Vetores da doença de Chagas no Brasil
5. Morfologia dos ovos e ninfas
(Dayse da Silva Rocha & Carolina Magalhães dos Santos)
“... assim devemos nos aventurar no estudo de todos os tipos
de animais sem hesitar, pois cada um e todos revelarão para
nós algo natural e belo.”
(Aristóteles, Partes dos Animais, I).
*Os desenhos esquemáticos utilizados neste capítulo foram
reproduzidos de Lent & Wygodzinsky (1979).
A importância do conhecimento dos ovos dos triatomíneos foi
ressaltada por Pinto (1924) ao descrever a morfologia e a coloração
dos ovos de Triatoma brasiliensis, conseguindo diferenciá-la de
outras espécies de barbeiros existentes no Brasil. As primeiras
descrições de estádios ninfais foram feitas por Pinto (1927) que
destacou principalmente estruturas do rostro, inserção das antenas
e morfologia do tórax e com isso elaborou uma chave para
identificação dos gêneros de triatomíneos. Posteriormente, Galliard
(1935) mostrou que o exócorio dos ovos dos triatomíneos têm em
sua superfície externa uma arquitetura peculiar que permitiu a
diferenciação entre as espécies Rhodnius prolixus, Triatoma
vitticeps, T. dimidiata, T. rubrovaria e T. protracta. A partir daí, muitos
autores passaram a dedicar mais atenção ao estudo destas
estruturas. Foi o caso de Usinger (1944), que utilizou principalmente
caracteres morfológicos e cromáticos das ninfas de 5º estádio, para
elaborar uma chave de identificação de alguns gêneros. Esta chave
foi posteriormente ampliada com a inclusão das ninfas de 1º estádio
e publicada por Lent & Wygodzinsky (1979).
Abalos & Wygodzinsky (1951), ao estudarem ovos e ninfas dos
triatomíneos da Argentina, observaram diferenças entre as espécies
Psammolestes arthuri, Panstrongylus megistus, T. rubrofasciata, T.
infestans, T. platensis, T. eratyrusiformis, T. sordida, T. guasayana, T. patagonica, T. rubrovaria e T. delpontei e, a partir daí, montaram
uma chave dicotômica que possibilitava a identificação destas
espécies por meio da ornamentação dos ovos.
Barata (1981) fundamentando-se nas características do exocorio e
do opérculo dos ovos, mostrou ser possível empregar as estruturas
e ornamentações como caracteres diagnósticos das espécies do
gênero Rhodnius, preparando uma chave para identificação que
incluiu dez espécies. Durante os anos seguintes, o estudo das
ninfas limitou-se principalmente a descrições isoladas ou no máximo
comparações entre duas espécies afins, até que Galíndez Girón et
al. (1998) atualizaram a chave de gêneros publicada por Lent &
Wygodzinsky (1979) excluindo apenas o gênero Hermalentia em
decorrência da indisponibilidade de espécimes para estudar.
A microscopia eletrônica de varredura (MEV) tem se mostrado uma
importante ferramenta para uso na taxonomia, pois auxilia na
observação e análise de novas estruturas. Particularmente no
estudo das fases imaturas a utilização desta técnica vem se
mostrando útil na diferenciação de espécies afins por permitir a
observação de detalhes da anatomia externa dos triatomíneos que
não podem ser vistos na microscopia convencional (Silva et al.
1999, 2002, 2003, 2005, 2010, Naegele et al. 2003). Barth & Muth
(1958), foram uns dos precursores na utilização da MEV,
identificando nas ornamentações da superfície dos ovos caracteres
diagnósticos para as espécies brasileiras de maior importância
epidemiológica na época (P. megistus, T. infestans, T. sordida, T.
brasiliensis, T. vitticeps, R. prolixus e R. neglectus). Carcavallo et al.
(1978), utilizaram MEV para estudar a morfologia dos triatomíneos
e, desta forma, descreverem ninfas de 2º, 3º e 4º estádios de
Alberprosenia goyovargasi evidenciando estruturas diagnósticas na
diferenciação entre os estádios imaturos. Lent & Wygodzinsky
(1979), também fizeram uso de MEV para o estudo da morfologia
dos triatomíneos enfatizando algumas estruturas cuticulares, sulco
estridulatório e tricobótrias. Esta ferramenta mostrou aplicações
práticas com a publicação da chave de identificação das espécies
do gênero Rhodnius baseada em caracteres dos ovos (Barata, 1981). A partir de então uma série de trabalhos utilizando tanto
microscopia ótica quanto microscopia eletrônica de varredura vem
sendo desenvolvidos por diversos autores (veja Tabela 5.1)
Tabela 5.1 - Sumário dos trabalhos dedicados à morfologia de ovos
e ninfas de triatomíneos encontrados na literatura no período de
1975 a 2010.
Espécies Enfoque Referência
Alberprosenia Descrição das ninfas Carcavallo et
goyovargasi de 2º, 3º e 4º estádios al. 1978
(MO)* e visualização
de estruturas por meio
de MEV*
A. malheiroi Descrição dos ovos e Carcavallo et
ninfas (MO) e al. 1995
visualização de
estruturas por meio de
MEV
Belminus herreri Descrição (MO) e Rocha et al.
morfometria 2005
geométrica das ninfas
Cavernicola Descrição dos ovos e Costa et al.
lenti ninfas (MO) e 1991
visualização de
estruturas por meio de
MEV
Dipetalogaster Descrição dos ovos e Jurberg et al.
maxima ninfas (MO) e 1993
visualização de
estruturas por meio de
MEV
Linshcosteus Descrição dos ovos Haridass
confumus (MO) e visualização de 1986
estruturas por meio de
MEV
L. costalis Descrição dos ovos Haridass
(MO) e visualização de 1986
estruturas por meio de
MEV
L. karupus Descrição dos ovos e Galvão et al.
ninfas (MO) e 2005
visualização de
estruturas por meio de
MEV
Meccus Morfologia, Obara et al.
picturatus morfometria e 2007
histologia dos ovos González et
Estudo do exocório de al. 2009
ovos eclodidos
M. phyllosomus Morfologia, Obara et al.
morfometria e 2007
histologia dos ovos González et
Estudo do exocório de al. 2009
ovos eclodidos
M. longipennis Morfologia, Obara et al.
morfometria e 2007
histologia dos ovos González et
Estudo do exocório de al. 2009
ovos eclodidos
M. pallidipennis Morfologia, Obara et al.
morfometria e 2007
histologia dos ovos González et
Estudo do exocório de al. 2009
ovos eclodidos
Mepraia spinolai Morfologia e Naegele et
morfometria de pernas al. 2003
Microtriatoma Descrição dos ovos e Carcavallo et
trinidadensis ninfas (MO) al. 1976
Descrição dos ovos e De la Riva et
ninfas (MO) al. 2001
Nesotriatoma Morfometria Jiménez &
flavida Fuentes
1981
(como T. Estudo do exocório de González et
al 2009
al. 2009
flavida) ovos eclodidos Panstrongylus MO de estruturas Rosa &
megistus abdominais de ninfas Barata 1997
de 5 estádio Rosa et al.
Diferenças no tamanho 2003
dos ovos Rosa et al.
Morfometria e 2010
morfologia das antenas
P. geniculatus Descrição dos ovos e Lent &
ninfas (MO) Jurberg 1969
Psammolestes Descrição dos ovos e Carcavallo et
arthuri ninfas (MO) al. 1975
Rhodnius Morfometria dos ovos Mascarenhas
brethesi Descrição dos ovos e 1982
ninfas (MO) Mascarenhas
1987
R. colombiensis Descrição comparativa Santos et al.
dos ovos 2009
R. milesi Descrição comparativa Santos et al.
dos ovos 2009
R. neglectus MO de estruturas Rosa &
abdominais de ninfas Barata 1997
de 5º estádio Paéz-
Morfometria Colasante &
geométrica da borda Aldana 2008
corial e do colar dos Rosa et al.
ovos 2010
Morfometria e
morfologia das antenas
R. neivai Descrição dos ovos e Lent &
ninfas (MO) Valderrama
Morfometria 1977
geométrica da borda Paéz-
corial e do colar dos Colasante &
ovos Aldana 2008
R. nasutus Morfometria Paéz-
geométrica da borda Colasante &
corial e do colar dos Aldana 2008
ovos
R. pallescens Descrição dos ovos e Jurberg &
ninfas (MO) Rangel 1980
R. pictipes Descrição dos ovos e Lent &
ninfas (MO) Valderrama
1977
R. prolixus Descrição dos ovos e Lent &
ninfas (MO) Valderrama
Geometria do exocório 1977
das células dos ovos Chaves &
Morfometria Añez 2003
geométrica da borda Paéz-
corial e do colar dos Colasante
ovos & Aldana
Morfometria e 2008
morfologia das antenas Rosa et al.
2010
R. robustus Morfometria Paéz-
geométrica da borda Colasante &
corial e do colar dos Aldana 2008
ovos
R. stali Descrição comparativa Santos et al.
dos ovos 2009
Triatoma Morfologia do tórax das Rosa et al.
arthurneivai ninfas 2005
T. barberi Análise morfológica Martínez et
dos ovos al. 2010
T. baratai Descrição de ovos e Rocha et al.
ninfas por meio de MO 2009
e MEV
T. brasiliensis Descrição dos ovos Jurberg et
(MO) e visualização de al.1986
algumas estruturas por
meio de MEV Rosa &
MO de estruturas Barata 1997
abdominais de ninfas
de 5 estádio
T. breyeri Descrição e chaves Brewer &
para todos os estádios. Garay 1989
Estudo morfológico e Obara et al.
histológico dos ovos 2007
T. Morfologia da cabeça Rosa et al.
circummaculata de ninfas de 1º e 5º 1999
estádio
Morfometria dos ovos, Rosa et al.
visualização de 2000a
algumas estruturas em
MEV
T. costalimai Estudo morfológico e Obara et al.
histológico dos ovos 2007.
T. deaneorum Descrição dos ovos e Galvão &
(como T. ninfas (MO) Fuentes,
Deanei) 1971
T. delpontei Morfometria Brewer et al.
Descrição e chaves 1983a
para todos os estádios. Brewer et al.
1983b
T. dimidiata Estudo morfológico de Mello et al.
ovos e ninfas por MO e 2009
MEV
T. infestans Descrição dos ovos e Brewer et al.
ninfas (MO) 1981
Morfometria Brewer et al.
Estruturas abdominais 1983a
de ninfas de 5 estádio Rosa &
Descrição e chaves Barata 1997
para todos os estádios Brewer &
Garay 1989
Estudo do exocório de
ovos eclodidos González et
al. 2009
T. guasayana Descrição e chaves Brewer &
para todos os estádios Garay 1989
T. guazu Estudo da placa apical Silva et al.
por meio de MEV 1999
Análise das antenas Silva et al.
por meio de MEV 2002
Estudo comparativo do
sulco Silva et al.,
estridulatório, búcula e 2003
rostro
T. jurbergi Estudo da placa apical Silva et al.
por meio de MEV 1999
Descrição dos ovos e
ninfas (MO), Jurberg et al.
visualização 2002
de estruturas por meio Silva et al.
de MEV 2002
Análise das antenas
por meio de MEV Silva et al.
Análise do sulco 2003
estridulatório, búcula
e rostro por meio de
MEV
T. klugi Estudo comparativo do Silva et al.
sulco 2010
estridulatório, bucula e
rostro
T. lecticularia Descrição dos ovos e Rocha et al.
ninfas (MO) e 1996
visualização de
algumas estruturas por
meio de MEV
T. lenti Estudo do exocório de González et
al 2009
al. 2009
ovos eclodidos
T. maculata Descrição dos ovos Gonçalves et
(MO) e visualização de al. 1985
algumas estruturas por González et
meio de MEV al. 2009
Estudo do exocório de
ovos eclodidos
T. Descrição dos ovos Jurberg &
matogrossensis (MO) e visualização de Vogel 1994
algumas estruturas por Rosa &
meio de MEV Barata 1997
Estruturas abdominais Obara et al.
de ninfas de 5º estádio 2007
Estudo morfológico e
histológico dos ovos
T. melanosoma Descrição dos ovos Jurberg et al.
(sinonímia de T. (MO) e visualização de 1998
Infestans) algumas
estruturas por meio de
MEV
T. nitida Descrição dos ovos Jurberg et al.
(MO) e visualização de 1991
algumas
estruturas por meio de
MEV
T. platensis Morfometria Brewer et al.
Descrição e chaves 1983a
para todos os estádios Brewer et
de três espécies. al.,1983b
Descrição e chaves Brewer &
para todos os Garay 1989
estádios de cinco
espécies.
T. Descrição dos ovos Gonçalves et
pseudomaculata (MO) e visualização de al. 1985
algumas
estruturas por meio de
p
MEV
T. rubrofasciata Descrição dos ovos Haridass
(MO) e visualização de 1986
algumas
estruturas por meio de
MEV
T. rubrovaria Morfologia da cabeça Rosa et al.
de ninfas de 1º e 5º 1999
estádios
Morfometria de ovos e Rosa et al.
visualização de 2000a
algumas estruturas Rosa et al.
por meio de MEV 2000b
Morfometria das
antenas
T. sherlocki Estudo morfológico e Obara et al.
histológico dos ovos 2007
T. sordida Morfometria Brewer et al.
Descrição e chaves 1983a
para todos os estádios Brewer et al.
de três espécies. 1983b
Descrição e chaves
para todos os Brewer &
estádios de cinco Garay 1989
espécies. González et
Estudo do exocório de al. 2009
ovos eclodidos
T. tibiamaculata Estruturas abdominais Rosa &
de ninfas de 5 estádio Barata 1997
Estudo morfológico e Obara et al.
histológico dos ovos 2007
T. vandae Estudo morfológico Silva et al.
comparativo de ovos 2005
e ninfas por meio de
MO e MEV Silva et al.
Estudo comparativo do 2010
sulco stridulatório,
bucula e rostro
T. vitticeps Descrição dos ovos Jurberg &
(MO) e visualização de Campos
algumas estruturas por 1995
meio de MEV osa et al.
Morfometria e 2010
morfologia das antenas
T. williami Descrição das ninfas Galvão &
(MO) Fuentes
Estudo morfológico 1971
comparativo de ovos
e ninfas por meio de Silva et al.
MO e MEV 2005
Estudo morfológico e Obara et al.
histológico dos ovos 2007
Estudo comparativo do
sulco Silva et al.
estridulatório, bucula e 2010
rostro
Ninfas de Algumas estruturas de Galíndez-
diversas 66 espécies por meio Girón et al.
espécies de MO e MEV 1998
Ovos de Alguns aspectos Barata 1980,
diversas estruturais vistos por 1981, 1998
espécies meio de MO e MEV
* MO = microscopia ótica; MEV= microscopia eletrônica de
varredura
Recentemente, outra ferramenta foi incorporada aos estudos das
formas imaturas de triatomíneos, a morfometria geométrica, que
pode ser utilizada para os ovos (Páez-Colasante & Aldana 2008,
Gonzáles et al. 2009) ou para as ninfas (Rocha et al. 2005, Galvão
et al. 2005, Patterson et al. 2009, Santos et al. 2009). Esta ferramenta visa traçar o perfil do desenvolvimento pós-embrionário