Vetores da doença de Chagas no Brasil
Ordem Marsupialia
diferentes espécies de triatomíneos, os quais apresentam
particularidades que se refletem na capacidade destes em transmitir
o T. cruzi. É neste contexto que apresentamos alguns desses
mamíferos capazes de manter o parasito na natureza (portanto,
potenciais reservatórios), os vetores a estes associados e alguns
dos estudos mais relevantes em cada uma das sete ordens de
mamíferos responsáveis pela manutenção do T. cruzi na natureza.
Ordem Marsupialia
Representante da nossa fauna autóctone, a ordem Marsupialia
apresenta sua maior diversidade de espécies no continente
Australiano, enquanto apenas uma família é reconhecida nas
Américas, a Didelmorphidae. Seus ancestrais são tidos como os
mais antigos hospedeiros do T. cruzi. O gênero Didelphis (Figura
7.1) é aquele com maior dispersão no continente, ocorrendo do
sudeste do Canadá ao sul da Argentina, sendo o mamífero
reconhecido por muitos como o mais importante reservatório do
parasito.
Figura 7.1: Didelphis albiventris proveniente de São Borja, RS.
A sua ampla distribuição se deve principalmente a sua
impressionante adaptabilidade a diferentes nichos ecológicos,
principalmente a ambientes com elevado grau de ação antrópica.
Esses animais podem colonizar forros das casas e outros abrigos do
domicílio e peridomicílio, e sobrevivem alimentando-se de restos
alimentares do ser humano. Estas características fazem com que as
espécies de Didelphis sejam atualmente reconhecidas como
sinantrópicas e sua presença é forte indicador de degradação
ambiental por influência humana (Olifiers et al. 2005).
O perfil de infecção desses animais por T. cruzi apresenta uma
característica que os tornam únicos quando comparados aos demais hospedeiros do parasito: a capacidade de atuar como
hospedeiros e vetores ao mesmo tempo. Quando infectados, alguns
parasitos alcançam a glândula de cheiro desses animais e atingem
seu lúmen. Na luz da glândula, as formas tripomastigotas
sanguícolas se diferenciam em formas epimastigotas e multiplicam-
se através de divisão binária, antes de se diferenciarem em formas
tripomastigotas metacíclicas que são as formas infectivas
eliminadas juntamente à secreção dessa glândula (Deane et al.
1984). Essa etapa simula o ciclo de multiplicação do parasito
encontrado no trato digestivo dos triatomíneos e ocorre
simultaneamente ao ciclo multiplicativo intracelular na forma
amastigota, que acontece nos diversos tecidos do animal. A
competência vetorial dessas glândulas e, portanto, sua importância
epidemiológica, permanece desconhecida, apesar da alta taxa de
metaciclogênese (até 50%) sugerir que esta pode ser uma eficiente
via de dispersão do parasito. Além dos Didelphis spp., o ciclo de
multiplicação extracelular do parasito em glândulas de cheiro
também já foi demonstrado em indivíduos de Lutreolina
crassicaudata experimentalmente infectados (Steindel & Pinto
1988).
Didelphis spp. são nômades, solitários (principalmente os machos),
excelentes escaladores e seu refúgio principal são buracos e
folhagens de árvores. Em seus refúgios são comumente
encontrados triatomíneos do gênero Rhodnius, representados por
19 espécies, todas normalmente associadas a palmeiras e ocos de
árvores. Panstrongylus megistus e Microtriatoma trinidadensis são
outras espécies de triatomíneos que podem ser encontrados em
ninhos de Didelphis spp. Sua importância como reservatório varia no
tempo e espaço, como observado nas taxas de infecção de D. aurita
que variaram entre 11 e 90% entre animais coletados em diferentes
localidades no estado do Rio de Janeiro (Fernandes et al. 1999).
Além da via vetorial, seu hábito onívoro favorece que esse mamífero
possa adquirir a infecção também por via oral, pela ingestão de
triatomíneos ou predação de pequenos mamíferos infectados.
Estudos experimentais mostraram ausência de transmissão
neonatal do parasito em D. aurita e que estes são capazes de
manter infecções estáveis por subpopulações do genótipo TCI do
parasito e controlar ou até mesmo eliminar subpopulações do
genótipo TCII. No entanto, esses trabalhos foram realizados com
uma pequena amostragem de isolados que não são representativos
da heterogeneidade observada entre as sub-populações do
genótipo TCII (Jansen et al. 1991). De fato, embora esses animais
estejam mais comumente relacionados a TCI, o genótipo TCII
também tem sido isolado. Apesar de frequentemente associados ao
ambiente arbóreo, Didelphis spp. deslocam-se por todos os estratos
vegetais e podem servir de fonte de infecção a triatomíneos
terrestres ou ainda servir de elo entre ciclos de transmissão
independentes, uma vez que podem adquirir a infecção ao predar
um Panstrongylus geniculatus no solo e servir de fonte de infecção a
um Rhodnius robustus na copa de uma palmeira.
Na natureza, as cuícas Philander frenatus e P. opossum também
podem assumir um papel importante na manutenção e infecção de
triatomíneos, uma vez que são encontradas altas prevalências de
infecção com hemocultivos positivos que podem chegar a 80%. Ao
contrário de D. aurita, a infecção experimental de P. frenatus
resultou em altas parasitemias e altos títulos de anticorpos quando
infectadas por ambos os genótipos TCI e TCII do parasito (Legey et
al. 1999). O perfil das infecções experimentais de D. aurita e P.
frenatus mostra que essas espécies podem ser responsáveis por
distintas pressões seletivas para as sub-populações de T. cruzi e,
assim, desempenhar papéis diferentes na transmissão do parasito
na natureza.
Monodelphis domestica é outra espécie de marsupial comumente
encontrada infectada por T. cruzi, tendo sido apontada como o
principal reservatório de T. cruzi numa área de surto de doença de
Chagas Aguda por via oral no Ceará (Roque et al. 2008). Esse
pequeno marsupial é terrestre e pode estar envolvido em ciclos de
transmissão que envolvam espécies de Panstrongylus como
vetores. Caluromys lanatus, Lutreolina crassicaudata, Marmosa sp., Metachirus nudicaudatus e Monodelphis brevicaudata são outras