Vetores da doença de Chagas no Brasil
Ordem Rodentia
humano.
Ordem Rodentia
Roedores não são autóctones das Américas e os primeiros animais
(Hystricognathi –caviomorfos) chegaram com os primeiros primatas
oriundos da África há cerca de 45 milhões de anos. A segunda fase
de entrada de roedores nas Américas (Sciurognathi – cricetídeos) é
bem mais recente e parece estar relacionada à diversificação dos
roedores murídeos e cricetídeos na África e uma rota de migração
que incluía um estabelecimento inicial na América do Norte. Após
sua chegada, os roedores adaptaram-se bem e diversificaram-se
em um grande número de espécies. Estas colonizaram os mais
diversos tipos de habitat, das florestas tropicais aos desertos, dos
planaltos de elevadas altitudes às planícies alagadas, do ambiente
silvestre ao ambiente urbano, além dos mais diversificados estratos
naturais, podendo ser encontradas desde espécies fossoriais a
espécies de hábitos semi-aquáticos e arborícolas.
Na natureza, os roedores formam a maior biomassa de mamíferos
em qualquer ecótopo silvestre. Seus mais diversos microhabitats
são muitas vezes divididos com triatomíneos, como os Triatoma
spp., geralmente associados a refúgios rochosos terrestres e os
Panstrongylus spp., associados a buracos no solo. Adultos do
triatomíneo Eratyrus mucronatus são geralmente associados a
ouriços (Coendu spp.) em árvores, embora as ninfas desse
triatomíneo se alimentem exclusivamente em outros invertebrados.
Um aspecto importante é que, dentre os mamíferos, roedores são
os principais alvos de predação, o que possibilita a transmissão oral
de T. cruzi. Sua importância epidemiológica fica evidente se
considerarmos que muitas espécies, embora silvestres,
frequentemente se aproximam e podem colonizar o ambiente
peridomiciliar.
A infecção de roedores silvestres por T. cruzi é pouco reportada, o
que reflete as limitações na metodologia de coleta dos animais, normalmente restrita a áreas domiciliares. Exemplo disso é que a
maioria das descrições de infecção por T. cruzi em roedores
ocorrem em Rattus rattus, espécie sinantrópica abundante na
maioria das cidades brasileiras e normalmente associada a Triatoma
rubrofasciata. Apesar de abundantes em muitos trabalhos, o
diagnóstico da infecção em Mus musculus é pouco reportado.
Outras espécies já encontradas naturalmente infectadas são: Agouti
paca, Akodon sp., Bolomys lasiurus, Calomys expulsus, C. callosus,
Cavia sp., Clyomys laticeps, Dasyprocta sp., Echymis chrysurus, E.
dasytrix, Galea spixii, Holochilus brasiliensis, Kerodon rupestris,
Nectomys squamipes, Octodon degus, Octodontomys sp., Oecomys
mamorae Oligoryzomys stramineus, Oryzomys capito, O. scotti,
Proechimys spp., Rhiphidomys macrurus, Sigmodon hispidus, e
Tylomys mirae.
Mas sem dúvida, os roedores cuja participação nos ciclos de
transmissão de T. cruzi mais empiricamente comprovados são os
caviomorfos do gênero Thrichomys. Esse gênero compreende ao
menos cinco espécies crípticas distribuídas no Pantanal, Cerrado e
Caatinga brasileiros (Bonvicino et al. 2002). Thrichomys laurentius
(Figura 7.3) foi encontrado com prevalências de infecção por
hemocultivo que chegam a 44% em algumas localidades que
compõem o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí
(Herrera et al. 2005). Esses roedores também já foram encontrados
infectados (100% com sorologia positiva) em uma área de surto de
doença de Chagas Aguda por via oral no Ceará (Roque et al. 2008).
Thrichomys pachyurus, no Pantanal sul-matogrossense e T.
apereoides, no Centro-Oeste do país também já foram encontrados
infectados por T. cruzi e a infecção desses animais ocorre pelos três
genótipos (TCI, TCII e Z3), incluindo o diagnóstico de infecção mista
(TCI/Z3) de um T. pachyurus no Pantanal (Herrera et al. 2007).
Figura 7.3: Thrichomys laurentius proveniente de São Raimundo
Nonato, PI.
Estudos experimentais mostraram que T. apereoides foram capazes
de manter infecções estáveis por ambos genótipos TCI e TCII do
parasito (Herrera et al. 2004). Outras duas espécies do gênero
Thrichomys (T. laurentius e T. pachyurus) também foram capazes de
controlar e manter a infecção experimental por T. cruzi,
apresentando parasitemias patentes, efetiva resposta imune
humoral e importantes danos tissulares (Roque et al. 2005). Nesse
caso, as diferenças observadas no padrão de infecção mostraram
que T. laurentius foi mais resistente à infecção que T. pachyurus,
expressado por mais baixas parasitemias e menores danos
tissulares frente a todas as subpopulações do parasito estudadas. A
diferença observada no curso da infecção experimental pode se
refletir em diferente capacidade desses animais em atuarem como
reservatórios em suas respectivas localidades.