Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 1 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

1.Introdução

 

(Cleber Galvão & José Jurberg)

 

“Tivemos informações da existência ali do hematófago,

denominado Barbeiro pelos naturais da zona, que habita os

domicílios humanos, atacando o homem à noite... ”

 

“De regra, é o hematófago visto em maior abundância nas

habitações pobres, nas choupanas de paredes não rebocadas e

cobertas de capim.”

(Carlos Chagas, 1909)

 

Histórico

 

O primeiro triatomíneo foi descrito formalmente em 1773 por De

Geer, como Cimex rubrofasciatus (Figura 1.1). Posteriormente a

espécie foi transferida para o gênero Triatoma passando a ser

chamada Triatoma rubrofasciata.

Figura 1.1: Macho de Triatoma rubrofasciata (De Geer, 1773) a

primeira espécie formalmente descrita (como Cimex rubrofasciatus).

 

O contato dos seres humanos com esses insetos, entretanto, é

bastante anterior à descrição de De Geer. O primeiro relato

conhecido sobre o aspecto e os hábitos de um triatomíneo data de

1590 e foi feito pelo padre Reginaldo de Lizárraga, quando fazia

uma viagem de inspeção a conventos do Peru e Chile: “esses

insetos que têm medo da luz mas que, tão logo chega à escuridão,

vêm das paredes ou se deixam cair do teto sobre o rosto ou a

cabeça dos que dormem”. Darwin em sua célebre viagem pela

América do Sul a bordo do “Beagle” também teve a oportunidade de

observar esses insetos na Argentina, fazendo o seguinte relato: “Um

que eu peguei em Iquique, (eles são encontrados no Chile e Peru,) estava muito vazio. Quando colocado em uma mesa e cercado por

pessoas, se um dedo fosse apresentado, o inseto corajoso projetava

seu aparelho sugador imediatamente e, se permitido, sugava

sangue. Nenhuma dor era causada pela ferida. Era curioso observar

seu corpo durante o ato de sugar, como em menos de dez minutos

mudava de plano de uma bolacha para uma forma globular ...”.

Muitos outros viajantes e naturalistas também fizeram referências a

esses insetos, já mencionando sua presença nos domicílios e sua

voracidade (Darwin 1871, Lent & Wygodzinsky 1979, Galvão 2003).

 

Em 1907, o médico brasileiro Carlos Chagas viajou a pedido do

sanitarista Oswaldo Cruz para o norte do Estado de Minas Gerais

para controlar um surto de malária que acometia os operários da

Estrada de Ferro Central do Brasil. O jovem médico, de 28 anos,

deslocou-se então para a região de Lassance. Decorrido um ano de

sua presença na região, após controlar o surto de malária, Chagas

“conheceu” um inseto hematófago vulgarmente chamado de

“barbeiro” que lhe foi “apresentado” por Cantarino Mota, o chefe da

comissão de engenheiros. Alertado para a presença desses insetos

no interior das habitações humanas da região, resolveu investigar a

possibilidade de eles transmitirem algum parasito ao ser humano, já

que além da malária, encontrou quadros de difícil interpretação, pois

a população se queixava de incômodo “baticum” e apresentava

arritmias, sinais de insuficiência cardíaca, sendo a morte súbita

inexplicável. Examinando os “barbeiros” encontrou flagelados em

seu intestino, acreditando tratarem-se de formas de Trypanosoma

minasense, que infectava saguis da região. Enviou alguns barbeiros

para Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, para que fossem alimentados

em saguis (Callithrix penicillata) livres de infecção. Após algumas

semanas voltou ao Rio de Janeiro verificando se tratar de um novo

Trypanosoma no sangue de um dos animais. Em homenagem ao

seu mestre, denominou-o Schizotrypanum cruzi, nome

posteriormente trocado para Trypanosoma cruzi. Retornou então

para Minas Gerais para tentar identificar o hospedeiro vertebrado do

parasito. Após numerosos exames de sangue humano negativos,

encontrou um gato infectado. Cerca de 30 dias após, voltou à casa

onde havia encontrado o animal infectado e encontrou uma menina febril e nela encontrou formas circulantes do T. cruzi (Coutinho &

Dias 1999).

 

Entre 1909 e 1912, Chagas descreveu uma nova enfermidade, seu

agente etiológico, seus reservatórios naturais e seu transmissor, fato

inédito na medicina mundial até os dias de hoje, e um marco na

história, já que a descoberta foi feita na sequência inversa do que é

usual, pois a descoberta das doenças geralmente antecede a de

seus agentes causais. A descoberta de Chagas lhe valeu em 1912 o

prêmio Schaudinn, concedido pelo Instituto de Moléstias Tropicais

de Hamburgo, Alemanha (Chagas Filho 1968, 1993).

 

Durante mais de um século, desde a primeira descrição de De Geer,

os triatomíneos foram estudados de um ponto de vista puramente

entomológico. Porém, a partir de 1909, quando Chagas descobriu

que eram os vetores de uma nova tripanossomíase, que mais tarde

levaria o seu nome, adquiriram um interesse médico sanitário muito

grande, despertando a curiosidade de vários pesquisadores que

passaram a estudá-los (Neiva & Lent 1936, Abalos & Wygodzinsky

1951, Lent & Wygodzinsky 1979).

 

Os vetores da doença de Chagas recebem diversos nomes

vulgares, que variam de acordo com as regiões ou países onde são

encontrados. Muitos desses nomes estão relacionados ao

comportamento desses insetos. O termo “vinchuca”, amplamente

usado no Chile, Argentina e Uruguai é derivado do Quéchua, antiga

linguagem indígena, e pode ser traduzido como “aquele que se

deixa cair”, referindo-se talvez aos insetos que caem do telhado de

casa para alcançar os hospedeiros abaixo. No Brasil o nome mais

conhecido é “barbeiro”, denominação dada provavelmente devido

aos hábitos noturnos desses insetos, que picam geralmente no

único local desprotegido do corpo do ser humano adormecido, o

rosto. Embora aceita pela maioria dos autores, existe uma outra

versão na qual o nome “barbeiro” seria uma referência à prática da

sangria, realizada por esses profissionais no passado (Rezende &

Rassi 2008). Além dessa há diversas outras denominações

regionais. No Sudeste e Centro-Oeste são conhecidos como percevejo do mato, percevejão, vum- vum e cascudo (essa última