A Grande Gripe
Capítulo dezenove
D do Liberty Loan na Filadélfia — um desfile para
promover os bônus que ajudaram o governo a financiar as necessidades das tropas aliadas na Primeira Guerra Mundial —, Wilmer Krusen fizera a sombria declaração de que a epidemia na população civil “começava a se assemelhar à encontrada nas bases navais e nos acantonamentos”.
De fato, a gripe eclodia na cidade. Setenta e duas horas
depois do desfile, todos os leitos de todos os 31 hospitais da cidade estavam ocupados. E as pessoas começaram a morrer. Os hospitais começaram a recusar pacientes — e enfermeiras a rejeitar propinas de cem dólares — sem ordem médica ou da
polícia.1 Contudo, as pessoas faziam filas para entrar. Uma mulher lembrou-se dos vizinhos indo “para o hospital mais perto, o Pennsylvania Hospital, na rua Lombard com a Quinta, mas, lá chegando, encontraram filas e nenhum médico ou remédio
disponível. 2 Então os que ainda tinham forças suficientes voltaram para casa”.
De qualquer modo, o sistema médico quase não fazia
diferença. Mary Tullidge, filha do dr. George Tullidge, morreu 24 horas após apresentar os primeiros sintomas. Alice Wolowitz, estudante de enfermaria no Mount Sinai Hospital, começou seu turno de manhã, sentiu-se mal, e doze horas depois estava morta.
Em 1º de outubro, o terceiro dia depois do desfile, a epidemia
matou mais de cem pessoas — 117 — em um único dia. Esse número duplicaria, triplicaria, quadruplicaria, quintuplicaria, sextuplicaria. Logo a taxa de mortalidade diária por gripe excederia sozinha a taxa de mortalidade média semanal na cidade por outras causas — somando-se todas as doenças,
todos os acidentes, todos os atos criminosos. 3
Em 3 de outubro, apenas cinco dias depois de ter autorizado o
desfile, Krusen proibiu todos os encontros públicos na cidade — incluindo, finalmente, outras comemorações do Liberty Loan — e fechou todas as igrejas, escolas, teatros. Mesmo os funerais foram proibidos. Apenas um lugar público recebeu autorização para permanecer aberto: os bares, onde os eleitores do partido de Vare, republicano da Câmara dos Deputados, se reuniam. No dia seguinte, o Departamento de Saúde do Estado os fechou.
A primeira instalação provisória para cuidar dos doentes foi
montada em Holmesburg, um abrigo para pessoas pobres na cidade. Recebeu o nome de “Hospital de Emergência nº 1”; o Departamento de Saúde sabia que outros seriam abertos. Seus quinhentos leitos foram ocupados em apenas um dia. Por fim, outros doze hospitais semelhantes funcionariam graças à ajuda da cidade, três deles localizados em antigos clubes republicanos no sul da Filadélfia. O povo estava acostumado a ir lá em busca de ajuda.
Em dez dias — dez dias! — a epidemia explodira, passando
de algumas centenas de casos entre civis e uma ou duas mortes por dia para centenas de milhares de doentes e centenas de mortos por dia.
Os tribunais federais, municipais e estaduais fecharam.
Cartazes gigantes espalhados por todo lado alertavam o povo a evitar multidões e usar lenços ao assoar o nariz ou tossir. Outros cartazes diziam “Cuspir é igual a morte”. Quem cuspia na rua era preso — sessenta em um único dia. Os jornais noticiavam as prisões — apesar de continuarem a minimizar a epidemia. Os próprios médicos estavam morrendo: três em um dia, dois no outro, quatro no seguinte. Os jornais noticiavam essas mortes — nas páginas internas, com os outros obituários — apesar de continuarem a minimizar a epidemia. Os funcionários dos departamentos de saúde e do município usavam máscaras constantemente.
O que devo fazer?, perguntavam as pessoas assustadas.
Quanto tempo vai durar? Todos os dias descobriam que amigos e vizinhos perfeitamente saudáveis uma semana — ou um dia — antes tinham morrido.
E as autoridades municipais e os jornais continuavam a
minimizar o perigo. O Public Ledger cometeu o desatino de alegar que o decreto de Krusen banindo todas as manifestações públicas não era “uma medida de saúde pública”; e reiterou: “Não há motivo para pânico ou alarme.”
Em 5 de outubro, médicos comunicaram a morte de 254
pessoas, vítimas da epidemia, e os jornais publicaram declarações de autoridades de saúde informando: “O pico da epidemia de gripe foi alcançado.” Quando 289 habitantes da Filadélfia morreram no dia seguinte, os jornais publicaram: “Acreditando que o pico da epidemia passou, os profissionais de saúde estão otimistas.”
Nos dois dias subsequentes, mais de trezentas pessoas
morreram por dia, e Krusen declarou outra vez: “Essas mortes marcam o auge de óbitos, e é razoável acreditar que a partir de hoje e até a epidemia ser debelada, a taxa de falecimentos diminuirá a níveis constantes.”
No dia seguinte, 428 pessoas morreram, e a taxa de
mortalidade diária continuaria sua escalada por muitos dias ainda — chegando a dobrar esse número.
Krusen disse: “Não se assustem ou entrem em pânico com as
informações exageradas.”4
Mas as palavras tranquilizadoras de Krusen já não
tranquilizavam ninguém.
Era impossível ouvir Paul Lewis falar a respeito de qualquer assunto e não perceber a profundidade de seu conhecimento e sua habilidade de enxergar os problemas, prever possíveis soluções e compreender suas ramificações. Outros cientistas da cidade não o acatavam, mas prestavam atenção no que dizia.
Paul Lewis vinha trabalhando nesse problema havia três
semanas. Praticamente não saíra do laboratório. Assim como seus assistentes, salvo os que se sentiam mal. Todos os cientistas da Filadélfia passavam cada minuto do tempo acordados em seus laboratórios também.
De qualquer modo, o laboratório era o lugar preferido de
Lewis, mais até do que sua casa. Em geral, tudo em seu trabalho lhe dava paz; o laboratório lhe dava paz, inclusive os mistérios que estudava. Dedicava-se a eles como alguém em meio a um nevoeiro impenetrável, um que o fazia se sentir ao mesmo tempo sozinho e parte do mundo.
Mas esse trabalho não lhe dava paz. Não se tratava
exatamente da pressão. Mas a pressão mudava seu ritmo, forçava-o a abandonar o processo científico. Ele desenvolvera uma hipótese e se concentrara nela, mas o processo usando atalhos pelo qual chegara à conclusão deixou-o desconfortável.
Assim como ouvir as notícias de falecimentos. A juventude, a
vitalidade, a vida promissora dos que morriam o horrorizavam. A perda da promessa de vida o horrorizava. Dedicou-se ainda mais ao trabalho.
Arthur Eissinger, representante e “homenageado” da turma de 1918 da Universidade da Pensilvânia morreu. Dudley Perkins, herói de futebol da Swarthmore, morreu. Quase dois terços dos mortos tinham menos de quarenta anos.
Em 1918, era hábito pendurar uma fita de crepe na porta para
marcar um falecimento na casa. Havia crepe por todo lado. “Se fosse alguém jovem, o crepe na porta era branco”, lembrou-se Anna Milani. “Se fosse de meia-idade, o crepe era preto, e se fosse um idoso, era cinza. Assim identificavam quem tinha morrido. Éramos crianças e ficávamos animados tentando descobrir quem seria o próximo a morrer; e quando olhávamos
as portas, sempre havia mais um crepe e mais uma porta.” 5
Sempre havia mais uma porta. “As pessoas morriam como
moscas”, relata Clifford Adams.6 “Na Spring Garden Street, parecia que em todas as casas, tinha uma faixa de crepe na porta. Tinha gente morta lá.”
Anna Lavin estava no Hospital Mount Sinai: “Meu tio morreu lá
(...) Minha tia morreu primeiro. O filho deles tinha 13 anos (...) E muitos jovens, recém-casados, eles eram os primeiros a
morrer.” 7
Contudo, o aspecto mais aterrorizante da epidemia era a pilha
de cadáveres. Os funcionários das agências funerárias, também doentes, estavam assoberbados de trabalho. Não tinham mais onde colocar os corpos. Os coveiros ou estavam doentes ou se recusavam a enterrar vítimas da gripe. O diretor da penitenciária local sugeriu que os prisioneiros cavassem sepulturas, mas voltou atrás por não dispor de guardas saudáveis para vigiá-los. Sem coveiros, os corpos não tinham como ser enterrados. Os locais de trabalho dos agentes funerários estavam abarrotados, com caixões empilhados nos corredores, em suas residências — muitos moravam no andar de cima de seu negócio.
E então eles ficaram sem caixões. De repente, o preço dos
poucos disponíveis atingiu valores inestimáveis. A família de Michael Donohue era dona de uma agência funerária: “Tínhamos caixões empilhados do lado de fora da casa funerária. Tivemos de contratar guardas porque havia gente furtando os caixões (...)
Isso era considerado crime grave.”8
Em pouquíssimo tempo, já não havia mais caixões para
roubar. Louise Apuchase lembra-se nitidamente da falta de caixões: “Um vizinho, um menino de 7 ou 8 anos, morreu. Os agentes funerários enrolavam os corpos em lençóis e os colocavam em camburões. Os pais do menino imploravam aos gritos: ‘Deixe-nos pegar uma caixa de macarrão’ [para usar como caixão] — o macarrão, bem como qualquer outro tipo de massa, costumava vir em caixas com nove quilos do produto — ‘por favor, por favor, deixe eu colocar meu filho na caixa de macarrão,
não o levem assim (...).’”9
Clifford Adams lembra-se dos “corpos empilhados (...)
empilhados do lado de fora para serem enterrados (...) Ele não tinham como enterrá-los”. As pilhas de corpos aumentavam cada vez mais, guardados nas casas, colocados do lado de fora, nos
alpendres.10
O necrotério da cidade, com espaço para 36 corpos,
acumulava uma pilha com duzentos. O fedor era insuportável; portas e janelas eram escancaradas. Não havia mais espaço. Os corpos ficavam nas casas onde tinham morrido e, quando morriam, muitas vezes fluidos de sangue escorriam de narinas e bocas. As famílias cobriam os corpos com gelo; mesmo assim os cadáveres começavam a apodrecer e a feder. Os cortiços não tinham alpendres; poucos contavam com saída de emergência. As famílias trancavam os cômodos onde jazia o corpo, mas uma porta fechada não podia tapar a consciência e o horror do que jazia por trás dela. Em grande parte da cidade — uma com menos habitações que Nova York —, as pessoas não dispunham de um cômodo que pudesse ficar fechado. Cadáveres embrulhados em lençóis eram empurrados para um canto, onde eram deixados por dias, enquanto tomavam consciência do horror da situação a cada minuto, todos doentes demais para cozinhar, para tomar banho, para tirar o cadáver da cama, deitados com ele na mesma cama. Os mortos ali ficavam dias a fio enquanto os vivos viviam com eles, aterrorizados com eles e — talvez ainda mais aterrorizante — acabavam se acostumando com eles.
Os sintomas eram assustadores. Sangue escorria do nariz,
das orelhas, das órbitas oculares; algumas vítimas agonizavam; outras eram acometidas de delírio.
Muitas vezes, duas pessoas da mesma família morriam. Três
mortes em uma família não era incomum. Às vezes uma família sofria ainda mais. David Sword morava no número 2.802 da Jackson Street. Em 5 de outubro, o sexto membro de sua família morreu por causa da gripe enquanto o jornal North American noticiava que mais três membros internados no hospital “podiam
também morrer vitimados pela peste”. 11
A peste. Nas ruas, a palavra era sussurrada. A palavra
escapou, de alguma forma, uma vez, por acaso, nesse jornal. A questão “moral”, a autocensura, a intenção dos editores de dar notícias dentro do contexto mais positivo possível, tudo levou ao fato de que nenhum outro jornal voltasse a usar essa palavra. Entretanto, ninguém precisava de jornais para falar da peste bubônica. Alguns corpos exibiam uma coloração quase preta. Muitos já tinham visto algum corpo assim; de qualquer modo, tinham deixado de acreditar no que liam. Um jovem estudante de medicina, chamado para tratar de centenas de pacientes, recorda: “A cianose alcançou uma intensidade que nunca mais vi.
De fato, correu o boato de que a peste bubônica tinha voltado.”12 Os jornais publicaram as palavras aparentemente sensatas do dr. Raymond Leopold: “Há razões de sobra para esse rumor (...) É verdade que muitos corpos assumiram uma tonalidade escura e exalaram um odor forte após a morte.” Porém, garantiu: “A
afirmação de que a peste bubônica voltou é falsa.”13
Claro, ele estava certo. Mas quantos ainda acreditavam nos
jornais? E mesmo se a peste bubônica não tivesse chegado, uma peste chegara e, com ela, também o terror.
A guerra tinha vindo para casa.
Muito antes do suicídio de Hagadorn, muito antes de os participantes do desfile percorrerem as ruas da Filadélfia, a gripe tinha sido semeada ao longo das fronteiras da nação.
No dia 4 de setembro alcançara Nova Orleans, com os três
marinheiros — que logo morreram — levados ao hospital ao desembarcarem do navio Harold Walker que saíra de Boston. Em 7 de setembro, chegou a Great Lakes Naval Training Station [Centro de Treinamento Naval de Great Lakes], levada pelos marujos transferidos de Boston. Nos dias seguintes, os portos e as instalações navais na Costa Atlântica e na Costa do Golfo — em Newport, New London, Norfolk, Mobile e Biloxi — também
relataram casos da nova gripe.14 Em 17 de setembro de 1918, “a extensa predominância de uma doença parecida com a gripe” foi
relatada em Petersburg, Virgínia, nos arredores de Camp Lee. 15 No mesmo dia, as várias centenas de marinheiros que tinham embarcado na Filadélfia antes das notícias com destino a Puget Sound chegaram; onze homens precisaram sair do navio carregados em macas para um hospital, levando o novo vírus para o Pacífico.
O vírus havia se espalhado por todo o país, estabelecendo-se
no Atlântico, no Golfo, no Pacífico, nos Grande Lagos. Não havia irrompido de imediato em sua forma epidêmica, mas tinha se espalhado. Então as sementes começaram a brotar como flores incandescentes.
O vírus seguiu pelas ferrovias e rios até o interior do
continente, de Nova Orleans ao rio Mississippi no coração da nação, de Seattle ao Leste, do centro de treinamento dos Grandes Lagos a Chicago, e de lá, pelas linhas ferroviárias, partiu em várias direções. De cada locus original, dedos se estendiam, assimétricos, como faíscas desprendendo-se, em grande parte das vezes pulando de pontos próximos para outros mais distantes — de Boston para Newport, por exemplo, e só então retrocedendo e ocupando Brockton e Providence e outros locais entre as cidades.
Em 28 de setembro, quando ocorreu o desfile de Liberty Loan
pelas ruas da Filadélfia, apenas sete casos em Los Angeles e dois em San Francisco tinham sido relatados. Mas, em breve, o vírus chegaria a essas cidades.
Enquanto isso, na Filadélfia, o medo chegou e se instalou. A morte poderia vir de qualquer um a qualquer momento. As pessoas se esquivavam uma das outras nas calçadas, evitavam conversas; caso se falassem, viravam o rosto para evitar a respiração do outro. As pessoas começaram a se isolar, aumentando o pânico.
A impossibilidade de obter ajuda agravou o isolamento.
Oitocentos e cinquenta médicos da Filadélfia e um número ainda maior de enfermeiras estavam fora da cidade, servindo às forças militares. Um número ainda maior encontrava-se doente. O Philadelphia General Hospital contava com 126 enfermeiras. Não obstante todas as precauções, não obstante o uso de máscaras e jalecos, oito médicos e 54 enfermeiras — 43% da equipe — precisavam ser hospitalizados. Só nesse hospital, dez enfermeiras morreram. O Departamento de Saúde pediu ajuda a enfermeiras e médicos aposentados caso se lembrassem “ainda que só um pouquinho” de sua profissão.
Quando uma enfermeira ou médico ou policial chegava,
usavam suas fantasmagóricas máscaras de cirurgia, e as pessoas fugiam deles. Em cada casa havia uma pessoa doente, todos se perguntavam se ela morreria. E em todas as casas havia sempre alguém doente.
A Filadélfia tinha cinco faculdades de medicina. Todas
cancelaram as aulas, e estudantes do terceiro e do quarto anos foram trabalhar nas emergências dos hospitais montadas em escolas e prédios vazios por toda a cidade. A Philadelphia College of Pharmacy também fechou e seus estudantes foram despachados para ajudar os farmacêuticos.
Antes de os estudantes de medicina da Universidade da
Pensilvânia irem atender nos hospitais, assistiram a uma palestra de Alfred Stengel, especialista em doenças infecciosas que cuidara da tripulação do navio cargueiro City of Exeter, que parecia ter ocorrido havia séculos. Stengel analisou dezenas das ideias que tinham aparecido em publicações médicas. Gargarejos com vários desinfetantes. Remédios. Soro para aumentar a imunidade. Vacina contra o tifo. Antitoxina diftérica. Mas a mensagem de Stengel foi clara: Isso não funciona. Isso também não. Nada funcionava.
“Ele tinha visões negativas quanto ao tratamento”, lembra-se
Isaac Starr, um dos estudantes da universidade, mais tarde um cardiologista de renome internacional. “Não confiava em nenhum dos remédios até então propostos.”
Stengel tinha razão. Nada do que faziam funcionava. Starr foi
trabalhar no Hospital de Emergência nº 2, localizado na esquina da rua Eighteenth com a Cherry. Ele contou com ajuda, se é que assim se podia chamar a colaboração de um médico idoso que não exercia a profissão havia anos e levou Starr a entrar em contato com o pior da medicina heroica. Starr jamais se esqueceria da experiência, das antigas artes de punção, da venessecção, a antiga arte de abrir a veia de um paciente. Mas, na maior parte do tempo, ele e os outros estudantes ficavam por conta própria, contando com pouca ajuda até das enfermeiras, tão desesperadamente solicitadas que em cada um dos dez hospitais de emergência montados pela Cruz Vermelha havia apenas uma enfermeira diplomada para supervisionar as voluntárias. E, muitas vezes, as voluntárias compareciam para
sua função uma vez e, por medo ou exaustão, não voltavam.16
Starr ficou encarregado de um andar inteiro em um hospital de
emergência. A princípio, achou que seus pacientes tinham “o que parecia ser uma doença leve (...) com febre, mas pouco mais que isso. Infelizmente, o quadro clínico de muitos logo sofreu alteração”. De novo, o mais impressionante era a cianose, e os pacientes às vezes ficavam quase pretos. “Depois de ofegar horas a fio, eles tinham delírios e incontinência, e muitos morriam lutando para se livrar da espuma manchada de sangue nas vias
respiratórias e que jorrava às vezes do nariz e da boca.” 17
Quase um quarto de todos os pacientes no hospital em que
ele trabalhava morria por dia. Starr ia para casa e, ao voltar no dia seguinte, descobria que entre um quarto e um quinto dos pacientes internados tinham morrido e sido substituídos por outros.
Literalmente centenas de milhares de pessoas na Filadélfia
caíam doentes. Todos, sem exceção, assim como seus amigos e parentes, andavam aterrorizados, possuídos pelo medo de que, por mais leves que os sintomas parecessem no início, uma força alienígena agia dentro deles, uma infecção em ebulição que se propagava, uma coisa viva dona de uma imensa vontade que tomava conta de seus corpos — e podia estar agindo para matá-los. E quem cuidava dos doentes temia — tanto pelas vítimas quanto por si mesmo.
A cidade estava paralisada de medo, quase literalmente
deserta. Starr morava a cerca de vinte quilômetros do hospital, em Chestnut Hill. No trajeto para casa, as ruas encontravam-se em silêncio, total silêncio. O silêncio era tão absoluto que ele contou os carros que passavam. Uma noite não viu nenhum.
Pensou: “A vida na cidade praticamente parou.” 18