Vetores da doença de Chagas no Brasil
O processo de domiciliação dos triatomíneos
ecossistema.
As espécies do gênero Panstrongylus tem os buracos construídos
por animais, como o tatu, ou formados espontaneamente entre as
raízes de árvores robustas como ecótopo primário. Entretanto, um
dos mais importantes vetores da doença de Chagas no Brasil (P.
megistus) ocorre também em ocos de árvores e coroas de
palmeiras. Na Amazônia, adultos de P. lignarius ocorrem livres sobre
os troncos e entre as folhagens das árvores, ao passo que as ninfas
se refugiam nos ocos, associadas principalmente com lagartixas do
gênero Thecadactylus (Tabela 11.1).
O gênero Triatoma tem como ecótopo primário as formações
rochosas. Entretanto, dois dos mais importantes vetores da endemia
chagásica no Brasil tem nos vegetais seu principal ecótopo: T.
sordida é o triatomíneo mais capturado no peridomicílio no cerrado.
No ambiente natural esta espécie ocupa buracos de árvores e
bromélias. Triatoma pseudomaculata é o segundo triatomíneo mais
coletado no intradomicílio em quase todos os estados do semiárido
brasileiro (Costa et al. 2003, Sarquis et al. 2004). No ambiente
natural, T. pseudomaculata ocorre principalmente sob cascas e no
oco de árvores, como a jurema (Mimosa tenuiflora) (Freitas et al.
2004).
Entre os ecótopos ocupados pelos triatomíneos, os domiciliares e
peridomiciliares são os principais envolvidos na ecoepidemiologia da
doença de Chagas. Como mencionado no capítulo 2, somente uma
fração muito pequena das espécies descritas pode ser incriminada
pela manutenção da endemia chagásica. A associação do
triatomíneo com o ser humano (processo de domiciliação ou
sinantrópico) dentro de um contexto ecoepidemiológico será tratada
no tópico seguinte.
O processo de domiciliação dos triatomíneos
Pessoa (1962) comentou a importância do processo sinantrópico
dos triatomíneos, explicando como sendo uma associação do vetor
com o ecótopo construído ou modificado pelo ser humano. Em sua
obra, o autor ressalta a íntima correlação entre a domiciliação dos
triatomíneos e a transmissão da doença de Chagas, que é então
favorecida pela coabitação do vetor e do ser humano.
Schofield et al. (1999) mencionaram que, embora tenham sido
desenvolvidas explicações razoáveis para a compreensão do
processo de domiciliação dos triatomíneos, as pesquisas ainda
apresentam-se distantes da elucidação dos mecanismos que
produziram este evento, o que seria um dos maiores desafios para a
próxima década. Dez anos após, no centenário da descoberta da
doença de Chagas, pouco se avançou para elucidar o mecanismo
envolvido neste processo e paradoxalmente, a literatura apresentou
uma série de episódios indicando que espécies de triatomíneos, até
então restritas ao ambiente silvestre, vinham colonizando ou sendo
frequentemente encontradas no ambiente domiciliar (Almeida et al.
2000, Reyes-Lugo & Rodriguez-Acosta 2000, Costa et al. 2003,
Santos et al. 2005, Almeida et al. 2009).
As opiniões sobre os processos envolvidos na domiciliação dos
vetores da doença de Chagas são divergentes. Alguns autores
(Aragão 1983) consideram tratar-se de simples oportunismo frente a
escassez das fontes naturais de alimento e outros acreditam tratar-
se de processo gradual de adaptação, sujeito à seleção natural
(Forattini 1980, Pessoa 1962). Como a maioria das espécies de
triatomíneos reconhecidos como domiciliados (T. infestans, T.
brasiliensis, R. prolixus e P. megistus) apresentam-se distintas
quanto ao ramo filogenético (veja capítulos 3 e 13), origem ecotípica
primária e ecossistema (vide tópicos anteriores), é mais provável
que o processo de domiciliação de cada espécie apresente um
modelo próprio com diferenças também marcantes (Dujardin et al.
2009).
O “modelo Triatoma infestans” oferece importantes indícios sobre o
possível processo de adaptação de um vetor ao ambiente domiciliar. Ressalta-se porém a necessidade de cautela no uso do termo
“adaptação”. Na biologia evolutiva, o termo descreve o processo
pelo qual uma característica, devido ao aumento que confere no
valor adaptativo, foi moldada por forças específicas de seleção
natural fixando a variação genética (Futuyma 1995). Segundo Ávila-
Pires (1995) o termo “adaptação” tem sido frequentemente
empregado sem argumentos consistentes. Segundo esse autor, a
adaptação de um organismo envolve modificação genética na qual a
aquisição de novos padrões de comportamento e modificações da
biologia, por exemplo são observados. Tanto Schofield et al. (1999)
quanto Ávila-Pires (1995) admitem que esse processo envolve
simplificação genética, com perda de genes, como aqueles
responsáveis pela capacidade de retornar ao ecótopo silvestre.
No caso de T. infestans, o termo “adaptação” parece ser adequado,
pois estudos recentes sugeriram que as populações de T. infestans
em áreas onde ela também ocorre no ambiente silvestre (Andes
Bolivianos) são distintas genotipicamente das populações
domiciliares (Richer et al. 2007). Além disso, embora no passado T.
infestans tenha apresentado altos índices de infestação domiciliar
na maioria dos estados brasileiros, esta espécie não foi capaz de
colonizar o ambiente silvestre. Ou seja, tanto a diferenciação
observada por Richer et al. (2007) para populações domiciliadas,
quanto a sugestão de que estas não são capazes de colonizar o
ambiente silvestre em nenhum dos ecossistemas onde ela infestou
domicílios, sugere que as populações domiciliadas desta espécie
realmente possam ter perdido os genes associados à sua habilidade
para colonizar ambientes naturais.
Desde 1980, Forattini já havia elaborado hipóteses para explicar o
processo de domiciliação dos triatomíneos, baseado no modelo T.
infestans, mencionando que:
[...] a partir do desenvolvimento da domiciliação e do progredir das
alterações do meio, instala- se o isolamento domiciliar que tenderá
cada vez mais à diferenciação desse comportamento. Compreende-se assim a possibilidade de evolução no sentido de populações
acentuada ou mesmo estritamente sinantrópicas [...]
Forattini (1980) levantou ainda uma série de discussões sobre a
origem do fenômeno da domiciliação para este vetor. Baseado em
informações biogeográficas, esse autor mencionou que o processo
de domiciliação de T. infestans já havia sido consolidado no período
pré-colombiano. Através da autópsia de múmias, Rothhammer et al.
(1985) apresentaram outras evidências de que a adaptação de T.
infestans ao domicílio tenha favorecido sua dispersão para outras
áreas durante o período pré-colombiano, seguindo as migrações
tribais pré-incas da Bolívia ao sul do Peru e norte do Chile. Segundo
Silveira & Vinhaes (1999) e Dias et al. (2000, 2002), no início de
1900, possivelmente T. infestans, já adaptado ao domicílio, seguiu o
circuito de importação e exportação do café, passando pelo
Paraguai e Argentina até chegar a São Paulo. Posteriormente, T.
infestans seguiu duas rotas independentes de ocupação e
desmatamento de florestas litorâneas, colonizando o sul e nordeste
brasileiros. Sua ocupação nestas regiões causou o maior número de
casos de infecção pela doença de Chagas já registrado na história
desta moléstia no Brasil.
O modelo de adaptação às habitações humanas por T. infestans foi
proposto por Schofield et al. (1999) e aqui modificado, estando
representado na Figura 11.6. Postula-se que a população silvestre
(1) mantém-se em panmixia (cruzamento aleatório) e com
destacada variabilidade genética. O evento primário associado ao
processo de domiciliação trata-se de um fragmento (pequeno
número de espécimes representantes) dessa população que invade
o peridomicílio (2) ou diretamente o domicílio (3). Devido a
características pré-adaptativas (descritas a seguir), esta população
invasora se expande mantendo- se relativamente homogênea
geneticamente por efeito fundador.3 No peridomicílio ou no domicílio
o genótipo é moldado (4), ou seja, ocorre a modificação genética
envolvendo a adaptação stricto senso ao ambiente domiciliar por
seleção natural em função do ecótopo domiciliar. Assim, a espécie
“apura” a carga genética responsável pela adaptação ao domicílio (como os genes associados ao condicionamento biológico a este
novo ambiente), mas também perde uma série de outros associados
à sua capacidade para retornar ao ambiente silvestre, bem como
grande parte da variabilidade genética. Por essa razão, as setas
após o evento 4, são unidirecionais. Esse evento (4-5) pode se
repetir por vários episódios até que uma população bem adaptada
ao domicílio será aquela capaz de invadir domicílios adjacentes (6)
por dispersão passiva ou ativa em diferentes regiões biogeográficas.
Para os triatomíneos, ressalta-se que tal fluxograma (Figura 11.6)
representa uma hipótese e que muitos estudos ainda são
necessários.
Figura 11.6: Esquema adaptado de Schofield et al. (1999). A
população silvestre (1) mantêm-se em panmixia e com maior
variabilidade genética. Um fragmento dessa população invade o
peridomicílio (2) ou diretamente o domicílio (3), onde se expande
por efeito fundador. No peridomicílio ou no domicílio o genótipo é
“moldado” por esse ambiente (4). Esse processo (4-5) pode se
repetir até que uma população bem adaptada ao domicílio será mais
capaz de invadir domicílios adjacentes (6).
O ambiente intradomiciliar apresenta-se relativamente homogêneo,
mesmo quando localizados em diferentes ecossistemas, pois as
condições no intradomicílio minimizam a variação dos fatores
abióticos (como a temperatura e umidade). Esse ambiente ainda
fornece normalmente uma fonte constante de recursos alimentares
(o ser humano e animais domesticados). Assim, os triatomíneos
adaptados ao ambiente domiciliar podem se dispersar para domicílios inseridos nos diferentes ecossistemas, como aconteceu
com T. infestans. Um paralelo referente ao processo observado para
T. infestans pode ser traçado para um dos insetos mais
sinantrópicos conhecidos: a mosca que leva o domicílio em seu
nome científico (Musca domestica). Segundo Povolny (1971), esse
inseto, hoje cosmopolita, evoluiu de uma linhagem silvestre
coprófaga, associada a animais ruminantes do velho mundo,
possivelmente na região oeste paleártica. A domesticação de
ruminantes foi um possível evento que atuou possibilitando
condições para que a mosca se aproximasse do ser humano e
evoluísse até ao nível atual de sinantropia. Após a adaptação aos
domicílios, a dispersão para esta espécie foi tão destacada, que a
origem precisa da linhagem original é incerta (Marquez & Krafsur
2002) e a mosca doméstica não colonizou quaisquer dos
ecossistemas naturais para aonde ela se dispersou. Assim sendo, o
ambiente alterado pelo ser humano, o que inclui a introdução de
animais domesticados (como os ruminantes, no caso da mosca
doméstica), parece ter tido forte influência na evolução e adaptação
de algumas espécies (ou linhagens) altamente sinantrópicas hoje
conhecidas. De modo semelhante, sugere-se para T. infestans, que
a domesticação de preás (Cavia spp.) nos vales andinos exerceu
papel importante na domiciliação desse vetor (Usinger et al. 1966).
Silveira & Rezende (1984) classificaram T. infestans e T.
rubrofasciata como espécies introduzidas e que tiveram sua
dispersão favorecida pela interação entre o evento da domiciliação e
atividades humanas. Aquela última espécie foi considerada de
distribuição pantropical, tendo sido postulado que populações
provenientes do Velho Mundo alcançaram o Novo Mundo durante o
século XVII-XX através de embarcações (Gorla et al. 1997,
Patterson et al. 2001, Hypsa et al. 2002). Entretanto, sua preferência
ecotípica por buracos de roedores reduz seu potencial de
transmissão da doença de Chagas (Brasil, 1986).
Segundo revisão realizada por Schofield et al. (1999), o processo de
domiciliação em triatomíneos pode ser encarado como uma
extensão da rota evolutiva de predador para sugador em ninhos-abrigo, no qual o habitat domiciliar representa simplesmente um
novo tipo de abrigo de vertebrado. Segundo Bock (1959),
características pré-adaptativas são aquelas que não evoluíram em
antecipação a uma futura, mas que atuam positivamente para a
consolidação de um novo caráter. As características microclimáticas
dos habitats de T. brasiliensis foram observadas em ecótopos
silvestres, domiciliares e peridomiciliares no estado de Ceará, Brasil.
Foi evidenciado que para esta espécie os parâmetros ambientais
representam fatores determinantes na escolha do microambiente,
podendo o inseto estar limitado a locais quentes e secos, de baixa
amplitude. Assim, as fendas nas paredes no interior de casas no
semiárido nordestino representam um ambiente adequado para T.
brasiliensis, devido à similaridade com os parâmetros climáticos dos
refúgios nos pedregais silvestres (Lorenzo et al. 2000). Portanto,
populações silvestres dessa espécie parecem possuir
características pré-adaptativas ao ecótopo domiciliar.
Após a eliminação de T. infestans no Brasil, várias outras espécies
vem invadindo e colonizando o domicílio em áreas previamente
ocupadas por esse vetor (veja capítulo 2), demonstrando muitas
vezes fortes evidências de substituição de nicho ecológico4
(Almeida et al. 2000). Segundo Silveira & Rezende (1984), T.
rubrovaria e R. neglectus, ambas encontradas naturalmente
infectadas por T. cruzi, agrupam-se entre as espécies que vêm
ocupando nichos deixados vagos pela eliminação de T. infestans,
respectivamente, no Rio Grande do Sul (RS) e em algumas áreas
do estado de Goiás. Rhodnius nasutus foi classificada como espécie
que apresenta risco de transmissão de T. cruzi devido à constatação
da existência de colônias intradomiciliares nos estados do Ceará.
Essa sugestão foi posteriormente reafirmada por Sarquis et al.
(2006).
Para o modelo T. brasiliensis, atualmente o mais importante vetor da
doença de Chagas no semiárido brasileiro, as características pré-
adaptativas destacadas por Lorenzo et al. (2000) fazem com que
esta espécie represente de um desafio operacional, porque esse
vetor mantém alta pressão de invasão domiciliar e sua eliminação nesse ambiente não evita a constante recolonização a partir de