Vetores da doença de Chagas no Brasil
3. Sistemática e evolução dos vetores
(Cleber Galvão & Alexandre Silva de Paula)
“Deus criou, Linnaeus organizou”
(Carolus Linnaeus)
Modelos matemáticos estimam em cerca de dez milhões o número
de espécies de seres vivos que podem existir sobre a terra
(somando-se as espécies conhecidas e as ainda desconhecidas). O
número de espécies já descritas, porém, é muito inferior e não
chega a dois milhões (May 1992, Wilson 1992). Toda essa enorme
biodiversidade, para ser estudada, precisa ser organizada em
categorias ou grupos. A importância dessa classificação é
fundamental e dessa tarefa se incumbem os taxonomistas.
O sueco Carolus Linnaeus (1707-1778) é o autor do primeiro
sistema consistente de classificação. Tudo começou em 1735 com a
publicação da primeira versão da obra Systema Naturae. Essa
publicação, de apenas 11 páginas, propôs um sistema de
classificação que usa como critério órgãos, estruturas morfológicas
e estruturas reprodutivas de animais e plantas. É um sistema
simples que substitui as longas denominações de espécies que
vigoravam na Europa até então, procurando estabelecer critérios
mais objetivos para a classificação de animais e plantas. Linnaeus
propôs categorias hierárquicas e um sistema binomial de
classificação no qual a denominação dos seres vivos utilizaria dois
nomes em latim ou latinizados, um nome para o gênero e outro
específico, e o conjunto dessas duas palavras forma o nome da
espécie. A praticidade desse sistema é responsável pelo enorme
sucesso da chamada Taxonomia Lineana, que mesmo tendo sido
criada há mais de 200 anos é usada até os dias de hoje.
A primeira grande subdivisão dos animais é o filo, que se subdivide
em classes, estas se subdividem em ordens, estas em famílias, as famílias em gêneros e estes em espécies. Existem ainda diversas
divisões intermediárias como, por exemplo, subfamílias e tribos. A
figura 3.1 mostra toda a hierarquia das categorias taxonômicas
aceitas pelos zoólogos para os diversos grupos animais. Entre
parênteses, exemplificamos o posicionamento da espécie Triatoma
infestans (Klug, 1834).
Figura 3.1: Hierarquia das categorias taxonômicas zoológicas,
utilizando a classificação da espécie Triatoma infestans como
exemplo. Observe que as categorias superfamília, família,
subfamília e tribo possuem um sufixo próprio que permite diferenciá-
las facilmente das demais categorias.
No filo Arthropoda estão incluídos, entre outros, os insetos. As
principais características dos artrópodes são a simetria bilateral, a
presença de pernas articuladas e de um exoesqueleto (esqueleto externo duro e resistente, formando uma espécie de carapaça que
protege e sustenta os órgãos internos). São exemplos de artrópodes
o camarão, o escorpião, a vespa e o barbeiro (Figura 3.2).
Figura 3.2: Exemplos de artrópodes – A: camarão; B: escorpião; C:
vespa; D: barbeiro.
Dentro do filo Arthropoda há diversas classes e na classe Insecta
estão incluídos todos os insetos que se caracterizam por possuírem
o corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen, três pares de pernas
articuladas e um par de antenas (Figura 3.3). A classe Insecta está
dividida em diversas ordens, dentre elas a ordem Hemiptera, cuja
principal característica diagnóstica é a presença do aparelho bucal
picador-sugador.
Figura 3.3: As três principais divisões do corpo de um inseto.
A despeito do nome da ordem (Hemi=metade, ptera=asa), a
presença dos hemélitros ou hemiélitros (asa com a parte basal
espessada e coriácea e a apical membranosa (Figura 3.4) não
ocorre em todos os hemípteros e, portanto, essa característica não
pode ser considerada diagnóstica para a ordem. A maioria das
espécies é terrestre, porém, algumas são aquáticas. Muitas sugam
plantas (fitófagas), outras são predadoras de outros insetos
(entomófagas) e algumas sugam sangue (hematófagas). Esta
ordem se subdivide nas subordens Coleorrhyncha,
Auchenorrhyncha, Sternorrhyncha (anteriormente reunidas numa
subordem chamada Homoptera) e Heteroptera que abriga os
insetos conhecidos vulgarmente como percevejos (Maddison, 1995).
Figura 3.4: Hemélitro: tipo de asa encontrada em diversos membros
da ordem Hemiptera.
Das numerosas famílias de hemípteros, apenas duas tem interesse
na medicina humana devido ao hábito hematofágico de suas
espécies: Cimicidae (percevejos de cama) e Reduviidae. O número
de subfamílias que compõem a família Reduviidae varia segundo
diferentes especialistas. China & Miller (1959) reconhecem 29
subfamílias, Maldonado Capriles (1990) reconhece 25 subfamílias,
Putchov & Putchov (1985 apud Schuh & Slater 1995) reconhecem
21 subfamílias e Schuh & Slater (1995) reconhecem 22. Apenas
uma subfamília (Triatominae) realiza hematofagia, as demais
subfamílias são compostas por insetos predadores (também
chamados entomófagos) (Figura 3.5).
Figura 3.5: As ilustrações (em escalas diferentes) mostram
representantes de hemípteros fitófagos e das duas famílias nas
quais existem espécies hematófagas.
A décima edição do Systema Naturae, publicada por Carolus
Linnaeus em 1758, foi subsequentemente designada pela
comunidade de zoólogos como o ponto de partida para a aplicação
das regras de nomenclatura binomial zoológica. Essa edição
[Systema Naturae] já incluía a criação da ordem Hemiptera,
entretanto, os estudos taxonômicos dos triatomíneos só começaram
com a publicação Mémoire pour servir à l´histoire des insectes (De
Geer, 1773), na qual a primeira espécie foi descrita como Cimex
rubrofasciatus. Sessenta anos mais tarde, ela foi designada por
Laporte (1833) como espécie-tipo do gênero Triatoma, passando a ser chamada Triatoma rubrofasciata. O gênero Triatoma foi proposto
por Laporte em uma descrição baseada em espécimes com antenas
quebradas, mostrando apenas três dos quatro artículos antenais
(Triatoma = três artículos). Examinando novos espécimes e
percebendo seu erro, ele propôs a mudança do nome genérico para
Conorhinus (= nariz de cone), mas o nome genérico Triatoma já
tinha prioridade e permaneceu válido (ICZN 1999).
A classificação atual da subfamília Triatominae está baseada
principalmente na revisão de Lent & Wygodzinsky (1979),
entretanto, desde sua publicação novas espécies foram descritas e
outras foram revalidadas ou sinonimizadas. A classificação
tradicional dos triatomíneos baseia-se predominantemente em
caracteres morfológicos, entretanto, novas comparações baseadas
em caracteres moleculares (sequências de DNA) algumas vezes
têm desafiado o conceito morfológico e há algumas dificuldades em
se obter uma classificação estável e consensual do grupo. Neste
livro, apresentamos um resumo da atual classificação, atualizada
pelas publicações de Galvão (2003), Galvão et al. (2003), Forero et
al. (2004), Garcia et al. (2005), Galvão & Angulo (2006), Costa et al.
(2006), Costa & Felix (2007), Sandoval et al. (2007), Berenguer &
Blanchet (2007), Martínez et al. (2007), Schofield & Galvão (2009),
Ayala (2009), Frías-Lasserre (2010), Rosa et al. (2012), Gonçalves
et al. (2013), Jurberg et al. (2013) e Abad-Franch et al. (2013).
Atualmente, são reconhecidas formalmente 148 espécies recentes e
duas espécies fósseis (Tabela 3.1) embora algumas delas possam
futuramente vir a ser consideradas meramente como variações
populacionais. Por outro lado, com a crescente pesquisa de campo,
é provável que sejam encontradas novas variantes, algumas das
quais poderão merecer descrição formal como espécies novas.
Tabela 3.1 - Classificação sistemática atual da subfamília
Triatominae
Subfamília Tribo Gênero Número de
espécies
válidas
Triatominae Alberproseniini Alberprosenia 2
Bolboderini Belminus 8
Bolbodera 1
Microtriatoma 2
Parabelminus 2
Cavernicolini Cavernicola 2
Rhodniini Psammolestes 3
Rhodnius 19
Triatomini Dipetalogaster 1
Eratyrus 2
Hermanlentia 1
Linshcosteus 6
Meccus 6 6
Mepraia 3
Nesotriatoma 3
Panstrongylus 14*
Paratriatoma 1
Triatoma 72**
Total 18 148
* esse gênero possui uma espécie fóssil: P. hispaniolae Ponair Jr.,
2013
** esse gênero possui uma espécie fóssil: Triatoma dominicana
Ponair Jr., 2005
Embora seja reconhecida por vários autores como uma subfamília
monofilética de Reduviídeos (com um único ancestral comum para
todas as espécies da subfamília), adaptados à hematofagia (Usinger
1944, Lent & Wygodzinsky 1979, Clayton 1990, Schuh & Slater
1995, Hypsa et al. 2002, Weirauch, 2008), ainda existem várias
dúvidas sobre a origem e evolução dos triatomíneos(Schaefer 1998,
2003, 2005). Schofield (1988) propôs um conceito de origem
polifilética dos triatomíneos, ou seja, diferentes ancestrais teriam
dado origem aos diferentes grupos de triatomíneos. Segundo esse
ponto de vista, a fauna triatomínica Asiática, por exemplo, consistiria
de ao menos duas linhagens independentes, derivadas de
diferentes ancestrais reduviídeos. A primeira linhagem incluiria
algumas espécies de Triatoma, as quais teriam evoluído a partir de
um ancestral comum com Triatoma rubrofasciata, uma espécie
originária do Novo Mundo e introduzida posteriormente no Velho
Mundo através das grandes navegações. A segunda linhagem seria
representada pelas espécies do gênero Linshcosteus, uma linhagem
supostamente autóctone da Índia. Porém, análises cladísticas
moleculares de 57 espécies mostraram que o gênero Linshcosteus
e Triatoma rubrofasciata são grupos irmãos (Hypsa et al. 2002),
apoiando a hipótese de origem monofilética da subfamília
Triatominae. Se ao contrário, a origem for polifilética e, portanto
todos os membros da subfamília Triatominae não derivaram de um
único ancestral comum, quais seriam as outras subfamílias de
Reduviídeos mais proximamente relacionadas aos diversos grupos
de triatomíneos? Tentando resolver esse quebra-cabeça evolutivo,
diversos cientistas têm usado dados moleculares (sequências de
DNA) para fazer inferências sobre o relacionamento filogenético
(Garcia & Powell 1998, Stothard et al. 1998, Lyman et al. 1999,
Garcia 1999, Marcilla et al. 2002, Monteiro et al. 2003, Sainz et al.
2004, Paula et al. 2005, 2007 e Weirauch & Munro, 2009). Embora
sejam importantes contribuições e algumas delas sugiram a polifilia
ou parafilia de alguns gêneros de Triatominae, a maioria dessas
publicações está baseada em um número limitado de táxons e,
portanto, ainda não podem solucionar as questões da filogenia da
subfamília Triatominae como um todo.