A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 11 de 43

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A Grande Gripe

Capítulo dez

 

E E U ainda permanecessem neutros, William Welch, então presidente da Academia Nacional de Ciências [sigla em inglês NSA], e seus pares observavam os colegas europeus tentando aperfeiçoar os dispositivos de guerra americanos. A tecnologia sempre foi um ativo importante nas guerras, mas essa era a primeira verdadeiramente científica, a primeira que combinava engenheiros e suas habilidades na construção não apenas de artilharia, mas de submarinos, aeronaves e tanques, a primeira que combinou laboratórios de químicos e fisiologistas em uma tentativa de combater os gases venenosos mais letais. A tecnologia, como a natureza, exibe sempre uma neutralidade gélida, por mais acalorado que seja seu efeito. Alguns chegavam a ver a guerra em si como um magnífico laboratório no qual testar e aprimorar não apenas as ciências exatas, mas também teorias sobre o comportamento das multidões, sobre o gerenciamento científico dos meios de produção, sobre o que se pensava ser a nova ciência das relações públicas.

A própria Academia havia sido criada durante a Guerra Civil

para aconselhar o governo em matéria de ciências, embora não tenha dirigido nem coordenado pesquisas científicas sobre tecnologias de guerra. Nenhuma instituição americana o fez. Em 1915, o astrônomo George Hale começou a pedir a Welch e outros membros da NAS que liderassem a criação dessa instituição. Ele os convencera dessa necessidade e, em abril de 1916, Welch escreveu a Wilson: “A Academia agora considera que é simplesmente seu dever, em caso de guerra ou preparação para a mesma, oferecer assistência e garantir o alistamento de

seus membros para quaisquer serviços que possamos oferecer.” 1

Wilson era estudante de pós-graduação no Hopkins quando

Welch chegou lá e imediatamente convidou Hale, ele e alguns outros para a Casa Branca. Lá, o grupo propôs a criação de um Conselho Nacional de Pesquisa para dirigir todo o trabalho científico relacionado à guerra, mas era necessário que o presidente solicitasse formalmente sua criação. Wilson concordou imediatamente, embora tenha insistido para que a mudança permanecesse confidencial.

O sigilo era desejável uma vez que qualquer preparação para

guerra gerava debates, e Wilson estava prestes a usar todo o capital político com o qual se importava para criar o Conselho de Defesa Nacional, cujo objetivo seria estabelecer planos para o que se tornaria, tão logo entrassem, a tomada virtual dos meios de produção e distribuição de recursos econômicos pelo governo. Esse conselho era composto por seis secretários de gabinete, incluindo os de guerra e da marinha, e sete homens de fora do governo. (Ironicamente, considerando o cristianismo devotado de Wilson, três dos sete membros do conselho eram judeus: Samuel Gompers, chefe da Federação Americana do Trabalho; Bernard Baruch, financista; e Julius Rosenwald, diretor da Sears. Quase simultaneamente, Wilson nomeou Brandeis para a Suprema Corte, marcando a primeira representação significativa de judeus no governo.)

Mas a aprovação silenciosa de Wilson foi suficiente. Welch,

Hale e os demais formaram a nova organização, trazendo cientistas respeitados em vários campos, cientistas que pediam a outros colegas para conduzirem pesquisas específicas e, sobretudo, complementares, pesquisas que, em conjunto, tinham aplicações em potencial. A medicina também se tornou uma arma de guerra.

 

A essa altura, uma espécie de organograma havia se desenvolvido na medicina científica americana. É claro que não existia um gráfico hierárquico formal, mas isso não o tornava menos real.

Welch figurava no topo, totalmente empreendedor, um homem

capaz de mudar a vida daqueles a quem dirigia o olhar. E igualmente capaz de direcionar grandes quantias de dinheiro para uma instituição com um simples meneio de cabeça. Somente ele detinha esse poder no campo da ciência americana, e ninguém mais deteve esse mesmo poder desde então.

Logo abaixo, havia um punhado de contemporâneos, homens

que haviam lutado ao lado dele para mudar a medicina nos Estados Unidos e com reputações merecidas. Talvez Victor Vaughan ficasse em segundo lugar como criador de instituições. Ele havia criado uma bastante sólida em Michigan e era a voz mais importante fora do Hopkins a exigir a reforma do ensino de medicina. Na cirurgia, os irmãos Charles e William Mayo eram gigantes e aliados de grande importância no incentivo à mudança. No laboratório, Theobald Smith era uma inspiração. Em saúde pública, Herman Biggs havia transformado o Departamento de Saúde da cidade de Nova York provavelmente no melhor departamento municipal de saúde do mundo, e acabara de assumir o departamento de saúde do estado. Em Providence, Rhode Island, Charles Chapin aplicara a mais rigorosa ciência a questões de saúde pública e chegara a conclusões que vinham revolucionando as práticas de saúde pública. No exército dos EUA, o chefe de saúde pública do exército William Gorgas também desenvolvera reputação internacional, expandindo e dando continuidade à tradição de George Sternberg.

Tanto o Conselho Nacional de Pesquisa quanto o Conselho de

Defesa Nacional tinham comitês médicos controlados por Welch, Gorgas, Vaughan e pelos irmãos Mayo. Os cinco já haviam sido presidentes da Associação Médica Americana. Era notável, no entanto, a ausência de Rupert Blue, o administrador geral de saúde civil e diretor do Serviço de Saúde Pública dos EUA [sigla em inglês USPHS]. Welch e seus colegas duvidavam tanto da habilidades e do discernimento de Blue que não apenas o impediram de participar dos comitês, como também negaram que nomeasse seu próprio representante. Em vez disso, escolheram um cientista do USPHS em quem confiavam. Não era um bom sinal de que o diretor do serviço público de saúde fosse tão desconsiderado.

Desde o início do planejamento, o grupo se concentrou não no

combate, mas naquelas que de fato eram as maiores assassinas de guerra: as doenças epidêmicas. Durante os conflitos ao longo da história, as enfermidades representaram uma maior baixa de soldados do que as batalhas ou os ferimentos. Rotineiramente, as doenças epidêmicas haviam se espalhado dos exércitos para as populações civis.

E isso era verdade não apenas nos tempos antigos ou da

Guerra Civil Americana, na qual dois homens morreram por doenças para cada morte em batalha ou por ferimento (considerando ambos os lados, 185 mil soldados morreram em combate ou em decorrência de ferimentos, enquanto 373 mil de doenças). As doenças mataram mais do que os combates, mesmo nas guerras travadas após a descoberta da teoria dos

germes e da adoção de medidas modernas de saúde pública. 2 Na Guerra dos Bôeres, que durou de 1899 a 1902 entre a Grã-Bretanha e os colonos brancos da África do Sul, dez soldados britânicos morreram de doenças para cada morte relacionada ao combate. (Os britânicos também colocaram quase um quarto da população bôer em campos de concentração, onde 26.370 mulheres e crianças morreram.) Na Guerra Hispano-Americana, em 1898, seis soldados americanos morreram de doenças (quase todos por febre tifoide) para cada morto em batalha ou em decorrência de ferimentos.

As mortes da Guerra Hispano-Americana foram especialmente

desnecessárias. Em questão de meses, o contingente do exército havia aumentado de 28 mil para 275 mil. O Congresso havia destinado 50 milhões de dólares para as forças armadas, mas nenhum centavo foi para o departamento médico do exército. Como resultado, uma base militar de 60 mil soldados em

Chickamauga não tinha um único microscópio. 3 Da mesma forma, Sternberg, o chefe de saúde pública do exército, também ficou completamente desautorizado. Engenheiros militares e oficiais de linha rejeitaram diretamente suas denúncias raivosas sobre o projeto completamente insalubre da base militar e suprimento de água igualmente ruim. A teimosia de quem estava no comando matou cerca de 5 mil jovens americanos.

Outras doenças poderiam ser igualmente perigosas. Quando

mesmo as enfermidades normalmente leves — como coqueluche, catapora e caxumba — invadem uma população

humana “virgem”,4 uma que não havia sido exposta a elas anteriormente, frequentemente matam em grande número. Os jovens adultos são especialmente vulneráveis. Na Guerra Franco-Prussiana, em 1871, por exemplo, o sarampo matou 40% dos que adoeceram durante o cerco a Paris, e uma epidemia dessa doença eclodiu no exército dos EUA em 1911, matando

5% de todos os homens que a contraíram. 5

Esses fatos causavam muita preocupação a Welch, Vaughan,

Gorgas e os demais. Diante disso, comprometeram-se a garantir que a ciência médica de ponta estivesse disponível para os militares. Welch, com 67 anos, baixo, obeso e sem fôlego, vestiu uniforme e passou a dedicar muito tempo aos negócios do exército, ocupando uma mesa no escritório particular de Gorgas sempre que estava em Washington. Vaughan, com 65 anos e igualmente obeso com seus 124 quilos, vestiu uniforme e se tornou chefe da Divisão de Doenças Transmissíveis do exército. Flexner, com 54 anos, também vestiu uniforme. Gorgas deu a todos o posto de major comissionado, o posto mais alto permitido na época. (Depois as regras foram alteradas, promovendo-os ao posto de coronel.)

A ideia não era apenas cuidar de soldados feridos em

combate; não só encontrar uma boa fonte de digitálicos, que até então era importado da Alemanha (testes descobriram que dedaleiras colhidas por escoteiros no Oregon produziam um fármaco adequado); ou cuidar da produção de agulhas cirúrgicas (eram todas importadas até ali, quando então montaram uma fábrica nos EUA) ou descobrir a maneira mais eficiente de desinfetar grandes quantidades de roupa (pediram a Chapin que investigasse isso).

Eles pensavam em doenças epidêmicas.

O único homem cuja responsabilidade principal era o desempenho da medicina militar era o chefe de saúde pública do exército, William Crawford Gorgas. O exército lhe dava pouca autoridade para trabalhar, não muito mais do que Sternberg tivera, mas ainda assim Gorgas realizou muitos feitos, não apenas em face de uma negligência benigna, como também da oposição direta de seus superiores.

De otimismo e alegria inatos, devoto, filho de um oficial

confederado que se tornou reitor da Universidade do Alabama, Gorgas ingressou na medicina ironicamente em busca de outro objetivo: a carreira militar. Como não foi aprovado para West Point, a medicina passou a ser o único caminho para o exército; Gorgas o aceitou, apesar da amarga oposição do pai. Logo, passou a se sentir totalmente à vontade dentro da profissão e preferia ser chamado de doutor mesmo quando foi promovido a general. Adorava aprender e todos os dias reservava uma quantidade preestabelecida de tempo para ler, alternando entre

ficção, ciência e literatura clássica.6

Gorgas tinha uma suavidade distinta no olhar que o ilustrava

como um homem gentil, sempre tratando a todos com dignidade. Essa aparência e comportamento, no entanto, escondiam intensidade, determinação, foco e uma ocasional ferocidade. Em meio a crises e obstáculos, sua equanimidade pública fez dele um ponto focal de calma, do tipo que tranquilizava e transmitia confiança aos demais. No âmbito privado, no entanto, fechava gavetas com força, virava tinteiros e saía do escritório murmurando ameaças de demissão sempre que observava a estupidez ou mesmo a absoluta burrice de seus superiores.

Como Sternberg, Gorgas passou boa parte do início da

carreira em postos fronteiriços no Ocidente, embora também tivesse feito o curso de Welch em Bellevue. Ao contrário de Sternberg, não fez nenhuma pesquisa de laboratório significativa, mas era absolutamente tenaz e disciplinado.

Duas experiências resumiam suas habilidades e determinação

para o trabalho. A primeira em Havana, após a Guerra Hispano-Americana. Gorgas não estava na equipe de Walter Reed, que investigava a febre amarela. O trabalho desse grupo, na verdade, não o convenceu de que o mosquito carregava a doença; ainda assim, Gorgas foi encarregado de eliminar os mosquitos na capital cubana. Ele cumpriu a tarefa (apesar de duvidar de sua utilidade) tão bem que, em 1902, as mortes por febre amarela chegaram a zero. Zero. As mortes por malária caíram 75%. (Resultados que enfim o convenceram de que a hipótese do mosquito estava correta.) Um triunfo ainda mais significativo ocorreu quando, tempos depois, coube a ele a missão de exterminar a febre amarela dos canteiros de obras ao longo do Canal do Panamá. Os superiores de Gorgas rejeitaram a hipótese do mosquito nesse caso, oferecendo o mínimo de recursos a Gorgas. Tentaram tudo para miná-lo e à sua autoridade, em certa altura exigindo sua substituição. Gorgas persistiu e foi bem-sucedido, em parte por sua inteligência e capacidade de antever os problemas que a doença apresentava, em parte por sua habilidade com as manobras burocráticas. Durante esse processo, também ganhou reputação como especialista internacional em saúde pública e saneamento.

Tornou-se chefe de saúde pública do exército em 1914 e

imediatamente começou a lidar com congressistas e senadores em busca de subsídios e autoridade, preparando-se para um possível ingresso na guerra. Gorgas queria evitar a experiência hispano-americana de Sternberg. Acreditando ter concluído seu trabalho, em 1917, apresentou um pedido de desligamento para participar de um projeto internacional de saúde patrocinado por Rockefeller. Quando a participação dos Estados Unidos foi confirmada na guerra, recuou do pedido de demissão.

Então com 63 anos, cabelos brancos, bigode curvado para

cima, e magro — quando menino, era quase frágil e mantivera esse aspecto apesar de um apetite que rivalizava com o de Welch —, assumiu como primeira tarefa cercar-se das melhores pessoas possíveis, ao mesmo tempo que tentava injetar sua influência e dos demais envolvidos no planejamento do exército. Os superiores do Departamento de Guerra não consultaram Gorgas sobre possíveis locais de instalação das dezenas de novos alojamentos, mas os engenheiros do exército ouviram o departamento médico no projeto real dos campos de treinamento. Também não queriam repetir os erros que mataram milhares de soldados em 1898.

Em outra ocasião, o departamento médico do exército recebeu

uma audiência da liderança do Departamento de Guerra: durante a campanha maciça contra doenças venéreas, fortemente apoiada por uma união política de progressistas (muitos dos quais acreditavam no aperfeiçoamento da sociedade secular) e moralistas cristãos. (A mesma parceria política estranha que em breve se uniria para aprovar a lei Seca.) O escritório de Gorgas reconheceu “a que extremos o moralista sexual é capaz de ir. O quanto pode ser inepto, intolerante, extravagante e até irracional,

se não cientificamente desonesto.” 7 Mas esses grupos também sabiam que um terço de todos os dias de trabalho perdidos por doença no exército se devia a doenças venéreas. Era uma perda que os militares não tolerariam.

A campanha do corpo médico dizia aos homens para se

masturbar em vez de terem relações com prostitutas. Também produziu cartazes com slogans como: “Um soldado que toma

uma dose é um traidor.”8 Os alistados eram examinados duas vezes por mês em busca de doenças venéreas, os infectados eram obrigados a identificar a pessoa com quem haviam feito sexo, ou o local, soldados ou marinheiros com doenças venéreas tinham o pagamento suspenso e ficavam sujeitos a enfrentar a corte marcial. Com o apoio dos membros mais antigos da liderança política, os militares proibiram por lei a prostituição e a venda de álcool a oito quilômetros de qualquer base — e os militares tinham 70 bases com 10 mil ou mais soldados ou marinheiros por todo o país. Os conselhos de saúde de 27 estados aprovaram regulamentações que permitiam a detenção de quem sofresse de infecção venérea “até que não fosse mais

um perigo para a comunidade”.9 Oitenta nichos de prostituição foram fechados. Até Nova Orleans precisou fechar sua lendária Storyville, onde o sexo comissionado era legal e onde Buddy Bolden, Jelly Roll Morton, Louis Armstrong e outros haviam inventado o jazz. O próprio prefeito, Martin Behrman, não era nenhum reformista; dirigia uma máquina política tão rígida que era simplesmente chamada de “o Anel”.

Mas se Gorgas tinha o poder de agir de maneira decisiva

sobre a questão das doenças venéreas e os engenheiros escutavam seus especialistas em saneamento na hora de projetar o fornecimento de água, o exército de modo geral dava pouca atenção a ele em qualquer outro aspecto. Em nenhum assunto relacionado à ciência, sem peso político, ele conseguia ser recebido pelos superiores do exército. Nem quando um pesquisador americano desenvolveu uma antitoxina para gangrena Gorgas conseguiu convencê-los a financiar testes no front. Welch então providenciou que o Rockefeller Institute pagasse as despesas de viagem de uma equipe que se juntaria ao exército britânico para testar a antitoxina em hospitais

britânicos. 10 (Funcionou, embora não perfeitamente.)

Assim, de muitas maneiras, Gorgas, Welch, Vaughan e seus

colegas operavam como uma equipe independente do exército. Essa independência, no entanto, não se estendia às doenças epidêmicas, e eles também não podiam operar nem de forma independente nem sozinhos em bases militares com centenas de milhares (milhões, na verdade) de jovens.

 

Quando a guerra começou, havia 140 mil médicos nos Estados Unidos. Apenas 776 serviam no exército ou na marinha.

Os militares precisavam de dezenas de milhares de médicos,

e imediatamente. Não abririam exceções para os cientistas. A maioria seria voluntária de qualquer maneira. A maioria queria participar dessa grande cruzada.

Welch e Vaughan juntaram-se às forças armadas apesar de

estarem quase 50 quilos acima do peso e com idade de aposentadoria compulsória do exército. E não estavam sozinhos. Flexner ingressou aos 44 anos. Os protegidos de Flexner na Penn (Paul Lewis), em Harvard (Milton Rosenau) e na Washington University (Eugene Opie) seguiram o mesmo caminho. Por todo o país, cientistas de laboratório se alistavam.

Para evitar um esvaziamento do setor, tanto por voluntariado

quanto por alistamento, Flexner sugeriu a Welch que todo o Rockefeller Institute fosse incorporado ao exército. Welch levou a ideia para Gorgas, cujo assistente enviou uma mensagem a Flexner dizendo: “[U]nidade será arranjada conforme seu

desejo.”11 Assim, o Rockefeller se tornou o Laboratório Militar Auxiliar Número Um. Não haveria um laboratório auxiliar número dois. Homens de uniforme marchavam pelos corredores do laboratório e do hospital. Um ajudante do exército comandava os técnicos e zeladores, mantendo a disciplina militar e dando treinamento para que desfilassem na parada da York Avenue. O almoço tornou-se ração. Uma unidade hospitalar móvel sobre rodas, com prédios, enfermarias, laboratórios, lavanderia e cozinha, foi levada até o pátio da frente do instituto, das ruas 64 a 66, a fim de tratar soldados com ferimentos intratáveis. Sargentos batiam continência para cientistas que, com exceção de dois canadenses que viraram soldados, receberam patentes de oficial.

Mas essa não foi uma mera mudança cosmética para que a

 

vida continuasse como de costume. 12 * No Rockefeller, a tessitura do trabalho se refez. Quase todas as pesquisas passaram a ser algo relacionado à guerra ou à instrução. Alexis Carrel, laureado com o prêmio Nobel em 1912 e pioneiro na recolocação cirúrgica de membros e transplante de órgãos, bem como em cultura de tecidos (ele manteve parte de um coração de galinha vivo por 32 anos), ensinou técnicas cirúrgicas a centenas de médicos recém-militarizados. Outros ensinaram bacteriologia. Um bioquímico estudou gás venenoso. Um químico explorou maneiras de obter mais acetona a partir do amido, o que poderia ser usado tanto para a fabricação de explosivos quanto para o enrijecimento do tecido utilizado para cobrir asas de aviões. Peyton Rous, que já havia feito o trabalho que mais tarde — décadas depois — lhe renderia um prêmio Nobel, redirecionou sua pesquisa para a preservação do sangue. O método, ainda em uso, desenvolvido por ele, levou à criação dos primeiros bancos de sangue no front, em 1917.

A guerra também consumiu o suprimento de médicos clínicos.

Gorgas, Welch e Vaughan já tinham elaborado planos para isso. Em dezembro de 1916, solicitaram às associações médicas estaduais, por meio do Conselho de Defesa Nacional, que classificassem secretamente os médicos. Aproximadamente metade de todos os médicos clínicos foi considerada incompetente para o serviço. Assim, quando os Estados Unidos entraram na guerra, os militares examinaram primeiro todos os graduados das faculdades de medicina em 1914, 1915 e 1916,

buscando, como Vaughan disse, os “melhores dessas turmas”.13 Isso forneceria um contingente de aproximadamente 10 mil médicos. Muitas das melhores escolas de medicina também enviaram grande parte de seus professores para a França, onde as escolas funcionavam integralmente, fornecendo funcionários e emprestando seus nomes não oficialmente a hospitais militares inteiros.

No entanto, esses movimentos mal começaram a satisfazer as

necessidades. Quando o armistício foi assinado, 38 mil médicos estavam servindo nas forças armadas, pelo menos metade dos profissionais com menos de 45 anos de idade considerados

aptos para o serviço. 14

As forças armadas, e especialmente o exército, não parariam

por aí. Em abril de 1917, havia 58 dentistas nas fileiras. Em

novembro de 1918, 5.654. 15 E os militares também precisavam de enfermeiras.

 

Havia muito poucas delas. Como a medicina, a enfermagem mudou radicalmente no final do século XIX, tornando-se científica também. Mas as mudanças nessa área envolviam fatores que iam além desse aspecto: incluíam status, poder e o papel da mulher.

A enfermagem foi um dos poucos campos que deram

oportunidade e status às mulheres e que elas controlavam. Enquanto Welch e os colegas revolucionavam a medicina americana, Jane Delano, Lavinia Dock — ambas alunas do programa de enfermagem de Bellevue, contemporâneas ao período em que Welch expunha os estudantes de medicina a novas realidades — e outras faziam o mesmo com a enfermagem. Mas essas mulheres não lutaram com uma velha guarda tão arraigada dentro da própria profissão quanto com os médicos. (Às vezes, ameaçados por enfermeiras inteligentes e instruídas, eles travavam praticamente uma guerrilha. Em alguns hospitais, médicos substituíam os rótulos dos frascos de medicamentos por números para que as enfermeiras não

pudessem questionar uma prescrição.16)

Em 1912, antes de se tornar general médico, Gorgas havia

previsto que, diante de uma guerra, o exército precisaria de um grande número de enfermeiras, mais do que provavelmente haveria disponível. Acreditava, no entanto, que nem todas precisavam de treinamento completo e por isso queria criar um corpo de “enfermeiras práticas”, sem a formação e o treinamento das “enfermeiras graduadas”. Outros também começavam a compartilhar essa ideia, todos homens. As mulheres à frente da profissão, no entanto, não aceitaram isso. Jane Delano havia ensinado enfermagem e chefiado o Corpo de Enfermeiras do Exército. Orgulhosa e inteligente, além de forte, motivada e autoritária, ela havia acabado de deixar o exército para estabelecer o programa de enfermagem da Cruz Vermelha, e a Cruz Vermelha era totalmente responsável pelo suprimento dessas profissionais ao exército, avaliando, recrutando e frequentemente designando-as.

Delano rejeitou o plano de Gorgas, dizendo às colegas que

“ele ameaçava seriamente” o status da enfermagem profissional e alertando: “O serviço que prestamos de nada serviria para esses grupos de mulheres sem qualquer relação conosco, lideradas e orientadas por médicos, servindo sob a tutela deles.” Sem rodeios, Delano disse à Cruz Vermelha que “se esse plano for executado, vou me desligar imediatamente da Cruz Vermelha... [e] todas as integrantes do Comitê Estadual e Local

 

sairão comigo”. 17 **

A Cruz Vermelha e o exército se renderam. Não foi iniciado

nenhum treinamento para auxiliares de enfermagem. Quando os Estados Unidos entraram na guerra, o país tinha 98.162 enfermeiras graduadas, mulheres cujo treinamento provavelmente excedia o de muitos (se não a maioria) dos médicos treinados antes de 1910. A guerra sugou essas profissionais, bem como a todo o resto. Em maio de 1918, aproximadamente 16 mil enfermeiras serviam nas forças armadas. Gorgas acreditava que só o exército precisava de 50 mil delas.

Depois de Gorgas novamente implorar à Cruz Vermelha “para

executar os planos já formulados”, 18 depois de receber informações confidenciais sobre o desespero nos hospitais de campanha, Delano voltou atrás, apoiando Gorgas e buscando dialogar com suas pares sobre a necessidade das enfermeiras “práticas”.

As colegas de profissão rejeitaram tudo. Recusaram-se a

participar da organização de qualquer grande programa de treinamento de auxiliares e concordaram apenas em criar uma Escola de Enfermagem do exército. Em outubro de 1918, essa nova escola não havia produzido uma única enfermeira com treinamento integral.

Foi extraordinário o triunfo da enfermagem sobre a Cruz

Vermelha e o exército dos Estados Unidos, um exército em guerra. O fato de as vencedoras serem mulheres tornava isso ainda mais extraordinário. E, ironicamente, esse triunfo refletia também a partir do Comitê de Informações Públicas de George Creel sobre a verdade, pois a máquina de propaganda de Creel impedira o público de saber o quanto era profunda a necessidade de enfermeiras.

Enquanto isso, o apetite militar por médicos e enfermeiras só

aumentava. Havia 4 milhões de homens americanos armados, mais por vir, e Gorgas fazia planos para 300 mil leitos hospitalares. O número de médicos treinados do qual dispunha simplesmente não suportaria a carga. Assim, a bordo de navios, os militares levavam cada vez mais enfermeiras e médicos aos alojamentos na França, até extraírem quase todos os melhores jovens médicos. Os civis rapidamente ficaram desguarnecidos em matéria de cuidados de saúde. Os médicos que permaneceram na vida civil eram, em grande parte, ou jovens incompetentes ou tinham mais de 45 anos, a maioria desses tendo sido treinada segundo as velhas práticas da profissão. A escassez de enfermeiras se mostraria ainda mais grave. Mortal, de fato, especialmente para a sociedade civil.

Tudo isso acrescentou lenha na fogueira, mas ainda havia

mais lenha por vir.

 

* Durante a Guerra do Vietnã, muitos médicos-cientistas se uniram ao Serviço de Saúde Pública para evitar o alistamento. Mas o trabalho deles continuou como sempre. Foram designados para os Institutos Nacionais de Saúde, que desfrutaram de alguns de seus anos mais produtivos da sua história, devido ao influxo de talentos.

 

** Era necessário que as enfermeiras tivessem o status protegido. No verão americano de 1918, o Departamento do Tesouro informou ao secretário de guerra que enfermeiras do exército feitas prisioneiras, diferentemente dos soldados, não tinham direito aos salários enquanto fossem prisioneiras de guerra. Mais tarde, a indignação forçou que essa política fosse revogada.