Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 3 de 65

Páginas do PDF

Vetores da doença de Chagas no Brasil

2. Histórico do controle da transmissão vetorial e situação epidemiológica atual

2. Histórico do controle da

 

transmissão vetorial e situação

 

epidemiológica atual

 

(Antonio Carlos Silveira & Emanuel Martins)

 

“É mesmo crença universal, em nossos sertões, que o

hematophago, na phase alada, vem do exterior para os

domicílios, attrahido pela luz. Não sabemos si assim é, porque

só uma vez nos foi possível observar a chegada de um

conorrhinus adulto no interior de nosso laboratório. Será o

barbeiro um insecto silvestre, como querem os naturaes das

zonas onde existe, ou ter-se-á, por uma adaptação biológica

atravez do tempo, tornado-se exclusivamente domiciliario?”

(Carlos Chagas, Conferência realizada na Sociedade de

Medicina e Cirurgia de Minas Gerais, em Belo Horizonte, na

sessão solene de 30 de julho de 1911).

 

Introdução

 

Carlos Chagas antevia a necessidade e, mais que isso, exigia

providências, para que se fizesse o controle da transmissão vetorial

da doença recém descoberta e por ele descrita, quando dizia que “...

a iniciativa de medidas sanitárias justifica-se, sem duvida, em

considerações bem mais elevadas: é o futuro de um grande povo

que se deverá zelar; são deveres de humanidade e patriotismo que

devem actuar no espírito progressista dos homens de estado; é a

vida humana, é progresso material, o aperfeiçoamento de uma raça

que degenera... ” (Chagas 1911). Por isso mesmo, de inicio, a maior

parte dos estudos, alguns deles conduzidos pelo próprio Carlos

Chagas ou sob seu estímulo, estiveram focados na perspectiva de sua prevenção, desde que ele mesmo considerava “difícil o

tratamento da parasitose”.

 

Carlos Chagas suspeitou também, desde os primórdios de sua

descoberta, que a transmissão da doença devesse “transcender os

sertões de Minas Gerais”. Já em 1911 afirmava, em conferência

proferida na Academia Nacional de Medicina que “... a extensão e

intensidade endemica serão inmensas em algumas zonas,

especialmente entre as populações ruraes”.

 

De fato, à medida que se foi acumulando conhecimento, percebeu-

se que a distribuição dos triatomíneos, vetores ou potencialmente

vetores da doença de Chagas, abrange uma amplíssima área, entre

os 40º de latitude norte e 45º de latitude sul (Jörg 1957, Bonet 1972,

Zeledón 1972), com a ocorrência registrada de infecção humana

autóctone desde o sul dos Estados Unidos – onde tem sido

reportados alguns poucos casos – até a Província de Chubut na

Argentina (Marsden 1983, WHO 1991 e 2000, Silveira 1999). Da

mesma forma uma grande variedade de espécies de triatomíneos foi

sendo conhecida, com maior ou menor importância na transmissão

domiciliar da infecção/doença de Chagas. Importância em princípio

determinada por sua maior ou menor adaptação ao domicílio. O

que, por sua vez, depende do ecletismo alimentar da espécie, das

fontes peridomésticas ou da oferta existente e, fundamentalmente,

de sua antropofilia, ao colonizar ou não o interior da habitação.

 

Evidentemente que no entendimento do processo de domiciliação

dos vetores outras condições influentes devem ser tomadas em

conta. A transmissão domiciliar da doença de Chagas é própria de

espaços abertos, naturais ou produto da ação antrópica. A

intervenção do ser humano sobre o ambiente, algumas vezes

predatória, promoveu o deslocamento dos triatomíneos de seus

ecótopos silvestres, tendo eles encontrado na moradia humana,

quando mal construída ou conservada, e em seu entorno

peridomiciliar, condições ideais de abrigo e sobrevivência. A questão

de fundo ou a causa primária é então de natureza econômica. A

casa vulnerável à infestação pelos vetores é expressão das precárias condições econômicas e de vida das populações sob