Vetores da doença de Chagas no Brasil

Cleber Galvão · Capítulo 27 de 65

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Vetores da doença de Chagas no Brasil

Ordem Primata

Considerando os resultados de infecção experimental, a distribuição

desses roedores na natureza e sua prevalência de infecção natural

por T. cruzi, Thrichomys spp. podem atuar como (i) hospedeiros

mantenedores, dada sua capacidade de manter parasitemias

subpatentes por longos períodos; e (ii) hospedeiros amplificadores

como demonstrado pelo longo período de parasitemia patente em

condições experimentais e hemocultivo positivo em condições

naturais (Roque et al. 2005).

 

Em última análise, vale ressaltar que os estudos envolvendo T. cruzi

e caviomorfos mostraram que a antiguidade da relação parasito-

hospedeiro não necessariamente evolui para uma interação

harmônica, mas pode evoluir para uma que favoreça a

transmissibilidade do parasita, independente das lesões que venha

a causar no hospedeiro. No caso dos Thrichomys, esses roedores

apresentam um dano cardíaco importante, o que certamente se

reflete na sua capacidade de oxigenação dos tecidos. Isso significa

que um roedor infectado teria diminuída sua habilidade de fugir dos

predadores, predispondo-o a transmitir o parasito a outro mamífero

que venha a predá-lo.

 

Ordem Primata

 

Um sagüi-estrela Callithrix penicilata foi o primeiro hospedeiro

identificado por Carlos Chagas quando da descoberta do novo

tripanosomatídeo em Lassance/MG, o qual ele batizou de

Trypanosoma minasensis. Posteriormente, examinando os

triatomíneos do local, Chagas encontrou flagelados que inferiu se

tratar de formas intermediárias dos tripanossomos diagnosticados

nos sagüis. Para confirmar essa hipótese, enviou alguns insetos

infectados para que os mesmos fossem utilizados para infectar

grupos de Callithrix jacchus mantidos em cativeiro, resultando na

visualização de flagelados no sangue periférico dos sagüis, com

morfologia completamente distinta do T. minansensis. Era

descoberto o Trypanosoma cruzi.

Desde então, diferentes espécies de primatas neotropicais incluídas

nas famílias Cebidae (micos) e Callitrichidae (sagüis) são

comumente encontradas naturalmente infectadas por T. cruzi.

Endêmicos das Américas, esses primatas ocupam distintos estratos

arbóreos e apresentam hábitos alimentares variados, incluindo

espécies que se alimentam de invertebrados e pequenos

mamíferos, o que favorece a transmissão de T. cruzi pela via oral.

Seu refúgio noturno em ocos de árvores, muitas vezes

compartilhado com triatomíneos, possibilita a infecção vetorial

desses animais.

 

A prevalência de infecção em primatas varia entre 4-88%, podendo

ser bastante elevada em micos leões. Tanto a prevalência da

infecção, quanto a transmissibilidade do parasito (avaliada por

hemocultivo) variam de acordo com sexo, idade, espécie, co-

infecção com outros parasitos, fitofisionomia e local de origem da

população analisada. A associação entre a presença de infecção

por nematóides trichostrongilídeos e a prevalência de hemocultivos

positivos, por exemplo, já foi observada em mico-leões das espécies

Leonthopitecus rosalia e L. chrysomelas (Monteiro et al. 2007).

 

Em Poço das Antas, L. rosalia (Figura 7.4) é um importante

reservatório do parasito e apresenta elevada prevalência de

infecção por hemocultivo (46%), sendo que essa prevalência varia

entre os diversos grupos familiares de micos (Lisboa et al. 2000).

Apenas o genótipo TCII do parasito foi isolado desses animais,

apesar do genótipo TCI também circular no local em outras espécies

de mamíferos não primatas. Essas taxas de infecção são

completamente distintas de outras áreas adjacentes à Reserva,

onde a mesma espécie L. rosalia apresenta baixa prevalência de

infecção por T. cruzi, reforçando o caráter focal de manutenção do

parasito na natureza. A infecção de primatas não se restringe ao

genótipo TCII do parasito e muitas espécies já foram encontradas

naturalmente infectadas pelo genótipo TCI do parasito em diferentes

regiões do país, desde a Mata Atlântica até a região Amazônica

(Lisboa et al. 2006). O genótipo Z3 do parasito também já foi descrito em primatas, mas esse achado ainda é restrito à região

Amazônica (Marcili et al. 2009).

 

Figura 7.4: Leonthopitecus rosalia proveniente de Silva Jardim, RJ.

 

Um fator importante no estudo de primatas neotropicais é que

muitos deles se encontram ameaçados de extinção e são

submetidos a programas de conservação, como é o caso do mico-

leão-dourado. Esses programas frequentemente incluem

intercâmbio, translocação e re-introdução de animais, sem que se

considere a prevalência e perfil de infecção por parasitos, como o T.

cruzi. Dado o caráter focal de transmissão do parasito, programas

como esse podem desencadear na introdução de mamíferos

infectados e promover o estabelecimento de novos ciclos de

transmissão.

 

Os estudos experimentais em primatas neotropicais (Cebus sp.

Callithrix sp. e Saimiri sp.) e africanos (Macaca mulatta) mostram que a infecção por T. cruzi nesses mamíferos apresenta muitos