Vetores da doença de Chagas no Brasil
7. Reservatórios do Trypanosoma cruzi e sua relação com os vetores
7. Reservatórios do Trypanosoma
cruzi e sua relação com os vetores
(André Luiz Rodrigues Roque & Ana Maria Jansen)
“A natureza e os livros pertencem apenas aos olhos que os
veem...”
(Ralph Waldo Emerson)
O Trypanosoma cruzi, agente etiológico da Tripanosomíase
Americana (doença de Chagas em humanos) é um protozoário
flagelado pertencente à ordem Kinetoplastida, família
Trypanosomatidae. Os kinetoplastídeos são organismos eucariotos
muito antigos, provavelmente dos primeiros a divergirem das
linhagens celulares eucarióticas ancestrais, e são assim
classificados por possuírem uma mitocôndria única, rica em DNA
(kDNA), denominada cinetoplasto. Dentro dos kinetoplastídeos, os
membros da família Trypanosomatidae possuem um flagelo único e
todos são parasitos de vertebrados, invertebrados ou plantas. Além
do gênero Trypanosoma, essa família inclui ainda os gêneros
Leishmania, Phytomonas, Endotrypanum, Leptomonas,
Herpetomonas, Crithidia e Blastocrithidia, os quais estima-se que
estejam filogeneticamente separados há aproximadamente 300
milhões de anos, data que coincide com o aparecimento dos
primeiros vertebrados (Stevens et al. 2001).
Sugere-se que T. cruzi teve sua origem entre 100-80 milhões de
anos atrás, em um super-continente ao Sul do planeta, formado pela
América do Sul, Antártica e Austrália, que permaneceu unido após
separação da África. Seus primeiros hospedeiros foram mamíferos
das ordens Marsupialia e Xenarthra, que compunham a mastofauna
autóctone. A transmissão teria sido garantida pela predação de
outros mamíferos infectados (via oral) ou pelo contato de lesões,
mucosa ou mesmo ingestão de material de glândula anal de marsupiais didelfídeos infectados, uma vez que essas glândulas
podem manter o ciclo de multiplicação extracelular do T. cruzi e
eliminar as formas metacíclicas infectivas (Deane et al. 1984,
Schofield 2000). O panorama na América do Sul permaneceu
inalterado até a entrada dos primeiros roedores caviomorfos e
primatas provenientes da África (35 milhões de anos atrás), o que
representa a primeira de várias ondas migratórias subseqüentes que
resultaram na diversificação faunística encontrada atualmente em
toda região (Flynn & Wyss 1998). Assim, marsupiais e xenartras
podem ser considerados como os hospedeiros mais antigos de T.
cruzi (Briones et al. 1999, Stothard et al. 1999, Buscaglia & Di Noia
2003). Posteriormente, o T. cruzi foi se adaptando aos novos
hospedeiros na medida em que estes foram chegando na América
do Sul: inicialmente roedores e primatas, e mais tarde morcegos e
carnívoros. Esta variedade de hospedeiros que passou a fazer parte
do ciclo de transmissão do T. cruzi exerceu diferentes pressões
seletivas sobre este parasito, o que resultou na imensa variedade de
subpopulações que conhecemos hoje e que apresentam
importantes diferenças biológicas e moleculares. Estas diferenças
são tão expressivas que alguns autores já propuseram a divisão de
T. cruzi em duas espécies. Para facilitar a compreensão,
adotaremos aqui o consenso aprovado por especialistas da área
que reconhece dois genótipos principais TCI e TCII, além de um
grupo de sub-populações do parasito que não se enquadram dentro
destes dois genótipos e que são denominados como Z3 (zimodema
3) (Anonymous 1999).
É proposto que a história co-evolutiva do T. cruzi com seus
hospedeiros mamíferos seja bem mais antiga que a aquisição de
hábitos hematofágicos pelos triatomíneos vetores (Schofield &
Galvão 2009). Apesar da origem dos seus ancestrais reduvídeos
datar de aproximadamente 230 milhões de anos, a grande maioria
das suas subfamílias é composta de insetos predadores e, até o
momento, apenas duas espécies fósseis supostamente
hematofágicas foram encontradas (Ponair Jr. 2005, 2013). O ciclo
digenético como vemos hoje, envolvendo triatomíneos e mamíferos,
parece ter se iniciado apenas após a aquisição dos hábitos hematofágicos pelos triatomíneos há aproximadamente 5 milhões
de anos, seguida da adaptação do parasito ao tubo digestivo destes
vetores (Carcavallo et al. 1999; Schofield 2000).
Atualmente, esse parasito é encontrado circulando na natureza
entre mais de uma centena de espécies de mamíferos distribuídos
em sete diferentes ordens e dezenas de espécies de vetores
(Noireau et al. 2009). As aves e os vertebrados de sangue frio são
refratários ao parasito. Os ciclos de transmissão desse parasito
encontram-se em todas as regiões fitogeográficas do país, nos mais
diversos nichos ecológicos contribuindo, cada tipo de ecótopo, com
focos de transmissão que apresentam distintos perfis
epidemiológicos, os quais se caracterizam por serem multivariáveis
e complexos (PAHO 2009). Como sabemos, a doença de Chagas é
uma manifestação clínica que pode decorrer da infecção de T. cruzi
no ser humano, cuja transmissão ocorre, na grande maioria das
vezes, por triatomíneos vetores. Outras vias de infecção são a oral
(pela ingestão de alimento contaminado com as formas infectivas do
parasito), congênita, por transfusão sanguínea ou transplante de
órgãos.
Os triatomíneos transmitem o parasito apenas se estiverem
infectados e isto acontece quando eles se alimentam sobre um dos
numerosos hospedeiros mamíferos infectados e ingerem,
juntamente a seu sangue, as formas tripomastigotas do parasito. No
trato digestivo dos triatomíneos, os parasitos diferenciam-se em
formas epimastigotas (capazes de multiplicar) e, posteriormente, em
formas tripomastigotas metacíclicas na porção final do intestino, as
quais são eliminadas com as fezes do triatomíneo. A infecção dos
mamíferos ocorre quando estes entram em contato com as formas
infectivas do parasito contidas nas fezes do triatomíneo. Esse
contato ocorre pelas mucosas ou através de lesão preexistente ou
resultante da picada do barbeiro. A via oral, ou seja, a ingestão das
formas infectivas do parasito, ocorre quando o animal coça com a
boca o local do seu corpo onde estão depositadas essas fezes,
ingere alimentos contaminados com o parasito ou preda
triatomíneos ou outros mamíferos infectados.
Desde a descoberta do T. cruzi há um século, diversos
pesquisadores buscaram conhecer quais as espécies de mamíferos
que eram fontes de infecção para o triatomíneo e,
consequentemente, para o ser humano e/ou animais domésticos. As
numerosas espécies de animais silvestres que foram encontradas
infectadas por T. cruzi foram denominadas “reservatórios naturais”
(Barretto & Ribeiro 1979). A continuação destes estudos mostrou
que no caso de um parasito multi-hospedeiro como o T. cruzi, não
apenas uma, mas diversas espécies de mamíferos poderiam ser
apontadas como fonte de infecção ao vetor em um determinado
local. Passou-se a entender que estes mamíferos apresentam
diferenças na sua importância como fonte de infecção para o
triatomíneo vetor e que uma mesma espécie de mamífero pode
desempenhar distintos papéis na manutenção do parasito em
diferentes localidades. Dentro desse enfoque, passamos a
considerar como reservatório não apenas uma única espécie de
mamífero infectado em uma determinada localidade, mas um
sistema que pode incluir uma ou mais espécies de mamíferos
responsáveis pela manutenção do parasito na natureza. Em cada
sistema ecológico, as espécies desempenham papéis diferentes na
manutenção do parasito, o que significa que o papel de cada
componente na manutenção do parasito deve sempre ser
considerado único dentro de uma determinada escala espaço-
temporal.
O perfil da infecção por T. cruzi em qualquer espécie de mamífero é
determinado por fatores relacionados ao hospedeiro (espécie, sexo,
idade, padrão comportamental), ao parasito (tempo de geração,
estratégias de dispersão, características bioquímicas e moleculares
das subpopulações) e ao ambiente (stress, coinfecções,
disponibilidade de recursos) onde ocorre a interação. Consideramos
como reservatórios mantenedores aqueles capazes de se infectar e
manter a infecção por um determinado parasito. Reservatórios
amplificadores são aqueles que apresentam um perfil de infecção
que favorece a transmissibilidade desse parasito.
No caso do T. cruzi, a transmissibilidade de uma espécie de
mamífero ao vetor é garantida quando este mamífero apresenta
formas circulantes do parasito no sangue. Este atributo é
comprovado pela visualização de parasitos no sangue dos
mamíferos por técnicas parasitológicas de exame a fresco,
hemocultivo ou xenodiagnóstico. Já a transmissão do parasito entre
duas espécies de mamíferos (presa-predador) pode ser garantida
mesmo na ausência de formas circulantes do parasito no sangue,
visto que formas amastigotas presentes nos tecidos do mamífero
predado, também podem ser fonte de infecção. O diagnóstico da
infecção por T. cruzi apenas por exames indiretos, como os testes
sorológicos, apontam para a exposição do animal ao agente
etiológico, mas isso não reflete sua transmissibilidade para os
triatomíneos ou mesmo a outros mamíferos. Animais
sorologicamente positivos indicam que foram expostos ao T. cruzi,
são hospedeiros desse parasito, mas não necessariamente são
importantes para a manutenção do parasito na natureza, ou seja,
não são obrigatoriamente reservatórios do parasito. Assim, uma
investigação epidemiológica em hospedeiros silvestres de T. cruzi
deve incluir, obrigatoriamente, uma amostragem representativa das
espécies de mamíferos mais abundantes na área e uma ampla
abordagem metodológica que inclua diagnóstico da infecção por
exames parasitológicos diretos e indiretos (Roque et al. 2008). O
direcionamento das coletas a algumas espécies de mamíferos ou a
ambientes peridomiciliares, que não são representativos de toda a
área, resulta em que as espécies mais comuns àquele habitat sejam
apontadas como reservatórios do parasito. Desta forma, mamíferos
sinantrópicos como o Rattus rattus, Mus musculus e os gambás do
gênero Didelphis spp. são frequentemente encontrados infectados
em diversos estudos, mas nem sempre representam as espécies de
mamíferos mais importantes para a manutenção do parasito
naquela área.
Diante desta complexidade, fica claro que muito mais do que um
sistema linear, é preciso entender os ciclos de transmissão do T.
cruzi na natureza como uma teia, uma rede dinâmica de
transmissão do parasito por diferentes vias. Nesta rede de transmissão estão incluídos mamíferos de diferentes táxons e