Vetores da doença de Chagas no Brasil
Ordem Primata
Considerando os resultados de infecção experimental, a distribuição
desses roedores na natureza e sua prevalência de infecção natural
por T. cruzi, Thrichomys spp. podem atuar como (i) hospedeiros
mantenedores, dada sua capacidade de manter parasitemias
subpatentes por longos períodos; e (ii) hospedeiros amplificadores
como demonstrado pelo longo período de parasitemia patente em
condições experimentais e hemocultivo positivo em condições
naturais (Roque et al. 2005).
Em última análise, vale ressaltar que os estudos envolvendo T. cruzi
e caviomorfos mostraram que a antiguidade da relação parasito-
hospedeiro não necessariamente evolui para uma interação
harmônica, mas pode evoluir para uma que favoreça a
transmissibilidade do parasita, independente das lesões que venha
a causar no hospedeiro. No caso dos Thrichomys, esses roedores
apresentam um dano cardíaco importante, o que certamente se
reflete na sua capacidade de oxigenação dos tecidos. Isso significa
que um roedor infectado teria diminuída sua habilidade de fugir dos
predadores, predispondo-o a transmitir o parasito a outro mamífero
que venha a predá-lo.
Ordem Primata
Um sagüi-estrela Callithrix penicilata foi o primeiro hospedeiro
identificado por Carlos Chagas quando da descoberta do novo
tripanosomatídeo em Lassance/MG, o qual ele batizou de
Trypanosoma minasensis. Posteriormente, examinando os
triatomíneos do local, Chagas encontrou flagelados que inferiu se
tratar de formas intermediárias dos tripanossomos diagnosticados
nos sagüis. Para confirmar essa hipótese, enviou alguns insetos
infectados para que os mesmos fossem utilizados para infectar
grupos de Callithrix jacchus mantidos em cativeiro, resultando na
visualização de flagelados no sangue periférico dos sagüis, com
morfologia completamente distinta do T. minansensis. Era
descoberto o Trypanosoma cruzi.
Desde então, diferentes espécies de primatas neotropicais incluídas
nas famílias Cebidae (micos) e Callitrichidae (sagüis) são
comumente encontradas naturalmente infectadas por T. cruzi.
Endêmicos das Américas, esses primatas ocupam distintos estratos
arbóreos e apresentam hábitos alimentares variados, incluindo
espécies que se alimentam de invertebrados e pequenos
mamíferos, o que favorece a transmissão de T. cruzi pela via oral.
Seu refúgio noturno em ocos de árvores, muitas vezes
compartilhado com triatomíneos, possibilita a infecção vetorial
desses animais.
A prevalência de infecção em primatas varia entre 4-88%, podendo
ser bastante elevada em micos leões. Tanto a prevalência da
infecção, quanto a transmissibilidade do parasito (avaliada por
hemocultivo) variam de acordo com sexo, idade, espécie, co-
infecção com outros parasitos, fitofisionomia e local de origem da
população analisada. A associação entre a presença de infecção
por nematóides trichostrongilídeos e a prevalência de hemocultivos
positivos, por exemplo, já foi observada em mico-leões das espécies
Leonthopitecus rosalia e L. chrysomelas (Monteiro et al. 2007).
Em Poço das Antas, L. rosalia (Figura 7.4) é um importante
reservatório do parasito e apresenta elevada prevalência de
infecção por hemocultivo (46%), sendo que essa prevalência varia
entre os diversos grupos familiares de micos (Lisboa et al. 2000).
Apenas o genótipo TCII do parasito foi isolado desses animais,
apesar do genótipo TCI também circular no local em outras espécies
de mamíferos não primatas. Essas taxas de infecção são
completamente distintas de outras áreas adjacentes à Reserva,
onde a mesma espécie L. rosalia apresenta baixa prevalência de
infecção por T. cruzi, reforçando o caráter focal de manutenção do
parasito na natureza. A infecção de primatas não se restringe ao
genótipo TCII do parasito e muitas espécies já foram encontradas
naturalmente infectadas pelo genótipo TCI do parasito em diferentes
regiões do país, desde a Mata Atlântica até a região Amazônica
(Lisboa et al. 2006). O genótipo Z3 do parasito também já foi descrito em primatas, mas esse achado ainda é restrito à região
Amazônica (Marcili et al. 2009).
Figura 7.4: Leonthopitecus rosalia proveniente de Silva Jardim, RJ.
Um fator importante no estudo de primatas neotropicais é que
muitos deles se encontram ameaçados de extinção e são
submetidos a programas de conservação, como é o caso do mico-
leão-dourado. Esses programas frequentemente incluem
intercâmbio, translocação e re-introdução de animais, sem que se
considere a prevalência e perfil de infecção por parasitos, como o T.
cruzi. Dado o caráter focal de transmissão do parasito, programas
como esse podem desencadear na introdução de mamíferos
infectados e promover o estabelecimento de novos ciclos de
transmissão.
Os estudos experimentais em primatas neotropicais (Cebus sp.
Callithrix sp. e Saimiri sp.) e africanos (Macaca mulatta) mostram que a infecção por T. cruzi nesses mamíferos apresenta muitos