A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 10 de 43

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A Grande Gripe

Parte III: O BARRIL DE PÓLVORA

Parte III

 

O barril de pólvora

CAPÍTULO NOVE

 

N 1918, a morte não era um evento

desconhecido em nível global. De fato, àquela altura, os corpos de mais de 5 milhões de soldados já tinham sido entregues para a chamada “fábrica de salsichas” por generais cuja estupidez só se comparava à própria brutalidade.

Os generais alemães, por exemplo, decidiram fazer com que a

França sangrasse até a submissão, igualando morte por morte em Verdun, acreditando que a população mais numerosa da Alemanha levaria o país à vitória. Os franceses posteriormente responderam com sua própria ofensiva maciça, confiando no triunfo de seu élan vital.

Mas apenas a carnificina triunfou. Em dado momento, um

regimento francês recusou ordens de fazer um ataque suicida. O motim se espalhou por 54 divisões e só foi detido com prisões em massa, 23 mil condenações por motim, 400 sentenciados à morte e 55 de fato executados.

No entanto, nada expressava tão bem a brutalidade daquela

guerra quanto o relatório sanitário sobre a erradicação planejada de ratos nas trincheiras, a fim de impedir a disseminação de doenças. Um major comentou: “Certos problemas inesperados estão relacionados à questão dos ratos (...) O rato é útil por aqui; consome os cadáveres na Terra de Ninguém, função que apenas ele está disposto a assumir. Por esse motivo, tem sido desejável

controlar a população em vez de exterminá-la.”1

Toda a Europa estava exausta da guerra. Nos Estados Unidos,

somente os anglófilos e os francófilos, a maioria concentrada na Costa Leste e muitos em postos de poder e de influência, não estavam exaustos. E justamente esses indivíduos que fizeram grande pressão sobre o presidente Woodrow Wilson para que o país entrasse na guerra.

O conflito tinha começado em 1914 e na época Wilson

resistira à pressão. Um submarino alemão afundara o Lusitania em 1915 e ainda assim ele evitara a guerra — apesar do ultraje demonstrado pela imprensa —, conquistando o compromisso dos alemães de limitar a guerra submarina. Wilson resistira a outras justificativas. Conseguiu até mesmo fazer campanha para a reeleição em 1916 com o slogan “Ele nos manteve fora da guerra”. E avisava: “Se elegerem meu oponente, estão elegendo a guerra.”

Na noite após a ida às urnas, o presidente foi para cama

acreditando na derrota, mas acordou reeleito por uma das mais margens mais estreitas da história.

Nesse momento a Alemanha resolveu fazer uma grande

aposta. Em 31 de janeiro de 1917, com apenas 24 horas de antecedência, o governo anunciou o início de uma guerra submarina irrestrita contra embarcações mercantes e neutras. Acreditava que assim poderia subjugar a Grã-Bretanha e a França antes que os Estados Unidos pudessem ajudar (caso fossem finalmente levados a declarar guerra). A decisão deixou o país inteiro ofendidíssimo.

Mesmo assim, Wilson não foi para a guerra. Em seguida, veio à tona a nota de Zimmermann: documentos

interceptados revelavam que o ministro das Relações Exteriores tinha proposto ao México participar da guerra ao lado da Alemanha, contra os Estados Unidos, para reconquistar partes do Novo México, Texas e Arizona.

Os críticos de Wilson ficaram furiosos diante de sua

pusilanimidade. Em um famoso ensaio, o pacifista e socialista Randolph Bourne, que morreria na epidemia de gripe, lamentou-se: “O sentimento de guerra, iniciado de forma tão gradual, mas com tanta perseverança pelos defensores da prontidão, vindos das fileiras dos grandes negócios, capturou grupo após grupo de intelectuais. Com a ajuda de [Theodore] Roosevelt, os murmúrios se tornaram uma ladainha monótona e por fim um refrão poderoso de tal modo que ficar de fora seria, a princípio, pouco respeitável e, por fim, quase obsceno. E aos poucos, criou-se

uma arenga estridente contra a Alemanha.”2

Em 2 de abril, três semanas depois da revelação dos

documentos, depois que houve unanimidade dos ministros no pedido de guerra, Wilson finalmente enviou uma mensagem ao Congresso. Dois dias depois, explicou a um amigo. “Era necessário para mim, em estágios muito lentos e com o propósito mais genuíno de evitar a guerra, levar o país a pensar de modo coeso.”

E assim os Estados Unidos entraram na guerra tomados de

altruísmo, acreditando que a glória ainda era possível e ainda mantendo-se apartados daquilo que encaravam como um Velho Mundo corrupto. Lutaram ao lado da Grã-Bretanha, da França, da Itália e da Rússia não como “aliados”, mas como “potência associada”.

Quem acreditava que a relutância de Wilson significava que

ele não se dedicaria à guerra com agressividade não o conhecia. O presidente era um daqueles raros homens que acreditava na justiça de seus propósitos com intensidade tamanha que beirava a doença mental.

Wilson acreditava, de fato, que sua determinação e seu

espírito eram suportados pelo espírito e pela esperança do povo, e até mesmo por Deus. Falava na “conexão empática que com certeza mantenho” com todos os cidadãos americanos e dizia: “tenho certeza de que meu coração diz as mesmas coisas que o

povo desejaria que seus corações dissessem”. 3 “Não direi que

há ‘paz’ enquanto houver pecado e erro no mundo”,4 prosseguiu. “A América nasceu para exemplificar a devoção aos elementos da retidão derivados das revelações das Sagradas Escrituras.”

Wilson provavelmente é o único presidente americano a ter

defendido essa crença com tanta convicção, sem qualquer sinal de dúvida interior. Afinal, essa é uma característica em geral mais de cavaleiros das Cruzadas do que de políticos.

Para Wilson, a guerra era em si uma cruzada e ele pretendia

que fosse total. Como conhecia a si mesmo ainda melhor do que ao país que servia, previu: “Assim que levarmos essas pessoas à guerra, elas esquecerão que existia algo parecido com a tolerância. Para lutar é preciso ser brutal, implacável, e o espírito dessa brutalidade implacável há de penetrar na própria essência da vida nacional, contagiando o Congresso, os tribunais, o

policial em suas rondas, o homem nas ruas.” 5

Os Estados Unidos nunca tinham sido nem voltariam a ser tão

bem informados a respeito da disposição do líder do poder executivo; nem na Guerra Civil, com a suspensão do habeas corpus; nem na Coreia; nem no período macarthista; nem mesmo na Segunda Guerra Mundial. Wilson transformaria o país em arma, em dinamite.

Como consequência não calculada, o país também se tornaria

uma espécie de barril de pólvora pronto para uma explosão de doença epidêmica.

 

Wilson declarou: “Não é um exército que devemos formar e

treinar para a guerra; mas um país.”6

Para treinar o país, Wilson empregou punho de ferro,

desprovido de qualquer espécie de luva de pelica. E de fato ele tinha motivos legítimos para se preocupar, motivos que justificavam a linha dura.

Por questões inteiramente desligadas da guerra, os Estados

Unidos viviam um ruidoso período de caos, cheio de mudanças e movimentos que alteravam sua própria natureza e identidade. Em 1870, a população americana era de apenas 40 milhões de almas, 72% vivendo em cidades pequenas ou fazendas. Quando os Estados Unidos entraram na guerra, a população já tinha chegado a mais ou menos 105 milhões. Somente entre 1900 e 1915, 15 milhões de imigrantes inundaram o país. A maioria vinha da Europa Oriental ou Meridional, trazendo consigo novos idiomas e religiões, compleições de tez mais escura. E o primeiro censo após a guerra também seria o primeiro a encontrar mais gente residindo em áreas urbanas do que rurais.

O maior grupo étnico nos Estados Unidos era formado por

germano-americanos e uma imprensa volumosa em idioma alemão era, logicamente, simpática ao lado da Alemanha. Os americanos de origem alemã teriam condições de lutar contra a Alemanha? O Exército Republicano Irlandês deflagrara um levante contra o domínio britânico na Páscoa de 1916. Os americanos de origem irlandesa lutariam para ajudar a Grã-Bretanha? O Meio-Oeste era isolacionista. Enviaria soldados para o outro lado do oceano com os Estados Unidos ainda não tendo sido atacados? Os populistas se opunham à guerra e o próprio secretário de estado de Wilson, William Jennings Bryan, três vezes candidato à nomeação do partido Democrata à presidência, deixara o governo em 1915 depois que Wilson reagiu de um modo que ele considerou agressivo demais quando o Lusitania foi torpedeado pela Alemanha. Socialistas e sindicalistas radicais tinham força nas fábricas, nas comunidades mineradoras das montanhas Rochosas, no Noroeste. Sendo ou não alistados, esses homens defenderiam o capitalismo?

A linha-dura foi projetada para intimidar quem relutava em

apoiar a guerra e convencê-los a mudar de opinião, além de esmagar ou eliminar qualquer oposição. Mesmo antes da entrada na guerra, Wilson alertara o Congresso: “Existem cidadãos deste país, chego a me envergonhar ao admitir (...) que derramaram o veneno da deslealdade nas próprias artérias da vida nacional (...) Tais criaturas passionais, desleais, anárquicas, precisam ser

esmagadas.”7

Seu discurso inflamado influenciou praticamente tudo o que

acontecia no país, até a moda: para poupar tecido, um material para a guerra — tudo era material para a guerra — os estilistas afinaram as lapelas, eliminaram ou encolheram os bolsos. A fúria de Wilson influenciou particularmente todos os movimentos do governo norte-americano. Durante a Guerra Civil, Lincoln suspendeu os mandados de habeas corpus, mantendo centenas de pessoas sob custódia. Esses encarcerados eram uma ameaça real de rebelião armada, mas mesmo assim o presidente ignorou críticas extraordinariamente ásperas. Wilson acreditava que Lincoln, no entanto, não havia feito o bastante e disse a seu primo. “Graças a Deus por Lincoln. Assim não cometerei os

mesmos erros que ele.”8

O governo compeliu a conformidade, controlou a liberdade de

expressão de forma assustadora, desconhecida nos Estados Unidos antes e depois daquela época. Pouco após a declaração de guerra, Wilson aprovou a lei da Espionagem com a ajuda de um Congresso cooperativo, que só recuou diante da legalização pura e simples da censura à imprensa — apesar de Wilson

chamá-la de “necessidade imperativa.” 9

O projeto dava ao chefe geral dos correios, Albert Sidney

Burleson, o direito de recusar a distribuição de qualquer periódico que considerasse impatriótico ou crítico do governo. E, antes da televisão e do rádio, a maior parte do discurso político do país era transmitida via correios. Sulista, homem de mente estreita, supostamente populista mas mais próximo à ala de Pitchfork Ben Tillman do que a de William Jennings Bryan, Burleson logo mandou que suspendessem a entrega de praticamente todas as publicações, entre ela toda e qualquer em língua estrangeira que sugerisse apoio menos do que entusiasmado à guerra.

O procurador-geral Thomas Gregory solicitou ainda mais

poder. Gregory era um progressista, em grande escala responsável por Wilson nomear Louis Brandeis para a Suprema Corte, um liberal e o primeiro judeu a assumir um cargo ali. Naquele momento, ao observar que os Estados Unidos eram “um

país governado pela opinião pública”,10 Gregory pretendia ajudar Wilson a dominá-la e, por meio disso, dominar o país. Exigiu que a Biblioteca do Congresso informasse o nome daqueles que pediam determinados livros e também explicou que o governo precisava monitorar “as declarações casuais individuais ou as

impulsivas e desleais”. 11 Para controlar as do segundo tipo, defendeu uma lei que fosse ampla o bastante para punir declarações feitas “com bons motivos ou (...) se motivos

traiçoeiros não fossem prováveis”. 12

O governo contava com tal lei. Em 1798, o presidente

federalista John Adams e seu partido, sob a pressão de uma guerra não declarada à França, aprovaram a lei da Sedição, que tornava ilegal “imprimir, pronunciar ou publicar (...) qualquer texto falso, escandaloso ou malicioso” contra o governo. A lei, no entanto, provocou polêmica e contribuiu para que Adams fosse derrotado nas urnas. Ainda levou ao único impeachment de um juiz da Suprema Corte em toda a história, quando Samuel Chase ajudou a levar os críticos aos tribunais e ao mesmo tempo sentenciou-os com penas máximas.

A administração Wilson foi além, mas obteve pouca oposição.

A nova lei da Sedição permitia punir com vinte anos de reclusão quem “pronunciasse, imprimisse, escrevesse, publicasse qualquer linguagem desleal, profana, escandalosa ou abusiva sobre o governo dos Estados Unidos”. Era possível ser condenado por falar xingamentos contra o governo ou até criticá-lo, mesmo que o argumento fosse verdadeiro. Oliver Wendell Holmes escreveu o parecer da Suprema Corte que considerou a lei constitucional — depois que a guerra acabou, apoiando longas penas de prisão para os réus — defendendo que a Primeira Emenda não protegia a liberdade de expressão “se as palavras usadas (...) criam um perigo claro e imediato”.

Para fazer cumprir a lei, o chefe daquilo que se tornaria o FBI

aceitou criar um grupo de voluntários chamado de American Protective League [Liga de Proteção Americana] como um anexo ao Departamento de Justiça e autorizou que os membros portassem crachás que os identificavam como “Serviço Secreto”. Alguns meses depois a liga teria 90 mil membros. Um ano

depois, seriam 200 mil operando em mil comunidades.13

Em Chicago, uma “patrulha” formada por pessoas da liga e

policiais perseguiu, assediou e espancou membros da International Workers of the World [Trabalhadores Internacionais do Mundo]. No Arizona, membros da liga e justiceiros isolados trancafiaram 1.200 membros da entidade e seus “colaboradores” em vagões de carga e os deixaram no deserto depois de atravessar a fronteira estadual no Novo México. Em Rockford, Illinois, o exército pediu ajuda à liga para obter as confissões de 21 soldados negros acusados de atacar mulheres brancas. Por todo o país, a American Vigilance Patrol [Patrulha Americana de Vigilância] mirava a “oratória sediciosa nas ruas”, às vezes chamando a polícia para prender os oradores por conduta

desordeira, às vezes agindo de forma mais “direta.” 14 E em toda parte, essas pessoas espionavam vizinhos, investigavam “preguiçosos” e “acumuladores de alimentos”, exigiam saber por que as pessoas não compravam — ou ao menos não mais — Liberty Bonds [títulos de guerra].

Os estados proscreveram o ensino de alemão, ao mesmo

tempo em que um político de Iowa alertava que “90% de todos os homens e mulheres que ensinam o idioma alemão são

traidores”.15 As conversas em alemão nas ruas ou no telefone tornaram-se suspeitas. O chucrute (sauerkraut) passou a ser chamado de “liberty cabbage” [repolho da liberdade]. O Cleveland Plain Dealer declarou: “O que a nação exige é que a traição, seja ela levemente oculta ou bem descarada, tenha

fim.” 16 Todos os dias o Providence Journal exibia um alerta em destaque: “Todos os alemães ou austríacos nos Estados Unidos, a não ser que sejam conhecidos há muitos anos, devem ser

tratados como espiões.”17 A ordem dos advogados de Illinois declarou que as pessoas defendendo a resistência ao alistamento eram “impatrióticas” e “antiprofissionais”. O reitor da Universidade Columbia, Nicholas Murray Butler, líder nacional do partido Republicano, demitiu professores que tinham críticas ao governo e observou: “O que era tolerável agora se tornou intolerável. Erros de avaliação agora são insubordinação. O que

era tolice agora é traição.”18

Milhares de cartazes e propagandas do governo incitavam que

as pessoas denunciassem ao departamento de Justiça qualquer um que “espalhe histórias pessimistas, divulgue — ou busque — informações militares confidenciais, que clame pela paz ou

minimize o esforço do país para ganhar a guerra”.19 O próprio

Wilson começou a falar sobre a “intriga sinistra” 20 que se desenrolava “em todas as esferas” dos Estados Unidos por “agentes e inocentes úteis”.

Mesmo os inimigos de Wilson, mesmo os supostos

comunistas internacionalistas, desconfiavam dos estrangeiros. Dois partidos comunistas emergiram inicialmente nos Estados Unidos, um feito por americanos natos, outro por 90% de

imigrantes.21

O juiz Learned Hand, um dos amigos mais próximos de Simon

Flexner, observaria mais tarde: “Já se encontra em processo de dissolução aquela comunidade em que cada homem começa a encarar seu vizinho como possível inimigo, onde o não conformismo com o status quo, tanto político quanto religioso, se torna uma marca de desavença; onde as denúncias, sem especificação nem antecedentes, acontecem no lugar das

evidências; onde a ortodoxia sufoca a liberdade de expressão.” 22

Mas a sociedade americana não parecia estar em processo de

dissolução. Na verdade, cristalizava-se em torno de um único ponto. Estava mais concentrada em um objetivo determinado do que jamais acontecera antes ou do que poderia ser possível que voltasse a acontecer.

 

A linha-dura de Wilson ameaçava os dissidentes com a prisão. O governo federal também assumiu o controle de boa parte da vida nacional. O Gabinete de Guerra das indústrias alocava matéria-prima para as fábricas, garantia os lucros, controlava a produção e os preços dos produtos de guerra e, junto com o Gabinete Nacional do Trabalho, também estabelecia os salários. A Railroad Administration [Administração Ferroviária] praticamente nacionalizou o setor ferroviário americano. A Fuel Administration [Administração de Combustíveis] controlava a distribuição de combustíveis (e para poupar esse insumo, foi responsável por instituir o horário de verão). A Food Administration [Administração dos Alimentos] — sob a batuta de Herbert Hoover — supervisionava a produção agrícola, os preços e a distribuição. Assim, o governo se inseria no psiquismo dos Estados Unidos, permitindo que apenas sua própria voz fosse ouvida, berrando mais alto do que qualquer um e ao mesmo tempo ameaçando prender dissidentes.

Antes da guerra, o major Douglas MacArthur escrevera uma

longa proposta em que defendia a censura caso o país fosse para a guerra. O jornalista Arthur Bullard, muito próximo a um confidente de Wilson, o coronel Edward House, defendia outra abordagem. A rejeição da censura pelo Congresso encerrou a questão favorecendo o argumento de Bullard.

Da Europa, ele escrevera sobre a guerra para publicações

como Outlook, Century e Harper’s Weekly, ressaltando que a Grã-Bretanha, que censurava a imprensa, tinha enganado o povo britânico, prejudicando a confiança no governo e o apoio à guerra. Insistia para que se baseassem apenas nos fatos, embora não tivesse afeição particular pela verdade em si, apenas pela eficácia: “Verdade e falsidade são termos arbitrários (...) Não existe nada que tenha sido colocado em prática que nos diga que uma é preferível a outra (...) Existem verdades sem vida e mentira vitais (...) A força de uma ideia reside em sua capacidade

de inspirar. Pouco importa se é verdadeira ou falsa.” 23

Então, provavelmente a pedido de House, Walter Lippmann

escreveu um memorando para Wilson criando um gabinete de publicidade em 12 de abril de 1917, uma semana depois da declaração de guerra. Uma excrescência da Era Progressiva, da emergência de especialistas em muitas áreas, era a convicção de que a elite sabia mais. De modo típico, Lippmann chamou a sociedade de “grande demais, complexa demais” para ser compreendida pelo cidadão médio, pois a maioria era formada por “mentes infantis ou bárbaras (...) A determinação pessoal é apenas um entre muitos interesses de uma personalidade

humana”.24 Lippmann sugeria que esse livre-arbítrio fosse subordinado a “ordem”, “direitos” e “prosperidade”.

Um dia depois de receber o memorando, Wilson emitiu a

Ordem Executiva 2594 criando o Comitê de Informação Pública e nomeou George Creel como chefe.

Creel era passional, intenso, bem-apessoado e descontrolado.

(Certa vez, anos depois da guerra, quando já estava bem na meia-idade, ele literalmente se pendurou em um candelabro de

um salão de baile e ficou ali balançando.25) Sua intenção era criar “uma massa incandescente (...) de fraternidade, devoção,

coragem e determinação inabaláveis”.26

Para isso, Creel enviou dezenas de milhares de releases e

artigos que costumavam ser publicados pelos jornais sem qualquer edição. Essas mesmas publicações instituíram uma autocensura. Os editores não imprimiam nada que achavam que poderia abalar os ânimos. Creel também criou uma força, os chamados Four Minute Men [Homens dos Quatro Minutos] — cujas fileiras acabaram passando dos 100 mil integrantes — que faziam breves discursos no início de reuniões, sessões de cinema, espetáculos e divertimentos de toda espécie. Bourne observou com tristeza: “Toda essa coesão intelectual — instinto da manada — que parecia tão histérica e servil no estrangeiro

chega até nós em termos altamente racionais.” 27

No início, Creel pretendia se ater aos fatos, mesmo quando

limitava-se apenas a fatos cuidadosamente selecionados, e conduzir apenas uma campanha positiva, evitando o uso do medo como ferramenta. Mas isso tudo mudou muito rápido. A nova atitude foi incorporada a partir da declaração de um dos redatores de Creel que dizia “em nosso estandarte, acima mesmo dos dizeres ‘A verdade é mais nobre de todos os lemas’,

está inscrito — ‘Nós servimos’”. 28 E eles de fato serviam a uma causa. Um dos cartazes criado para a venda de títulos de guerra avisava: “Eu sou a Opinião Pública. Todos os homens me temem! Se você tiver dinheiro para comprar e não o fizer, hei de criar

para você uma Terra de Ninguém!” 29 Outro cartaz perguntava: “Conhece esse czarista? (...) Você vai encontrá-lo no saguão de hotéis, em espaços para fumantes, clubes, escritórios até mesmo dentro dos lares (...) Ele é um disseminador de escândalos do tipo mais perigoso. Reproduz todo tipo de boato, crítica e mentiras que ouve a respeito da participação de seu país na guerra. É um sujeito bem plausível (...) As pessoas gostam disso (...) por sua vaidade ou curiosidade ou traição, está ajudando os propagandistas alemães a semear as sementes da discórdia (...).”

Creel exigia “100% de americanismo” e planejava que “todos

os petardos impressos alcancem o alvo”. 30 Simultaneamente, dizia aos Four Minute Men que o medo era “um elemento importante a ser cultivado entre os civis porque é difícil unir as pessoas falando apenas com base em um plano ético elevadíssimo. A luta por um ideal talvez precise vir acompanhada

por pensamentos de autopreservação”. 31

Os Liberty Sings [A liberdade canta] — eventos comunitários

semanais — espalharam-se da Filadélfia para o resto do país. Corais infantis, quartetos vocais masculinos, coros de igreja — todos executavam canções patrióticas para plateias que acompanhavam. Em cada reunião dessas, um Four Minute Men iniciava as cerimônias com um discurso.

Eram proibidas canções que pudessem abalar os ânimos.

Raymond Fosdick, aluno de Wilson em Princeton e integrante do conselho (e depois presidente) da Fundação Rockefeller, comandava a Comissão de Atividades de Campos de Treinamento. Essa comissão proibiu canções como “I Wonder Who’s Kissing Her Now” [Quem estará beijando ela agora] e paródias maliciosas como “Who’s Paid the Rent for Mrs. Rip Van Winkle While Mr. Rip Van Winkle Was Away?”[Quem pagava o aluguel da sra. Rip Van Winkle enquanto o sr. Rip Van Winkle estava fora?], além de “piadas de gosto questionável e outras que pareçam inofensivas, mas contêm um ferrão oculto capaz de envenenar com descontentamento, preocupação e angústia a mente do soldados e fazer com que se agitem pensando em voltar para casa (...) As canções e as piadas eram o ponto alto da propaganda dos hunos, feita por cartas que contavam histórias aos homens sobre supostas condições de sofrimento dentro do

lar.” 32

Wilson não dava descanso. Para dar início a uma campanha

de venda de bônus de guerra, proclamou: “Força! Força máxima! Força sem restrição nem limite! A Força virtuosa e triunfante é o que tornará justa a lei do mundo e lançará na poeira todos os

egoísmos.”33

 

Aquela força, em última instância, tornaria mais intenso o ataque da gripe, esgarçando o tecido social. Um caminho mais suave pelo qual Wilson também tentou conduzir a nação mitigaria os danos, mas apenas em parte.

Esse caminho era a Cruz Vermelha Americana.

Enquanto a Liga de Proteção Americana mobilizava cidadãos,

quase todos do sexo masculino, para espionar e atacar qualquer um que criticasse a guerra, a Cruz Vermelha Americana mobilizava cidadãos, quase todos do sexo feminino, de forma mais produtiva. A Cruz Vermelha Internacional tinha sido fundada em 1863 com o foco na guerra e no tratamento digno de prisioneiros, como estabelecia a primeira Convenção de Genebra. Em 1881, Clara Barton fundou a Cruz Vermelha Americana e no ano seguinte os Estados Unidos aceitaram as diretrizes da convenção. Durante a Primeira Guerra Mundial, todos os combatentes eram membros da Cruz Vermelha Internacional, mas cada unidade nacional era totalmente independente.

A Cruz Vermelha Americana era uma instituição quase pública

cujo presidente titular era (e ainda é) o presidente dos Estados Unidos. Apontada oficialmente pelo Congresso para servir a nação em tempos de emergência, ela se aproximou ainda mais do governo durante a guerra. O chairman do seu Comitê Central era o antecessor de Wilson na presidência, William Howard Taft, e Wilson designara todo o seu Conselho de Guerra, o verdadeiro centro de comando da organização.

Assim que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra

Mundial, a Cruz Vermelha Americana declarou que “faria todos os esforços que (...) possam ajudar os aliados (...). A organização busca, diante desta grande emergência mundial, fazer nada mais nada menos do que coordenar a generosidade e o esforço de

nosso povo para a realização de um objetivo supremo.”34

Não havia organização mais patriótica. Sua responsabilidade

era fornecer enfermeiras, milhares delas, ao serviço militar. A Cruz Vermelha organizou cinquenta hospitais de base na França. Equipou diversos vagões de trem como laboratórios especializados para o caso da irrupção de alguma doença — mas reservou-os para uso exclusivo dos militares, excluindo os civis —, posicionando-os de tal modo “que pudessem ser entregues em qualquer ponto [do país] em menos de 24

horas”.35 (O Rockefeller Institute também equipou vagões como laboratórios de última geração e distribuiu-os pelo país afora.) Cuidou de civis feridos ou desabrigados depois de diversas explosões em fábricas de munição.

Mas seu papel mais importante não tinha qualquer relação

com a medicina ou com os desastres. Sua função mais importante era unir a nação, pois Wilson usou a Cruz Vermelha para atingir cada comunidade do país. A Cruz Vermelha, por sua vez, não desperdiçou a oportunidade de aumentar sua presença na vida do cidadão americano.

A instituição já tinha conquistado uma reputação graças a

diversas catástrofes: a enchente de Johnstown em 1889, quando o rompimento de uma represa fez a água descer como um martelo sobre a cidadezinha de Pensilvânia, matando 2.500 pessoas; o terremoto de San Francisco em 1906; grandes enchentes dos rios Ohio e Mississippi em 1912. Também tinha servido aos soldados americanos durante a Guerra Hispano-Americana e durante a insurreição nas Filipinas, em seguida.

No entanto, a Cruz Vermelha Americana iniciou a Grande

Guerra com apenas 107 representações locais. Ao fim dela, teria 3.864.

Alcançava as maiores cidades e os menores vilarejos. Era

claro para todos que participar das atividades da Cruz Vermelha era o mesmo que se juntar à grande cruzada pela civilização, especialmente em nome da civilização americana. A campanha usava a sutileza e a pressão social para tornar a participação praticamente compulsória. Eles identificavam o homem mais proeminente de uma cidade, alguém a quem as pessoas tinham dificuldade de dizer não, e convidavam-no para presidir a unidade local da Cruz Vermelha. Era feito um apelo, diziam a esse indivíduo o quanto ele era importante para o esforço de guerra, o quanto era necessário. Quase sempre o figurão concordava. Então pediam para a principal anfitriã, a líder da “sociedade” naquele local — na Filadélfia, a sra. J. Willis Martin, que deu início ao primeiro clube de jardinagem do país, cuja família de origem e a família do marido ocupavam papel de destaque na região — ou o que fosse considerado como “sociedade” nos vilarejos — no condado de Haskell, a sra. Loring Miner, filha do maior latifundiário do sudoeste do Kansas — para presidir o braço feminino.

Em 1918, a Cruz Vermelha contava com 30 milhões de

americanos — de uma população total de 105 milhões — como apoiadores ativos. Oito milhões de americanos, quase 8% da população, serviam nas representações locais. (A Cruz Vermelha teve mais voluntários na Primeira Guerra Mundial do que na Segunda, apesar de um aumento de 30% na população do país.) As mulheres eram quase o total dessa enorme força de trabalho voluntária e também podiam ter trabalhado em fábricas. Cada representação recebia uma cota de produção e cada representação cumpria essa cota. Produziam milhões de suéteres, de cobertores, de meias. Faziam móveis. Faziam tudo que se pedia delas e faziam bem. Quando a Federal Food Administration disse que caroços de pêssegos, ameixas, tâmaras, damascos, azeitonas e cerejas eram necessários para produzir carbono para máscaras antigás, os jornais relataram “Confeitarias e restaurantes de várias cidades começaram a servir nozes e frutas para entregar cascas e os caroços ao governo, um serviço patriótico (...). Todo homem, mulher ou criança dos Estados Unidos com um parente ou um amigo no exército deveria considerar como questão pessoal o fornecimento de carbono em quantidade suficiente para a produção da própria

máscara antigás.”36 E assim as representações da Cruz Vermelha por todo o país recolheram milhares de toneladas de caroços de fruta; tantos que em dado momento veio a ordem para que, enfim, parassem.

Como recordava William Maxwell, romancista e editor da New

Yorker, criado em Lincoln, Illinois: “Minha mãe enrolava bandagens para os soldados. Botava algo parecido com um pano de prato na cabeça, com uma cruz vermelha na frente, e vestia branco. Na escola, guardávamos os caroços de ameixa que deveriam ser transformados em máscaras antigás, para que a cidade toda tivesse consciência do esforço de guerra (...) Em todos os eventos, havia um senso ativo de estar participando da

guerra.” 37

A guerra estava absorvendo todo o país. O alistamento, limitado originalmente a homens de 21 a 30 anos, logo se estendeu aos homens de dezoito a 45 anos. Mesmo com a base expandida, o governo declarou que todos nesse grupo etário seriam chamados em um ano. Todos os homens, disse o governo.

O exército exigiria também ao menos 100 mil oficiais. O

Student Army Training Corps forneceria muitos deles e começaria a admitir “homens por indução voluntária (...) colocando-os imediatamente em atividade”.

Em maio de 1918, o secretário de Guerra Newton Baker

escreveu aos presidentes de todas as instituições de nível superior — Harvard, Cambridge, Massachusetts, até o North Pacific College of Dentistry, em Portland, Oregon. Não pediu cooperação, muito menos permissão. Simplesmente declarou: “instrução militar para oficiais comissionados e não comissionados do exército será fornecida em todas as instituições de nível superior que tenham matriculados 100 ou mais estudantes do sexo masculino (...) Todos os estudantes com mais de 18 anos serão encorajados ao alistamento (...) O

comandante (...) reforçará a disciplina militar.”38

Em agosto de 1918, um subordinado deu sequência à carta de

Baker com um memorando para os administradores das instituições, declarando que a guerra provavelmente exigira a “mobilização de todos os registrados com menos de 21 anos em boas condições físicas, dentro de dez meses a partir desta data (...). O aluno, por indução voluntária, torna-se membro do exército dos Estados Unidos, sujeito à disciplina militar e

pagamento de soldado na ativa.”39 Uma vez na ativa, quase todos seriam enviados à frente de batalha. Rapazes de 20 anos receberiam só três meses de treinamento antes disso; os mais jovens, apenas alguns meses a mais. “Em consideração ao tempo comparativamente curto durante o qual a maioria dos estudantes-soldado permanecerão na universidade e às exaustivas tarefas militares que os aguardam, a instrução acadêmica precisa necessariamente ser modificada de acordo com o direto valor militar.”

Portanto, o ensino de cadeiras acadêmicas estava prestes a

ter fim, substituído pelo treinamento militar. Oficiais militares assumiriam o comando virtual de cada instituição de ensino superior do país. Às escolas de nível médio, insistiu-se que “intensificasse a instrução aos jovens de 17 e 18 anos para que estivessem o mais depressa possível qualificados para a universidade”.

 

O envolvimento total da nação se iniciara no instante em que Wilson escolhera a guerra. A princípio, a Força Expedicionária Americana na Europa não passava disso, uma pequena força capaz de enfrentar não mais do que pequenas batalhas. No entanto, o exército americano ganhava corpo. E o processo de transformar todo o país em arma estava pronto para ser concluído.

Isso lotaria alojamentos extraordinariamente exíguos com

milhões de jovens, número muito superior à sua capacidade. Levaria milhões de trabalhadores às fábricas e às cidades onde não havia moradia, onde homens e mulheres não dividiam apenas os aposentos, como também as camas, mas não só as camas, como as camas em turnos, quando um turno de trabalhadores voltava para casa — se era possível chamar de casa o aposento ocupado — e deitava-se em uma cama que acabara de ser deixada por outros que partiam para o trabalho. Essas pessoas respiravam o mesmo ar, bebiam dos mesmos copos, usavam os mesmos talheres.

Esse processo também significava que, por meio de

intimidação e cooperação voluntária, apesar de sua assumida falta de consideração pela verdade, o governo controlava o fluxo de informações.

O envolvimento total da nação fornecia a grande máquina de

fazer salsichas em que havia mais de uma forma de moer um corpo. Não se limitaria a consumir apenas a costumeira bucha de canhão: trituraria também a gélida neutralidade compartilhada pela tecnologia e a natureza.