Portal das Reencarnações

Isaac Luria · Capítulo 18 de 35

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Portal das Reencarnações

Portal das Reencarnações – Parte 19

Introdução 19

[Nesta introdução o Ari explica a principal diferença entre a criação dos anjos e a das almas.]

Já explicamos em outro local (no livro Ets Chaim), quando falamos das raízes das almas dos anjos, de sua criação e quais são as diferenças entre eles e os homens, que os anjos saem do "Acasalamento [hebraico: Zivug] dos Beijos" Superior [Literalmente, "Acasalamento dos Beijos" Superior. Se refere à união de Chochmá e Bina] e os seres humanos saem do Zivug Inferior de Iessód.[Encontro mais baixo na Árvore da Vida, de lessod e Malchut]

As almas dos seres humanos são criadas pela passagem da Luz do Criador, na forma de sêmen, de Iessód - o aspecto masculino - para Malchut - o aspecto feminino, enquanto os anjos são criados sem esse processo. E ali foi esclarecido em quantos níveis foram divididos. E dessa forma sabemos que há diversos níveis nas raízes das almas, de uma maneira infinita.

E alguns tipos de almas foram criados de um Zivug no Mundo Superior, mas foram descendo por causa do pecado [literalmente: da mácula - referindo-se à macula causada pelo pecado original de Adão e Eva]. No entanto, sua descida não foi igual, pois algumas desceram um nível, outras dois etc.

Ou seja, existem diversos tipos de descida pelas quais uma alma pode passar por causa do pecado.

E eis que temos duas divisões: A primeira é a dos tipos de alma que desceram por causa de uma mácula e que ao chegar a esse mundo foram para o nível de alma ao qual ela desceu.

E a segunda é quando a alma desce a esse mundo, mas sua raiz fica no mesmo nível ao qual sua raiz estava ligada quando se encontrava nos mundos superiores.

Por causa dessa diferença, as leis que se aplicam a elas são distintas. No entanto, a principal correção disso se dá de noite, pelo 'depósito da Néfesh', quando a pessoa, ao se deitar, recita "Em Tua Mão confiei meu espírito," para que assim a alma suba em um Zivug mais elevado e volte a sair daquele local como uma 'nova criação', pelo segredo do "Renova-se a cada manhà."

É assim que essa alma pode subir de grau em grau até que atinja a sua raiz de fato e se complete.

Porém, isso também pode acontecer de dia, durante a oração de Nefilat Apáim [e reza de Tachanun], meditando sobre o versículo "A Ti, ó Adonai, elevo minha Néfesh."

E fazendo isso a alma pode subir grau após grau conforme seus atos, até chegar à sua raiz de fato, como mencionamos.

E isso vale para a alma que era de um nível superior e desceu a um inferior por causa da mácula, como mencionado. Um exemplo disso poderia ser de uma alma que é do mundo de Atsilut e que por causa da mácula desceu até o mundo de Assiá, e de lá saiu para vir a esse mundo no corpo de um ser humano.

Nesse caso, através dos seus atos, ela tem a capacidade de se corrigir e de subir até atingir Atsilut novamente e fazendo isso ela voltará a vir de lá, do próprio Zivug de Atsilut.

E isso pode ser feito ao longo da vida da pessoa, quando então ela não precisa mais reencarnar para se corrigir.

E a sua subida pode se dar de dia, por meio de Nefilat Apáim da oração matinal [Shacharit], como foi dito, pois nesse momento acontece o Zivug de Iaacov com Raquel (hebraico: Rachel), [o Acasalamento de Zeir Anpin e Malchut], que é chamada de "Dona (literalmente: a pessoa principal) da Casa", porque ela é a décima Sefirá de Atsilut, e a principal Sefirá das dez de Atsilut, como nos é explicado.

Mas a alma cuja raiz vem de um nível inferior e agora, por meio de seus bons atos, quer subir acima do local de sua raiz, não atinge uma elevação tão grande como a alma que já tem uma raiz elevada, que desceu e que agora volta a subir.

Sendo assim, essa alma só consegue subir de noite, por meio do versículo "Em Tua Mão confiei meu espírito," como dissemos anteriormente. Nesse momento ocorre o Acasalamento de Iaacov com Léa, que não faz parte das dez Sefirot, mas apenas do aspecto das Costas de Malchut de Tevuná, como é sabido.

Por isso, embora a raiz da alma não seja muito alta, a pessoa pode fazer a sua alma subir e entrar em reinos mais elevados das Sefirot ao subir e entrar pela "porta dos fundos".

Léa estava destinada a se casar com Eissav, mas por conta do seu constante chorar e implorar, ela mudou seu destino e se casou com Iaacov. Seu casamento com Iaacov alude ao acasalamento de Zeir Anpin com Biná [ou seja, com Léa], que é um acasalamento maior do que o de Zeir Anpin com Malchut [ou seja, com Rachel]. É um acasalamento de compaixão e de misericórdia, enquanto o outro é um acasalamento do Julgamento.

Portanto, um grande esforço é necessário para merecer esta misericórdia e superar a força de julgamento.

O que há de similar em ambos os casos é que ambos os tipos de almas conseguem subir através de seus atos grau após grau, de modo infinito. Para tanto, basta que as pessoas dirijam seu coração a isso e tenham sua intenção focada nisso.

(Adendo: Shmuel disse: Como eu notei que existe certo interesse no assunto dos anjos, eu vou escrever uma pequena introdução sobre o assunto mencionado, que é conforme segue:

Saiba que os anjos de Beriá possuem uma virtude maior do que a da alma dos justos, que são do mundo de Ietsirá.

E, sendo assim, os anjos de Ietsirá, são mais elevados do que as almas de Assiá. Mas as almas de Beriá são mais elevadas do que os próprios anjos de Beriá e ainda mais do que os anjos de Ietsirá.

E o mesmo vale para Ietsirá e Assiá.

Ainda existe um detalhe no assunto que foi tratado que é o seguinte: as almas de Kéter de Beriá são mais elevadas do que os anjos de Kéter de Beriá. Mas os anjos de Kéter de Beriá são mais elevados do que as almas de Chochmá de Beriá. E isso se aplica a todos os outros particulares de modo infinito).

Continua

Portal das Reencarnações – Parte 20

Introdução 20

[Nesta introdução o Ari explica o assunto das almas-gêmeas em relação ao acasalamento.

As mulheres não têm de reencarnar, só por causa da sua alma-gêmea masculina.

Mas nem sempre o homem merece encontrar e se casar com sua alma-gêmea feminina.

A correção dos estudiosos da nossa geração, que são almas reencarnadas da geração do deserto, em relação às suas esposas, por causa do pecado do bezerro de ouro.

A morte desaparecerá assim que todas as almas que caíram no Adam Blial (Adão de Impureza) alcancem a correção.]

Este capítulo trata da alma gêmea do homem.

Já explicamos anteriormente se a encarnação se aplica às mulheres ou não. E os nossos Sábios, de abençoada memória, falaram no primeiro capítulo de Sotá, sobre o versículo "Ele faz reencontrar um lar aos abandonados; no tempo apropriado liberta os cativos", porque existe o 'primeiro' e o 'segundo acasalamento'.

Quando eles falaram que arranjar casamentos é tão difícil quanto separar o Mar Vermelho, isto se refere ao segundo acasalamento. No entanto, saiba que entender o primeiro acasalamento e o segundo não é tão fácil, pois vemos que em alguns casos o segundo tipo é melhor do que alguns do primeiro.

Mas a questão ficará clara com o que está escrito no Saba de Mishpatim do Zôhar, sobre o versículo "Se ele tinha mulher, sua mulher sairá com ele." O que acontece é que quando o homem é novo, o que significa dizer que é a primeira vez que ele vem a esse mundo, sua alma gêmea nasce com ele, como é sabido.

E quando chega a hora de casar com ela, tudo acontece de maneira casual, sem nenhum incômodo ou esforço.

No entanto, se esse homem cometeu algum pecado e precisou reencarnar por isso, quando chegar o momento de ficar com sua alma gêmea, isso não se dá de maneira tranquila, mas só depois de muita aflição. Isso vale ainda que ele seja do tipo sobre o qual está dito "sua mulher sairá com ele" conforme o Saba de Mishpatim, ou seja, ainda que trate do caso em que ele reencarna junto com sua alma gêmea e a mulher reencarna com ele para o seu bem.

Isso ocorre assim, pois como ele reencarnou por causa de algum pecado, existem adversários nas Alturas que querem separá-la dele, e provocar brigas entre os dois.

É sobre esse caso que falaram que unir casais é tão difícil quanto separar o Mar Vermelho, porque ele é chamado de 'segundo acasalamento'. Ou seja, ela é sua alma gêmea verdadeira, só que ela se casou com ele anteriormente, e agora, nessa encarnação, se fala de um 'segundo acasalamento', pois a mulher propriamente dita é a mesma da primeira vez, mas o acasalamento é o `segundo'.

E por isso não falaram de "segunda" alma gêmea, no feminino, mas de "segundo" acasalamento, no masculino, pois se trata de um segundo casamento.

E com isso ficará claro para você por que algumas vezes um homem se casa com sua mulher sem absolutamente nenhuma aflição ou briga, e às vezes se casa com sua mulher só depois de conflitos enormes. Depois que ele se casa com ela, eles vivem em paz e em quietude. Isso é indicativo de que são almas gêmeas reais, mas que se trata de um "segundo acasalamento".

E se ela não fosse sua alma gêmea não haveria paz entre eles depois de terem se casado.

[Neste caso, uma mulher que é mais adequada para ele do ponto de vista do seu processo de correção foi selecionada para se casar com ele.] Então daqui vemos que a reencarnação acontece com homens, mas não com mulheres, pois as mulheres expiam seus pecados no Guehinóm, no Mundo Vindouro.

Não é isso que ocorre com os homens que estudam Torá, como já foi explicado em outros ensinamentos.

(Adendo: Shmuel disse: "Esse é um segredo que está bem guardado comigo: O versículo 'Vê que El [o Santíssimo] pratica tudo isto duas, e mesmo três, vezes para com o homem' é o segredo da reencarnação, pois está escrito "com o homem" e não "com a mulher"!). Prova disso é que o segredo da reencarnação está aludido na letra Vav, que representa as Seis Extremidades, e sobre as quais se disse "servirá por seis anos," e como foi mencionado no Zôhar, na Porção Semanal de Finéias [hebraico: Pinchás], e no Raia Mehemna (o Pastor Fiel), que a letra Iud alude a uma roda e a letra Vav a transforma em uma encarnação. [Roda se diz "Galgai" - , com o Vav, se torna "Guilgul" -  , que significa "reencarnação"]

(Adendo: Shmuel disse: Parece-me, na minha humilde opinião, que a letra Iud mencionada aqui é a última letra do nome — ”- Adonai. E Guilgul (reencarnação em hebraico), que tem valor numérico de 66, equivale a este nome, que tem valor de 65, mais a unidade [da própria palavra], totalizando 66).

Ainda nesta lógica, no sétimo ano, que é representado pela Sefirá feminina, Malchut, não há reencarnação, como está dito "E no sétimo ano estarás livre."

No entanto, às vezes a mulher também pode reencarnar, se for por causa do seu marido, que foi forçado a encarnar.

Neste caso, trazem a sua mulher junto com ele, como foi dito no Saba de Mishpatim sobre o versículo "Se o marido tinha mulher, sua mulher sairá com ele".

Saiba também, que a respeito de quem era um estudioso da Torá e famoso na sua geração por sua maravilhosa sabedoria, mas pecou e voltou a reencarnar - existem dois tipos de pecados pelos quais ele agora vai perder toda sua sabedoria, e ela não será reconhecida em sua próxima encarnação. [O Rabino Isaac Luria não cita que pecados são estes]. E saiba, que todos os que estudam Torá nessa geração atual são do aspecto das pessoas da geração do deserto, sobre as quais se disse "Como nos dias de tua saída da terra do Egito, mostrar-lhe-ei coisas maravilhosas!", e como foi explicado por nós sobre o versículo "Eis que tu repousarás com teus pais, e este povo se levantará."

[Este versículo refere-se à reencarnação futura dessa geração.] E é por isso que as esposas desses homens os dominam, porque naquela época, quando o Erev Rav fez o bezerro de ouro, estes homens não protestaram [como é mostrado em Êxodo 32:3.], mas as mulheres, por outro lado, se opuseram a dar seus objetos de ouro para construir o bezerro.[Isto nos é dito pela tradição oral do Midrash.] [Erev Rav significa "grande mistura" e se refere aos outros povos que 'se misturaram' com os Filhos de Israel e saíram do Egito no Êxodo. Além disso, o nome mostra que eles eram uma 'mistura' de povos, um grupo sem uma identidade específica].

Como resultado disso, concluímos que parte da consciência de Erev Rav se misturou com as almas de Israel.

Do fato de que Israel não se opôs ao Erev Rav quando do pecado, isso fez com que suas almas se contaminassem por serem considerados cúmplices, e, portanto, elas sofrem as mesmas consequências. Por isso, agora, elas [as esposas deles] vêm com domínio sobre eles. Se em uma geração duas almas de uma mesma raiz encarnarem em dois irmãos ou em dois amigos, ambos se odiarão e terão inimizade entre si. E isso se dará de modo inconsciente, será algo da natureza de ambos. É isso o que significa "Apesar de eles não verem, seu Mazal [neste caso, anjo guardião ou anjo guia] vê". Isso ocorre por ambos quererem se nutrir da mesma raiz, um mais do que o outro.

Por isso, eles têm inveja um do outro e competem entre si. Porém, se, por ventura, eles conseguirem reconhecer através do Espírito Divino que ambos são da mesma raiz, eles passarão a se amar. E saiba que isso só ocorre quando ambos estão vivos nesse mundo. Mas quanto às almas dos justos que já morreram, elas desejam e anseiam muito corrigir, beneficiar e completar a correção das almas que estão nesse mundo e que são da mesma raiz que elas.

Como não há o que estes justos possam fazer para se completar ainda mais [porque somente com um corpo físico a alma consegue realizar ações], a inveja não serve para nada.

E é isso que está expresso no versículo: "na tumba para onde te diriges não há feitos nem registros, sabedoria ou conhecimento." O que se dá é justamente o contrário, pois eles obtêm uma grande vantagem das boas ações feitas pelas pessoas vivas que vêm da mesma raiz deles.

Saiba também que já foi explicado em outros ensaios que por causa do pecado de Cáin e Hével todas as almas se misturaram no Mundo das Klipot, e isso é chamado de "Mistura do Bem dentro do Mal". [Isto pode ser visto como a principal razão para a confusão e o caos em nossas vidas, já que perdemos a clareza de escolher entre o bem e o mal.] E daí em diante se iniciou um processo em que as almas começaram a purificar e se libertar [do mundo] das Klipot, do mesmo modo que se pode limpar a prata de suas impurezas.

[Este processo de refinamento que ocorre com as almas no mundo espiritual pode causar muita dor e sofrimento para o homem no mundo físico.]

E esse processo de purificação continuará ocorrendo até que consigam se soltar todas as almas que caíram nos 248 órgãos do Adão Impuro [Adam Blial].

Ou seja, o processo continua até que consigam se libertar completamente todas as almas, restituindo sua altura original, até chegarem ao local que vai até os pés do Adão de Santidade, contando a partir dos pés do Adão da Klipá.

E isso está aludido pelos nossos Sábios, de abençoada memória, no Zôhar, Porção Semanal de Pecudê: "Até os pés (das Klipot) atingirem os pés (da Santidade)".

E também está escrito "Naquele dia, Seus pés estarão postados sobre o Monte das Oliveiras."

E quando todas as almas se libertarem completamente do Adão da Klipá, que é a escória, ele não precisará ser destruído pelas almas por meio de um ato, mas ele mesmo vai ruir, a ponto de não ser mais visto e as Klipot não serem mais encontradas no mundo.

Isso ocorre, porque nesse momento, a Santidade, que é a vida, se diferenciará da Escória, chamada de Morte.

E elas não terão mais sustento e desaparecerão igual a fumaça. É por isso que está dito "Afastará [literalmente: engolirá] a morte para todo o sempre."

E isso só acontecerá quando todas as almas se purificarem. Por isso nas iniciais em hebraico de "Afastará a morte para sempre" — temos as mesmas iniciais de " - Hêvel. Isso indica que a encarnação de Hével, que é a mesma alma de Moshé, nosso Mestre, que a paz esteja com ele, vem reencarnando em todas as gerações para purificar as almas da Escória, até que elas se completem.  Isso indica que quando vier o Messias, a morte será eliminada para todo o sempre.

E daqui ficará claro o versículo "Eis que tu repousarás com teus pais, e este povo se levantará", que é considerado uma das partes da Bíblia que não tem explicação definida.

A dificuldade é que a palavra "levantará" pode ser lida como ligada à parte anterior ou posterior do versículo.

E ambas as interpretações são corretas, pois, no futuro, o próprio Moshé voltará como encarnação na última geração e "levantará", como está escrito: "Eis que tu repousarás com teus pais e levantará". E também na última geração reencarnará toda a geração do deserto junto com a Êrev Rav, e por isso "e este povo se levantará". [O Ari esclarece a dificuldade dos comentários dos Sábios em relação ao verbo "se levantará", que pode se referir tanto a Moshé como ao povo.] E o assunto é, então, que não existe sequer uma geração à qual Moshé, nosso Mestre, de abençoada memória, não retorne, como está aludido no segredo de "Nasce o sol, depois se põe, e se apressa a voltar ao lugar onde de novo virá a nascer."

Isso quer dizer que "Vai-se uma geração e vem uma outra" para corrigir algo da geração anterior.

E até a geração do deserto, toda ela junto com a Êrev Rav, reencamará na última geração, [o que está aludido em] "Como nos dias de tua saída da terra do Egito."

E Moshé se levantará entre eles, pois todos eles são do segredo de Dáat: Moshé, a Geração do Deserto e também a Êrev Rav, como foi explicado na Porção Semanal de Shemot.

[Sefirá de Daát, que significa Conhecimento. Na Árvore da Vida fica entre Chochmá (Aba — Pai Supremo) e Bina (Ima — Mãe Suprema).] E é por isso que depois o versículo diz "ali (hebraico: Shama — ) na terra em que vão entrar", que, em hebraico, tem as mesmas letras de ” (Moshê - Moisés), indicando que ele reencarnará com eles, como foi dito.

E esse é o segredo de por que todos os Sábios desta geração são dominados por suas mulheres, porque eles são da geração do deserto e suas mulheres não quiseram dar as suas joias de ouro para a construção do bezerro.

E os homens pecaram quando deram os seus pertences para fazer o bezerro.

Shmuel disse: Explicamos isso antes, veja anteriormente.

Saiba também que o bem de todas as almas, por causa do pecado de Adão, se misturou com o mal.

Por conta disso, às vezes pode acontecer de um pouco do bem da alma de um justo se encontrar no perverso e um pouco do mal do perverso se encontrar no justo.

E com isso fica fácil entender o que foi dito sobre o fato de que "às vezes, ao justo acontece o que lhe caberia se malévolas fossem todas as suas ações."

E por isso vemos (confira a Introdução 27) alguns justos que transgridem alguma lei específica e falham em um ponto onde nem um perverso falharia.

E também o oposto: existem algumas pessoas totalmente perversas que cumprem alguns preceitos específicos e ficam protegidos por todos os dias de sua vida.

E com isso também fica entendida a divisão de pessoas entre justos completos, perversos completos e intermediários. Tudo depende das centelhas boas que há na pessoa e das centelhas más que há nela.

E mais do que isso, o modo com que a pessoa peca ou cumpre preceitos varia conforme a qualidade do aspecto das centelhas que houver na pessoa, bem como de qual órgão é a fonte de sua raiz, se ela é do bem ou do mal. É isso que faz a pessoa desejar e ansiar o cumprimento dos preceitos ou dos pecados, dando preferência a um deles e tentando cumpri-los sempre. [Aqui temos outro exemplo de como o homem nunca deve julgar seu companheiro, pois nunca sabemos o que está acontecendo em relação à sua alma. Nós julgamos os outros por aquilo que vemos e percebemos através de nossos cinco sentidos, enquanto as leis espirituais do universo e da criação são perfeitamente justas. Isso faz alusão ao versículo em Deuteronômio 29:28 - "As coisas ocultas pertencem a Adonai, nosso Elohim..."]

E por isso no Bahir foram tão rigorosos sobre isso, dizendo que o homem precisa ir atrás dos perversos para fazer com que ganhem méritos, como se fossem atrás da própria vida, etc.

E isso significa que quando o justo vai atrás do perverso pelo bem desse, talvez ocorra desse perverso ter aquelas centelhas boas que o justo perdeu, e as centelhas ruins do justo podem ter vindo daquele perverso. E por meio da associação dos dois com amor e carinho, o bom que há naquele [no perverso] será retirado dele e dado ao outro [ao justo]. Assim o primeiro ficará com todo o bem, sendo que o segundo ficará com todo o mal.

E esse é o segredo do famoso dito que fala que o justo adquire a sua parte e a parte do seu amigo no Jardim do Éden, enquanto que o perverso adquire a sua parte e a parte do seu amigo no Guehinóm. E é esse o significado de: "Se teu inimigo estiver esfomeado, dá-lhe de comer."[Um bom exemplo disso é Moshé e Balaão (hebraico: Bilám)]. O que os Sábios, de abençoada memória, ensinaram é que o versículo "Quando vires o asno daquele que tu odeias" se refere justamente ao perverso, que é um preceito de odiá-lo.

Conforme o que se diz: "Repudio os que Te odeiam." Aqui se trata do perverso que odeia ao Santíssimo, bendito seja. E o próprio texto diz: "Se teu inimigo estiver esfomeado, dá-lhe de comer," que nossos Sábios explicaram se tratar das centelhas do bem que há nele. O texto fala fazer o bem, por isso "dá-lhe de comer pão", que é o pão da Torá e dos Preceitos.

E o mérito do justo que faz isso é que por meio disso as centelhas do mal que houverem nele são transferidas para o perverso e com ele se associam, saindo dele próprio.

[O justo remove o mal dele e passa para os ímpios, enquanto o 'alimenta' com Torá e Mitsvot com a condição de ajudá-lo a realizar Teshuvá.] Esse é o significado de "E o cabrito levará sobre si todas as suas iniquidades."

Isto é, as centelhas do bem que saírem dele, o Santíssimo, bendito seja, colocará em você, te completando, e verá que ficarás completo em bem, enquanto ele estará completo em mal.

E os Sábios, de abençoada memória, ensinaram que não se deve ler "Ele te compensará", mas sim "Ele te completará," pois se sabe que o Santíssimo, bendito seja, é bom e não associa o Seu nome ao mal. Isso está conforme o que está escrito: "porque se sentirá como se pusesses brasas sobre sua cabeça."

[o nome do Santíssimo não aparece no versículo]. Mas com o bem Ele associa o Seu nome, como está escrito: "e Adonai te compensará," como foi dito, que é Ele que faz esse bem.

Continua