Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 23 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

7. Reservatórios do Trypanosoma cruzi e sua relação com os vetores

7. Reservatórios do Trypanosoma

 

cruzi e sua relação com os vetores

 

(André Luiz Rodrigues Roque & Ana Maria Jansen)

 

“A natureza e os livros pertencem apenas aos olhos que os

veem...”

(Ralph Waldo Emerson)

 

O Trypanosoma cruzi, agente etiológico da Tripanosomíase

Americana (doença de Chagas em humanos) é um protozoário

flagelado pertencente à ordem Kinetoplastida, família

Trypanosomatidae. Os kinetoplastídeos são organismos eucariotos

muito antigos, provavelmente dos primeiros a divergirem das

linhagens celulares eucarióticas ancestrais, e são assim

classificados por possuírem uma mitocôndria única, rica em DNA

(kDNA), denominada cinetoplasto. Dentro dos kinetoplastídeos, os

membros da família Trypanosomatidae possuem um flagelo único e

todos são parasitos de vertebrados, invertebrados ou plantas. Além

do gênero Trypanosoma, essa família inclui ainda os gêneros

Leishmania, Phytomonas, Endotrypanum, Leptomonas,

Herpetomonas, Crithidia e Blastocrithidia, os quais estima-se que

estejam filogeneticamente separados há aproximadamente 300

milhões de anos, data que coincide com o aparecimento dos

primeiros vertebrados (Stevens et al. 2001).

 

Sugere-se que T. cruzi teve sua origem entre 100-80 milhões de

anos atrás, em um super-continente ao Sul do planeta, formado pela

América do Sul, Antártica e Austrália, que permaneceu unido após

separação da África. Seus primeiros hospedeiros foram mamíferos

das ordens Marsupialia e Xenarthra, que compunham a mastofauna

autóctone. A transmissão teria sido garantida pela predação de

outros mamíferos infectados (via oral) ou pelo contato de lesões,

mucosa ou mesmo ingestão de material de glândula anal de marsupiais didelfídeos infectados, uma vez que essas glândulas

podem manter o ciclo de multiplicação extracelular do T. cruzi e

eliminar as formas metacíclicas infectivas (Deane et al. 1984,

Schofield 2000). O panorama na América do Sul permaneceu

inalterado até a entrada dos primeiros roedores caviomorfos e

primatas provenientes da África (35 milhões de anos atrás), o que

representa a primeira de várias ondas migratórias subseqüentes que

resultaram na diversificação faunística encontrada atualmente em

toda região (Flynn & Wyss 1998). Assim, marsupiais e xenartras

podem ser considerados como os hospedeiros mais antigos de T.

cruzi (Briones et al. 1999, Stothard et al. 1999, Buscaglia & Di Noia

2003). Posteriormente, o T. cruzi foi se adaptando aos novos

hospedeiros na medida em que estes foram chegando na América

do Sul: inicialmente roedores e primatas, e mais tarde morcegos e

carnívoros. Esta variedade de hospedeiros que passou a fazer parte

do ciclo de transmissão do T. cruzi exerceu diferentes pressões

seletivas sobre este parasito, o que resultou na imensa variedade de

subpopulações que conhecemos hoje e que apresentam

importantes diferenças biológicas e moleculares. Estas diferenças

são tão expressivas que alguns autores já propuseram a divisão de

T. cruzi em duas espécies. Para facilitar a compreensão,

adotaremos aqui o consenso aprovado por especialistas da área

que reconhece dois genótipos principais TCI e TCII, além de um

grupo de sub-populações do parasito que não se enquadram dentro

destes dois genótipos e que são denominados como Z3 (zimodema

3) (Anonymous 1999).

 

É proposto que a história co-evolutiva do T. cruzi com seus

hospedeiros mamíferos seja bem mais antiga que a aquisição de

hábitos hematofágicos pelos triatomíneos vetores (Schofield &

Galvão 2009). Apesar da origem dos seus ancestrais reduvídeos

datar de aproximadamente 230 milhões de anos, a grande maioria

das suas subfamílias é composta de insetos predadores e, até o

momento, apenas duas espécies fósseis supostamente

hematofágicas foram encontradas (Ponair Jr. 2005, 2013). O ciclo

digenético como vemos hoje, envolvendo triatomíneos e mamíferos,

parece ter se iniciado apenas após a aquisição dos hábitos hematofágicos pelos triatomíneos há aproximadamente 5 milhões

de anos, seguida da adaptação do parasito ao tubo digestivo destes

vetores (Carcavallo et al. 1999; Schofield 2000).

 

Atualmente, esse parasito é encontrado circulando na natureza

entre mais de uma centena de espécies de mamíferos distribuídos

em sete diferentes ordens e dezenas de espécies de vetores

(Noireau et al. 2009). As aves e os vertebrados de sangue frio são

refratários ao parasito. Os ciclos de transmissão desse parasito

encontram-se em todas as regiões fitogeográficas do país, nos mais

diversos nichos ecológicos contribuindo, cada tipo de ecótopo, com

focos de transmissão que apresentam distintos perfis

epidemiológicos, os quais se caracterizam por serem multivariáveis

e complexos (PAHO 2009). Como sabemos, a doença de Chagas é

uma manifestação clínica que pode decorrer da infecção de T. cruzi

no ser humano, cuja transmissão ocorre, na grande maioria das

vezes, por triatomíneos vetores. Outras vias de infecção são a oral

(pela ingestão de alimento contaminado com as formas infectivas do

parasito), congênita, por transfusão sanguínea ou transplante de

órgãos.

 

Os triatomíneos transmitem o parasito apenas se estiverem

infectados e isto acontece quando eles se alimentam sobre um dos

numerosos hospedeiros mamíferos infectados e ingerem,

juntamente a seu sangue, as formas tripomastigotas do parasito. No

trato digestivo dos triatomíneos, os parasitos diferenciam-se em

formas epimastigotas (capazes de multiplicar) e, posteriormente, em

formas tripomastigotas metacíclicas na porção final do intestino, as

quais são eliminadas com as fezes do triatomíneo. A infecção dos

mamíferos ocorre quando estes entram em contato com as formas

infectivas do parasito contidas nas fezes do triatomíneo. Esse

contato ocorre pelas mucosas ou através de lesão preexistente ou

resultante da picada do barbeiro. A via oral, ou seja, a ingestão das

formas infectivas do parasito, ocorre quando o animal coça com a

boca o local do seu corpo onde estão depositadas essas fezes,

ingere alimentos contaminados com o parasito ou preda

triatomíneos ou outros mamíferos infectados.

Desde a descoberta do T. cruzi há um século, diversos

pesquisadores buscaram conhecer quais as espécies de mamíferos

que eram fontes de infecção para o triatomíneo e,

consequentemente, para o ser humano e/ou animais domésticos. As

numerosas espécies de animais silvestres que foram encontradas

infectadas por T. cruzi foram denominadas “reservatórios naturais”

(Barretto & Ribeiro 1979). A continuação destes estudos mostrou

que no caso de um parasito multi-hospedeiro como o T. cruzi, não

apenas uma, mas diversas espécies de mamíferos poderiam ser

apontadas como fonte de infecção ao vetor em um determinado

local. Passou-se a entender que estes mamíferos apresentam

diferenças na sua importância como fonte de infecção para o

triatomíneo vetor e que uma mesma espécie de mamífero pode

desempenhar distintos papéis na manutenção do parasito em

diferentes localidades. Dentro desse enfoque, passamos a

considerar como reservatório não apenas uma única espécie de

mamífero infectado em uma determinada localidade, mas um

sistema que pode incluir uma ou mais espécies de mamíferos

responsáveis pela manutenção do parasito na natureza. Em cada

sistema ecológico, as espécies desempenham papéis diferentes na

manutenção do parasito, o que significa que o papel de cada

componente na manutenção do parasito deve sempre ser

considerado único dentro de uma determinada escala espaço-

temporal.

 

O perfil da infecção por T. cruzi em qualquer espécie de mamífero é

determinado por fatores relacionados ao hospedeiro (espécie, sexo,

idade, padrão comportamental), ao parasito (tempo de geração,

estratégias de dispersão, características bioquímicas e moleculares

das subpopulações) e ao ambiente (stress, coinfecções,

disponibilidade de recursos) onde ocorre a interação. Consideramos

como reservatórios mantenedores aqueles capazes de se infectar e

manter a infecção por um determinado parasito. Reservatórios

amplificadores são aqueles que apresentam um perfil de infecção

que favorece a transmissibilidade desse parasito.

No caso do T. cruzi, a transmissibilidade de uma espécie de

mamífero ao vetor é garantida quando este mamífero apresenta

formas circulantes do parasito no sangue. Este atributo é

comprovado pela visualização de parasitos no sangue dos

mamíferos por técnicas parasitológicas de exame a fresco,

hemocultivo ou xenodiagnóstico. Já a transmissão do parasito entre

duas espécies de mamíferos (presa-predador) pode ser garantida

mesmo na ausência de formas circulantes do parasito no sangue,

visto que formas amastigotas presentes nos tecidos do mamífero

predado, também podem ser fonte de infecção. O diagnóstico da

infecção por T. cruzi apenas por exames indiretos, como os testes

sorológicos, apontam para a exposição do animal ao agente

etiológico, mas isso não reflete sua transmissibilidade para os

triatomíneos ou mesmo a outros mamíferos. Animais

sorologicamente positivos indicam que foram expostos ao T. cruzi,

são hospedeiros desse parasito, mas não necessariamente são

importantes para a manutenção do parasito na natureza, ou seja,

não são obrigatoriamente reservatórios do parasito. Assim, uma

investigação epidemiológica em hospedeiros silvestres de T. cruzi

deve incluir, obrigatoriamente, uma amostragem representativa das

espécies de mamíferos mais abundantes na área e uma ampla

abordagem metodológica que inclua diagnóstico da infecção por

exames parasitológicos diretos e indiretos (Roque et al. 2008). O

direcionamento das coletas a algumas espécies de mamíferos ou a

ambientes peridomiciliares, que não são representativos de toda a

área, resulta em que as espécies mais comuns àquele habitat sejam

apontadas como reservatórios do parasito. Desta forma, mamíferos

sinantrópicos como o Rattus rattus, Mus musculus e os gambás do

gênero Didelphis spp. são frequentemente encontrados infectados

em diversos estudos, mas nem sempre representam as espécies de

mamíferos mais importantes para a manutenção do parasito

naquela área.

 

Diante desta complexidade, fica claro que muito mais do que um

sistema linear, é preciso entender os ciclos de transmissão do T.

cruzi na natureza como uma teia, uma rede dinâmica de

transmissão do parasito por diferentes vias. Nesta rede de transmissão estão incluídos mamíferos de diferentes táxons e