Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 26 de 65

Páginas do PDF

Vetores da doença de Chagas no Brasil

Ordem Rodentia

humano.

 

Ordem Rodentia

 

Roedores não são autóctones das Américas e os primeiros animais

(Hystricognathi –caviomorfos) chegaram com os primeiros primatas

oriundos da África há cerca de 45 milhões de anos. A segunda fase

de entrada de roedores nas Américas (Sciurognathi – cricetídeos) é

bem mais recente e parece estar relacionada à diversificação dos

roedores murídeos e cricetídeos na África e uma rota de migração

que incluía um estabelecimento inicial na América do Norte. Após

sua chegada, os roedores adaptaram-se bem e diversificaram-se

em um grande número de espécies. Estas colonizaram os mais

diversos tipos de habitat, das florestas tropicais aos desertos, dos

planaltos de elevadas altitudes às planícies alagadas, do ambiente

silvestre ao ambiente urbano, além dos mais diversificados estratos

naturais, podendo ser encontradas desde espécies fossoriais a

espécies de hábitos semi-aquáticos e arborícolas.

 

Na natureza, os roedores formam a maior biomassa de mamíferos

em qualquer ecótopo silvestre. Seus mais diversos microhabitats

são muitas vezes divididos com triatomíneos, como os Triatoma

spp., geralmente associados a refúgios rochosos terrestres e os

Panstrongylus spp., associados a buracos no solo. Adultos do

triatomíneo Eratyrus mucronatus são geralmente associados a

ouriços (Coendu spp.) em árvores, embora as ninfas desse

triatomíneo se alimentem exclusivamente em outros invertebrados.

Um aspecto importante é que, dentre os mamíferos, roedores são

os principais alvos de predação, o que possibilita a transmissão oral

de T. cruzi. Sua importância epidemiológica fica evidente se

considerarmos que muitas espécies, embora silvestres,

frequentemente se aproximam e podem colonizar o ambiente

peridomiciliar.

 

A infecção de roedores silvestres por T. cruzi é pouco reportada, o

que reflete as limitações na metodologia de coleta dos animais, normalmente restrita a áreas domiciliares. Exemplo disso é que a

maioria das descrições de infecção por T. cruzi em roedores

ocorrem em Rattus rattus, espécie sinantrópica abundante na

maioria das cidades brasileiras e normalmente associada a Triatoma

rubrofasciata. Apesar de abundantes em muitos trabalhos, o

diagnóstico da infecção em Mus musculus é pouco reportado.

Outras espécies já encontradas naturalmente infectadas são: Agouti

paca, Akodon sp., Bolomys lasiurus, Calomys expulsus, C. callosus,

Cavia sp., Clyomys laticeps, Dasyprocta sp., Echymis chrysurus, E.

dasytrix, Galea spixii, Holochilus brasiliensis, Kerodon rupestris,

Nectomys squamipes, Octodon degus, Octodontomys sp., Oecomys

mamorae Oligoryzomys stramineus, Oryzomys capito, O. scotti,

Proechimys spp., Rhiphidomys macrurus, Sigmodon hispidus, e

Tylomys mirae.

 

Mas sem dúvida, os roedores cuja participação nos ciclos de

transmissão de T. cruzi mais empiricamente comprovados são os

caviomorfos do gênero Thrichomys. Esse gênero compreende ao

menos cinco espécies crípticas distribuídas no Pantanal, Cerrado e

Caatinga brasileiros (Bonvicino et al. 2002). Thrichomys laurentius

(Figura 7.3) foi encontrado com prevalências de infecção por

hemocultivo que chegam a 44% em algumas localidades que

compõem o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí

(Herrera et al. 2005). Esses roedores também já foram encontrados

infectados (100% com sorologia positiva) em uma área de surto de

doença de Chagas Aguda por via oral no Ceará (Roque et al. 2008).

Thrichomys pachyurus, no Pantanal sul-matogrossense e T.

apereoides, no Centro-Oeste do país também já foram encontrados

infectados por T. cruzi e a infecção desses animais ocorre pelos três

genótipos (TCI, TCII e Z3), incluindo o diagnóstico de infecção mista

(TCI/Z3) de um T. pachyurus no Pantanal (Herrera et al. 2007).

Figura 7.3: Thrichomys laurentius proveniente de São Raimundo

Nonato, PI.

 

Estudos experimentais mostraram que T. apereoides foram capazes

de manter infecções estáveis por ambos genótipos TCI e TCII do

parasito (Herrera et al. 2004). Outras duas espécies do gênero

Thrichomys (T. laurentius e T. pachyurus) também foram capazes de

controlar e manter a infecção experimental por T. cruzi,

apresentando parasitemias patentes, efetiva resposta imune

humoral e importantes danos tissulares (Roque et al. 2005). Nesse

caso, as diferenças observadas no padrão de infecção mostraram

que T. laurentius foi mais resistente à infecção que T. pachyurus,

expressado por mais baixas parasitemias e menores danos

tissulares frente a todas as subpopulações do parasito estudadas. A

diferença observada no curso da infecção experimental pode se

refletir em diferente capacidade desses animais em atuarem como

reservatórios em suas respectivas localidades.