A Grande Gripe
Capítulo trinta e cinco
A continuavam sendo as mais simples:
O que causava a gripe? Qual era o patógeno? Pfeiffer acertou ao identificar uma causa e chamá-la de Bacillus influenzae? E se ele não estivesse certo, então qual seria a causa? O que matava?
A busca gerada por essas perguntas é um clássico caso de
como se faz ciência, de como se encontra uma resposta, da complexidade da natureza, de como se constrói uma estrutura científica sólida.
Durante todo o período de epidemia, os bacteriologistas que
se envolveram em tal busca obtiveram resultados contraditórios em relação ao B. influenzae. Pessoas tão competentes como Park e Williams em Nova York, Lewis na Filadélfia e Avery foram incapazes de isolá-lo nas primeiras amostras que estudaram. Então ajustaram suas técnicas, modificaram o meio onde o bacilo crescia, acrescentaram sangue aquecido a uma determinada temperatura ao meio, mudaram as tintas que usavam para tingir e o encontraram. Park e Williams passaram a identificá-lo com tanta frequência que Park assegurou ao National Research Council [Conselho Nacional de Pesquisa] que se tratava do agente etiológico — a causa da doença. O Public Health Service [Serviço de Saúde Pública] acreditava se tratar realmente da causa. Lewis, apesar das dúvidas iniciais, chegou à mesma conclusão.
Em Rockefeller, Martha Wollstein estudava o bacilo de Pfeiffer
desde 1906. Após vários anos de trabalho, ela ainda não considerava seus experimentos suficientemente “precisos e estáveis para indicar que o bacilo de Pfeiffer fosse o agente
provocador específico”.1 Mas continuou a estudá-lo e, no meio da pandemia, se convenceu de que o B. influenzae efetivamente causava a doença. Tinha tanta certeza disso que preparou uma vacina contendo somente o bacilo de Pfeiffer. Sua pesquisa também convenceu seus colegas de Rockefeller — todos tomaram sua vacina, embora estivessem entre os poucos do país com acesso à vacina antipneumocócica de Rockefeller, que se mostrara eficaz.
No meio da pandemia, não encontrar o bacilo parecia uma
marca não de boa ciência, mas de incompetência. Quando um bacteriologista do exército não o encontrou em “placas de ágar
sangue de 159 dos primeiros pacientes”, 2 o exército mandou outro cientista à base militar para levar a cabo “uma investigação dos métodos bacteriológicos empregados no laboratório do
hospital da base”. 3 Não era uma caça às bruxas, e sim uma investigação genuína — típica da instituição montada por Gorgas — que concluiu que esse laboratório em particular fizera “um trabalho brilhante. Se o bacilo de gripe estivesse presente... seria encontrado”. Porém, a conclusão só seria divulgada muito tempo depois de a epidemia passar.
Enquanto isso, a existência de tal investigação sinalizou para
outros bacteriologistas do exército que não encontrar o B. influenzae significava que eles não faziam seu trabalho direito. Simultaneamente, Avery publicou as novas técnicas que desenvolvera e que tornaram muito mais fácil produzir o organismo. Os bacteriologistas começaram a encontrar o que procuravam. No Camp Zachary Taylor, os bacteriologistas haviam sido incapazes de detectar o bacilo de Pfeiffer, mas depois passaram a relatar o seguinte: “Mais recentemente, o meio de oleato de Avery foi usado com resultados muito gratificantes.” Descobriram a bactéria por toda parte em: 48,7% das amostras de sangue tiradas diretamente do coração, 54,8% das retiradas
dos pulmões, 48,3% de baços. 4 Em Camp Dix, “em cada amostra estudada, o bacilo da gripe foi encontrado ou nos pulmões ou no
trato respiratório superior ou nos seios nasais”. 5
Em base militar após a outra, os bacteriologistas foram
aderindo. Em Camp MacArthur, no Texas, não estavam sozinhos na determinação “de obter a maior incidência possível de B. influenzae”, e o descobriram em 88% dos pulmões analisados. Mas não utilizaram qualquer teste de laboratório irrefutável — simplesmente olharam através de um microscópio e identificaram a bactéria pela aparência. Tais observações são subjetivas e não podem valer como provas, apenas indícios.
Em Camp Sherman, onde a taxa de mortalidade havia sido a
mais alta do país e as reputações dos médicos das bases foram postas em dúvida, o relatório final da epidemia exemplificou a tensão. Em uma seção escrita pelo bacteriologista, o relatório dizia: “A ausência persistente dos bacilos da gripe em diversos materiais examinados vão contra a ideia de atribuir a epidemia ao
organismo de Pfeiffer.” 6 Mas a parte escrita pelo patologista acusava o bacteriologista de incompetência. O patologista disse que havia observado patógenos pelo microscópio que ele acreditava serem “organismos de Pfeiffer” e que “todas as bactérias presentes nessa epidemia não foram descobertas nos
métodos de cultura empregados”.7
Pesquisadores civis isolavam o bacilo de Pfeiffer com
regularidade similar. Ainda assim, mesmo com todo esse aparecimento do bacilo, o cenário permanecia confuso, porque raramente ele era encontrado sozinho — embora o meio de Avery inibisse o crescimento de estreptococos hemolíticos e pneumococos, sendo que ambos foram encontrados com frequência em casos de gripe.
E, em algumas vezes, o B. influenzae não era encontrado de
jeito nenhum. Os pesquisadores não conseguiam identificá-lo nos pulmões de vítimas que morreram rapidamente. Em pelo menos três bases — Fremont, na Califórnia, e Gordon e Wheeler, na Geórgia —, a impossibilidade de detectá-lo na esmagadora maioria dos casos levou os bacteriologistas a diagnosticarem
vítimas da epidemia como de “outras doenças respiratórias”, 8 para não se exporem a uma possível crítica. Em alguns casos, nem mesmo os pesquisadores mais experientes encontravam o bacilo. Em Chicago, D.J. Davis havia estudado o bacilo de
Pfeiffer por dez anos, mas o encontrou em apenas 62 casos. 9 Na Alemanha, onde o próprio Pfeiffer continuava sendo uma das figuras mais poderosas na ciência médica, alguns pesquisadores também não conseguiam isolar o bacilo — e ele mesmo insistia que o bacilo causava a doença.
Esses relatos suscitaram dúvidas crescentes sobre o bacilo de
Pfeiffer. Os cientistas não duvidavam da palavra de quem o encontrava. Não duvidavam que o bacilo pudesse causar doenças e matar. Mas começaram a duvidar daquela descoberta.
Havia outros problemas. No meio da epidemia, sob forte pressão, muitos bacteriologistas haviam comprometido a qualidade do seu trabalho na esperança de conseguir resultados rápidos. Como comentou um cientista: “São necessárias pelo menos três semanas de trabalho árduo e concentrado para investigar e identificar as variadas espécies de estreptococo de uma única gota de saliva normal esfregada em uma placa do nosso meio de cultura. Como é possível então que dois pesquisadores estudem a bacteriologia do aparelho respiratório de, digamos, cem casos de gripe e de cinquenta indivíduos normais em um ano, a não ser
de uma maneira totalmente negligente?” 10
Park e Williams eram qualquer coisa menos negligentes. Eles
estavam entre os primeiros a anunciar o B. influenzae como a causa provável da epidemia. Em meados de outubro, Park ainda sustentava essa posição, declarando: “O bacilo foi encontrado em praticamente todos os casos de infecção evidente de gripe. Pneumonias com complicações foram associadas ou a estreptococo hemolítico ou a pneumococo. Em um caso, a broncopneumonia se deveu inteiramente a ele. Os resultados do Departamento de Saúde da Cidade de Nova York se ajustam
estreitamente aos relatados pelo Hospital Naval de Chelsea.” 11
Park e Williams tinham preparado e distribuído uma vacina
baseada em grande parte nas suas convicções.
Mas até mesmo eles fizeram concessões. Agora, com a
epidemia em declínio, continuavam suas pesquisas com extrema prudência. O que faziam de melhor era testar hipóteses, procurar falhas, melhorar e expandir trabalhos originais de outras pessoas. Naquela altura, queriam aprender mais sobre o organismo na esperança de aperfeiçoar uma vacina ou soro — e também testar a própria hipótese de que o B. influenzae causava a gripe —, e iniciaram uma série extensiva de experimentos. Isolaram o bacilo de cem amostras e foram bem-sucedidos na produção de vinte culturas puras a partir dele. Depois, injetaram essas culturas em coelhos, esperaram tempo suficiente para que os animais desenvolvessem uma resposta imunológica, coletaram o sangue deles, centrifugaram para remover os sólidos e seguiram os outros passos para preparar o soro. Quando o soro de cada coelho foi acrescentado aos tubos de teste com a bactéria usada para infectar os coelhos, os anticorpos no soro se aglutinaram à bactéria — os anticorpos enlaçaram a bactéria e formaram tufos visíveis.
Eles esperavam aquele resultado, mas não os que vieram a
seguir. Quando testaram esses diferentes soros contra outras culturas do bacilo de Pfeiffer, a aglutinação ocorreu apenas em quatro das vinte vezes. O soro não se ligou ao bacilo nas outras dezesseis culturas. Nada aconteceu. Repetiram os experimentos e tiveram os mesmos resultados. Todas as culturas bacterianas eram do mesmo bacilo de Pffeifer, do B. influenzae. Não havia dúvidas quanto a isso. Todos os vinte soros se uniam e se aglutinavam às bactérias da mesma cultura usada para infectar aquele coelho em particular. Mas apenas quatro dos vinte diferentes soros se uniam a qualquer bactéria de outra cultura do bacilo de Pfeiffer.
Por uma década, cientistas se empenharam em criar uma
vacina e um antissoro para o bacilo de Pfeiffer. O próprio Flexner havia tentado logo após Lewis deixar o instituto. Ninguém conseguiu.
Park e Williams acreditavam entender o porquê. Eles achavam
que o bacilo de Pfeiffer se assemelhava ao pneumococo. Havia dúzias de cepas de pneumococo. Os tipos I, II e III eram bastante comuns, e foram produzidos vacina e soro que, de certa forma, protegiam contra todos os três tipos, embora seu efeito fosse realmente eficaz apenas contra os tipos I ou II. O chamado tipo IV não era um tipo: era uma designação aleatória para “outro” pneumococo.
À medida que exploravam mais o bacilo de Pfeiffer, ficavam
cada vez mais convencidos de que o B. influenzae incluía dezenas de cepas, cada uma tão diversa da outra que um soro de imunização para uma não funcionaria contra as outras. Na verdade, Williams descobriu “dez diferentes cepas em dez
diferentes amostras”.12
No início de 1919, Park e Williams mudaram de opinião e
declararam: “As evidências de múltiplas cepas parecem apontar para o fato de que o bacilo da gripe não é a causa da pandemia. Parece-nos impossível não encontrarmos a cepa da epidemia em tantos casos, ao mesmo tempo obtendo alguma outra cepa com tanta abundância. Os bacilos da gripe, assim como o estreptococo ou o pneumococo, são, com toda a probabilidade,
meros invasores secundários muito importantes.”13
O bacilo da gripe, diziam eles agora, não causava a gripe.
Anna Williams escreveu em seu diário: “Cada vez mais, as evidências apontam para um vírus filtrável como a causa
provável.” 14
Muitos outros cientistas também começavam a pensar que um vírus filtrável causava a doença. William MacCallum, da Hopkins, escreveu: “Em Camp Lee, praticamente não encontramos bacilos da gripe (...). No Hospital Hopkins foram raros os casos (...). Como se sabe que uma enorme variedade de bactérias provoca a pneumonia, muitas vezes em composições complexas, seria necessária uma evidência realmente contundente para provar que alguma delas é a causa universal da doença primária. E como esse organismo em particular certamente nem sempre está presente, a evidência é muito fraca. Sem dúvida, parece provável que a epidemia seja causada por alguma outra forma de vírus vivo não reconhecível em microscópio por nossos métodos de tingimento, e não passível de ser isolado ou cultivado pelos
métodos atuais.”15
Mas o assunto continuou alvo de controvérsias. Nenhuma
prova apontava em direção a um vírus filtrável, exceto evidências negativas — a ausência de provas de qualquer outro fator. E a teoria de que um vírus causava gripe já tinha sido testada por excelentes cientistas. Durante o primeiro surto da segunda onda nos Estados Unidos, Rosenau suspeitara de um vírus filtrável. Na verdade, sua suspeita vinha pelo menos desde 1916. Seus instintos o levaram a realizar experimentos extensivos e cuidadosos com 62 voluntários da prisão da marinha em Boston. Ele coletou saliva e sangue dos sujeitos vivos e emulsionou tecido do pulmão dos mortos, diluiu as amostras em solução salina, centrifugou-as, drenou o líquido e as passou por um filtro de porcelana. Depois, tentou diversos métodos para transmitir a doenças aos voluntários. Empregou todo método imaginável de injeção, inalação, gotas aplicadas a nariz e garganta, até mesmo aos olhos, usando altas dosagens, com risco de vida. Nenhum dos voluntários adoeceu. Um dos médicos que conduziu os experimentos morreu.
Na Alemanha, um cientista tentou o mesmo, borrifando na
garganta dos voluntários secreções nasais filtradas, mas nenhum deles pegou gripe. Em Chicago, uma equipe de pesquisadores não conseguiu infectar voluntários humanos com secreções
filtradas de vítimas da gripe. 16 Pesquisadores da marinha em San Francisco também não.
Apenas um pesquisador no mundo estava relatando sucesso
em transmitir a doença com o método de filtração: Charles Nicolle, do Pasteur Institute. Mas as séries inteiras de experimentos de Nicolle envolveram menos do que doze pessoas e macacos. Ele tentou quatro métodos separados para transmitir
a doença e alegou sucesso em três deles.17 Primeiro, gotejou o resultado da filtração dentro das cavidades nasais de macacos e relatou que eles pegaram gripe — o que era possível, apesar de macacos quase nunca contraírem gripe humana. Depois, injetou o mesmo material dentro das membranas mucosas em volta dos olhos de macacos e relatou o mesmo resultado — o que era teoricamente possível, mas ainda menos provável. Também alegou ter transmitido gripe para dois voluntários humanos, filtrando o sangue de um macaco doente e injetando o material filtrado nos homens de forma subcutânea — por baixo da pele. Pode ser que os dois homens tenham contraído gripe, mas não pelo método descrito por Nicolle. Nicolle era um cientista brilhante, que, em 1928, ganhou o prêmio Nobel. Mas esses experimentos estavam errados.
Então, na falta de outros candidatos, muitos cientistas,
inclusive a maioria dos que trabalhavam no Rockefeller Institute, continuaram convencidos de que o bacilo de Pfeiffer causava a gripe. Era a opinião de Eugene Opie, o primeiro pupilo brilhante de Welch na Hopkins, que fora para a Universidade de Washington, em St. Louis, com o objetivo de montá-la nos moldes da Hopkins, e liderara as pesquisas de laboratório da comissão de pneumonia do exército. Em 1922, ele e diversos outros membros da comissão publicaram suas conclusões em um livro chamado Epidemic Respiratory Disease [Doença respiratória epidêmica]. Um dos coautores era Thomas Rivers, que na época já tinha começado a trabalhar com vírus e, em 1926, definiu a diferença entre vírus e bactérias — criando a virologia e se tornando um dos maiores especialistas mundiais da área. Ele passou seus primeiros cinco anos após a guerra pesquisando o bacilo de Pfeiffer, escrevendo muitos artigos sobre o assunto mesmo depois de iniciar suas pesquisas em vírus. Conta ele: “Nós procuramos detectar o bacilo da gripe em todas as pessoas que eram acometidas de gripe... Descobrimos e rapidamente partimos para a conclusão de que o bacilo da gripe
tinha sido a causa da pandemia.”18
O que se verifica é que quase todos os pesquisadores acreditavam no próprio trabalho. Se encontravam o bacilo em abundância, acreditavam que ele causava a gripe. Se não, acreditavam que não causava a gripe.
Poucos eram os que enxergavam além do próprio trabalho e
se dispunham a se contradizer. Park e Williams estavam nesse grupo. Com essa atitude, demonstraram uma sede por conhecimento extraordinária, um desejo extraordinário, para observar com outros olhos os próprios resultados.
Park e Williams se convenceram — e a muitos outros — de
que o bacilo não causava a gripe. Então, mudaram o foco. Pararam de pesquisar a gripe, em parte por convicção, em parte porque o laboratório municipal da Cidade de Nova York estava perdendo o financiamento para pesquisa genuína. E eles estavam ficando velhos.
Ao longo da década de 1920, os pesquisadores continuaram a
trabalhar no problema, que se tornou, conforme afirmou Burnet, a mais importante pergunta da ciência médica durante anos.
Na Inglaterra, Alexander Fleming, assim como Avery, se
concentrava em desenvolver um meio onde o bacilo pudesse florescer. Em 1928, ele deixou uma placa de Petri sem tampa com estafilococos crescendo. Dois dias depois, descobriu um
mofo que inibia o crescimento. 19 Extraiu do mofo a substância que detinha a bactéria e a chamou de “penicilina”. Fleming descobriu que a penicilina matava o estafilococo, o estreptococo hemolítico, o pneumococo, o gonococo, o bacilo da difteria e outras bactérias, mas não causava nenhum dano ao bacilo da gripe. Ele não tentou desenvolver a penicilina como medicamento. Para ele, o bacilo da gripe era tão importante que usou a penicilina para ajudá-lo a crescer, matando qualquer bactéria que contaminasse a cultura. Segundo explicou, ele a utilizou “para isolar o bacilo da gripe”. Essa “técnica de cultura seletiva especial” permitiu-lhe encontrar o “B. influenzae nas gengivas, nas cavidades nasais e nas amígdalas de praticamente todos os indivíduos” que pesquisou.
(Fleming nunca pensou na penicilina como um antibiótico, o
que foi feito uma década mais tarde, por Howard Florey e Ernst Chain, financiados pela Rockefeller Foundation. Os dois transformaram o achado de Fleming na primeira droga milagrosa. A penicilina era tão escassa e tão poderosa que, na Segunda Guerra Mundial, as equipes do exército dos Estados Unidos a recuperavam da urina de homens que recebiam tratamento com ela para poder reutilizá-la. Em 1945, Florey, Chain e Fleming dividiram um prêmio Nobel.)
Em 1929, em uma reunião importante sobre a gripe, Welch fez
uma análise pessoal: “Sinto que há muito poucas evidências de que o [B. influenzae] possa ser a causa. Mas, quando investigadores do calibre do dr. Opie, por exemplo, acham que as evidências estão a favor do bacilo de Pfeiffer e assumem a posição exaltada de que o fracasso de outros bacteriologistas em encontrá-lo se deveu a um erro de técnica e falta de habilidade, não se pode dizer que não haja espaço para mais pesquisas (...). Sempre me pareceu que a gripe é possivelmente uma infecção causada por um vírus desconhecido (...) com um extraordinário efeito de reduzir a resistência do corpo, ou pelo menos do sistema respiratório, fazendo-o se deteriorar a ponto de ser invadido por quaisquer organismos, que levam a problemas
respiratórios graves e pneumonia.” 20
Em 1931, o próprio Pfeiffer ainda argumentou que, de todos os
organismos já descritos, o patógeno que ele chamara de Bacillus influenzae e que informalmente carregava seu nome constituía “o mais sério candidato a ocupar o papel de agente etiológico primário, e seu único rival seria um vírus filtrável não
identificado”. 21
Avery continuou trabalhando no bacilo da gripe por vários anos após a pandemia. Como contou seu discípulo René Dubos, “os problemas científicos pesquisados por Avery eram quase sempre
a ele imputados por seu meio social”. 22 Por essa frase, Dubos quis dizer que o Rockefeller Institute influenciava na escolha do que deveria ser estudado. Se alguma coisa interessasse a Flexner e Cole, então era nela que Avery depositava seus esforços.
E ele fez um progresso notável, provando que a transmissão
em animais tornava o bacilo mais letal. Além disso, e muito mais importante, isolou os fatores no sangue necessários para o B. influenzae crescer, inicialmente identificando-os como “X” e “V”. Foi um estudo extraordinário, que representou um marco no entendimento do metabolismo e das necessidades nutricionais de todas as bactérias.
Contudo, à medida que começou a enfraquecer a ideia de que
o bacilo estivesse causando a gripe, a pressão para que trabalhasse no tema também declinou. Apesar de pensar no início que o bacilo causava a gripe, Avery acabou por se tornar um dos cientistas que acreditavam que o B. influenzae fora erroneamente denominado — e esse grupo estava crescendo. Ele não nutria nenhum interesse específico no organismo e nunca abandonara sua pesquisa sobre pneumococos. Longe disso. A epidemia havia enfatizado mais do que nunca a natureza mortal da pneumonia. Foi ela a responsável pelas mortes. Continuava sendo a representante da morte. Ela era o alvo. Ele voltou ao seu trabalho sobre os pneumococos em tempo integral. E continuaria nesse estudo pelo resto da sua vida científica.
Na verdade, conforme os meses e depois os anos se
passaram, Avery pareceu se limitar por completo a essa pesquisa. Ele sempre tivera um foco, que ficara mais restrito. O próprio Dubos chegou a comentar: “Por várias vezes me surpreendi e algumas vezes quase fiquei chocado ao perceber que sua gama de informações científicas não fosse tão vasta quanto poderia ser, tendo em vista a sua fama e a variedade e
magnitude de seus feitos científicos.” 23 Em outra ocasião, Dubos observou: “Ele fazia poucos esforços para seguir as tendências modernas da ciência ou de outros campos intelectuais. Pelo contrário. Dirigia sua atenção para assuntos diretamente ligados ao problema específico que tinha sob estudo. No laboratório, limitava-se a uma gama de técnicas bastante restrita, as quais
ele raramente mudava e às quais pouco acrescentava.”24
Seus interesses se estreitaram cada vez mais a um só, a
única coisa que ele tentava compreender: o pneumococo. Era como se sua mente tivesse se tornado não apenas um filtro, mas um funil, que concentrava todo o entendimento e todas as informações do mundo inteiro exclusivamente em um ponto. E no fim desse funil ele não ficava acomodado, filtrando os dados. Avery usava esses limites para cavar mais e mais fundo para dentro da terra, fazendo um túnel tão profundo que a única luz presente era a que carregava consigo. Ele não conseguia ver nada além do que estava à sua frente.
Dali, estreitou seu foco ainda mais, para um único aspecto do
pneumococo — para a cápsula polissacarídica, a concha de açúcar parecida com a de um M&M, que o circundava. O sistema imunológico tinha grande dificuldade em atacar o pneumococo envolto em cápsulas. Pneumococos encapsulados proliferavam de forma rápida e desimpedida nos pulmões — eles matavam. Pneumococos sem cápsulas não eram virulentos. O sistema imunológico facilmente os destruía.
Nas mesas de almoço do instituto, sentados em cadeiras
confortáveis, partindo baguetes de pão, bebendo uma quantidade interminável de café, os cientistas aprendiam uns com os outros. As mesas acomodavam oito pessoas, mas normalmente uma pessoa mais graduada dominava a discussão. Avery falava pouco, apesar de seu status e senioridade — ainda assim, ele dominava à própria maneira, fazendo perguntas afiadas sobre os problemas que enfrentava, procurando por quaisquer ideias que pudessem ajudar.
Tentava constantemente recrutar pessoas cujos
conhecimentos complementassem o seu próprio. Ele queria um bioquímico, e desde 1921 vinha tentando repetidamente atrair Michael Heidelberger, um jovem e brilhante bioquímico que trabalhava no laboratório do vencedor do prêmio Nobel Karl Landsteiner. Eis uma recordação de Heidelberger: “Avery subia a escada vindo do seu laboratório, me mostrava um pequeno frasco com um material cinza-escuro de aparência suja e dizia: ‘Veja, meu garoto, todo o segredo das características da bactéria está nesse pequeno frasco. Quando é que você vai trabalhar
nele?’” 25
Dentro do frasco havia cápsulas dissolvidas. Avery isolara o
material do sangue e da urina de pacientes com pneumonia. Ele acreditava que lá estava contido o segredo de como usar o sistema imunológico contra a pneumonia. Se conseguisse descobrir qual era... Por fim, Heidelberger se juntou a Avery, assim como outros. E Avery estabeleceu uma rotina inalterável. Ele morava na rua Sessenta e Sete Leste, e seu laboratório ficava na esquina da Sessenta e Seis com York. Todas as manhãs, ele entrava no prédio do laboratório na mesma hora, usando o que parecia ser o mesmo casaco cinza, pegava o elevador até o sexto andar e trocava o casaco por um jaleco castanho-claro. O jaleco branco era usado apenas se ele estivesse fazendo alguma coisa incomum, se fosse uma ocasião especial.
Mas não havia nada de rotineiro em seu trabalho. Ele
realizava a maioria dos experimentos nas bancadas dos laboratórios — na verdade mesas de madeira originalmente projetadas para escritório. Seu equipamento permanecia simples, quase primitivo. Avery não gostava de aparelhos sofisticados. Quando fazia experiências, recordou um colega, ele ficava “intensamente concentrado (...). Seus movimentos eram limitados, mas de extrema precisão e elegância. Seu ser inteiro parecia se identificar com o aspecto estritamente definido da realidade que estivesse estudando. As confusões pareciam desaparecer (...), talvez porque tudo parecia tão organizado ao
redor dele”.26
Cada experimento criava seu próprio mundo, com
possibilidades de alegria e desespero. Avery deixava culturas na incubadora da noite para o dia e, a cada manhã, ele e seus jovens colegas se aproximavam do aparelho sem saber o que iriam encontrar. Por mais tranquilo e reservado que fosse, ele sempre ficava tenso nessa hora, a expressão simultaneamente ansiosa e receosa.
Em 1923, ele e Heidelberger transformaram o mundo
científico, provando que as cápsulas efetivamente geravam uma resposta imunológica. Elas eram puro carboidrato. Até então, os pesquisadores acreditavam que somente uma proteína ou alguma coisa contendo proteínas pudesse estimular uma resposta do sistema imunológico.
A descoberta encorajou Avery e seus colegas a prosseguirem.
Mais do que nunca, eles se concentraram na cápsula, abandonando praticamente todo o resto. Ele acreditava que a cápsula era a chave para a reação específica do sistema imunológico, a chave para produzir uma vacina ou terapia efetiva, a chave para matar o assassino. E acreditava que muito do que descobrira sobre o pneumococo se aplicaria a qualquer bactéria.
Então, em 1928, Fred Griffith, na Grã-Bretanha, publicou uma
descoberta impressionante e surpreendente. Ele havia descoberto anteriormente que todos os tipos conhecidos de pneumococos podiam existir com ou sem cápsulas. Pneumococos virulentos tinham cápsulas, pneumococos sem cápsulas podiam ser facilmente destruídos pelo sistema imunológico. Agora, ele percebera uma coisa muito mais estranha. Ele matou os pneumococos virulentos, aqueles envoltos por cápsulas, e os injetou em ratos. Como a bactéria estava morta, todos os ratos sobreviveram. Também injetou pneumococos vivos sem cápsulas, não virulentos. E os ratos continuaram vivos. Seus sistemas imunológicos devoraram os pneumococos não encapsulados. Então ele injetou pneumococos mortos envoltos em cápsulas e pneumococos vivos sem cápsulas.
Os ratos morreram. De alguma forma, os pneumococos vivos
haviam adquirido cápsulas. De alguma forma, haviam se modificado. E, quando isolados a partir do material dos ratos, continuaram a crescer com a cápsula — como se as tivessem herdado.
O artigo de Griffith parecia tornar inúteis anos de trabalho — e
de vida — de Avery. O sistema imunológico se baseava na especificidade. Avery acreditava que a cápsula era a chave para essa especificidade. Mas, se o pneumococo podia se modificar, isso minaria tudo no que Avery acreditava e que pensara ter provado. Durante meses, ele descartou o trabalho de Griffith taxando-o de frágil. Mas o seu desespero parecia avassalador. Por estar sofrendo da doença de Graves, uma doença provavelmente relacionada ao estresse, largou o laboratório por seis meses. Quando retornou, Michael Dawson, um colega júnior a quem delegara a verificação dos resultados de Griffith, confirmou-os. Avery teve que aceitar.
Seu trabalho então se voltou para uma direção diferente. Ele precisava entender como um tipo de pneumococo se transformara em outro. Já tinha na ocasião quase sessenta anos. Thomas Huxley disse: “Um homem da ciência com mais de sessenta faz mais mal do que bem.” Mas agora, mais do que nunca, Avery se concentrou em sua tarefa.
Em 1931, Avery, um assistente e Dawson, então na
Universidade Columbia, tiveram sucesso em transformar — em um tubo de ensaio — um pneumococo sem cápsula em um com cápsula. No ano seguinte, pesquisadores do laboratório de Avery conseguiram usar um extrato livre de células de pneumococos encapsulados mortos para fazer o mesmo, ou seja, induzir bactérias sem cápsulas a se transformar em bactérias com cápsulas.
Um após o outro, os jovens cientistas no seu laboratório
seguiram trajetórias próprias. Avery prosseguiu. No final da década de 1930, ele estava trabalhando com Colin MacLeod e Maclyn McCarty, e os três passaram a concentrar todas as suas energias para entender como aquilo tinha acontecido. Se Avery tinha exigido precisão antes, agora exigia praticamente a perfeição, resultados irrefutáveis. Eles fizeram proliferar grandes quantidades de pneumococos virulentos tipo III, e passaram não apenas horas ou dias, mas meses e anos decompondo a bactéria, examinando cada parte integrante, tentando entender. O trabalho era de um tédio absoluto, e provocou fracasso atrás de fracasso atrás de fracasso atrás de fracasso.
O nome de Avery aparecia cada vez menos em artigos
científicos. Muito porque ele só acrescentava seu nome em artigos de gente do seu laboratório e se tivesse realizado fisicamente algum experimento incluído na pesquisa detalhada no artigo — e não se tivesse contribuído conceitualmente para o trabalho, ou por maior frequência que tivesse discutido as ideias com o pesquisador. (Era uma característica extremamente generosa de Avery; o normal é um chefe de laboratório colocar seu nome em praticamente todos os artigos que qualquer pessoa no seu laboratório escreve. Dubos se lembrou de que trabalhou catorze anos sob a chefia de Avery, que influenciou praticamente todo o seu trabalho, mas constou apenas quatro vezes em seus artigos. Outro jovem cientista disse: “Eu sempre me senti tão profundamente associado a Avery e (...) com enorme surpresa percebi pela primeira vez que nós nunca publicamos um artigo
em conjunto.”) 27
Mas Avery também estava publicando menos porque tinha
pouco a relatar. O trabalho estava extraordinariamente difícil, testando os limites do tecnicamente possível. A decepção é meu pão de cada dia, dissera ele. Eu prospero com ela. Mas não prosperava. Muitas vezes pensou em abandonar o trabalho, abandonar tudo. Mesmo assim, dia após dia, continuou a preencher praticamente todo o seu tempo acordado pensando sobre o assunto. Entre 1934 e 1941, não publicou nada. Nada. Para um cientista, passar por um período de seca tão grande é mais do que deprimente. É a contestação de sua capacidade, de sua vida. Mas, no meio daquela temporada estéril, Avery contou a um jovem pesquisador que havia dois tipos de investigadores: a maioria “fica circulando, apanhando pepitas na superfície, e, sempre que consegue enxergar uma pepita de ouro, a pega e a acrescenta à sua coleção (...) [O outro tipo] não está interessado na pepita da superfície. Está mais interessado em cavar um buraco fundo em um lugar, esperando atingir um veio. E claro que, se consegue atingir um veio de ouro, faz um tremendo
avanço.”28
Em 1940, ele tinha cavado fundo o suficiente para acreditar
que encontraria algo — e algo de valor. Entre 1941 e 1944, não publicou nada novamente. Mas agora era diferente. Agora sua pesquisa o animava mais do que qualquer outra antes. Ele estava confiante que conseguiria alcançar seu destino. Heidelberger recordou: “Avery chegava e falava sobre seu trabalho sobre a substância transformante (...) Havia algo que lhe dizia que essa substância era fundamental para a biologia (...)
para o entendimento da própria vida.”29
Avery adorava um provérbio árabe: “Os cães ladram, e a
caravana passa.” Ele não tinha nada para publicar porque seu trabalho estava sendo feito principalmente por subtração. Mas estava avançando. Ele tinha isolado qualquer elemento que transformasse o pneumococo. Agora, analisava a substância eliminando uma possibilidade após a outra.
Primeiro, eliminou as proteínas. Enzimas que desativavam as
proteínas não tinham efeito na substância. Então, eliminou os lipídios — ácidos de gordura. Outras enzimas que destruíram os lipídios não tinham efeito na capacidade de a substância transformar os pneumococos. Eliminou os carboidratos. O que tinha sobrado era uma parte rica em ácidos nucleicos, mas uma enzima isolada por Dubos que destrói ácido ribonucleico também não tinha efeito na substância transformante. Cada um desses passos havia levado meses, ou anos. Mas ele conseguiu ver.
Em 1943, Avery se aposentou oficialmente e se tornou um
membro emérito do instituto. Sua aposentadoria não mudou nada. Ele continuava trabalhando exatamente como sempre, experimentando, incitando, lapidando. Naquele ano, escreveu para o irmão mais novo, um médico, sobre suas descobertas extraordinárias, e em abril as revelou ao Conselho de Diretores Científicos do instituto. Suas descobertas revolucionariam toda a biologia, e as evidências pareciam mais do que sólidas. Outros cientistas que tivessem descoberto o que ele descobriu teriam publicado logo. Ainda assim ele não publicava. Um dos seus colegas menos graduados perguntou: “Mestre, o que mais o
senhor quer?”30
Mas ele ficara marcado de forma negativa, muito tempo antes,
naquele primeiro trabalho no Rockefeller, quando publicara uma teoria abrangente englobando imunidade, virulência e metabolismo bacteriano. Ele estava errado, e nunca esquecera a humilhação. Ele continuou a pesquisar. Então, em novembro de 1943, ele, MacLeod e McCarty enviaram um artigo chamado “Studies on the Chemical Nature of the Substance Inducing Transformation of Pneumococcal Types. Induction of Transformation by a Desoxyribonucleic Acid Fraction Isolated from Pneumococcus Type III [“Estudos da Natureza Química da Substância Que Induz Transformações nos Tipos Pneumocócicos. Indução de Transformação por uma Fração de Ácido Desoxirribonucleico Isolada de Pneumococo Tipo III”] para o Journal of Experimental Medicine, o periódico fundado por Welch. Em fevereiro de 1944, o periódico publicou o artigo.
O DNA, o ácido desoxirribonucleico, fora isolado no fim da
década de 1860 por um cientista suíço. Ninguém sabia a função daquilo. Os geneticistas o ignoraram. A molécula parecia simples demais para ter alguma coisa a ver com genes ou hereditariedade. Os geneticistas acreditavam que as proteínas, moléculas muito mais complexas, carregavam os códigos genéticos. Avery, MacLeod e McCarty escreveram: “A substância indutora foi comparada a um gene, e o antígeno capsular que foi
produzido em resposta foi considerado um produto do gene.”31
Avery havia descoberto que a substância que transformava um
pneumococo sem cápsula em um com cápsula era o DNA. Uma vez que o pneumococo mudava, seu progênie herdava a mudança. Ele havia demonstrado que o DNA carregava informações genéticas, que os genes estavam dentro do DNA.
Seus experimentos eram sofisticados, elegantes e irrefutáveis.
Um colega do Rockefeller realizou experimentos de confirmação no B. influenzae.
Entre historiadores da ciência, existem algumas controvérsias
sobre o alcance do impacto imediato do artigo de Avery, em grande parte porque um geneticista, Gunther Stent, escreveu que o artigo “teve pouca influência na reflexão sobre os mecanismos
da hereditariedade pelos oito anos seguintes”. 32 E as conclusões de Avery não foram aceitas de imediato pela comunidade médica como um todo.
Mas foram aceitas pelos cientistas que importavam.
Antes de descobrir — e provar — que o DNA carregava o código genético, Avery estava sendo seriamente cogitado para ganhar o prêmio Nobel por sua vida de contribuições ao conhecimento da imunoquímica. Porém, veio seu artigo revolucionário. Em vez de isso lhe garantir o prêmio, o Comitê do Nobel o considerou revolucionário demais, surpreendente demais. Um prêmio iria endossar suas descobertas e o comitê não queria correr esse risco, não até que outros as confirmassem. A história oficial da organização que concede o prêmio declara: “Os resultados eram obviamente de importância fundamental, mas o Comitê do Nobel
achou desejável esperar até que se soubesse mais...”33
Outras pessoas estavam determinadas em fazer com que se
soubesse mais.
James Watson, que descobriu, juntamente com Francis Crick,
a estrutura do DNA, escreveu em seu clássico A dupla hélice que “havia uma aceitação geral de que os genes eram tipos especiais de moléculas de proteínas” até que “Avery mostrou que traços hereditários poderiam ser transmitidos de uma célula bacteriana para outra por moléculas de DNA purificadas (...). Os experimentos de Avery sugeriam fortemente que futuros experimentos mostrariam que todos os genes eram compostos de DNA (...). O experimento de Avery fez [o DNA] parecer como o material genético essencial (...). Claro que havia cientistas que pensavam que as evidências pró-DNA eram inconclusivas, e preferiam acreditar que genes eram moléculas de proteínas. Francis, entretanto, não se preocupou com esses céticos. Muitos eram tolos maldosos que sempre respaldaram os indivíduos errados (...) não apenas limitados e obtusos, mas também
apenas estúpidos”.34
Watson e Crick não foram os únicos pesquisadores em busca
do grande prêmio, o maior de todos, a chave para a hereditariedade e possivelmente para a vida, que compreenderam de imediato o significado do trabalho de Avery. Erwin Chargaff, um químico cujas descobertas foram cruciais para que Watson e Crick entendessem a molécula de DNA a ponto de determinar sua estrutura, disse: “Avery nos deu o primeiro texto de uma nova linguagem, ou melhor, nos mostrou
onde procurar. Eu resolvi investigar esse texto.”35
Max Delbruck, que tentava usar os vírus para entender a
hereditariedade, disse: “Ele prestava muita atenção ao que fazíamos, e nós prestávamos muita atenção ao que ele fazia (...)
[Era] óbvio que ele tinha alguma coisa interessante ali.” 36
Salvador Luria, que trabalhava com Delbruck — Watson foi
seu aluno quando estudante de pós-graduação —, também rejeitou a argumentação de Stent de que as descobertas de Avery foram ignoradas. Luria contou se lembrar de almoçar com Avery no Rockefeller Institute e debater as implicações do seu trabalho: “Eu acho que é um absurdo completo dizer que não
estávamos conscientes.” 37
Peter Medawar observou: “A idade das trevas do DNA chegou
ao fim em 1944 com Avery.” 38 Medawar chamou o trabalho de “o experimento biológico mais portentoso e interessante do século XX”.
Macfarlane Burnet estava estudando, assim como Avery,
doenças infecciosas, não genes, mas em 1943 visitou o laboratório de Avery e saiu perplexo. Segundo Burnet, ele não estava fazendo “nada menos do que isolar um gene puro na forma de ácido desoxirribonucleico”.
Na verdade, o que Avery realizou foi um clássico de ciência
básica. Ele começou sua busca procurando uma cura para a pneumonia e terminou, como Burnet observou, “inaugurando (...)
o campo da biologia molecular”. 39
Watson, Crick, Delbruck, Luria, Medawar e Burnet todos
ganharam o prêmio Nobel.
Avery não.
A Universidade de Rockefeller — antigo Instituto de Pesquisa
Médica Rockefeller — homenageou-o dando a uma de suas entradas o nome dele, a única honraria do tipo dedicada a uma pessoa. E a Biblioteca Nacional de Medicina produziu uma série de perfis on-line de proeminentes cientistas — Avery foi o primeiro a ser homenageado.
Oswald Avery tinha 67 anos quando publicou seu artigo sobre
“o princípio transformante”. Ele morreu onze anos depois, em 1955, dois anos depois de Watson e Crick desvendarem a estrutura do DNA. Morreu em Nashville, onde havia ido morar perto do irmão, da família. Dubos comparou sua morte à de Welch, em 1934, e citou Simon Flexner sobre o afastamento deste: “Enquanto seu corpo sofria, sua mente lutava para manter perante o mundo o mesmo plácido exterior que havia sido sua bandeira e seu escudo. Popsy, o médico que foi tão amado, morreu como viveu, mantendo sua opinião e essencialmente
sozinho.”40