Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 16 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

A seleção do habitat

longos voos de dispersão para atingir um novo habitat (Lehane &

Schofield 1981).

 

Compartilhar os habitats com seus hospedeiros tem muitas

vantagens, mas também muitas desvantagens. Entre as primeiras

temos o baixo gasto de energia ao se alimentarem de hospedeiros

próximos dos abrigos, a facilidade para encontrar um hospedeiro e o

microclima de um ninho, caverna ou uma casa fechada, muito mais

estável do que o exterior. No entanto, essa mesma proximidade faz

com que o inseto possa ser detectado mais facilmente e,

eventualmente, morto. Não podemos esquecer que muitos dos

hospedeiros vertebrados podem alimentar-se dos triatomíneos (por

exemplo, aves, raposas, roedores), ou simplesmente matá-los

(cães, gatos). Não é surpreendentemente então que os insetos

sugadores de sangue em geral e os triatomíneos, em particular,

tenham desenvolvido adaptações especiais para viver em estreita

associação com seus hospedeiros vertebrados e se alimentarem do

sangue de forma segura. No caso dos triatomíneos, a atividade fora

do abrigo ocorre, geralmente, durante os períodos de repouso de

seus hospedeiros, levando a hábitos noturnos nas espécies

tipicamente associadas com vertebrados diurnos, incluindo os seres

humanos (Lazzari 1992).

 

A seleção do habitat

 

Muitas espécies de triatomíneos encontram abrigo em ninhos, tocas

e cavernas ocupadas pelos seus hospedeiros vertebrados, assim

como na própria habitação humana. A forma pela qual estes insetos

localizam tais habitats potenciais não tem sido estudada em detalhe,

mas é provável que os odores emanados pelos hospedeiros

naturais possam ajudar a guiá-los até seus habitats. No caso das

habitações humanas, as fontes de luz artificiais parecem

desempenhar um papel importante na invasão dos barbeiros

durante a noite (Carbajal de la Fuente et al. 2007, Minoli & Lazzari

2006). Este fato parece à primeira vista surpreendente, uma vez que

normalmente os barbeiros evitam ambientes iluminados, mas algumas experiências de laboratório indicam que os adultos são

atraídos por fontes pontuais de luz que se destaquem por seu brilho

no fundo preto da noite (Lazzari et al., dados não publicados). Uma

vez dentro da habitação, os insetos têm de encontrar um lugar onde

fiquem protegidos dos hospedeiros ativos e dos predadores. Esses

abrigos são pequenos espaços como rachaduras em paredes e

telhados, fornecendo proteção e um microclima estável (Lorenzo &

Lazzari 1999, Lorenzo et al. 2000). Mas, uma vez que nem todos os

abrigos potenciais podem ser adequados para a ocupação, os

triatomíneos desenvolveram comportamentos e sinais que os

ajudam na busca ou retorno a um abrigo. Tem sido demonstrado

que os barbeiros depositam suas excretas na entrada dos abrigos

que eles ocupam. Esses excrementos liberam substâncias que

atraem outros barbeiros ao mesmo abrigo. A atividade atrativa dos

excrementos continua por até 10-12 dias após a sua deposição, e

não é específica, ou seja, atrai tanto barbeiros da mesma espécie

do indivíduo que a depositou, quanto de outras espécies (Lorenzo

Figueiras et al. 1994, Lorenzo & Lazzari 1996, Lorenzo Figueiras &

Lazzari 1998a, Lorenzo Figueiras & Lazzari 2000).

 

Como mencionado acima, o barbeiros são fotofóbicos, isto é, evitam

ambientes iluminados (Reisenman et al. 1998). O estudo do

comportamento de evasão à luz tem sido usado para destacar a alta

sensibilidade dos triatomíneos, bem como a capacidade de se

adaptar às condições de iluminação do ambiente, tanto por meio

dos olhos compostos, como pelos olhos simples ou “ocelos” dos

adultos (Lazzari et al. 1998, Reisenman et al. 2002). Dado que os

abrigos representam locais protegidos da luz, a fotofobia, também

ajuda a permanecerem dentro deles durante o dia. Em resumo, um

abrigo adequado para triatomíneos é um lugar estreito, escuro, com

microclima constante e independente das variações externas, e que

contenha sinais químicos (feromônios) capazes de atrair e manter

os insetos agregados em seu interior (Lorenzo Figueiras et al. 1994,

Lorenzo & Lazzari 1996, Reisenman Lorenzo & Lazzari 1998,

Lorenzo Figueiras & Lazzari 1998b Lorenzo & Lazzari 1999, Lazzari

et al. 2000, Lorenzo et al. 2000). Além disso, a presença na

proximidade de um ou mais hospedeiros vertebrados que forneçam alimentos tornam o abrigo um local ideal para estes insetos. Estas