Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 15 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

6. Biologia e Comportamento

 

(Claudio R. Lazzari)

 

“Depois que eu constatara a presença sistemática de

numerosos flagelados no intestino de um percevejo hematófago

local, do gênero Conorhinus, o Dr. Cruz fez picar um espécimen

do Hapale penicillata por estes percevejos e ele encontrou ao

fim de um período de vinte a trinta dias formas tripanossômicas

no sangue periférico deste animal”

(Carlos Chagas, 1909)

 

O sangue dos animais vertebrados é um alimento estéril, exceto

pela presença ocasional de parasitas, e rico em nutrientes. Por essa

razão, muitas espécies de artrópodes evoluíram para um estilo de

vida hematófago (Lehane 2005). O sangue é um alimento que não

está disponível livremente na natureza, ele circula no interior dos

vasos sanguíneos escondido sob a pele dos animais que têm a

capacidade de afastar os insetos picadores e até mesmo se

alimentar deles. Portanto, para se alimentarem de sangue, insetos

sugadores tiveram que desenvolver adaptações e competências

específicas que lhes permitiram minimizar os riscos ao explorar este

recurso alimentar.

 

Os triatomíneos são insetos hematófagos com desenvolvimento

hemimetábolo cujo ciclo de vida de ovo a adulto passa por cinco

fases imaturas (Figura 6.1). A necessidade de uma refeição de

sangue os levou a estabelecer relações mais ou menos estreitas

com os seus hospedeiros vertebrados, incluindo os seres humanos.

Uma característica importante da sua biologia é que, ao contrário de

outros insetos sugadores de sangue, tais como mosquitos e

flebótomos, nos quais apenas a fêmea se alimenta de sangue, os

dois sexos e todas as fases imaturas dos triatomíneos alimentam-se

de sangue. Algumas espécies podem defecar durante ou logo após

a alimentação, enquanto outras defecam após abandonar a fonte de alimento, longe do local da sucção. Este fato classifica as diferentes

espécies como “boas ou más” transmissoras da doença, uma vez

que as formas infectantes de Trypanosoma cruzi são expelidas nas

fezes dos insetos infectados.

 

Figura 6.1: Ovos, os cinco estádios ninfais, a terminália de um

macho e uma fêmea de Panstrongylus megistus.

 

Uma vez que somente os adultos têm asas e são, portanto, capazes

de voar, na maior parte da vida destes insetos a locomoção ocorre

através do “caminhar” dos seus abrigos até os hospedeiros. Além

disso, dada a estreita relação estabelecida com eles, muitas vezes,

ocorrendo no interior dos ninhos, tocas ou habitação humana, os

adultos não precisam voar para chegar a uma fonte de alimento. No entanto, se os hospedeiros se tornam escassos, eles podem fazer