Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 21 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

Manipulação do comportamento

umidade muito baixa. Determinadas espécies como Triatoma

infestans, preferem microhabitats extremamente secos,

provavelmente para evitar a infecção por fungos patogênicos (Roca

& Lazzari 1994). No entanto, todos os insetos são sensíveis à

dessecação no momento da eclosão dos ovos e no momento da

ecdise, particularmente aqueles que vivem em regiões áridas. A

maneira de evitar o perigo de perda de água nos momentos

sensíveis de sua vida é fazer com que estes processos críticos

ocorram no horário do dia quando a umidade relativa é ainda mais

alta, ou seja, de madrugada, especialmente nas espécies que vivem

nas regiões mais desérticas.

 

Manipulação do comportamento

 

A manipulação do comportamento dos insetos para fins de controle

é uma estratégia que provou ser eficaz em muitos casos. Insetos de

várias ordens, com hábitos diferentes e que vivem em ambientes

diferentes tem sido objeto de estratégias de manipulação

comportamental (Shorey & McKelvey 1977, Greenblatt & Lewis

1983).

 

Algumas características do comportamento dos triatomíneos

poderiam ser exploradas visando seu controle. Por exemplo, como

mencionado acima, os triatomíneos são mais ativos e se expõem

saindo de seus abrigos durante a noite. Além disso, os insetos que

se acabaram de se alimentar apresentam uma cutícula mais frágil e

suscetível à ação de inseticidas (Fontan & Zerbe 1992) devido às

mudanças que ocorrem durante a alimentação (Ianowski et al.

1998). Experimentos com Triatoma infestans mostraram que a

sensibilidade aos inseticidas é muito maior durante a noite (Amelotti

et al., dados não publicados). Esses fatos indicam que, durante a

noite triatomíneos são mais vulneráveis a um tratamento químico, já

que estariam mais expostos ao contato direto com os inseticidas e

fisiologicamente mais sensíveis aos seus efeitos. Embora a

aplicação manual de inseticidas durante a noite, tenha alguns inconvenientes práticos, é uma alternativa cuja eficácia merece ser

avaliada.

 

Um ponto que tem sido explorado para controle dos insetos é seu

sistema de comunicação por feromônios, em particular a

comunicação sexual. Em muitos casos, os feromônios sexuais são

sintetizados em laboratório e usados como iscas em armadilhas ou

para inundar o ambiente, de modo a perturbar a troca de

informações e o encontro entre os sexos. No caso dos triatomíneos,

a informação disponível ainda não é suficiente para implementar

este tipo de procedimento. No entanto, o sistema de feromônios

envolvidos na agregação é mais conhecido e algumas tentativas já

foram feitas visando detectar a presença ou mesmo capturar os

insetos por meio de abrigos artificiais. Estes abrigos artificiais são

estruturas simples, feitas de papel ou papelão, que oferece muitos

lugares onde triatomíneos podem estabelecer um importante

contato físico com o substrato enriquecido com feromônios de

agregação ou mesmo com as excretas de outros triatomíneos. Além

disso, outras propriedades dos abrigos, como o microclima ou a

escuridão também são levados em conta quando o barbeiro procura

se esconder (Lorenzo et al. 2000). Embora o controle do microclima

não seja fácil de implementar nestes abrigos artificias, é fácil incluir

superfícies escuras que estimulem a permanência do barbeiro

(Reisenman et al. 2000).

 

Os triatomíneos são capazes de realizar longos voos dispersivos

durante os quais mostram uma atração especial por luzes artificiais.

Do ponto de vista epidemiológico, a atração para a luz desempenha

um importante papel na chegada de triatomíneos às habitações

humanas. Os motivos pelos quais insetos fortemente fotofóbicos são

atraídos pelas luzes nestas circunstâncias não são totalmente

claros, mas alguns estudos têm mostrado que a resposta a fontes

pontuais de luz muda de repulsão à atração nos adultos; não é o

caso, no entanto, da resposta aos ambientes iluminados, que tanto

ninfas como adultos evitam fortemente (Minoli & Lazzari 2006,

Carbajal de la Fuente et al. 2007). A amostragem ou detecção de

triatomíneos com armadilhas luminosas são utilizadas há algum tempo, com sucesso variável dependendo da espécie. Para isto,

tanto luzes elétricas convencionais como portáteis se têm revelado

adequadas, permitindo a captura e revelando a presença de

diferentes espécies de triatomíneos silvestres ou domésticos

(Noireau & Dujardin 2001, Carbajal de la Fuente et al. 2007).

 

Como comentamos anteriormente neste capítulo, outros insetos que

se alimentam de sangue e triatomíneos são atraídos por diferentes

produtos químicos e sinais físicos associados com seus hospedeiros

(Lazzari 2009). O efeito atrativo de calor, umidade, dióxido de

carbono e vários compostos voláteis foi determinado em várias

espécies de triatomíneos e esse conhecimento tem permitido o

desenvolvimento de diferentes iscas e armadilhas. Os desenhos e

componentes de vários dispositivos com este fim são os mais

variados. Um dos métodos de captura de triatomíneos na natureza

mais utilizado é baseado na utilização de hospedeiros

(camundongos ou pintos) que atraem os barbeiros para superfícies

adesivas (Noireau et al. 2002). Uma das mais simples está baseada

na utilização de uma cultura de levedura de pão (Saccharomyces

cerevisiae) em água açucarada (Guerenstein et al. 1995). Outros

dispositivos são mais complicados e menos práticos, exigindo em

alguns casos, uma fonte de energia. Recentemente, uma isca

multimodal simples, combinando calor, umidade, gás carbônico e

ácidos graxos, provou ser capaz de capturar triatomíneos, tanto em

laboratório quanto no campo (Ryelandt et al., em preparação).

 

Vemos então que as medidas clássicas de melhoria habitacional e

de intervenção química poderiam, no futuro, serem aperfeiçoadas

graças a uma melhor compreensão da biologia de triatomíneos.

Adaptando-se, por exemplo, a aplicação de inseticidas no momento

de maior vulnerabilidade ou desenvolvendo dispositivos que revelem

a presença de insetos no interior das casas, mesmo em baixa

densidade. Nesse sentido, tanto os abrigos artificiais, como as

armadilhas, ambos associados a atrativos naturais parecem uma

interessante alternativa.

A utilidade de poder manipular o comportamento de triatomíneos

não está relacionada apenas ao seu controle. A criação em

laboratório de diferentes espécies para a pesquisa e diagnóstico

baseia-se também no conhecimento do comportamento e da

biologia desses insetos. Normalmente, barbeiros são criados em

recipientes contendo uma base de papelão ou de papel, que é

usado como substrato e refúgio para os insetos. Ou seja, estas

condições recriam as preferências dos insetos. A alimentação é

fornecida em hospedeiros vivos (geralmente aves) ou usando os

alimentadores artificiais. Estes últimos são dispositivos

relativamente simples que foram desenvolvidos com base no

conhecimento de como os barbeiros se orientam até os hospedeiros

e quais são os sinais importantes que norteiam o processo de

alimentação. O princípio de funcionamento destes alimentadores é a

oferta de sangue tratado com anticoagulante através de uma

membrana para simular a pele, onde os insetos podem usar suas

peças bucais para picar (Figura 6.4). Dada a grande sensibilidade

ao calor dos barbeiros e sua resposta ao picar qualquer objeto cuja

temperatura corresponda à de um animal de sangue quente, é

suficiente elevar a temperatura do sangue em alguns graus acima

da temperatura ambiente, para que os insetos sejam atraídos para

picar a membrana e sugarem o sangue (Lazzari & Núñez 1990). O

emprego de um alimentador artificial, além de permitir o controle

preciso da alimentação (tempo de alimentação, composição

sanguínea, temperatura, etc.), evita as desvantagens associadas à

manutenção de hospedeiros vertebrados. Se forem utilizados

anticoagulantes como heparina ou citrato de sódio, o sangue poderá

ser conservado a 4º C por pelo menos duas semanas.