Vetores da doença de Chagas no Brasil
10. Procedimentos de captura, montagem, conservação e envio
10. Procedimentos de captura,
montagem, conservação e envio
(Marcos Obara, Dalva Marli Valério Wanderley & Rubens
Antonio da Silva)
“Em todas as coisas o sucesso depende de uma preparação
prévia, e sem tal preparação o falhanço é certo”
(Confúcio)
Insetos mortos
O que se conserva dos insetos é o exoesqueleto constituído pelo
tegumento quitinoso, onde se encontram quase todos os caracteres
morfológicos necessários à identificação do espécime. É nesse
revestimento duro que se fixam a forma, a cor, a pilosidade, as
estruturas características de cada espécie. Portanto é muito
importante que o inseto chegue ao seu destino o mais intacto
possível para possibilitar a identificação. Para alcançar essa
finalidade é necessário submetê-los a certos procedimentos, para
serem montados e posteriormente conservados em uma coleção
entomológica, ou enviados para identificação.
Deve-se sempre que possível montar os insetos no mesmo dia da
captura, quando ainda estiverem com seu corpo mole e flexível.
Material muito seco é quebradiço e nestas condições dificilmente
será montado sem danificar pernas ou antenas; além disso, o corpo
do inseto seco, geralmente, não adere ao alfinete que o transfixa,
girando em torno do mesmo. Para melhorar as condições do
material seco é recomendável colocá-lo em uma câmara úmida
durante 48 horas ou mais; os insetos, então recuperam, em parte, a
flexibilidade das articulações e tegumento. Para construir uma
câmara úmida basta providenciar um recipiente de vidro, chato e largo, e colocar no fundo deste recipiente areia limpa ou algodão
umedecido e, sobre este, um mata-borrão grosso ou uma tela, que
servirá para separar os insetos do substrato molhado. No interior
deste recipiente tampado, se formará uma atmosfera bastante
úmida. Para evitar o desenvolvimento de mofo dentro da câmara,
deve-se misturar à água que umedece o substrato algumas gotas de
ácido fênico; sobre o mata borrão pode-se espalhar também um
pouco de naftalina em pó. Como essas substâncias são tóxicas,
devem ser utilizados Equipamentos de Proteção Individual (EPI)
apropriados quando manuseá-las.
O material necessário para a montagem dos insetos no laboratório é
o seguinte: alfinetes entomológicos, pinças (tipo relojoeiro) e placas
de isopor. Os alfinetes entomológicos necessariamente devem ser
de aço inoxidável. Para introduzir o alfinete no corpo do inseto deve-
se segurá-lo com a pinça, apoiá-lo sobre um suporte para
montagem de insetos ou uma placa de isopor. Há um local
apropriado para introduzir o alfinete em cada grupo de insetos. Os
barbeiros devem ser alfinetados no pronoto, levemente à direita
(Figura 10.1). Depois de o inseto ter sido transfixado, suas pernas
devem ser arrumadas e colocadas numa posição natural e estética,
facilitando o exame posterior. Um inseto bem montado deve ficar em
posição horizontal e o alfinete que o transfixa perpendicular ao seu
corpo. A fim de que a coleção apresente um aspecto harmonioso, os
insetos devem ser espetados em uma mesma altura: um centímetro
abaixo da cabeça do alfinete é uma boa medida, pois permite o
manuseio do inseto sem que os dedos o toquem quando se segura
o alfinete. A figura 10.2 ilustra um inseto alfinetado corretamente,
enquanto a figura 10.3 mostra alfinetagem errônea. No mesmo
alfinete, abaixo do inseto, deverá ser colocada a etiqueta de
procedência (contendo localidade, município e Estado) e a data da
captura. Logo abaixo desta deve ser colocada a etiqueta de
identificação do espécime. A coleção de insetos deve ser mantida
em caixas tampadas que não permitam a passagem de luz e devem
conter naftalina em pó ou outro conservante para evitar o ataque de
outros insetos ou fungos. Os insetos que não possuem indicação de
sua procedência, data da captura e nome do colecionador pouco valem, portanto, depois que o inseto estiver montado em alfinete,
ele deve receber um rótulo. Se a etiqueta for escrita à mão, a tinta
nanquim é a que deve ser usada. Alternativamente podem ser
usados recursos mais modernos de impressão que resistam a breve
período de exposição à água. Procedimentos adicionais sobre
coleta e montagem de insetos em geral podem ser obtidos em
detalhes no livro Manual de Coleta, Conservação, Montagem e
Identificação de Insetos de Almeida et al. (1998).
Figura 10.1: Local adequado para alfinetagem de um triatomíneo
(pronoto à direita).
Figura 10.2: Inseto alfinetado corretamente.
Figura 10.3: Formas incorretas de alfinetagem.
Os insetos podem ser enviados para identificação já montados em
alfinetes, fixados a um pedaço de isopor que deve estar aderido ao
fundo de uma pequena caixa, cujo interior não deve conter em
hipótese alguma objetos soltos que possam se chocar contra o
inseto e destruí-lo (bolas de naftalina, p. ex.). Deve-se enviar um
documento anexo contendo o máximo de informações possíveis
sobre cada espécime (local de captura: intradomicílio, peridomicílio,
anexos domiciliares, extradomicílio ou ambiente silvestre, bem
como, a localidade, o município e o estado do país onde foram
capturados). No caso de insetos mortos não montados em alfinetes,
deve-se protegê-los envolvendo-os individualmente em pedaços de
lenço de papel fino e colocá-los dentro de caixas ou frascos de
modo a evitar que os mesmos se movimentem e possam ser
danificados. O envio de espécimes vivos deve respeitar as normas
de biossegurança no transporte de insetos descritas a seguir.