Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 41 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

Ecótopos dos vetores

Figura 11.5: O Pampa Gaúcho no Rio Grande do Sul, onde

exemplares de T. rubrovaria, T. circummaculata e T. carcavalloi

podem ser coletados em Pradarias Mistas Subtropicais.

 

Ecótopos dos vetores

 

Em 2000, Gaunt & Miles mencionaram os avanços observados na

sistemática dos triatomíneos em contraste com as lacunas que

ainda existem no campo da ecologia e biologia. Ainda hoje, poucos

estudos foram apresentados, como por exemplo, sobre as

flutuações populacionais, mesmo para os mais importantes vetores

autóctones da doença de Chagas no Brasil, como T. brasiliensis

(Costa & Lorenzo 2009).

 

Antes de tratar dos ecótopos dos triatomíneos é necessário o

esclarecimento sobre o termo, para uma utilização apropriada e em consenso. Segundo Klijn & Haes (1994), de acordo com o conceito

de ecossistema, que combina fatores bióticos e abióticos numa

mesma unidade, o ecótopo diz respeito a uma estratificação da

paisagem do ecossistema em subunidades ecologicamente

distintas, também baseadas na combinação de fatores bióticos e

abióticos. O ecótopo intradomiciliar, por exemplo, tem o ser humano

como um dos elementos dentro dos fatores bióticos e a baixa

incisão direta de raios solares como exemplo de fator abiótico.

 

O encontro esporádico de um ou poucos espécimes em

determinado ecótopo não é suficiente para se afirmar que a espécie

apresenta aquele ambiente como o seu ecótopo. O encontro,

especialmente de adultos, em um ecótopo pode tratar-se

simplesmente de invasão. Assim, para associar uma espécie a um

ecótopo é necessário o encontro de espécimes em diferentes

estádios de desenvolvimento, coabitando o mesmo ambiente.

 

Os triatomíneos mais estudados são justamente aqueles associados

a ecótopos artificiais, especialmente os domicílios, representando

uma pequena parcela do universo de espécies conhecidas (veja

capítulos 2, 3 e 8). A grande maioria delas permanece com sua

distribuição restrita a diferentes tipos de ecótopos naturais (ou

silvestres).

 

Para simplificar a definição dos ecótopos naturais dos triatomíneos

será realizada uma adaptação da grade proposta por Gaunt & Miles

(2000). Esses autores sugeriram que os ecótopos foram

responsáveis pela deriva genética (evolução independente) para

grandes linhagens no grupo, dividindo-os primariamente em um

ramo de espécies arbóreas e dois ramos terrestres (Tabela 11.1). Os

triatomíneos arbóreos ocupam principalmente as palmeiras, ao

passo que os terrestres habitam complexos rochosos e buracos no

solo construídos ou utilizados por animais, como aqueles sob raízes

de árvores robustas. Essa especialização ecotípica foi resultado de

uma longa trajetória evolutiva. Nesse contexto, os referidos autores

consideram que dentro de um táxon (um gênero, no caso) poucas

espécies evoluíram de forma a ocupar um ecótopo não usual para a linhagem ancestral. Contudo, as exceções são observadas para

todos os grupos, como será exemplificado a seguir.

 

Tabela 11.1 - Ecótopos silvestres primários associados aos

principais grupos de triatomineos.

Adaptação de Gaunt & Miles (2000)

 

Ecótopo silvestre Gênero Exemplo de

primário predominante exceção

Arbóreas Especialmente Espécies do Rhodnius

Palmeiras gênero domesticus:

Rhodnius ocorre em

Espécies do bromélias e

gênero buracos de

Rhodnius árvores

Terrestres Buracos de Espécies do Panstrongylus

animais gênero lignarius: ocorre

Panstrongylus em buracos de

árvores e livre

sobre a copa

das árvores

Complexos Espécies do Triatoma

rochosos gênero pseudomaculata:

Triatoma ocorre sob a

Espécies do casca e em

gênero buracos de

Triatoma árvores

 

Gaunt & Miles (2000) sugerem que o gênero Rhodnius surgiu a

partir de uma linhagem arborícola, associada a diferentes espécies

de palmeiras. Conforme Tabela 11.1, R. domesticus, entretanto,

ocorre em bromélias e ocos de árvores. Lima & Sarquis (2008)

reportaram a ocorrência de R. nasutus tanto em palmeiras, quanto

na oiticica (Licania rigida). Esta última trata-se de uma árvore

robusta, não relacionada e tampouco inserida no grupo das

palmeiras. Esses autores atribuíram essa associação atípica a um resultado das modificações que o ser humano vem promovendo ao