Vetores da doença de Chagas no Brasil
Manipulação do comportamento
umidade muito baixa. Determinadas espécies como Triatoma
infestans, preferem microhabitats extremamente secos,
provavelmente para evitar a infecção por fungos patogênicos (Roca
& Lazzari 1994). No entanto, todos os insetos são sensíveis à
dessecação no momento da eclosão dos ovos e no momento da
ecdise, particularmente aqueles que vivem em regiões áridas. A
maneira de evitar o perigo de perda de água nos momentos
sensíveis de sua vida é fazer com que estes processos críticos
ocorram no horário do dia quando a umidade relativa é ainda mais
alta, ou seja, de madrugada, especialmente nas espécies que vivem
nas regiões mais desérticas.
Manipulação do comportamento
A manipulação do comportamento dos insetos para fins de controle
é uma estratégia que provou ser eficaz em muitos casos. Insetos de
várias ordens, com hábitos diferentes e que vivem em ambientes
diferentes tem sido objeto de estratégias de manipulação
comportamental (Shorey & McKelvey 1977, Greenblatt & Lewis
1983).
Algumas características do comportamento dos triatomíneos
poderiam ser exploradas visando seu controle. Por exemplo, como
mencionado acima, os triatomíneos são mais ativos e se expõem
saindo de seus abrigos durante a noite. Além disso, os insetos que
se acabaram de se alimentar apresentam uma cutícula mais frágil e
suscetível à ação de inseticidas (Fontan & Zerbe 1992) devido às
mudanças que ocorrem durante a alimentação (Ianowski et al.
1998). Experimentos com Triatoma infestans mostraram que a
sensibilidade aos inseticidas é muito maior durante a noite (Amelotti
et al., dados não publicados). Esses fatos indicam que, durante a
noite triatomíneos são mais vulneráveis a um tratamento químico, já
que estariam mais expostos ao contato direto com os inseticidas e
fisiologicamente mais sensíveis aos seus efeitos. Embora a
aplicação manual de inseticidas durante a noite, tenha alguns inconvenientes práticos, é uma alternativa cuja eficácia merece ser
avaliada.
Um ponto que tem sido explorado para controle dos insetos é seu
sistema de comunicação por feromônios, em particular a
comunicação sexual. Em muitos casos, os feromônios sexuais são
sintetizados em laboratório e usados como iscas em armadilhas ou
para inundar o ambiente, de modo a perturbar a troca de
informações e o encontro entre os sexos. No caso dos triatomíneos,
a informação disponível ainda não é suficiente para implementar
este tipo de procedimento. No entanto, o sistema de feromônios
envolvidos na agregação é mais conhecido e algumas tentativas já
foram feitas visando detectar a presença ou mesmo capturar os
insetos por meio de abrigos artificiais. Estes abrigos artificiais são
estruturas simples, feitas de papel ou papelão, que oferece muitos
lugares onde triatomíneos podem estabelecer um importante
contato físico com o substrato enriquecido com feromônios de
agregação ou mesmo com as excretas de outros triatomíneos. Além
disso, outras propriedades dos abrigos, como o microclima ou a
escuridão também são levados em conta quando o barbeiro procura
se esconder (Lorenzo et al. 2000). Embora o controle do microclima
não seja fácil de implementar nestes abrigos artificias, é fácil incluir
superfícies escuras que estimulem a permanência do barbeiro
(Reisenman et al. 2000).
Os triatomíneos são capazes de realizar longos voos dispersivos
durante os quais mostram uma atração especial por luzes artificiais.
Do ponto de vista epidemiológico, a atração para a luz desempenha
um importante papel na chegada de triatomíneos às habitações
humanas. Os motivos pelos quais insetos fortemente fotofóbicos são
atraídos pelas luzes nestas circunstâncias não são totalmente
claros, mas alguns estudos têm mostrado que a resposta a fontes
pontuais de luz muda de repulsão à atração nos adultos; não é o
caso, no entanto, da resposta aos ambientes iluminados, que tanto
ninfas como adultos evitam fortemente (Minoli & Lazzari 2006,
Carbajal de la Fuente et al. 2007). A amostragem ou detecção de
triatomíneos com armadilhas luminosas são utilizadas há algum tempo, com sucesso variável dependendo da espécie. Para isto,
tanto luzes elétricas convencionais como portáteis se têm revelado
adequadas, permitindo a captura e revelando a presença de
diferentes espécies de triatomíneos silvestres ou domésticos
(Noireau & Dujardin 2001, Carbajal de la Fuente et al. 2007).
Como comentamos anteriormente neste capítulo, outros insetos que
se alimentam de sangue e triatomíneos são atraídos por diferentes
produtos químicos e sinais físicos associados com seus hospedeiros
(Lazzari 2009). O efeito atrativo de calor, umidade, dióxido de
carbono e vários compostos voláteis foi determinado em várias
espécies de triatomíneos e esse conhecimento tem permitido o
desenvolvimento de diferentes iscas e armadilhas. Os desenhos e
componentes de vários dispositivos com este fim são os mais
variados. Um dos métodos de captura de triatomíneos na natureza
mais utilizado é baseado na utilização de hospedeiros
(camundongos ou pintos) que atraem os barbeiros para superfícies
adesivas (Noireau et al. 2002). Uma das mais simples está baseada
na utilização de uma cultura de levedura de pão (Saccharomyces
cerevisiae) em água açucarada (Guerenstein et al. 1995). Outros
dispositivos são mais complicados e menos práticos, exigindo em
alguns casos, uma fonte de energia. Recentemente, uma isca
multimodal simples, combinando calor, umidade, gás carbônico e
ácidos graxos, provou ser capaz de capturar triatomíneos, tanto em
laboratório quanto no campo (Ryelandt et al., em preparação).
Vemos então que as medidas clássicas de melhoria habitacional e
de intervenção química poderiam, no futuro, serem aperfeiçoadas
graças a uma melhor compreensão da biologia de triatomíneos.
Adaptando-se, por exemplo, a aplicação de inseticidas no momento
de maior vulnerabilidade ou desenvolvendo dispositivos que revelem
a presença de insetos no interior das casas, mesmo em baixa
densidade. Nesse sentido, tanto os abrigos artificiais, como as
armadilhas, ambos associados a atrativos naturais parecem uma
interessante alternativa.
A utilidade de poder manipular o comportamento de triatomíneos
não está relacionada apenas ao seu controle. A criação em
laboratório de diferentes espécies para a pesquisa e diagnóstico
baseia-se também no conhecimento do comportamento e da
biologia desses insetos. Normalmente, barbeiros são criados em
recipientes contendo uma base de papelão ou de papel, que é
usado como substrato e refúgio para os insetos. Ou seja, estas
condições recriam as preferências dos insetos. A alimentação é
fornecida em hospedeiros vivos (geralmente aves) ou usando os
alimentadores artificiais. Estes últimos são dispositivos
relativamente simples que foram desenvolvidos com base no
conhecimento de como os barbeiros se orientam até os hospedeiros
e quais são os sinais importantes que norteiam o processo de
alimentação. O princípio de funcionamento destes alimentadores é a
oferta de sangue tratado com anticoagulante através de uma
membrana para simular a pele, onde os insetos podem usar suas
peças bucais para picar (Figura 6.4). Dada a grande sensibilidade
ao calor dos barbeiros e sua resposta ao picar qualquer objeto cuja
temperatura corresponda à de um animal de sangue quente, é
suficiente elevar a temperatura do sangue em alguns graus acima
da temperatura ambiente, para que os insetos sejam atraídos para
picar a membrana e sugarem o sangue (Lazzari & Núñez 1990). O
emprego de um alimentador artificial, além de permitir o controle
preciso da alimentação (tempo de alimentação, composição
sanguínea, temperatura, etc.), evita as desvantagens associadas à
manutenção de hospedeiros vertebrados. Se forem utilizados
anticoagulantes como heparina ou citrato de sódio, o sangue poderá
ser conservado a 4º C por pelo menos duas semanas.