Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 19 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

A comunicação entre indivíduos

(Pereira et al. 1996, Dan et al. 1999, Lehane 2005).

 

Ao fazer contato com a pele de um hospedeiro, um sinal nervoso

provoca uma profunda mudança na parede abdominal das ninfas

dos triatomíneos. A cutícula perde sua rigidez e torna-se mais

flexível face ao aumento da pressão interna gerada pela bomba de

ingestão. Desta forma, o abdome do inseto se expande e aumenta o

seu volume original, abrigando uma quantidade de sangue

equivalente a várias vezes o peso do inseto em jejum (Maddrell

1966, Orchard et al. 1988, Ianowski et al. 1998). Uma vez

alimentado, o inseto torna-se volumoso, pesado e sua mobilidade é

reduzida. É hora então de se mover e se afastar do hospedeiro o

mais rapidamente possível.

 

Recentemente, foi demonstrado que o dióxido de carbono, um

estímulo atrativo para a maioria dos insetos sugadores de sangue,

torna-se repulsivo para o barbeiro recém-alimentado (Bodin et al.

2009). Ou seja, para fugir de um hospedeiro quando não é mais

necessário se alimentar, os triatomíneos utilizam os mesmos

estímulos que os guiaram até sua fonte de alimento, mas neste caso

para se orientarem no sentido contrário.

 

O comportamento alimentar dos triatomíneos é modulado por vários

fatores que fazem com que a resposta aos estímulos do hospedeiro

e alimentação só ocorram quando necessário. Em determinadas

circunstâncias, como quando o inseto está se preparando para fazer

uma ecdise e passar para a próxima fase de desenvolvimento, ou

quando uma fêmea está prestes a iniciar a oviposição, ou ainda

quando os insetos têm reservas alimentares, ocorre uma inibição

endógena para evitar a exposição desnecessária ao risco de

predação (Barrozo et al. 2004a, Bodin et al. 2008, Bodin et al.

2009a, b).

 

A comunicação entre indivíduos O barbeiros, como os demais insetos, são capazes de se

comunicarem uns com os outros, enviando mensagens de

significado específico, como “perigo”, “abrigo”, “procuro um parceiro

(a)” ou “não me perturbe”, cada qual com um valor biológico

particular dependendo do contexto. A forma como essas mensagens

são emitidas e enviadas para outros indivíduos varia de um caso a

outro. A comunicação entre os barbeiros ocorre por meio de dois

canais diferentes para o envio e recepção destas mensagens: o

canal químico, utilizando feromônios e o vibratório, baseado na

estridulação (Lorenzo Figueiras et al. 1999).

 

As diferentes mensagens químicas necessitam de substâncias ou

misturas de substâncias que afetarão o comportamento dos outros

indivíduos. As propriedades destas substâncias, ou feromônios,

farão que a mensagem seja discreta e limitada ao ambiente próximo

do emitente ou dispersem a distâncias maiores. Assim, os

componentes químicos de um feromônio específico serão mais ou

menos voláteis, de acordo com o significado biológico da

mensagem. Até agora foram identificados nos triatomíneos dois

feromônios de agregação. Um deles é depositado junto com as

fezes nas proximidades das entradas dos abrigos, permitindo o

retorno dos insetos ao amanhecer (Lorenzo Figueiras et al. 1994,

Lorenzo & Lazzari 1996, Bodin et al. 2008). O outro feromônio de

agregação tem propriedades diferentes do primeiro, sendo

depositado sobre o substrato sobre o qual os insetos caminham.

Este feromônio tem o efeito de diminuir a atividade de triatomíneos

no interior dos abrigos, mantendo-os agregados durante o dia

(Lorenzo Figueiras & Lazzari 1998b). Os feromônios sexuais dos

insetos são produtos químicos que mediam o encontro entre

machos e fêmeas. Apesar de sua existência em triatomíneos já ter

sido demonstrada (Baldwin et al. 1971, Manrique & Lazzari 1995),

sua função e origem só começaram a ser elucidados recentemente.

São as glândulas metasternais dos triatomíneos que parecem

produzir as substâncias voláteis que atraem e agregam os machos

(Manrique et al. 2006, Crespo & Manrique 2007, Zacharias et al.

2010). As glândulas de Brindley parecem ser, por sua vez, as

responsáveis por um feromônio de alarme que, quando liberado por um inseto molestado, causa o afastamento e dispersão dos insetos