo ponto, mas não totalmente novas. Quando elas são corrigidas, elas ficam mais elevadas que todas as outras almas que saíram de Adão, pois elas tiveram a capacidade de ficar nele e não cair nas Klipot.
Elas têm essa virtude em particular: Quando os filhos dele, Cáin e Hével, as herdaram, isso não foi considerado uma encarnação de fato, como se elas tivessem vindo de um primeiro corpo que morreu. Tudo ocorreu durante o período de vida de Adão, quando ele passou as centelhas para os seus filhos, ao nascerem.
Portanto, todas as centelhas que foram incluídas em Cáin e Hével são consideradas como se ainda fossem partes de Adão ele mesmo, como se sequer tivessem saído dele.
Podemos concluir, que quando essas centelhas vieram como partes de Adão, elas não vieram para corrigir a correção de si mesmas, porque não pertenciam a ele, e apenas estavam incluídas nele. Por isso que elas são consideradas como se nunca tivessem vindo ao mundo antes.
E, portanto, posteriormente, quando elas vieram incluídas em Cáin e Hével durante a vida de Adão, isso não deve ser considerado uma encarnação de fato.
Elas novamente não vieram para si mesmas, mas apenas porque ainda não foram divididas em centelhas individuais em seus próprios corpos. O que houve apenas é que elas foram incluídas nos corpos de Cáin e Hével. Isso também, de qualquer modo, não se considera ainda como uma encarnação.
Sendo assim, só depois deles, quando essas centelhas são divididas e alocadas em um corpo de uma pessoa, é que se considera que passaram pela primeira encarnação.
Esta é uma alma nova, até certo ponto, mas não totalmente nova, porque elas já estavam em Adão, Cáin e Hével antes.
Se a pessoa que receber este tipo de alma pecar e maculá-la nesta primeira vez, morrendo e reencarnando depois, aí ela será chamada de 'encarnada' e 'antiga'.
Mas durante a sua primeira vez no mundo elas são consideradas almas 'quase novas', como explicamos.
Então, até ela, nesta primeira vez, pode alcançar a Néfesh de Assiá, o Rúach de Ietsirá, a Neshamá de Beriá e a Néfesh de Atsilut, dependendo das suas ações.
No entanto, elas não conseguem atingir mais do que isso, igual à alma nova.
É isso que constitui a diferença entre esse segundo tipo de alma e as almas do primeiro tipo, que podem chegar até a Neshamá da Neshamá de Atsilut. Esta é uma diferença entre o primeiro e o segundo tipo de alma. A razão para essa diferença é que quando Adão pecou ele perdeu a Zihará Ilaá (Esplendor Supernal), que são os níveis de NaRaNCHaI [ "] do mundo de Atsilut, como é mencionado no Zóhar. Elas são chamadas de Zihará Ilaá e não caíram nas Klipot, que só afetam os três mundos de BIA ["].
E todos os níveis de Atsilut, chamados de Zihará Ilaá, subiram às alturas, e só a Néfesh de Atsilut permaneceu nele.
Assim, quando essas centelhas que foram incluídas em Cáin e Hével vieram ao mundo pela primeira vez, elas só podem atingir, através de seus atos, até o nível de Néfesh de Atsilut e não mais.
É o que elas tinham originalmente.
No entanto, as almas completamente novas, do primeiro tipo, podem atingir da Néfesh de Assiá até as alturas de Atsilut chamadas de Zihará Ilaá, na sua totalidade.
Essa é uma vantagem do primeiro tipo de alma em relação ao segundo. Existe outra vantagem de uma alma nova, que foi chamada do primeiro tipo: Quando ela vem ao mundo pela primeira vez ela consegue facilmente, no mesmo corpo, atingir da Néfesh de Assiá até a Neshamá de Neshamá de Atsilut como mencionamos.
A Néfesh se torná o "tabernáculo" e o "trono" do Rúach; o Rúach da Neshamá, e assim por diante.
No entanto, este não é o caso com as almas do segundo tipo, que são as centelhas que foram incluídas em Cáin e Hével. Apesar de elas conseguirem chegar até a Néfesh de Atsilut em uma vida, como explicado, isso não se dá de maneira tão fácil como no primeiro tipo, mas com muita dificuldade e grande esforço.
É sobre isso que falamos (veja Introdução 3) quando nos referimos ao segredo do Ibum noturno e o versículo "Minha Néfesh Te tem buscado a cada noite; meu Rúach Te tem buscado veementemente." Depois que a Néfesh se corrigiu completamente, ela deixa o corpo da pessoa durante a noite, enquanto a pessoa dorme, e a Néfesh de um convertido entra no seu lugar, pela manhã, junto com o Rúach da própria pessoa.
O Rúach será revestido nessa Néfesh até ter se corrigido completamente. Nesse momento a primeira Néfesh vai voltar ao corpo, e eles vão ficar juntos.
A Néfesh será um "trono" do seu próprio Rúach. Se a pessoa tiver ainda mais méritos, então sua Néfesh e seu Rúach sairão dela durante a noite e, pela manhã, sua Neshamá entrará no corpo, ficando lá até ter se corrigido completamente.
Depois disso, sua Néfesh e seu Rúach voltam a entrar na pessoa e os três permanecem juntos.
No entanto, tudo isso só acontece com grande esforço e muita dificuldade, e depois de uma meditação intensa.
Esse é o segredo do versículo "Se Ele voltasse Seu coração contra alguém, simplesmente recolheria seu Rúach e sua Neshamá." Isso significa que se a pessoa for sábia e se souber como fazer a meditação do Ibum Noturno, da qual falamos, e se ela prestar atenção a isso e concentrar o seu coração, ela será capaz de unir em si, em seu corpo, o Rúach e a Neshamá sem a necessidade de novas encarnações. Pode acontecer de uma pessoa corrigir completamente a sua Néfesh, mas não saber como meditar e usar a 'intenção do seu coração' para atrair o seu Rúach e começar a corrigi-lo, como foi explicado anteriormente: deixando a Néfesh partir de noite por meio da meditação no versículo "Minha Néfesh Te tem buscado a cada noite".
Nesse caso, essa pessoa terá que morrer primeiro para depois poder corrigir o seu Rúach em um segundo corpo.
Quando ele for corrigido, a Néfesh se unirá a ele. [Se nesse momento essa pessoa ainda não souber como mandar o Rúach embora de noite para pegar sua Neshamá e corrigi-la de acordo com a meditação mencionada, então ela terá que morrer uma segunda vez para que sua Neshamá possa entrar em um terceiro corpo para se corrigir. Ao terminar a correção desse corpo, a Néfesh e o Rúach vão voltar a entrar juntos nele para se unir à Neshamá, como discutido anteriormente. Podemos nos perguntar, por vezes, sobre pessoas que aparentemente são boas e às quais esperamos que fossem recompensadas com uma vida longa.
Mas pode ser que isso não ocorra, como seria de esperar, e elas morrem relativamente jovens.
Então começamos a nos questionar a respeito da justiça divina e de como ela funciona.
O parágrafo seguinte explica esse fenômeno.]
Notadamente, é por isso que algumas pessoas extremamente justas morrem muito cedo.
Isso ocorre porque elas corrigiram sua Néfesh totalmente depois de alguns poucos anos de vida, mas elas não sabiam como atrair o seu Rúach para baixo, ao mesmo tempo em que mandavam sua Néfesh embora, usando a meditação que mencionamos anteriormente.
Então essas pessoas morrem muito cedo já que não há motivo para atrasar a sua vida neste mundo.
E, de fato, ela morre para que o Rúach venha num outro corpo, e se corrija também.
[Isto é, não existe motivo para que elas continuem neste mundo, já que elas já corrigiram sua Néfesh.
Se elas recebessem o Rúach elas já poderiam começar a sua correção na mesma vida.
Mas, como elas não sabem fazer isso e não precisam de outras correções na Néfesh, não há motivo para que fiquem no mundo. Por esse motivo, a Néfesh dessas pessoas vai embora cedo para que o Rúach possa entrar em um segundo corpo e lá se corrigir.]
O mesmo vale para os verdadeiros justos que mereceram sua Néfesh e seu Rúach, corrigindo-os, mas que não sabem como mandá-los embora para pegar a Neshamá.
Esse é o significado secreto do versículo "e morrem sem sabedoria." Isso significa que, às vezes, as pessoas morrem por falta de sabedoria, isto é, sabedoria de como atrair seu Rúach ou sua Neshamá. No entanto, saiba que isso só se aplica para uma pessoa que corrigiu sua Néfesh, mas cujo Rúach e Neshamá permanecem maculados de uma primeira vez.
Mas, no caso de uma pessoa cujo Rúach e Neshamá já foram corrigidos [na primeira aparição da pessoa ao mundo, apenas a Néfesh surgiu e pecou, enquanto o Rúach e a Neshamá não encarnaram e, por isso, são consideradas 'já aperfeiçoadas' ou corrigidas] — quando ela completar a correção de sua Néfesh, o Rúach e a Neshamá poderão entrar no corpo revestidos na Néfesh já que eles já foram corrigidos como ela. E com isso as duas vantagens do primeiro tipo de alma foram explicadas. [Resumo:
1. As almas do primeiro tipo, que são 'almas verdadeiramente novas' podem, de uma só vez, obter desde a extremidade de Assiá até o ponto mais alto de Atsilut, ou seja, desde a Néfesh de Assiá até a Neshamá da Neshamá (Chaiá) de Atsilut.
Enquanto as do segundo tipo somente podem chegar até a Néfesh de Atsilut e não mais do que isso.
2. A Néfesh das almas do primeiro tipo pode obter o Rúach e a Neshamá sem ter que morrer, somente pelos méritos dos seus atos. A Néfesh do segundo nível pode obter o Rúach e a Neshamá, mas apenas por meio de privações e dificuldades, e pelos meios mencionados acima. Isso exige da pessoa realizar a profunda meditação de depositar sua Néfesh à noite para receber no seu lugar o seu Rúach, e em seguida depositar sua Néfesh e seu Rúach para receber sua Neshamá.]
Agora vamos explicar uma vantagem do segundo tipo de alma sobre o primeiro tipo.
As almas do primeiro tipo não conseguem adquirir o NaRaN ["] de uma só vez.
No caso das almas do primeiro tipo, mesmo que elas já tenham o mérito de receber novas partes da alma, elas só conseguem fazer isso depois de certo período de tempo ter se passado.
Em outras palavras, ao nascer a pessoa já vem com o mérito necessário para ter a Néfesh.
Se ela fizer por merecer, aos treze anos e um dia ela pode receber o Rúach. Ao atingir vinte anos de idade, se ainda houver mérito suficiente, a Neshamá pode entrar no corpo.
É assim que se dá o processo até que tudo esteja completo. No entanto, no caso das almas do segundo tipo, elas conseguem atingir até a Néfesh de Atsilut mesmo antes de completarem treze anos e um dia de vida.
Isso ocorre porque quando essas centelhas estavam incluídas em Cáin e Hével elas foram capazes de receber todos os níveis mencionados. Portanto, agora, também, elas conseguem atingir todos os níveis de uma só vez.
E isso não depende do número de anos de vida, mas apenas das ações da pessoa, bem como da meditação mencionada anteriormente e a intenção correta com que ela é feita.
[Em outras palavras, as almas do primeiro tipo podem ter o mérito de receber o seu Rúach e Neshamá através de ações e, principalmente, pela passagem do tempo e da idade da pessoa, e segundo o mérito atingido por suas ações.
Por outro lado, as almas do segundo tipo podem atingir até a Néfesh de Atsilut independentemente da idade, mas definitivamente com base em atos e meditação, como explicado acima.]
Sabendo disso, podemos entender duas sentenças que parecem ser contraditórias sobre um mesmo assunto.
No início da Porção Semanal de Mishpatim está dito: "Venha e veja. Quando uma pessoa nasce lhe é dada uma Néfesh. Se ela merecer mais etc.". Neste caso parece que tudo depende dos atos da pessoa, e não de sua idade.
Isso porque a frase fala das almas do segundo tipo, que foram incluídas em Cáin e Hével e que são chamadas de "relativamente novas". Já no Saba de Mishpatim parece que o assunto depende da idade da pessoa, pois está dito: "Quando a pessoa atinge treze anos se diz sobre ela: 'Hoje te gerei'.
E ela recebe o Rúach.
Quando ela atinge seu vigésimo ano, ela recebe a Neshamá. Sobre isso está dito: 'Fui um filho dedicado ao meu pai'. Isso se refere às almas do primeiro tipo, que são almas totalmente novas, e que nunca estiveram incluídas na alma de Adão. O terceiro tipo de almas constitui aquelas que caíram nas Klipot depois que Adão pecou, e foi de onde a alma de Seth e outros vieram. Essas são almas antigas e as mais baixas entre os três tipos, porque elas caíram de Adão e se dividiram em centenas de centelhas e pedaços por conta do pecado.
Como essas almas uma vez foram parte de Adão, elas são chamadas de "antigas", o que quer dizer que são de uma encarnação anterior. Quando elas vêm no corpo de uma pessoa que depois morre, considera-se, então, que a alma já encarnou duas vezes.
Agora, quando uma alma desse tipo vem a um corpo pela primeira vez, ela tem a capacidade de corrigir apenas uma parte da alma a cada encarnação. Então, no começo, só a porção da Néfesh se corrige. Por exemplo, se a Néfesh era de Malchut da Nucvá de Assiá, então a correção será necessária até que Kéter de Assiá esteja completa. Quando isso é feito, a pessoa morre e volta em um segundo corpo com o Rúach para completar sua correção.
Quando a correção desta parte é completada, a pessoa morre e volta em um terceiro corpo com a Neshamá, para acabar sua correção. Quando isso é feito, essa pessoa também precisará morrer. Nós já explicamos antes que quando o Rúach vem para ser corrigido, ele o faz revestido na Néfesh de um convertido.
O mesmo vale para a Neshamá.
Como um Rúach ou uma Neshamá maculados não podem vir revestidos em uma Néfesh ou Rúach corrigidos, se a Néfesh vem e não completa sua correção, ela precisa reencarnar muitas vezes, tantas quantas forem necessárias, para acabar sua correção.
Depois disso, o Rúach virá em outro corpo com a Néfesh de um convertido e reencarnará por si só muitas vezes, até se completar sua correção. Depois disso, a Neshamá virá por si só em outro corpo ainda, reencarnando muitas vezes, se necessário, até se completar sua correção. Porém, você precisa saber, que se depois de a Néfesh, o Rúach e a Neshamá se corrigirem a pessoa pecar causando uma mácula que exige reencarnação, o mesmo que descrevemos acima se aplica, pois a pessoa só conseguirá corrigir a Néfesh, ou o Rúach ou a Neshamá, uma parte de cada vez.
Ela terá que começar tudo de novo, e ela não poderá vir com as três partes de uma vez.
No entanto, pode acontecer de a pessoa já ter corrigido seu NaRaN ["] até a altura de Atsilut e depois precisar reencarnar; não por sua causa, mas por causa de outra pessoa.
Como ela não pecou nem causou uma mácula, ela pode reter nesta encarnação, mesmo que seja criança ainda, todas as partes que ela atingiu em vidas passadas.
[Este é um caso de almas que reencarnam somente para o beneficio da humanidade].
Esse é o segredo do filho do Rav Hamnuna Saba, mencionado no Zôhar, na Porção Semanal de Balac, e de todas outras crianças fenomenais, extremamente justas e sábias que foram mencionadas no Zôhar. Elas já estavam completas em todo seu NaRaN [ "] por conta das vidas passadas.
[De certa forma, podemos ver em nossa geração também o fenômeno de crianças que nascem com talentos que nem adultos são capazes de adquirir, mesmo depois de muitos anos de estudos e treinamento. Definitivamente, esses talentos são méritos de vidas passadas.]
E eu, Chaim, o escritor, tenho dúvidas sobre o caso em que a pessoa reencarna para si mesma, mas não para corrigir ou retificar um dano causado por um pecado, mas apenas para completar uma falta, [i.e. não por causa da transgressão de um preceito, mas pela necessidade de cumprir e terminar um preceito positivo].
O que acontecerá com esta pessoa?
Agora vamos explicar a diferença entre almas do segundo tipo e do terceiro tipo.
O Rúach do segundo tipo, composto de centelhas de Cáin e Hével, não pode sair das profundezas das Klipot até que a Néfesh tenha se corrigido. Portanto, a correção do Rúach não pode acontecer com ajuda de outra pessoa, mas só por conta da própria pessoa.
Então, ou ela deve morrer, e a Néfesh e o Rúach entram juntos no corpo, como foi explicado anteriormente, ou ela pode usar a meditação do versículo "Minha Néfesh Te tem desejado".
Depois de a Néfesh ter se corrigido ela vai embora e o Rúach entrará sozinho ali para se corrigir, como mencionado antes. O mesmo vale para a Neshamá.
No entanto, as centelhas do terceiro tipo têm uma habilidade diferente. Apesar de elas não poderem atingir todos os níveis em uma vida, elas podem completar sua correção usando meditações específicas na reza de Nefilát Apáim [É uma oração especial recitada nos serviços da manhã e da tarde. Consiste de versículos de súplicas e frases de arrependimento que ajudam no resgate dos níveis da alma].
Estas pessoas com alma do terceiro tipo podem meditar para extrair o seu Rúach das profundezas das Klipot.
Isso funciona mesmo que a Néfesh ainda não esteja totalmente corrigida a ponto de subir pelo segredo das Águas Femininas, e que é atingido através da meditação feita em cima do versículo "A Ti, ó Santíssimo, elevo minha Néfesh."
Assim o Rúach da pessoa pode vir durante sua vida no corpo de outra pessoa, e lá ele vai nascer unido à Néfesh de um convertido. Se a pessoa tiver mérito, é possível fazer com que esse Rúach nasça no seu próprio filho [por essa razão há uma tradição de nomear o filho com o nome do pai, porque o nome é a descrição da origem da alma, ou seja, sua Alma-Raiz].
[Em outras palavras, mesmo quando a pessoa está corrigindo sua própria Néfesh no seu próprio corpo, o Rúach estará simultaneamente sendo corrigido no corpo de outra pessoa que tem a Néfesh de um convertido. Ou se o Rúach nascer no seu próprio filho, o pai e seu filho se corrigirão juntos e podem ajudar um ao outro.
Esse caso pode explicar como às vezes se encontra um filho mais espiritualizado e mais consciente a sábio em assuntos espirituais, do seu pai.]
Através da meditação no Tachanun (Súplicas), só o Rúach pode ser retirado das Klipot antes da correção da Néfesh se completar. Ou seja, esse processo de extrair uma parte mais elevada da alma antes de a Néfesh se completar só se aplica ao Rúach.
Em hipótese alguma a Neshamá pode ser tirada das profundezas das Klipot antes que a Néfesh e o Rúach sejam totalmente corrigidos, e as pessoas que têm a Néfesh e Rúach devem morrer, para que só depois a Neshamá possa encamar para se corrigir.
Existe ainda uma coisa que precisa ser explicada com relação a esse assunto do Rúach e da Néfesh que acaba de ser discutido.
Como ambos podem vir ao mundo em corpos separados, por causa desta meditação no Tachanun, eles são julgados e comparados entre si, com relação a quem termina sua correção primeiro. Se a pessoa que recebeu o Rúach termina sua correção antes da pessoa com a Néfesh, ela se toma a "principal".
Portanto, na época da Ressurreição dos Mortos, a Néfesh e o Rúach vão entrar e ressurgir no corpo dela.
Se, no entanto, a pessoa que possuía a Néfesh acabou a sua correção primeiro, eu não lembro o que foi dito.
No entanto, me parece que eu ouvi da boca de meu mestre que na época da Ressurreição ambas as partes entrarão no corpo da pessoa que tinha a Néfesh, já que ela se tomou a parte principal.
Existe outra vantagem importante com relação à pessoa que pegou o Rúach durante a reza de Tachanun antes de ter terminado a correção de sua Néfesh.
Neste caso, se a pessoa que alçou o Rúach tiver mérito por conta de seus atos, ela pode atrair para si todo o bom de seu Rúach, deixando o mau para a outra pessoa.
Esse é o segredo do versículo "Faz o mal dos ímpios causar-lhes seu fim, e dá firmeza ao justo."
A pessoa cujos atos a tomam perversa acaba atraindo o mal para si mesma. É por isso que está dito "Faz o mal dos ímpios causar-lhes seu fim", enquanto todo o bom é pego pela pessoa justa cujos atos o purificaram. Assim, o justo termina sua correção e recebe toda firmeza, como está dito "dá firmeza ao justo".
É sabido que uma pessoa é a combinação do bem e do mal, de pureza e de klipá.
Às vezes, o mal é maior do que o bem, e ela tem que purificar todo o mal nela, até que o que resta seja completamente bom. O escritor, [Rabino Chaim Vital] disse: Foram essas palavras que eu ouvi de meu mestre, de abençoada memória, embora eu não me lembre da explicação delas inteiramente.
No entanto, me parece que é possível que o mal da Néfesh e do Rúach de uma pessoa venham junto em uma pessoa cujos atos são perversos, e que o bem da Néfesh e do Rúach venham para uma pessoa que purificou seus atos, como mencionado antes.
[A seguir, o Ari vai explicar o medo do rei David (como expresso em Salmos 3:3).
Isto porque a sua Néfesh reencarnou ao mesmo tempo em que o seu Rúach, só que em um corpo diferente.
Como resultado de seu pecado, ele estava com medo de que os méritos de sua Néfesh do seu próprio corpo fossem perdidos e passassem a ser mérito do Rúach em outro corpo, e que, assim, ele não se elevaria no momento da Ressurreição dos Mortos, porque ele absorveria, em troca, todo o mal, resultante dos pecados do outro corpo.]
Sabendo disso, é possível entender o que afligia o Rei David quando ele disse "Muitos são os que dizem de mim (literalmente. de minha Néfesh): Para ele não há salvação do Eterno."
É estranho que as pessoas falassem assim tão mal sobre uma pessoa tão grande quanto o Rei David.
No entanto, para entender isso, nós precisamos nos atentar com precisão ao que está escrito.
Está dito "Para ele", quando deveria estar escrito "Para ela", se a referência fosse à "Néfesh" [que é feminina em hebraico]. Isso será entendido agora com base no que foi dito. Saiba que a Néfesh do Rei David era muito elevada, mas por causa do pecado primordial de Adão, ela desceu às profundezas das Klipot, ficando na Nucvá das Klipot.
Quando David nasceu foi a primeira vez que sua Néfesh saía do mundo das Klipot.
Portanto, ela começou a sua correção a partir do nível de Assiá, que é chamado de Néfesh.
Isso aconteceu porque a sua alma era do terceiro tipo. Esse é o segredo do que foi mencionado no Saba de Mishpatim, e muitos outros lugares, de que David era do "lado feminino" e não do "lado masculino".
Sua alma tinha origem no "Mundo da Morte", que é chamado de Nucvá. Entenda bem isso.
[A alma do Rei David veio de um local extremamente elevado no corpo de Adão e, por causa disso, ele caiu em níveis mais profundos da impureza e das Klipot.
Ele é a carruagem da Sefirá de Malchut (Reino Espiritual), que, em essência, é o aspecto feminino da Árvore da Vida. Mas, como se diz, por causa do pecado de Adão - "Seus pés descem à morte".
Por isso, a alma do Rei David não tinha vida neste mundo e Adão emprestou 70 anos de sua vida para ele poder encarnar. Esta é a profundidade que ele estava nas Klipot - totalmente sem vida. Assim, lá foi perguntado, "Por que ele foi chamado de Oved [o pai de Ishai; que significa o trabalhador]?"
Porque "a árvore tinha falhas, e ele a capinou e a corrigiu."]
Zôhar Mishpatim — par. 177. Oved veio e trabalhava e capinava o tronco e a raiz da árvore. Ishai, seu filho, veio e fortaleceu a árvore e ele se agarrou aos ramos de outra árvore celestial, que é Zeir Anpin (o masculino). E ele conectou uma árvore com a outra, mas elas se entrelaçaram. Quando David apareceu, ele viu que as árvores (Zeir Anpin e Malchut - os aspectos espirituais do masculino e do feminino) estavam entrelaçadas e presas uma a outra, como resultado, ele herdou o governo da terra.
Tudo isso foi causado por Oved.
Par. 179.
Este Oved (trabalhador) foi corrigido e saiu do campo mau de espíritos maus.
Seu filho, Ishai, então veio e capinou ainda mais e estabeleceu a Árvore. Quando o Rei David veio, ele ficou na Árvore Feminina inferior, que é Malchut, e que se refere à árvore do conhecimento do bem e do mal, cujos 'pés descem à morte', e ele teve que receber a vida de outro local, porque dele mesmo não havia nada.
Sua alma estava imersa na profundeza das Klipot, na Nucvá. Já que era esse o caso, David só era capaz de adquirir sua Néfesh, e então o seu Rúach viria no corpo de outra pessoa que viesse nascer. Quando David pecou com Bat-Shéva, ele maculou sua Néfesh e, como resultado disso, a pessoa que tinha o seu Rúach agora possuía a chance de completar a sua correção antes que David retificasse sua Néfesh. E se isso ocorresse, na época da Ressurreição dos Mortos não haveria salvação para o corpo de David.
O outro corpo, da pessoa que tinha o seu Rúach ia receber tanto a Néfesh como o Rúach.
No entanto, neste processo, a Néfesh em si não sofreria nada, apenas o corpo.
É por isso, então, que foi dito "Para ele não há salvação" e não "Para ela [a Néfesh]", pois o versículo fala do corpo, e não da Néfesh. É isso que significa o versículo. "Muitos são os que dizem" que já que só há a Néfesh em mim, ela não tem expectativas nem esperanças de vir no corpo de David na época da Ressurreição dos Mortos. Ainda existe outra explicação para o versículo mencionado acima — "Faz o mal dos ímpios causar-lhes seu fim, e dá firmeza ao justo." Às vezes pode ocorrer da Néfesh de uma pessoa não entrar no corpo de maneira completa e total, ficando com uma boa parte de bem e um pouco de mal, mas com uma pequena parte do bem e a maior parte do mal no corpo de outra pessoa.
Essas duas pessoas, então, se tornam amigas.
Aquela, que ficou com a maior parte do bem, tem a capacidade de atrair todo o bem, para si mesma.
Toda porção do mal é transmitida para a pessoa cuja maioria é má. Sobre a segunda pessoa se diz "Faz o mal dos ímpios causar-lhes seu fim", o que significa que o ímpio, no final, fica com a parte ruim. Sobre a primeira pessoa se diz "Dá firmeza ao justo", já que o Justo recebe a parte boa, no seu conjunto, de modo similar ao que foi dito na primeira explicação.
Também pode ser que ambos estejam equilibrados. Se o primeiro cometer um pecado, e, definitivamente, se o segundo ainda fizer uma boa ação, então este supera aquele, seu amigo. Aí ele começa a atrair para si todo o bem e pouco a pouco ele fica com o bem, sendo que o mal vai todo para a outra pessoa. Com isso é possível entender o que os Sábios queriam dizer quando escreveram "Achav era equilibrado" e quando o texto diz "e todo o exército do céu estava junto a Ele, à Sua direita e à Sua esquerda", se referindo ao Rei Achav.
Isso é surpreendente!
Pois se diz que os pecados mais leves de Achav eram como os piores pecados de Jeroboão.
[O Rei Jeroboão (hebraico. Ierov'am) era um pecador, e ele também fez com que toda a nação de Israel pecasse.
Foi ele que construiu os bezerros de ouro em Bet-El e Dan, e que eventualmente causaram o exílio e o desaparecimento das Dez Tribos de Israel.]
Como, então, os Sábios podiam chamá-lo de "equilibrado", [o que significa que os seus méritos e seus pecados eram equilibrados]? O que acontece é o seguinte:
Com relação a seus atos, estes não eram equilibrados, mas se inclinavam na direção da culpa.
No entanto, no aspecto de sua Néfesh, esta era equilibrada, sendo metade boa e metade má.
Apesar [de o mal] do aspecto do seu Rúach, às vezes, o dominava e venerava ídolos, ainda assim a Néfesh em si era metade boa e metade má. É por isso que o Santíssimo não o rejeitou completamente, mas, pelo contrário, queria que ele se arrependesse, pois ele poderia fazer o bem. E é por isso que Elias (hebraico. Eliahu), o Profeta, ia atrás dele, para fazer com que ele se arrependesse e se corrigisse.
Isso ocorreu até o incidente de Navot, o Izreelita. [O Rei Acabe (heb. Achav) foi o sétimo rei do Reino do Norte de Israel. Sua esposa, a rainha Jezabel, era a bela filha de Etbaal, o rei-sacerdote de Tiro (Tiro é uma cidade costeira no atual Líbano). A cultura de Tiro, de onde ela veio, era de adorar ídolos, ou múltiplas divindades, representadas por imagens físicas.
Foi ele quem levou os israelitas à idolatria, apesar de todas as tentativas do profeta Eliahu de detê-lo.
O Talmud, no Tratado de San'hedrin, ensina que o Tribunal Celestial se reuniu para decidir o que fazer com o Rei Achav. Os anjos que estavam à esquerda foram os promotores exigindo punição. Os anjos que estavam à direita foram defensores, lembrando seus méritos. O Ari traz o ensinamento do Talmud de que o Rei Achav era equilibrado (metade bom metade mau) e que ele tinha a capacidade de se arrepender e retificar todos os seus pecados, até o momento em que ele assassinou Navot Haizraeli (o Izreelita) quando ele se recusou a vender ao rei a sua vinha, que ficava ao lado do palácio real de inverno (1 Reis 21). Foi o espírito de Navot que fez pender a balança de julgamento contra Achav, e o que o levou à sua queda. (Ibid. 22)]
Continua