A Grande Gripe
Capítulo sete
N com absoluta certeza se a pandemia de
influenza de 1918-1919 realmente teve origem no condado de Haskell, Kansas. Existem outras teorias para sua origem que incluem a França, o Vietnã e a China. Mas Frank Macfarlane Burnet, ganhador de um prêmio Nobel que sobreviveu à pandemia e passou a maior parte de sua carreira científica estudando o influenza, concluiu posteriormente que as evidências “sugerem fortemente” que a gripe de 1918 começou mesmo nos Estados Unidos e que sua disseminação estava “intimamente ligada às condições da guerra e, em especial, à
chegada dos soldados americanos à França”.1 Vários cientistas concordam com a teoria desenvolvida por ele. As evidências também sugerem muito fortemente que Camp Funston experimentou o primeiro surto de gripe de grande monta nos Estados Unidos. Se isso for verdade, a movimentação de soldados entre Haskell e Funston também traz fortes indícios de que a origem foi em Haskell.
Independentemente do local onde tudo começou, para
entender o que aconteceu em seguida é preciso compreender os vírus e o conceito de enxame mutante.
Os vírus são um enigma que existe no limiar da vida. Eles não
são apenas bactérias pequenas. Bactérias são seres unicelulares, completamente vivas. Cada uma tem um metabolismo, exige alimento, produz dejetos e se reproduz por divisão.
Os vírus não se alimentam nem queimam oxigênio para obter
energia. Não participam de nenhum processo que poderia ser considerado metabólico. Não produzem dejetos. Não criam produtos colaterais por acidente ou de propósito. Não fazem sexo nem se reproduzem de forma independente. São menos do que um organismo vivo funcional, mas são mais do que apenas uma coleção inerte de substâncias químicas.
Existem diversas teorias a respeito da origem dos vírus e
essas teorias não são mutuamente excludentes. Existem evidências para apoiar cada uma, e é possível que vírus diferentes tenham se desenvolvido de formas diferentes.
Uma visão minoritária sugere que eles se originaram de forma
independente como as mais primitivas moléculas capazes de se reproduzir. Se isso fosse verdade, formas mais avançadas de vida poderiam ter evoluído a partir deles.
A maior parte dos virologistas pensa o contrário. Eles creem
que os vírus começaram como células vivas mais complexas e evoluíram — ou talvez seja mais preciso dizer involuíram — para organismos mais simples, tais como a família “rickettsia” de patógenos. A rickettsia costumava ser considerada como vírus, mas atualmente já é observada como algo no meio do caminho entre as bactérias e os vírus. Os pesquisadores acreditam que esses organismos chegaram a ter, mas perderam as atividades necessárias para uma vida independente. O bacilo da lepra também parece ter se afastado da complexidade — a capacidade de fazer muitas coisas — rumo à simplicidade, hoje fazendo menos do que antes. Uma terceira teoria defende que os vírus eram antes parte de uma célula, uma organela, mas que se afastaram e começaram a evoluir de forma independente.
Seja qual for a origem, todo vírus tem apenas uma função: se
replicar. Mas diferentemente de outras formas de vida (se considerarmos o vírus uma forma de vida), ele não faz isso sozinho. Ele invade células carregadas de energia e então, como um mestre de marionetes alienígena, as subverte, assume o controle e as obriga a produzir milhares, e em alguns casos centenas de milhares, de novos vírus. Esse poder reside em sua genética.
Na maior parte das formas de vida, os genes estão espalhados pelo comprimento de uma molécula de DNA (ácido desoxirribonucleico) em formato de um filamento. Mas muitos vírus — inclusive o influenza, o HIV e o coronavirus que provoca SARS (síndrome respiratória aguda severa) — codificam seus genes no RNA (ácido ribonucleico), uma molécula mais simples, mas menos estável.
Os genes lembram a estrutura de um software. Do mesmo
modo que uma sequência de bits em um código diz ao computador o que fazer — processar um editor de texto, um jogo de computador ou fazer uma busca na internet — os genes dizem para as células o que fazer.
O código de computador é uma linguagem binária, de duas
letras. Já o genético emprega uma linguagem com quatro letras, cada uma representando as substâncias químicas adenina, guanina, citosina e timidina (às vezes a uracila entra no lugar da timidina).
O DNA e o RNA são sequências dessas substâncias, bem
longas. Às vezes, essas letras não formam palavras nem frases que façam algum sentido: 97% do DNA humano não contêm genes. É chamado de DNA “sem sentido” ou “lixo”, cujas funções ainda são desconhecidas.
Quando as letras compõem palavras e frases que fazem
sentido, no entanto, por definição essa sequência é um gene.
Quando um gene em uma célula é ativado, ele ordena que a
célula produza determinadas proteínas que, por sua vez, podem ser utilizadas como tijolos na construção de tecidos. (As proteínas que consumimos via alimentos de um modo geral têm essa função.) Mas as proteínas também desempenham um papel crucial na maior parte das reações químicas dentro do corpo, além de transportar mensagens para iniciar ou interromper diferentes processos. A adrenalina, por exemplo, é um hormônio, mas também é uma proteína. Ela acelera o ritmo cardíaco para criar o que chamamos de reação de luta ou fuga.
Quando um vírus consegue invadir uma célula, ele insere seus
próprios genes na sequência humana e a carga genética viral passa a assumir o controle dos genes celulares. O mecanismo interno da célula começa a produzir aquilo que os genes virais exigem em vez daquilo que ela precisaria para si mesma.
Desse modo, a célula passa a produzir centenas de milhares
de proteínas virais que, unindo-se a cópias do genoma viral, formam novos vírus. Uma vez prontos, eles são liberados. Nesse processo, quase sempre a célula hospedeira morre, em geral quando novas partículas virais irrompem a superfície celular para invadir outras células.
Embora os vírus executem apenas uma tarefa, eles não são
simples. Nem primitivos. Altamente evoluídos, elegantes em seu foco, mais eficientes no que fazem do que qualquer ser inteiramente vivo, eles se tornaram organismos infecciosos quase perfeitos. E o vírus influenza está entre os mais perfeitos desses organismos perfeitos.
Louis Sullivan, o primeiro grande arquiteto moderno, declarou que a forma acompanha a função.
Para compreender os vírus, ou melhor, para compreender
biologia, é necessário pensar como Sullivan: em uma linguagem que não se limite a palavras que apenas deem nomes às coisas, mas sim em uma que seja tridimensional, uma linguagem de formato e configuração.
Pois na biologia, em especial nos níveis celular e molecular,
quase toda a atividade depende em última instância da forma, da estrutura física, daquilo que é chamado de “estereoquímica”.
A linguagem é escrita a partir de alfabetos que podem ser
feitos de pirâmides, cones, pregos, cogumelos, tijolos, hidras, guarda-chuvas, esferas, fitas retorcidas de todos os modos imagináveis como na obra de Escher; podendo, portanto, assumir todas as formas imagináveis. Cada uma delas é definida em detalhes requintados e absolutamente precisos e carrega uma mensagem.
Quase tudo no corpo, independentemente de pertencer ou não
a ele, ou tem uma forma visível em sua superfície — seja ela uma marca ou qualquer traço que o identifique como uma entidade singular —, ou então sua forma e existência inteiras transmitem essa mensagem. Nesse último caso, trata-se da informação pura, da mensagem pura, a encarnação perfeita da observação de Marshall McLuhan de que “o meio é a mensagem”.
Ler essa mensagem, processo análogo ao de uma leitura em
braile, é um ato íntimo, um de contato e sensibilidade. Tudo no corpo se comunica desse modo, via transmissão de mensagens por contato.
Essa comunicação ocorre de um modo muito parecido com a
forma com que um pino redondo se ajusta numa cavidade redonda. Quando ambos combinam em tamanho, o pino “se liga” ao buraco, formando um encaixe. Embora os diversos formatos existentes no corpo humano em geral sejam mais complexos do que um pino redondo, o conceito é o mesmo.
No interior do corpo, as células, as proteínas, os vírus e tudo o
mais constantemente se esbarram e fazem contato físico. Quando uma protuberância e um buraco não se encaixam de modo algum, as partes envolvidas seguem em frente. Nada acontece.
Mas, quando se complementam, esse ato se torna cada vez
mais íntimo. Se há um encaixe suficientemente bom, a “ligação” acontece. Às vezes essas partes se encaixam sem muita força e nesse caso podem se separar. Outras vezes, o encaixe é mais refinado, como o de uma chave-mestra com uma fechadura simples na porta de um armário. E em outras ainda, acontece com precisão requintada, como uma chave serrilhada em um cadeado bem mais seguro.
E então os acontecimentos se dão. As coisas mudam. O corpo
reage. Os resultados da ligação podem ser tão drásticos ou destrutivos quanto os resultantes de qualquer ato de sexo, de amor, de ódio ou de violência.
Existem três tipos diferentes de vírus influenza: A, B e C. O C raramente provoca doença em seres humanos. O B causa a doença, mas não tem poder de criar epidemias. Apenas os vírus influenza A provocam epidemias ou pandemias, sendo a primeira um surto local e a segunda uma ocorrência em nível global.
Os vírus influenza não se originaram em seres humanos. Na
natureza, residem em aves aquáticas silvestres. Aliás, existem bem mais variantes dos vírus influenza em aves do que em seres humanos. Mas a doença é consideravelmente diferente entre as espécies. Nas aves, o vírus infecta o aparelho gastrointestinal. Os excrementos contêm grandes quantidades de vírus que podem contaminar lagos e outros reservatórios de água.
A exposição maciça ao vírus aviário pode contagiar o homem
diretamente, mas um vírus aviário não consegue ser transmitido de pessoa para pessoa. Isto é, não consegue a menos que sofra alguma mutação, que se adapte ao organismo humano.
Isso se dá raramente, mas acontece. O vírus pode passar
também para um mamífero intermediário, especialmente os suínos, e saltar dali para o homem. Quando uma nova variante do vírus influenza se adapta a nós, existe a possibilidade de que se espalhe rapidamente por todo o mundo. Existe a ameaça da pandemia.
As pandemias costumam acontecer em ondas e a taxa de
“morbidade” cumulativa — o número de pessoas que adoece quando todas as ondas são combinadas — costuma ultrapassar 50%. Um virologista considera que a gripe seja tão contagiosa que ele a chama de “exemplo especial” entre as doenças infecciosas, “transmitida de forma tão eficiente que é capaz de
exaurir a oferta de hospedeiros suscetíveis”. 2
Influenza e outros vírus — as bactérias ficam fora — são
responsáveis por aproximadamente 90% de todas as infecções
respiratórias, inclusive as dores de garganta. *
Os coronavírus (causa do resfriado comum, bem como da
SARS), os vírus parainfluenza e muitos outros provocam sintomas parecidos com os da gripe, sendo frequentemente confundidos com ela. Como resultado, algumas pessoas costumam se referir às infecções respiratórias brandas como “gripe”, sem grande preocupação.
Mas a gripe não é simplesmente um resfriado ruim. É uma
doença bem específica com um conjunto distinto de sintomas e comportamento epidemiológico. Nos humanos, o vírus ataca de forma direta apenas o sistema respiratório, e vai se tornando progressivamente mais perigoso à medida que penetra mais fundo nos pulmões. Afeta, de forma indireta, diversas partes do corpo. Mesmo uma infecção branda pode causar dores nos músculos e nas juntas, dor de cabeça intensa e prostração, levando até mesmo a uma série de complicações mais graves.
A maioria esmagadora das vítimas da gripe costuma se
restabelecer por completo dentro de dez dias. Em parte por esse motivo e em parte por se confundir com o resfriado comum, a gripe é raramente encarada com preocupação.
No entanto, mesmo em surtos menos mortais de um modo
geral, a gripe atinge um número tão grande de pessoas que mesmo o mais brando dos vírus quase sempre mata. Atualmente, nos Estado Unidos, os Centros de Controle para Prevenção de Doenças estimam que a gripe mate cerca de 36 mil americanos por ano.
Não é, porém, apenas uma doença endêmica, aquelas que
estão sempre por perto. A gripe também chega sob a forma epidêmica e pandêmica. E a pandemia pode ser mais letal — às vezes bem mais — do que a faceta endêmica.
Durante toda a história da humanidade, desde que se tem
registro, ocorreram pandemias periódicas de gripe, em geral mais de uma a cada século. Esses eventos irrompem quando um novo vírus influenza emerge. Pela natureza inerente do mesmo, as pandemias são inevitáveis.
O vírus em si não é mais do que uma membrana — uma espécie de envelope — que contém o genoma, composta pelos genes que definem o que ele é. Em geral, é um corpo esférico (mas pode assumir outras formas), com 0,0001 milímetro de diâmetro e a aparência de um dente-de-leão com duas florestas de protuberâncias diferentes — uma mais ou menos como um ferrão e outra que relembra o formato das árvores — projetando-se da superfície.
Essas protuberâncias fornecem ao vírus seu mecanismo de
ataque. Esse ataque e a consequente batalha imunológica promovida pelo corpo são um cenário que ilustra bem como configuração e formato determinam os desfechos.
As protuberâncias semelhantes a ferrões são a hemaglutinina.
Quando o vírus colide com a célula, a hemaglutinina roça nas moléculas de ácido siálico que se projetam da superfície das células do aparelho respiratório.
A hemaglutinina e o ácido siálico têm formatos extremamente
compatíveis e a hemaglutinina se liga ao “receptor” de ácido siálico como a mão entrando na luva. Enquanto o vírus se aproxima da membrana celular, mais ferrões de hemaglutinina se ligam a mais receptores de ácido siálico. Uma analogia boa são os ganchos que os piratas lançam na embarcação-alvo, prendendo-se com firmeza. Assim que essa ligação une o vírus e a célula, o vírus cumpre sua primeira tarefa: “adsorção”, que é aderência ao corpo da célula-alvo.
Esse passo marca o princípio do fim para a célula e o princípio
de uma invasão bem-sucedida para o vírus.
Em breve, forma-se uma reentrância na membrana celular sob
o vírus, que atravessa essa cavidade para penetrar no interior da célula em uma espécie de bolha chamada de “vesícula”. (Quando, por algum motivo, o vírus influenza não consegue penetrar na membrana celular, ele se desprende e busca conexão com outra célula a qual tenha condições de penetrar. Pouquíssimos vírus conseguem fazer isso.)
Ao penetrar na célula em vez de se fundir com ela na
membrana celular — o que é feito por muitos outros vírus — o influenza se oculta do sistema imunológico. As defesas do corpo não conseguem encontrá-lo e eliminá-lo.
No interior da vesícula, a configuração e o formato se
transformam e criam novas possibilidades à medida que a hemaglutinina enfrenta um ambiente mais ácido. Tal acidez faz com que ela se parta em duas e se redobre em uma forma completamente diferente. O processo lembra um pouco o ato de tirar uma meia do pé, virá-la pelo avesso e enfiá-la num punho. A célula está condenada.
A parte da hemaglutinina que acaba de ser exposta interage
com a vesícula e a membrana do vírus começa a dissolver. Os virologistas chamam esse evento de “desencapsulamento” do vírus e “fusão” com a célula. Em seguida, os genes virais se derramam na célula, penetram no núcleo e começam a emitir suas ordens: a célula começa a produzir proteínas virais em vez das próprias. Dentro de poucas horas, essas proteínas estão empacotadas com novas cópias dos genes virais.
Nesse meio-tempo, os ferrões de neuraminidase, a outra
protuberância que se projetava da superfície do vírus, estão executando uma função diferente. A eletromicrografia mostra que a neuraminidase tem uma cabeça mais ou menos cúbica, estendendo-se de uma haste fina. Dessa sai algo semelhante a quatro propulsores idênticos de seis lâminas. A neuraminidase rompe o ácido siálico que ainda resta na superfície celular e isso destrói a capacidade do ácido para se ligar aos vírus influenza.
É um movimento crucial. De outro modo, quando os novos
vírus irrompessem da célula, poderiam ficar presos como se caíssem em uma folha de papel mata-moscas. Eles cairiam em uma armadilha dos receptores de ácido siálico na membrana da célula morta, já em processo de desintegração. A neuraminidase garante que os novos vírus consigam escapulir para invadir outras células; mais uma vez, algo que poucos vírus conseguem fazer parecido.
A partir do momento que o vírus influenza se prende a uma
célula pela primeira vez até o momento em que ela explode transcorrem cerca de dez horas (esse tempo pode ser menor ou, raramente, maior). Em seguida, um enxame formado por 100 mil a 1 milhão de novos vírus influenza é liberado da célula destruída.
A palavra “enxame” tem mais de uma acepção nesse
contexto.
Quando um organismo se reproduz, os genes tentam fazer cópias exatas de si mesmos. Mas às vezes acontecem erros, as chamadas mutações, durante o processo.
Isso acontece independentemente de serem genes humanos,
vegetais ou virais. Quanto mais evoluídos os organismos, porém, mais mecanismos existem para impedir as mutações. Uma pessoa sofre mutações a um ritmo bem mais lento do que uma bactéria, uma bactéria sofre mutações a um ritmo bem mais lento do que um vírus — e um vírus de DNA em um ritmo bem mais lento do que um de RNA.
O DNA tem uma espécie de mecanismo de revisão interno
feito para eliminar os erros durante as cópias. O RNA não tem nada parecido, nenhum modo de se proteger da mutação. Por isso, os vírus que empregam RNA para transportar suas informações genéticas sofrem mutações de modo bem mais rápido — de 10 mil a 1 milhão de vezes mais depressa — do que
qualquer vírus de DNA. 3
Cada tipo de vírus de RNA também tem seu ritmo próprio.
Alguns sofrem mutações tão rápidas que os virologistas praticamente não os consideram como uma população de cópias do mesmo vírus, e mais como “quasispécies” ou “enxames
mutantes”,4 contendo trilhões e trilhões de vírus com características semelhantes, mas diferentes. Mesmo os vírus produzidos por uma única célula incluirão muitas versões de si mesmos e o enxame como um todo conterá, de costume, quase todas as permutações possíveis do próprio código genético.
A maioria dessas mutações interfere no funcionamento do
vírus, destruindo sua capacidade de infectar ou ele mesmo como um todo. Outras mutações, às vezes em uma base única (com uma única letra no código genético), permitirão que ele se adapte rapidamente a uma nova situação. É essa adaptabilidade que explica por que essas quasispécies conseguem se transportar com rapidez entre diferentes ambientes e também como desenvolvem resistência às drogas de um modo extraordinariamente rápido. Como observou um pesquisador, a velocidade de mutação “confere certo grau de aleatoriedade aos processos da doença que acompanham as infecções [de vírus]
de RNA”. 5
Influenza é um vírus de RNA, assim como o HIV e o
coronavírus. E de todos esses, influenza e HIV estão entre os que sofrem mutações mais rápidas. O vírus influenza tem processos mutagênicos tão velozes que, entre os 100 mil e 1 milhão de novos vírus liberados por uma célula durante o processo reprodutivo, 99% são defeituosos demais para infectar outra célula e se reproduzir de novo. Isso ainda nos deixa com um número entre 1 e 10 mil vírus capazes de infectar outra célula.
Tanto o influenza quanto o HIV se encaixam no conceito de
quasispécie/enxame mutante. Em ambos os casos, uma mutação de resistência a drogas pode emergir em questão de dias. E o vírus influenza se reproduz de forma bem mais rápida do que o HIV. Desse modo, ele também se adapta a uma velocidade enorme, frequentemente rápida demais em relação à resposta do sistema imunológico.
* Mesmo assim, atualmente as pessoas costumam exigir que os médicos prescrevam antibióticos e os médicos, por sua vez, em geral cedem demais. Só que os antibióticos não produzem qualquer efeito sobre os vírus. Administrá-los apenas aumenta a resistência das bactérias aos antibióticos. As que sobrevivem à exposição se tornam imunes a eles.