Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 20 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

A organização temporal do comportamento

que estão nas proximidades (Manrique et al. 2006).

 

O segundo meio de comunicação utilizado pelos barbeiros são as

vibrações que produzem ao esfregar o rostro contra um sulco

estriado localizado entre as pernas dianteiras. A estridulação, ou

emissão destas vibrações, ocorre quando o inseto é perturbado.

Isso pode ocorrer em diferentes contextos e os sinais produzidos

são diferentes em cada caso. Por exemplo, quando um macho tenta

acasalar com uma fêmea que não está motivada a fazê-lo, porque

ela é muito jovem, a tentativa será rejeitada pela fêmea, que

começa a estridular (Manrique & Lazzari 1994). A estridulação

emitida quando um inseto é capturado por um predador ou uma

pinça é diferente na frequência e estrutura temporal (Manrique &

Schilman 2000, Schilman et al. 2001, Lazzari et al. 2006). O papel

deste segundo tipo de estridulação não parece estar relacionado à

comunicação entre os insetos, mas sim para tentar interromper o

predador que o capturou (Lazzari et al. 2006). Essa estratégia é

conhecida em outros insetos, que estando prisioneiros de uma teia

de aranha ou no bico de um pássaro, iniciam a estridulação numa

tentativa de serem libertados.

 

A organização temporal do comportamento

 

Como mencionado acima, a estreita associação das espécies de

triatomíneos com seus hospedeiros é vantajosa ao facilitar o acesso

ao alimento e ao proporcionar um microclima favorável. Sem dúvida,

tal proximidade, exerce uma forte pressão de seleção para

desenvolver estratégias para evitar a detecção, em especial,

aquelas que permitam explorar os momentos do dia em que os

hospedeiros estão mais vulneráveis (Barrozo et al. 2004b). Entre as

adaptações mais importantes para compartilhar o habitat com seus

hospedeiros encontramos uma organização temporal de suas

diferentes atividades muito precisa. Ou seja, os barbeiros saem e

voltam para seus abrigos, se alimentam, dispersam e ovipositam

apenas em momentos muito bem definidos, que são os mais adequados em termos de evitar riscos e aproveitar as melhores

condições ambientais.

 

Os hábitos noturnos dos triatomíneos são bem conhecidos. No

entanto, isto não significa que eles se mantêm ativos durante toda a

noite ou que realizam todas as suas atividades, no mesmo horário.

A atividade do barbeiro segue um padrão bimodal, ou seja, eles se

tornam ativos duas vezes durante uma única noite, com um período

de baixa atividade no meio da noite (Lazzari 1992). O primeiro pico

de atividade corresponde à saída dos abrigos para buscar

alimentação, enquanto o segundo corresponde ao retorno aos

abrigos (Lorenzo & Lazzari 1998). Um fato interessante é que não

só o comportamento está sujeito ao controle temporal, mas também

a sensibilidade aos estímulos associados a tais respostas

comportamentais. Assim, a sensibilidade aos estímulos

provenientes do hospedeiro é limitada a uma janela de tempo no

início da noite, enquanto a sensibilidade aos feromônios de

agregação é maior ao amanhecer (Barrozo et al. 2004a, Bodin et al.

2008). Também a sensibilidade dos olhos dos barbeiros à luz varia

de acordo com um ritmo diário, de modo que os barbeiros se tornam

mais sensíveis a estímulos como luzes, sombras, contrastes e

movimentos durante a noite (Reisenman et al. 1998, Reisenman et

al. 2002).

 

A dispersão de triatomíneos para um novo habitat por meio do voo

ocorre no início da noite (Noireau & Dujardin 2001), já a oviposição

ocorre ao anoitecer, enquanto a eclosão ocorre ao amanhecer

(Lazzari 1991, Barrozo et al. 2004b). Além disso, um ritmo diário de

termopreferência lhes permite aumentar sua temperatura corporal

antes de iniciarem suas atividades (Minoli & Lazzari 2003).

 

Não apenas o comportamento dos barbeiros é regido por relógios

internos, mas também sua fisiologia e desenvolvimento. A primeira

expressão clara do funcionamento destes relógios na vida dos

barbeiros é o seu ritmo diário de eclosão dos ovos ao amanhecer

(Lazzari 1991). A ecdise também tem uma expressão rítmica e

ocorre principalmente ao amanhecer (Ampleford & Steel 1982). Esta ritmicidade é uma adaptação para sobreviver em ambientes com