Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 24 de 65

Páginas do PDF

Vetores da doença de Chagas no Brasil

Ordem Marsupialia

diferentes espécies de triatomíneos, os quais apresentam

particularidades que se refletem na capacidade destes em transmitir

o T. cruzi. É neste contexto que apresentamos alguns desses

mamíferos capazes de manter o parasito na natureza (portanto,

potenciais reservatórios), os vetores a estes associados e alguns

dos estudos mais relevantes em cada uma das sete ordens de

mamíferos responsáveis pela manutenção do T. cruzi na natureza.

 

Ordem Marsupialia

 

Representante da nossa fauna autóctone, a ordem Marsupialia

apresenta sua maior diversidade de espécies no continente

Australiano, enquanto apenas uma família é reconhecida nas

Américas, a Didelmorphidae. Seus ancestrais são tidos como os

mais antigos hospedeiros do T. cruzi. O gênero Didelphis (Figura

7.1) é aquele com maior dispersão no continente, ocorrendo do

sudeste do Canadá ao sul da Argentina, sendo o mamífero

reconhecido por muitos como o mais importante reservatório do

parasito.

Figura 7.1: Didelphis albiventris proveniente de São Borja, RS.

 

A sua ampla distribuição se deve principalmente a sua

impressionante adaptabilidade a diferentes nichos ecológicos,

principalmente a ambientes com elevado grau de ação antrópica.

Esses animais podem colonizar forros das casas e outros abrigos do

domicílio e peridomicílio, e sobrevivem alimentando-se de restos

alimentares do ser humano. Estas características fazem com que as

espécies de Didelphis sejam atualmente reconhecidas como

sinantrópicas e sua presença é forte indicador de degradação

ambiental por influência humana (Olifiers et al. 2005).

 

O perfil de infecção desses animais por T. cruzi apresenta uma

característica que os tornam únicos quando comparados aos demais hospedeiros do parasito: a capacidade de atuar como

hospedeiros e vetores ao mesmo tempo. Quando infectados, alguns

parasitos alcançam a glândula de cheiro desses animais e atingem

seu lúmen. Na luz da glândula, as formas tripomastigotas

sanguícolas se diferenciam em formas epimastigotas e multiplicam-

se através de divisão binária, antes de se diferenciarem em formas

tripomastigotas metacíclicas que são as formas infectivas

eliminadas juntamente à secreção dessa glândula (Deane et al.

1984). Essa etapa simula o ciclo de multiplicação do parasito

encontrado no trato digestivo dos triatomíneos e ocorre

simultaneamente ao ciclo multiplicativo intracelular na forma

amastigota, que acontece nos diversos tecidos do animal. A

competência vetorial dessas glândulas e, portanto, sua importância

epidemiológica, permanece desconhecida, apesar da alta taxa de

metaciclogênese (até 50%) sugerir que esta pode ser uma eficiente

via de dispersão do parasito. Além dos Didelphis spp., o ciclo de

multiplicação extracelular do parasito em glândulas de cheiro

também já foi demonstrado em indivíduos de Lutreolina

crassicaudata experimentalmente infectados (Steindel & Pinto

1988).

 

Didelphis spp. são nômades, solitários (principalmente os machos),

excelentes escaladores e seu refúgio principal são buracos e

folhagens de árvores. Em seus refúgios são comumente

encontrados triatomíneos do gênero Rhodnius, representados por

19 espécies, todas normalmente associadas a palmeiras e ocos de

árvores. Panstrongylus megistus e Microtriatoma trinidadensis são

outras espécies de triatomíneos que podem ser encontrados em

ninhos de Didelphis spp. Sua importância como reservatório varia no

tempo e espaço, como observado nas taxas de infecção de D. aurita

que variaram entre 11 e 90% entre animais coletados em diferentes

localidades no estado do Rio de Janeiro (Fernandes et al. 1999).

Além da via vetorial, seu hábito onívoro favorece que esse mamífero

possa adquirir a infecção também por via oral, pela ingestão de

triatomíneos ou predação de pequenos mamíferos infectados.

Estudos experimentais mostraram ausência de transmissão

neonatal do parasito em D. aurita e que estes são capazes de

manter infecções estáveis por subpopulações do genótipo TCI do

parasito e controlar ou até mesmo eliminar subpopulações do

genótipo TCII. No entanto, esses trabalhos foram realizados com

uma pequena amostragem de isolados que não são representativos

da heterogeneidade observada entre as sub-populações do

genótipo TCII (Jansen et al. 1991). De fato, embora esses animais

estejam mais comumente relacionados a TCI, o genótipo TCII

também tem sido isolado. Apesar de frequentemente associados ao

ambiente arbóreo, Didelphis spp. deslocam-se por todos os estratos

vegetais e podem servir de fonte de infecção a triatomíneos

terrestres ou ainda servir de elo entre ciclos de transmissão

independentes, uma vez que podem adquirir a infecção ao predar

um Panstrongylus geniculatus no solo e servir de fonte de infecção a

um Rhodnius robustus na copa de uma palmeira.

 

Na natureza, as cuícas Philander frenatus e P. opossum também

podem assumir um papel importante na manutenção e infecção de

triatomíneos, uma vez que são encontradas altas prevalências de

infecção com hemocultivos positivos que podem chegar a 80%. Ao

contrário de D. aurita, a infecção experimental de P. frenatus

resultou em altas parasitemias e altos títulos de anticorpos quando

infectadas por ambos os genótipos TCI e TCII do parasito (Legey et

al. 1999). O perfil das infecções experimentais de D. aurita e P.

frenatus mostra que essas espécies podem ser responsáveis por

distintas pressões seletivas para as sub-populações de T. cruzi e,

assim, desempenhar papéis diferentes na transmissão do parasito

na natureza.

 

Monodelphis domestica é outra espécie de marsupial comumente

encontrada infectada por T. cruzi, tendo sido apontada como o

principal reservatório de T. cruzi numa área de surto de doença de

Chagas Aguda por via oral no Ceará (Roque et al. 2008). Esse

pequeno marsupial é terrestre e pode estar envolvido em ciclos de

transmissão que envolvam espécies de Panstrongylus como

vetores. Caluromys lanatus, Lutreolina crassicaudata, Marmosa sp., Metachirus nudicaudatus e Monodelphis brevicaudata são outras