Vetores da doença de Chagas no Brasil
A situação epidemiológica atual
região do “Recôncavo Baiano”.
Sobre as demais espécies nativas importa o registro de que, apesar
de sua larga dispersão que ainda, compreensivelmente, se mantém,
o risco de transmissão domiciliar por elas foi grandemente reduzido.
Em relação a T. brasiliensis e T. pseudomaculata comprovou-se
uma importante redução das populações domiciliadas e que o
tempo de reposição da colonização intradomiciliar, e de
restabelecimento da transmissão, pode ser bastante longo (Silveira
et al. 2001a, b). Quanto a T. sordida, reiteradas vezes comprovou-se
sua limitada capacidade vetorial, determinada fundamentalmente
por sua marcada ornitofilia; o que, por consequência, implica baixas
taxas de infecção por T. cruzi na espécie (uma vez que as aves são
refratárias à infecção) e, ademais, pelas raras ocasiões em que
podem colonizar o interior da habitação (Silveira et al. 1993).
Os resultados colhidos absolutamente não desobrigam que se siga
exercendo estrita vigilância entomológica que, ao contrário, deverá
ser intensificada (Dias 2006). O caráter enzoótico da doença de
Chagas faz com que a infecção humana por via vetorial seja sempre
possível, ainda que ocorra episódica ou acidentalmente. Além disso,
a manutenção das demais formas de transmissão depende
primariamente daquela que é naturalmente produzida pela
veiculação de T. cruzi pelos vetores, domiciliados ou não.
A situação epidemiológica atual
A situação epidemiológica atual, não apenas como resultado das
atividades de controle, mas também de mudanças estruturais
havidas no país, desenvolvimento sócio econômico, com melhoria
das condições de habitação; urbanização crescente, com migração
das populações rurais para o meio urbano; além de outras
condições influentes, foi substancialmente alterada.
Adiante se mostra um conjunto de informações que servem para
avaliar o risco atual da transmissão vetorial da doença de Chagas no Brasil.
A cobertura das atividades de vigilância entomológica e controle,
não obstante as dificuldades decorrentes da mudança ainda recente
do modelo de atuação, com operações descentralizadas de controle
nos últimos anos, foi bastante importante tomando por base os
dados conhecidos pela Gerência Nacional do Programa, (Secretaria
de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde). Os dados
constantes da Figura 2.4 revelam que entre os anos 2004 e 2007
foram em média investigadas, aproximadamente 1,7 milhão de
unidades domiciliares/ano. Vale observar que os números
apresentados não incluem, para alguns estados, as atividades
desenvolvidas em um ou outro ano, desde que não há registro delas
no nível central nacional, em função de problemas relacionados ao
sistema de informação. No período considerado foram promovidos
ajustes, nem sempre feitos de forma simultânea pelas Secretarias
Estaduais. Isso significa que os dados que aqui se apresentam
correspondem ao que se sabe com segurança haver sido
efetivamente executado, podendo eventualmente não se contabilizar
parte do trabalho realizado.
Figura 2.4: Unidades domiciliares (UDs) pesquisadas, infestadas
por triatomíneos, conhecidos pela Gerência Nacional do Programa
de Controle da doença de Chagas, e taxa bruta de infestação (II).
Brasil. 2004-2007.
As taxas de infestação agregadas por ano e país, e sem estar
discriminadas por local de captura e estádio podem não ter maior
significação epidemiológica. Incluem infestação estritamente
peridomiciliar e por espécies de triatomíneos com pequena ou
mínima capacidade vetorial. Efetivamente assim se comprova ser,
ao exame das tabelas a seguir (Tabelas 2.5 e 2.6). T. sordida foi a
espécie mais frequentemente capturada no período considerado,
com aproximadamente 50% do total de exemplares de triatomíneos
coletados em capturas domiciliares e, como antes já referido, T.
sordida é vetor muito pouco importante na transmissão de T. cruzi.
Houve também uma alta frequência de capturas de vetores nativos
da região nordeste (T. pseudomaculata e T. brasiliensis). T.
infestans, principal vetor no passado, especialmente no centro, sul e
sudeste do país, contribuiu agora, com dados acumulados de 2004
a 2008, com não mais do que 0,09 do total de espécimes
capturados.
Tabela 2.5: Exemplares de triatomíneos capturados por espécie no
período 2004 a 2008.
Dados acumulados, conhecidos pela Gerência Nacional do
Programa de Controle da doença de Chagas.
Espécie Exemplares capturados
N %
T. sordida 307 213 48,4
T. pseudomaculata 135 642 21,4
T. brasiliensis 130 902 20,6
P. megistus 20 418 3,2
P. lutzi 10 822 1,7
R. neglectus 7 184 1,1
T. rubrovaria 4 698 0,7
R. nasutus 3 557 0,6
T. rubrofasciata 3 457 0,5
P. geniculatus 3 265 0,5
T. infestans 568 0,09
Outras 7 417 1,2
Total 635 143 100
Fonte: SVS/ Ministério da Saúde
Tabela 2.6: Espécie de triatomíneo com maior frequência de
capturas domiciliares por estado com ações regulares de controle
vetorial e seu percentual de participação no total de capturas. Dados
acumulados para o período de 2004 a 2008.
Estado Espécie Participação (%) no
predominante total de capturas
Maranhão Triatoma 93,0
rubrofasciata
Piauí Triatoma 59,7
brasiliensis
Ceará Triatoma 55,5
pseudomaculata
Rio Grande ... ...
do Norte (1)
Paraíba Triatoma 71,4
brasiliensis
Pernambuco Triatoma 44,2
brasiliensis
Alagoas Triatoma 50,3
pseudomaculata
Sergipe Triatoma 41,0
pseudomaculata
Bahia Triatoma 87,6
sordida
Minas Gerais Triatoma 92,4
sordida
Espírito Santo Triatoma 97,2
vitticeps
São Paulo Triatoma 88,8
sordida
Paraná (2) Panstrongylus ...
megistus
Rio Grande Triatoma 81,1
do Sul rubrovaria
Goiás Triatoma 85,9
sordida
Mato Grosso Triatoma 79,7
do Sul sordida
Mato Grosso Triatoma 94,5
sordida
Tocantins Triatoma 69,6
sordida
Brasil Triatoma 48,4
sordida
(1) os dados conhecidos pela SVS/MS apresentam incongruências
que não permitem definir com suficiente segurança a espécie
predominante no estado.
(2) os dados conhecidos pela SVS/MS não permitem precisar com
suficiente segurança a participação (%) da espécie predominante no
total de capturas domiciliares feitas no estado.
Fonte: SVS/Ministério da Saúde
Outro acontecimento significativo, e que deve ser observado, é a
emergência de espécies antes consideradas quase estritamente
silvestres, ou com achado apenas episódico no ambiente
peridomiciliar. Ainda que em alguns casos tenham limitada
dispersão em termos geográficos e que não seja conhecida sua
competência como vetores da infecção chagásica, demandam
atenta vigilância, e investigação no esclarecimento do risco por elas
representado, muito especialmente é esse o caso de Panstrongylus
lutzi.
A propósito da distribuição geográfica dos vetores (tabela 2.6)
importa assinalar que:
1. T. sordida que tem centro de endemismo nos cerrados é a
espécie predominante na Bahia e nos estados das regiões sudeste
e centro-oeste, incluindo áreas de transição para a Amazônia;
2. o marcado predomínio de T. sordida em alguns dos estados antes
maciçamente infestados por T. infestans e coincidentemente os mais
densamente povoados, como Bahia, São Paulo, Minas Gerais e
também Goiás (em Minas Gerais o número de exemplares
capturados foi equivalente a mais de 90 % das capturas feitas);
3. T. brasilienis e T. pseudomaculata, dividem-se como espécies
predominantes nos estados do nordeste;
4. T. vitticeps no Espírito Santo e T. rubrofasciata no Maranhão são
espécies quase exclusivas, ao menos nas áreas que vem sendo
cobertas;
5. Rio Grande do Sul, ainda que haja um expressivo predomínio de
capturas de T. rubrovaria, o achado de P. megistus não é
infrequente;
Os resultados das atividades cumpridas, ratificam assim o baixo
risco de transmissão vetorial naquela área originalmente endêmica,
a través do vetor domiciliado e colonizando o interior das
habitações.
De forma sumária, assumindo que os dados disponíveis oferecem
suficiente confiabilidade, se poderia afirmar que atualmente:
1. a transmissão por Triatoma infestans é improvável, mesmo nos
poucos focos remanescentes, pela baixíssima infestação e
densidade das populações existentes (foi formalmente certificada
sua interrupção, no ano de 2006, por Comissão Intergovernamental
dos Países do Cone Sul e OPAS/OMS);
2. a transmissão domiciliar por aquelas espécies autóctones que
quando dos levantamentos de base se admitia terem participação
direta na produção de casos humanos da infecção é possível, mas não com a frequência ou nos níveis de alta endemicidade em que
ocorria, sobretudo no caso de Panstrongylus megistus.
Entre as muitas outras espécies de triatomíneos nativas duas em
particular devem ser objeto de atenção, pela frequência com que
têm sido capturadas em anos recentes e pela sua tendência, já há
algum tempo demonstrada, à constituição de colônias no interior dos
domicílios. Tratam-se de Triatoma rubrovaria (Silveira et al. 1998,
Almeida et al. 1999) no estado do Rio Grande do Sul e
Panstrongylus lutzi, na região Nordeste, em especial nos estados do
Ceará e de Pernambuco (Figura 2.5). Registre-se ainda que P. lutzi
apresenta altas taxas de infecção por T. cruzi (Silveira & Feitosa
1984).
Figura 2.5: Número de exemplares de Panstrongylus lutzi
capturados no Brasil e estados do Ceará e Pernambuco. 1975-83,
Dados de Base (DB), 1998, 1999, 2000, 2001 e 2007. Fonte: SES
CE e PE; SVS/MS.
No caso de Triatoma rubrovaria, espécie que no país tem
distribuição limitada ao Rio Grande do Sul, claramente esse processo se deveu, ou acompanhou, a gradual eliminação de T.
infestans no centro-sul daquele estado (Figura 2.6). Note-se que
desde o ano de 1983 houve uma inversão no número de
exemplares capturados de uma e outra espécie.
Figura 2.6: Exemplares de Triatoma infestans e Triatoma rubrovaria
capturados no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. 1975/2007.
Fontes: SUCAM, FUNASA e SVS/MS; SES/RS.
Com a grande diversidade de situações existentes no país e
diferente risco de transmissão, ou de restabelecimento da
transmissão vetorial domiciliar, se instituiu a partir de 2006 o
enfoque de risco na definição de prioridades em termos de área de
atuação (SVS/Ministério da Saúde 2005), com a adoção de ações
de vigilância e controle que fossem a ele proporcionais. A
estratificação feita, com base em diferentes variáveis, não apenas
entomológicas (Silveira 2004), levou ao mapeamento das áreas
(municípios) conforme se mostra na Figura 2.7.
Figura 2.7: Distribuição dos municípios brasileiros conforme
estratificação de risco de transmissão vetorial da doença de Chagas
ou de restabelecimento da transmissão domiciliar. 2006.
Fonte: SVS/MS.
Ao todo 2.956 municípios foram distribuídos em estratos de alto,
médio e baixo risco. Na maior parte o risco existente é o de
reinfestação com colonização intradomiciliar, e não propriamente de
transmissão. Ou seja, de uma condição anterior necessária ao
restabelecimento da transmissão domiciliar.
Importa assinalar que entre os municípios considerados de alto risco
estão aqueles ainda infestados por T. infestans, por menores que sejam as populações remanescentes, ou recente que seja a história
de infestação pela espécie.
À medida que a transmissão vetorial endêmica foi sendo controlada,
basicamente pela aplicação domiciliar de inseticidas, outros
mecanismos de transmissão passaram a assumir maior importância
do ponto de vista epidemiológico. A princípio creditou-se às vias
transfusional e congênita a manutenção da endemia chagásica, que
progressivamente tenderiam também ao esgotamento, desde que o
mecanismo primário, vetorial, já não produziria novos casos da
infecção, a não ser episodicamente. A possibilidade de controle
eficaz da transmissão por transfusão sanguínea, pela triagem de
candidatos à doação de sangue através de provas sorológicas de
alta sensibilidade, foi confirmada e viabilizada na prática pelo grande
aumento da cobertura em bancos de sangue. Para isso contribuiu a
implementação dessas ações a partir da epidemia de HIV/AIDS. A
transmissão congênita, ainda que inevitável em termos de
prevenção primária, sempre mostrou diferenças regionais
importantes e, no caso do Brasil, de modo geral, menor relevância
do que aquela conhecida em outros países. Ainda assim casos
ocorrerão mais ou menos frequentemente, enquanto houver
mulheres em idade fértil infectadas.
Mecanismos excepcionais de transmissão, de caráter fortuito,
seriam aqueles associados à enzootia chagásica, incluídas a via
oral e a vetorial extra domiciliar, ou ainda por “visitação” de vetores
silvestres aos domicílios. Essas seriam formas de transmissão raras
e quase inevitáveis, porque pouco previsíveis. Com respeito à
transmissão oral é de se registrar que por longo tempo foi
questionada sua viabilidade, desde quando reportados os primeiros
casos (Nery-Guimarães et al.1968); ainda que, entre reservatórios
animais, tanto silvestres como domésticos, houvesse sido repetidas
vezes reportada (Mayer & Rocha Lima 1914, Dias 1933 e 1940,
Talice 1944, Diaz-Ungria 1965).
Com a virtual interrupção da transmissão vetorial domiciliar no país,
no caso de T. infestans, o mais importante vetor, comprovada e formalmente certificada e, a partir do primeiro registro de casos
autóctones agudos feitos para a região amazônica (Shaw et al.
1969), em que era aventada a possibilidade de transmissão oral,
foram sendo reunidas muitas evidencias de sua ocorrência na
Amazônia. Da mesma forma outros tantos episódios foram sendo
conhecidos na área extra-amazônica, quase sempre na forma de
surtos entre comensais ou com fonte comum de infecção (Shikanai-
Yasuda et al. 1991, Ministério da Saúde 2005a, Gontijo & Santos
2009).
A enzootia chagásica na Amazônia desde há muito era conhecida.
O próprio Carlos Chagas pode comprová-la, tendo inclusive isolado
T. cruzi, de macacos da espécie Saimiri scirius no estado do Pará
(Chagas 1924). Muitos reservatórios animais foram sendo aí
identificados (Deane 1961 e 1964, Valente & Valente 1996a), assim
como diversas espécies de triatomíneos. Ao menos 18 espécies
haviam sido assinaladas na região até o inicio da década de 90, das
quais 10 naturalmente infectadas (Coura et al. 1994). No entanto, a
inexistência de triatomíneos domiciliados, por longo tempo fez crer
que a transmissão em níveis endêmicos da doença de Chagas era
improvável.
Mesmo que não haja ainda evidências documentadas de
domiciliação de triatomíneos, a não ser de Triatoma maculata em
Roraima (Luitgards-Moura 2005 e Ministério da Saúde 2005b) e de
forma incipiente de Panstrongylus geniculatus na região de Marajó,
Pará (Valente & Valente 1996a), o número crescente, a ocorrência
reiterada e o grande acúmulo de casos de doença de Chagas aguda
na região representam elementos suficientes para que se possa
considerar hoje a doença de Chagas endêmica em parte da
Amazônia brasileira.
O que é certo é que se reconhece hoje no país três diferentes áreas
do ponto de vista da epidemiologia da enfermidade de Chagas, ou
três diferentes espaços eco-epidemiológicos e de transmissão de T.
cruzi (Figura 2.8): i) a área extra-amazônica, inicialmente endêmica,
com transmissão domiciliar, que foi por longo tempo objeto de ações sistematizadas de controle vetorial e onde, atualmente, ocorre
transmissão residual por diferentes espécies nativas, entre as quais
teriam especial importância T. brasiliensis e T. pseudomaculata na
região nordeste; ii) a área amazônica, em que a endemia chagásica
é sustentada por mecanismos antes considerados extraordinários
de transmissão: oral, extra domiciliar e domiciliar sem colonização
vetorial (Silveira 2006); e iii) uma área de transição em que
coexistem os dois cenários e que abrange os estados do Maranhão,
Tocantins e Mato Grosso.
Figura 2.8: Diferentes cenários eco-epidemiológicos e de padrões
de transmissão da doença de Chagas no Brasil.
2009. Fonte: SVS/Ministério da Saúde.
A emergência da doença de Chagas na Amazônia não é de fato um
acontecimento novo, no sentido de que apenas recentemente teria
passado a ocorrer a infecção humana autóctone. O que parece sim
ter havido foi uma maior visibilidade, decorrente por um lado dos
agora baixos níveis de transmissão na área originalmente endêmica
e, por outro, da implementação das ações de vigilância naquela
região.
Em revisão da casuística da doença de Chagas feita por
profissionais do Instituto Evandro Chagas em 2004 (Silveira e
Santos 2005 apud Valente et al. 2004), que até então reunia
praticamente toda a informação existente sobre a enfermidade na
região amazônica, como mostram diferentes publicações de
pesquisadores daquela instituição (Frahia et al. 1995, Valente et al.
1999), eram contabilizados: 416 casos autóctones com média de 16
casos/ano; 5 casos crônicos; 411 casos agudos com 11 óbitos; 285
(69,34%) casos agudos relacionados com “microepidemias” (ME);
59 ME, com média de 4,68 casos por episódio.
Em que pese os esforços para a implantação de vigilância
epidemiológica regular e sistematizada junto aos serviços de saúde
(Feitosa 1995, Valente et al. 1995), o não reconhecimento da
importância da enfermidade na região e o desconhecimento sobre
ela existente, além da alta prevalência de patologias como malária e
hanseníase entre outras, contribuíram para que a doença de
Chagas, em alguma medida e por algum tempo, fosse negligenciada
como problema de saúde pública na Amazônia. Como alternativa
estratégica, que viabilizou de inicio as atividades em larga escala da
vigilância de T. cruzi na Amazônia, buscou-se associar a vigilância
da doença de Chagas àquela já exercida para malária, a partir da
capacitação de microscopistas que atuavam no programa de
controle dessa parasitose.
Com isso e com o fato de que o diagnóstico de doença de Chagas
era cada vez mais frequente em algumas áreas, especialmente no
estado do Pará, em Belém e municípios próximos, houve um grande
incremento no número de casos registrados a partir de 2006. Isso se
comprova pelo exame dos dados constantes da Tabela 2.7 em que
se exibe o número de casos de doença de Chagas Aguda (DCA)
conhecidos na Amazônia Legal do Brasil, que inclui os estados do
Maranhão e do Mato Grosso, e o total de óbitos registrados na
região entre 2005 e 2008.
Tabela 2.7: Número de casos de Doença de Chagas Aguda (DCA)
conhecidos na Amazônia Legal do Brasil e total de óbitos
registrados no período 2005 a 2008.
Estado Número de casos / ano Óbitos
2005 2006 2007 2008 Total
Amazonas 28 28 1
Pará 10 83 109 99 301 12
Amapá 5 19 20 44
Tocantins 1 5 6
Maranhão 2 1 2 5 10 1
Mato Grosso 1 1 2
Brasil 12 90 160 129 391 14
Fonte: SVS/Ministério da Saúde
Tal como antes assinalado, a participação do estado do Pará no
número total de casos é extraordinariamente alta, contribuindo com
76% dos casos conhecidos no período considerado (Figura 2.9).
Figura 2.9: Participação (%) dos estados da Amazônia Legal
Brasileira no número total acumulado de casos de Doença de
Chagas Aguda na região, no período 2005 a 2008.
Fonte: SVS/Ministério da Saúde.
Fato notável é que na medida em que se passou a atentar para a
ocorrência de doença de Chagas com transmissão por via oral na
região amazônica, outros tantos episódios, na forma de surtos
localizados, foram reportados para a região extra-amazônica,
enquanto antes disso foi acontecimento raramente verificado. Além
do mais, casos agudos isolados de transmissão vetorial por
visitação e ainda outros em que não se pode comprovar o
mecanismo responsável pela produção dos casos foram notificados.
A Tabela 2.8 mostra que afora os 391 casos de DCA registrados
para a Amazônia Legal, outros 53 foram conhecidos em estados de
outras macroregiões, entre 2005 e 2008, o que totaliza 444 casos
para o país naquele período.
Tabela 2.8: Número de casos de Doença de Chagas Aguda (DCA)
conhecidos no Brasil e total de óbitos registrados no período 2005 a
2008.
Estado Número de casos/ ano Óbitos
2005 2006 2007 2008 Total
Amazonas 28 28 1
Pará 10 83 109 99 301 12
Amapá 5 19 20 44
Tocantins 1 5 6
Maranhão 2 1 2 5 10 1
Piauí 2 1 1 4
Ceará 8 1 9
Bahia 13 13 2
São Paulo 3 3 1
Santa Catarina 24 24 3
Mato Grosso 1 1 2
Brasil 36 116 161 131 444 20
Fonte: SVS/Ministério da Saúde
A distribuição conforme o mecanismo de transmissão (Tabela 2.9)
revela que a grande maioria deles foi devida, ou atribuída, à via oral,
que representou aproximadamente 74 % do total de casos.
Tabela 2.9: Casos de Doença de Chagas Aguda (DCA) conhecidos
no Brasil, segundo o mecanismo de transmissão.
Ano N. Total de Casos segundo o mecanismo de
casos transmissão
Oral Vetorial Ignorado
N % N % N %
2005 36 27 81,8 0 0 9 25,0
2006 116 107 90,7 3 2,5 6 5,2
2007 161 119 73,9 3 1,8 39 24,2
2008 131 74 56,5 4 3,2 53 40,4
Total 444 327 73,8 10 2,3 107 23,9
Fonte: SVS/Ministério da Saúde
Desse modo resulta muito evidente que a atual situação
epidemiológica da doença de Chagas no Brasil se caracteriza pela:
i) ascendência e predomínio da transmissão diretamente
relacionada à enzootia chagásica, especialmente pela via oral, em
que a infecção humana não deixa de ser acidental, por mais
frequente que possa ser; e, ii) pela concentração de casos na região
amazônica, especialmente na forma de surtos localizados, e que
tem experimentado um grande incremento desde quando instituídas
ações regulares de vigilância (Figuras 2.10 e 2.11).
Figura 2.10: Número de casos de Doença de Chagas aguda em
surtos registrados na Amazônia brasileira. 1968/2007.
Figura 2.11: Número de casos de Doença de Chagas Aguda (DCA)
relacionados a surtos, registrados por estado e ano na Amazônia
brasileira. 1968 – 2007.
Fonte: Gerência Técnica de Doença de Chagas/ SVS/Ministério da
Saúde
Interessa notar que na Amazônia a distribuição dos casos
autóctones de enfermidade de Chagas aguda é muito desigual. Há
que distinguir: i) áreas com transmissão endêmica; ii) áreas em que
casos são conhecidos episodicamente; e, iii) áreas sem transmissão
conhecida ou para as quais não existe informação.
Uma vez que se considere os estados que compõem a região
amazônica, se poderia categorizá-los de acordo com a situação antes descrita em: grupo 1: Amazonas, Amapá e Pará; grupo 2:
Maranhão, Mato Grosso e Tocantins; grupo 3: Acre, Rondônia e
Roraima.
O primeiro grupo corresponde a estados em que se está fazendo a
busca sistematizada e em ampla escala de T. cruzi em lâminas
coletadas para o diagnóstico de malária, e onde há a ocorrência
frequente de casos, particularmente no estado do Pará. O segundo
grupo inclui aqueles estados que se poderia considerar de transição
entre o cerrado e a floresta amazônica e, daí, apresentarem como
peculiaridade comum entre eles, o fato de serem áreas em que
havia a transmissão domiciliar endêmica e que registram agora
casos com o “padrão amazônico” de transmissão. Têm apresentado
apenas episodicamente casos de DCA. Por fim, para o último grupo
de estados não há informação. A vigilância da doença de Chagas
não foi instalada como atividade rotineira, o que pode significar que
simplesmente não existe transmissão ou que não se atribui a ela, na
prática, qualquer importância.
Em escala de município, o quadro seguinte (Figura 2.12) revela que
poucos são os municípios que apresentaram ao longo do tempo
notificação reiterada de enfermidade aguda na Amazônia. Esse fato
pode significar que essa área é aquela de maior risco e onde se
concentra a transmissão endêmica da infecção/doença de Chagas
humana. No entanto, considerando que a vigilância epidemiológica
na Amazônia não abarca ainda todo seu extenso território, essa
afirmação não é possível fazer com absoluta segurança.