Vetores da doença de Chagas no Brasil
A doença de Chagas
usada especialmente para as ninfas); no Norte e Nordeste como
percevejo (ou bicho) de parede, percevejo francês, percevejo do
sertão, furão, rondão, procotó (ou porocotó), brocotó (ou borócoto),
chupão, chupança, fincudo e gaudério; e no sul do Brasil como
chupão, fincão e bicho-de-frade.
A doença de Chagas
A doença de Chagas ocorre exclusivamente nas Américas, por isso,
é conhecida também como tripanossomíase americana. É uma
infecção parasitária causada pelo Trypanosoma cruzi, um
protozoário flagelado microscópico da ordem Kinetoplastida, família
Trypanosomatidae. Seu corpo alongado possui uma membrana
ondulante que auxilia sua movimentação pela corrente sanguínea
(Figura 1.2). Primitivamente a circulação do T. cruzi estava restrita
aos mamíferos e barbeiros do meio silvestre, caracterizando uma
zoonose – era uma doença de animais silvestres, transmitida por
espécies também silvestres do inseto vetor. A adaptação de
algumas espécies de barbeiros aos domicílios humanos foi
secundária e facilitada pela invasão do ser humano a esses
ecótopos.
Figura 1.2: Trypanosoma cruzi, o agente etiológico da doença de
Chagas, visto ao microscópio eletrônico de varredura.
Aumento 8.400X
Na América Latina a doença de Chagas apresenta o quarto maior
impacto social entre todas as doenças infecciosas e parasitárias,
atrás das doenças respiratórias, diarreias e AIDS (Schmunis 1999).
A ocorrência da forma de transmissão clássica da doença (vetorial)
depende de três fatores básicos: a) presença do T. cruzi, o agente
etiológico da doença, b) triatomíneos domiciliados, c) hospedeiros
humanos e outros animais vivendo no ambiente domiciliar. Esse tipo
de transmissão ocorre em cerca de 80% das infecções e está
diretamente relacionado a fatores humanos e sócio econômicos, tais
como a qualidade da habitação, a ação do ser humano sobre o ambiente e as migrações humanas (Dias 2001). Ao contrário de
outras doenças transmitidas por insetos hematófagos, a infecção
não ocorre pela inoculação do agente etiológico junto com a saliva
do inseto. Quando um barbeiro pica, ele defeca durante ou logo
após a sucção do sangue, eliminando as formas infectantes do
parasito nas fezes. Essas formas podem penetrar pelo orifício
causado pela picada, pelas mucosas (dos olhos, nariz ou boca) ou
por pequenas feridas e arranhaduras na pele. Embora a
transmissão vetorial seja a forma mais importante, ela pode ocorrer
também através de transfusão de sangue, via transplacentária,
através de transplante de órgãos, pela ingestão acidental de
triatomíneos ou de alimentos contaminados por suas fezes, por
acidentes de laboratório, ou ainda por manuseio sem proteção de
carcaças de animais infectados.
Os animais infectados com o T. cruzi são sempre mamíferos, uma
vez que o parasito não se desenvolve no sangue de aves, répteis ou
anfíbios, embora esses animais possam servir de fonte alimentar
para os barbeiros. Um barbeiro que tenha sugado o sangue de um
mamífero (incluindo o ser humano) infectado com o T. cruzi adquire
a infecção. O protozoário então se reproduz, multiplicando- se no
tubo digestivo do inseto e produzindo as formas infectantes que
serão expelidas nas fezes. A infecção permanece por toda a vida do
inseto e pode ocorrer tanto nas fases imaturas (ninfas) quanto nos
adultos. Se o inseto suga sangue infectado em sua fase mais jovem
(p. ex. no 1º estádio ninfal), ele adquire a infecção e permanece
infectado por toda sua vida. Somente os ovos não são afetados,
portanto, uma segunda geração permanecerá sem infecção até a
primeira ingestão de sangue infectado (ou seja, não há transmissão
transovariana do T. cruzi). É por isso que os barbeiros criados em
laboratório, com sangue de animais não infectados podem ser
usados com segurança em experimentos.
Após a sucção, o barbeiro saciado defeca próximo ao local da
picada e essas fezes podem conter as formas infectantes do T.
cruzi. Ao alcançarem a corrente sanguínea os parasitos são
transportados até os músculos ou órgãos afetando principalmente o coração e trato digestivo, onde se multiplicarão causando as lesões.
A penetração do T. cruzi pode levar ao surgimento dos chamados
sinais de porta de entrada, que são reações características da
transmissão vetorial, mas detectados em apenas cerca de 20% a
50% dos casos que sobrevêm por essa via. O Chagoma de
inoculação pode aparecer nos membros, tronco e face na forma de
lesões furunculoides levemente elevadas, não supurativas, com
diâmetro de alguns centímetros, hiperêmicas e/ou hipercrômicas.
Outro importante sinal é um edema bipalpebral unilateral, que
corresponde a uma reação inflamatória à penetração e difusão do
parasito na conjuntiva e adjacências e pode deixar o olho do
paciente quase fechado. Ele é chamado sinal de Romaña, em
homenagem ao seu descobridor, um médico argentino (Tatto et al.
2007).
Há três fases distintas da doença: a aguda, a indeterminada e a
crônica, no entanto alguns autores consideram apenas duas fases,
a aguda e a crônica, esta última subdividida na forma sem sintomas
ou indeterminada e na determinada que apresenta manifestações
cardíacas e/ou digestivas. Na fase aguda (3-4 semanas) a infecção
varia de uma forma assintomática ou com manifestações muito
leves (somente febre), podendo passar despercebida, a uma forma
severa que pode ser fatal e atinge principalmente crianças ou
indivíduos debilitados. É caracterizada por febre, mas outros
sintomas como diarreia e vômitos podem aparecer quando o trato
digestivo é afetado. A evolução natural desta fase, mesmo quando
não tratada, geralmente culmina no desaparecimento espontâneo
da febre e da maior parte das outras manifestações. A fase
indeterminada é caracterizada por baixa parasitemia e ausência de
sinais clínicos. A forma crônica surge de 10 a 15 anos após a fase
aguda. Nessa fase a cardiopatia Chagásica é a manifestação mais
comum, já a forma digestiva produz visceromegalias, especialmente
o megaesôfago e o megacólon.
A área com risco de transmissão vetorial da doença de Chagas no
país, conhecida no final dos anos 70, incluía 18 estados com mais
de 2.200 municípios, nos quais se comprovou a presença de triatomíneos domiciliados. Até então, a região amazônica estava
excluída dessa área de risco em virtude da ausência de vetores
domiciliados. Ações de controle químico focalizadas nas populações
de Triatoma infestans, até então o principal vetor e estritamente
domiciliar no Brasil, foram instituídas a partir de 1975 e mantidas
com regularidade desde então, levando a uma expressiva redução
da presença dessa espécie nos domicílios e consequentemente
reduzindo a transmissão do T. cruzi ao ser humano.
No Brasil, atualmente predominam os casos crônicos decorrentes
de infecções por via vetorial ocorridas nas décadas que
antecederam o controle do Triatoma infestans (cerca de 2 milhões
de casos). Entretanto, nos últimos anos, a ocorrência de casos e
surtos de doença de Chagas aguda (DCA) vem sendo observada
em diversos estados brasileiros, especialmente na região
Amazônica, geralmente estão associados à transmissão oral pela
ingestão de alimentos contaminados com fezes de triatomíneos. É
importante ressaltar que a DCA é uma doença de notificação
compulsória e todos os casos devem ser imediatamente
comunicados ao Programa Nacional de Controle da doença de
Chagas do Ministério da Saúde (Tatto et al. 2007).