Vetores da doença de Chagas no Brasil
Ecótopos dos vetores
Figura 11.5: O Pampa Gaúcho no Rio Grande do Sul, onde
exemplares de T. rubrovaria, T. circummaculata e T. carcavalloi
podem ser coletados em Pradarias Mistas Subtropicais.
Ecótopos dos vetores
Em 2000, Gaunt & Miles mencionaram os avanços observados na
sistemática dos triatomíneos em contraste com as lacunas que
ainda existem no campo da ecologia e biologia. Ainda hoje, poucos
estudos foram apresentados, como por exemplo, sobre as
flutuações populacionais, mesmo para os mais importantes vetores
autóctones da doença de Chagas no Brasil, como T. brasiliensis
(Costa & Lorenzo 2009).
Antes de tratar dos ecótopos dos triatomíneos é necessário o
esclarecimento sobre o termo, para uma utilização apropriada e em consenso. Segundo Klijn & Haes (1994), de acordo com o conceito
de ecossistema, que combina fatores bióticos e abióticos numa
mesma unidade, o ecótopo diz respeito a uma estratificação da
paisagem do ecossistema em subunidades ecologicamente
distintas, também baseadas na combinação de fatores bióticos e
abióticos. O ecótopo intradomiciliar, por exemplo, tem o ser humano
como um dos elementos dentro dos fatores bióticos e a baixa
incisão direta de raios solares como exemplo de fator abiótico.
O encontro esporádico de um ou poucos espécimes em
determinado ecótopo não é suficiente para se afirmar que a espécie
apresenta aquele ambiente como o seu ecótopo. O encontro,
especialmente de adultos, em um ecótopo pode tratar-se
simplesmente de invasão. Assim, para associar uma espécie a um
ecótopo é necessário o encontro de espécimes em diferentes
estádios de desenvolvimento, coabitando o mesmo ambiente.
Os triatomíneos mais estudados são justamente aqueles associados
a ecótopos artificiais, especialmente os domicílios, representando
uma pequena parcela do universo de espécies conhecidas (veja
capítulos 2, 3 e 8). A grande maioria delas permanece com sua
distribuição restrita a diferentes tipos de ecótopos naturais (ou
silvestres).
Para simplificar a definição dos ecótopos naturais dos triatomíneos
será realizada uma adaptação da grade proposta por Gaunt & Miles
(2000). Esses autores sugeriram que os ecótopos foram
responsáveis pela deriva genética (evolução independente) para
grandes linhagens no grupo, dividindo-os primariamente em um
ramo de espécies arbóreas e dois ramos terrestres (Tabela 11.1). Os
triatomíneos arbóreos ocupam principalmente as palmeiras, ao
passo que os terrestres habitam complexos rochosos e buracos no
solo construídos ou utilizados por animais, como aqueles sob raízes
de árvores robustas. Essa especialização ecotípica foi resultado de
uma longa trajetória evolutiva. Nesse contexto, os referidos autores
consideram que dentro de um táxon (um gênero, no caso) poucas
espécies evoluíram de forma a ocupar um ecótopo não usual para a linhagem ancestral. Contudo, as exceções são observadas para
todos os grupos, como será exemplificado a seguir.
Tabela 11.1 - Ecótopos silvestres primários associados aos
principais grupos de triatomineos.
Adaptação de Gaunt & Miles (2000)
Ecótopo silvestre Gênero Exemplo de
primário predominante exceção
Arbóreas Especialmente Espécies do Rhodnius
Palmeiras gênero domesticus:
Rhodnius ocorre em
Espécies do bromélias e
gênero buracos de
Rhodnius árvores
Terrestres Buracos de Espécies do Panstrongylus
animais gênero lignarius: ocorre
Panstrongylus em buracos de
árvores e livre
sobre a copa
das árvores
Complexos Espécies do Triatoma
rochosos gênero pseudomaculata:
Triatoma ocorre sob a
Espécies do casca e em
gênero buracos de
Triatoma árvores
Gaunt & Miles (2000) sugerem que o gênero Rhodnius surgiu a
partir de uma linhagem arborícola, associada a diferentes espécies
de palmeiras. Conforme Tabela 11.1, R. domesticus, entretanto,
ocorre em bromélias e ocos de árvores. Lima & Sarquis (2008)
reportaram a ocorrência de R. nasutus tanto em palmeiras, quanto
na oiticica (Licania rigida). Esta última trata-se de uma árvore
robusta, não relacionada e tampouco inserida no grupo das
palmeiras. Esses autores atribuíram essa associação atípica a um resultado das modificações que o ser humano vem promovendo ao