Vetores da doença de Chagas no Brasil
4. Morfologia externa dos adultos
(Cleber Galvão & José Jurberg)
“Animais diferem uns dos outros em seus modos de
subsistência, em suas ações, em seus hábitos e em suas
partes.”
(Aristóteles, História dos Animais, livro I)
Como comentado no capítulo 3, os hemípteros se caracterizam pelo
aparelho bucal do tipo picador-sugador. Como os demais insetos
possuem o corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen e revestido
por um exoesqueleto que é periodicamente substituído no processo
conhecido como muda ou ecdise, permitindo assim o crescimento
do inseto até a fase adulta. Os principais caracteres usados na
diferenciação das famílias de hemípteros são as antenas, o rostro,
as pernas e as asas. As antenas podem ter quatro ou cinco
artículos; o rostro tem em geral três ou quatro artículos, e em alguns
grupos repousa num sulco quando não está em uso. As pernas
anteriores da maioria dos grupos predadores são adaptadas para
agarrar a presa e são chamadas raptórias. Os hemélitros variam
consideravelmente de acordo com cada grupo de hemípteros.
Na família Reduviidae a cabeça dos insetos é geralmente estreita e
alongada, possui dois olhos compostos protuberantes separados
dorsalmente por um espaço chamado região interocular (ou
sinlipsis), e um sulco transversal pós-ocular. Logo após esse sulco
estão localizados os ocelos que podem ser proeminentes ou mais
achatados.
A região anterior aos olhos é chamada anteocular e a posterior pós-
ocular. Na região anteocular ficam localizados o clípeo, as jugas e
as genas. O rostro (aparelho bucal) é trissegmentado e geralmente
curvo e a ponta repousa num sulco do prosterno. A maioria dos reduviídeos é predadora de outros insetos (com exceção da
subfamília Triatominae que é hematófaga).
As principais diferenças entre os triatomíneos (barbeiros) e outros
hemípteros terrestres (percevejos em geral) estão na morfologia e
na forma de utilização do aparelho bucal. Nos hemípteros fitófagos o
rostro possui quatro segmentos, enquanto que nos reduviídeos
possui apenas três, sendo sempre retilíneo na subfamília
Triatominae e geralmente curvo nas demais subfamílias de
Reduviidae. Outra característica que pode auxiliar na diferenciação
dos triatomíneos dos demais reduviídeos é o sulco transversal pós-
ocular que pode ser profundo na maioria das subfamílias, pouco
evidente (Triatominae) ou ausente (Phymatinae) (Figura 4.1).
Figura 4.1: Diferenças na conformação do aparelho bucal de
hemípteros hematófagos (Triatominae), predadores (Reduviidae) e
fitófagos (diversas famílias).
A maioria das espécies de triatomíneos pode ser identificada com
base em sua morfologia externa e coloração, que pode ser melhor
observada nos insetos vivos ou recentemente capturados.
Espécimes de coleção tendem a se tornarem mais claros ou pálidos
com o passar do tempo. A aparência geral dos triatomíneos é similar
à de outros reduviídeos como pode ser observada na figura 4.2.
Figura 4.2: Morfologia geral de um barbeiro.
Os adultos de triatomíneos se distinguem das ninfas pela presença
de ocelos, pela genitália bem desenvolvida, e com exceção das
duas espécies de Mepraia (gênero que só ocorre no Chile e possui
polimorfismo alar) por possuírem asas anteriores e posteriores bem
desenvolvidas. O dimorfismo sexual está presente, ou seja, as fêmeas são sempre maiores que os machos da mesma espécie,
além disso, as fêmeas apresentam o ápice do abdômen pontudo
devido à presença do ovipositor, enquanto que nos machos o ápice
é arredondado (Figura 4.3).
Figura 4.3: Vista dorsal do abdômen evidenciando o dimorfismo
sexual.
O comprimento total dos adultos varia de 5 mm em Alberprosenia
goyovargasi até 44 mm em Dipetalogaster maxima, a média,
entretanto, varia de 20 a 30 mm. A coloração é útil para auxiliar na
identificação, especialmente de espécimes recém mortos ou bem
preservados. A coloração geral do corpo é negra ou marrom com
manchas amareladas, alaranjadas, amarronzadas ou avermelhadas
em várias regiões do corpo. A cor esverdeada só é vista em uma
espécie: Panstrongylus rufotuberculatus. As manchas mais claras
podem estar presentes em qualquer área do corpo ou apêndices,
sua intensidade e distribuição tem considerável importância para
propósitos taxonômicos. Variações intraespecíficas de coloração,
geralmente associadas a diferentes populações geográficas não são
raras, ocorrem, por exemplo, em Triatoma infestans, T. rubrovaria e Panstrongylus geniculatus. O grau de granulação ou de rugosidades
do tegumento fornece caracteres úteis à identificação.
Para propósitos taxonômicos a cabeça é dividida em região
anteocular e região pós-ocular e as proporções entre essas regiões
são usadas nas descrições, outras estruturas da cabeça importantes
taxonomicamente são o clípeo, as jugas, as genas, além do rostro e
antenas (Figura 4.4).
Figura 4.4: Estruturas da cabeça de importância taxonômica.
O tórax é divido em três segmentos chamados protórax (anterior),
mesotórax (mediano) e metatórax (posterior). A região dorsal de
cada segmento é chamada de noto, as laterais de pleura e a ventral
de esterno. O pronoto dos triatomíneos é extremamente
desenvolvido e dividido em dois lobos com diversas estruturas de
importância taxonômica, logo após está localizada uma peça triangular, chamada escutelo, que se estende sobre os primeiros
segmentos abdominais (Figuras 4.5, 4.6).
Figura 4.5: Morfologia do tórax em vista lateral e ventral.
Figura 4.6: Pronoto e escutelo
O abdômen é achatado dorso-ventralmente e sua borda, que
conecta as faces dorsal e ventral é chamada de conexivo. O
conexivo apresenta manchas que são importantes para auxiliar na
diferenciação das espécies (Figura 4.7). Entre as faces dorsal e
ventral do conexivo pode existir uma membrana que permite uma
maior dilatação do abdômen durante a alimentação. Essa estrutura
apresenta conformações diferentes entre os gêneros (Figura 4.8).
As pernas também podem apresentar anelações ou coloração úteis
na diagnose das espécies.
Figura 4.7: Vista dorsal (esquerda) e ventral (direita) do abdômen
do macho.
Figura 4.8: Esquema das estruturas conexivais de adultos de
Triatominae em corte transversal. A: Triatoma, Panstrongylus,
Eratyrus e Linshcosteus. B: macho de Mepraia spinolai. C: fêmea de
Mepraia spinolai. D: Dipetalogaster maxima. E: Rhodniini,
Bolboderini, Cavernicolini e Paratriatoma. F: esquema de um corte
longitudinal dos urotergitos de D. maxima (espécime em jejum).
(Adaptado de Lent & Wygodzinsky 1979).
A genitália apresenta diversas estruturas que podem ser úteis na
diferenciação de gêneros e espécies. Seu estudo nos triatomíneos
iniciou-se com Pinto (1926) que observou o falo, os “ganchos”
(parâmeros) e a “espinha” (processo mediano do pigóforo).
Posteriormente, Galliard (1935, 1936) ampliou o estudo para as
genitálias de ambos os sexos. Dupuis (1955, 1963) publicou uma revisão léxica, uniformizando a terminologia usada para denominar
as estruturas fálicas. A partir de 1965, com os trabalhos de Lent &
Jurberg as diversas estruturas fálicas das genitálias passaram a ser
analisadas comparativamente mostrando que essa ferramenta pode
ser útil para auxiliar na caracterização de tribos, gêneros, espécies e
até mesmo de populações (Figura 4.9, 4.10). A genitália das fêmeas
não apresenta estruturas que permitam uma boa comparação entre
as espécies e por isso nunca foram utilizadas. Recentemente,
porém, Rosa et al. (2010) mostraram que, por meio de microscopia
eletrônica de varredura, tais estruturas podem ser úteis para
estudos taxonômicos.
Figura 4.9: Esquema comparativo do processo mediano do pigóforo
de doze espécies do gênero Rhodnius
(Reproduzido de Jurberg et al. 1998).
Figura 4.10: Esquema comparativo do falosoma de dez espécies do
gênero Rhodnius (Reproduzido de Jurberg et al. 1998).
A genitália externa dos machos é composta pelos 8º e 9º segmentos
abdominais que ficam telescopados dentro do abdômen. O nono
segmento ou pigóforo é representado em quase sua totalidade pelo
9º esternito, globoso e bastante quitinizado, o 9º tergito (9t)
restringe- se a uma pequena área menos quitinizada. O pigóforo
caracteriza- se por possuir 1+1 aberturas, a basal de formato
circular prende- se ao 7º segmento através de uma membrana
elástica, e a apical caracteriza-se por estar rodeado de várias
estruturas: 1+1 parâmeros (Pa) que ladeiam a abertura genital; uma
estrutura ímpar fortemente quitinizada, localizada na parte inferior
da abertura genital denominada processo mediano do pigóforo (PrP), geralmente acuminada e triangular. Na parte superior está
situada a abertura anal (A) tubular e membranosa, que é o 11º
segmento e fica dentro do 10º segmento (X). Dentro do pigóforo
está abrigado o falo (P), complexo composto de duas partes
distintas intimamente soldadas, o aparelho articular (Apb) e o
edeago (Ae). O aparelho articular é uma estrutura fortemente
quitinizada na forma da letra Y invertida, e constituída por uma placa
basal (Plb) tubular e dobrada, tendo na região mediana uma trave
cilíndrica unindo os dois braços chamada ponte basal (PB). Na
região superior, externamente unindo a placa basal ao edeago,
localiza-se uma placa retangular denominada de extensão superior
da placa basal (Eplb). O Edeago (Ae) é globoso e constituído de
várias estruturas, a conjuntiva (Cj) membranosa que reveste a parte
superior do edeago, o endosoma (En) membranoso e elástico que
se everte no ato da cópula, 1+1 processos do endosoma (PrEn)
laminares e pouco quitinizados e estriados longitudinalmente, a
vesica (V) de formato triangular e que limita o endosoma, o
falosoma (Ph) placa laminar externa bastante quitinizada que serve
de assoalho ao edeago e o suporte do falosoma (SPh) uma
estrutura cilíndrica de base única e braços paralelos quitinizados
situados na face interna do falosoma (Figura 4.11). As estruturas
fálicas podem estar presentes (+) ou ausentes (-) variando entre os
gêneros da subfamília, podem ainda estar acrescidas de apêndices
(Figura 4.12). Para uma melhor compreensão do tema é necessário
consultar os diversos trabalhos publicados por Lent & Jurberg a
partir de 1965, entretanto, um ponto de partida pode ser a
publicação de Jurberg et al. (1998b), que dá uma visão geral dessa
temática aplicada a toda a subfamília.
Figura 4.11: Rhodnius stali Lent, Jurberg & Galvão, 1993. A
esquerda, falo distendido em vista ventral. A direita, falo distendido
em vista dorsal (En: endosoma, EPlb: extensão mediana da placa
basal, Plb: placa basal, PrCj 1, 2, 3: processos da conjuntiva1, 2 e 3,
PrEn1,2: processos do endosoma 1 e 2, Ph: falosoma, PrG:
processo do gonoporo, SPh: suporte do falosoma) (Reproduzido de
Jurberg et al. 1998).
Figura 4.12: Quadro comparativo entre as estruturas fálicas dos
gêneros de Triatominae (reproduzido de Jurberg et al. 1998)