A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 35 de 43

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A Grande Gripe

Parte X: FIM DE JOGO

Parte X

 

FIM DE JOGO

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO

 

N P G M , a revolução na medicina americana liderada por William Welch havia triunfado. Essa revolução transformou radicalmente o cenário, fazendo ensino, pesquisa, arte e prática médica passarem pelo filtro da ciência.

No entanto, continuava pequeno, quase minúsculo, o grupo de

profissionais capazes de realizar pesquisas científicas de qualidade nos Estados Unidos. Era possível contá-lo em dezenas e, considerando os pesquisadores mais jovens, em meados da década de 1920, o número chegou a centenas, mas não mais do que isso.

Todos se conheciam, todos compartilhavam experiências e

quase todos tinham pelo menos alguma conexão com a Hopkins, o Rockefeller Institute, Harvard ou, em menor grau, a Universidade da Pensilvânia, a Universidade de Michigan ou Columbia. O grupo era tão pequeno que ainda incluía a primeira geração de revolucionários, com Welch, Vaughan e Theobald Smith e alguns outros ainda ativos. Então vieram seus primeiros alunos, homens apenas alguns anos mais jovens: Gorgas, que havia chegado à idade da aposentadoria compulsória do exército dias antes do fim da guerra — o exército poderia ter permitido que permanecesse, mas Gorgas não tinha amigos entre os superiores — e que depois deixou as questões de saúde pública internacional por uma fundação financiada por Rockefeller; Flexner, Park e Cole, em Nova York; Milton Rosenau, em Boston; Frederick Novy, em Michigan; e Ludwig Hektoen, em Chicago. E então a meia geração de protegidos seguinte: Lewis, na Filadélfia; Avery, Dochez, Thomas Rivers e outros, no Rockefeller; George Whipple, em Rochester, Nova York; Eugene Opie, na Universidade de Washington em St. Louis; e mais algumas dezenas. Foi apenas na geração seguinte, e na subsequente, que o número de pesquisadores de verdade começou a se multiplicar e a se espalhar por todo o país.

Os laços que mantinham esses homens unidos não eram de

amizade. Alguns deles — Park e Flexner, por exemplo — não gostavam nem um pouco uns dos outros. Muitos sentiam satisfação em constranger um rival ao encontrar falhas em seu trabalho e não tinham ilusões sobre as virtudes alheias. A profissão havia crescido o suficiente para se manobrar dentro dela mesma. Se alguém escutasse atentamente, ouviria: “A nomeação do dr. Opie como o principal responsável pelo plano

seria um erro fatal.”1 Ou: “A princípio, Jordan parece uma possibilidade bastante deslumbrante, mas tenho um pouco de receio... de que ele não seja um homem que com certeza

absoluta defenderia suas convicções em um ambiente restrito.”2 Ou: “Dos nomes que você sugere, eu preferiria claramente Emerson, mas temo que ele seja particularmente inaceitável para Russell e Cole, e talvez para o grupo da Rockefeller [Foundation] de modo geral, pois tenho a impressão de que ele tem algumas

discordâncias com eles.” 3

No entanto, esses homens também reconheciam que,

quaisquer que fossem as falhas uns dos outros, todos também tinham pontos fortes notáveis. O trabalho deles era bom o bastante para que, mesmo estando errado, fosse possível encontrar nesse erro algo novo, algo importante, algo sobre o que construir. Era um grupo exclusivo e, apesar das rivalidades e aversões, quase uma irmandade, uma que incluía pouquíssimas mulheres, um punhado delas, literalmente. E, em bacteriologia, essas poucas representantes não iam muito além de Anna

 

Williams e Martha Wollstein.*

Todos esses cientistas haviam trabalhado freneticamente em

seus laboratórios desde os primeiros dias da doença, e nenhum havia parado. Nas circunstâncias mais desesperadoras, as mais desesperadoras em que eles — e possivelmente qualquer cientista — já haviam trabalhado, a maioria havia, voluntariamente, cheios de esperança, aceitado menos evidências do que o normal para chegar a uma conclusão. Nas palavras de Miguel de Unamuno, quanto maior o desespero, maior a esperança. Mas, apesar de todo o frenesi, esses cientistas sempre evitaram o caos, sempre procederam a partir de hipóteses bem fundamentadas. Ao contrário do que Avery dissera com desprezo, eles não tinham simplesmente ficado passando material de um tubo de ensaio a outro. Não haviam feito coisas aleatórias sem base na compreensão do funcionamento do corpo. Não haviam dado quinino ou vacina contra febre tifoide a vítimas da gripe apenas pela esperança de que, por funcionarem contra a febre tifoide e a malária, poderiam ser também eficientes contra a gripe. Outros haviam feito tudo isso e muito mais, mas eles, não.

Eram profissionais que também reconheciam seus fracassos,

que haviam perdido suas ilusões. Tinham entrado nas primeiras décadas do século XX confiantes de que a ciência, mesmo com vitórias limitadas, triunfaria. Victor Vaughan disse a um colega: “Nunca mais me permita dizer que a ciência médica está à beira de vencer as doenças.” Com o desprezo que alguém dedica às próprias falhas, também declarou: “Os médicos não sabem mais sobre esta gripe do que os médicos na Florença do século XIV

sabiam sobre a peste bubônica.”4

Mas eles não haviam desistido. Agora, aquela irmandade

científica começava sua caçada, e isso levaria mais tempo do que eles imaginavam.

 

Até então, cada laboratório vinha trabalhando de maneira independente, comunicando-se pouquíssimo com os demais. Os pesquisadores precisaram reunir, trocar ideias, trocar técnicas de laboratório, discutir descobertas ainda não publicadas ou mesmo aquelas que, embora parecessem desimportantes para um, poderiam ser significativas para outro. Precisaram tentar reunir alguma maneira de fazer progressos concretos contra aquela peste. E para isso foi preciso vasculhar os detritos de seus fracassos em busca de pistas para o sucesso.

Em 30 de outubro de 1918, com a epidemia na Costa Leste

diminuindo para proporções gerenciáveis, Hermann Biggs organizou uma comissão de gripe ao lado dos principais cientistas. A trajetória de Biggs era motivo de orgulho, tendo transformado o departamento de saúde municipal da cidade de Nova York no melhor do mundo; no entanto, farto da política de Tammany, Biggs deixara o cargo para se tornar comissário estadual de saúde pública. Sua comissão incluía Cole, Park, Lewis, Rosenau, além de epidemiologistas e patologistas. Welch, ainda se recuperando em Atlantic City, estava fraco demais para comparecer. Biggs então abriu a primeira reunião ecoando Vaughan: “[N]unca houve nada comparado a isso em matéria de

importância... em que estivéssemos tão desamparados.”5

Mas, ao contrário de Vaughan, ele estava irritado, chamava os

fracassos de “uma séria oportunidade de reflexão sobre a administração de saúde pública, sobre o trabalho e as ciências médicas que nos trouxeram à situação em que estamos agora”. Eles haviam previsto a epidemia por meses. No entanto, autoridades de saúde pública e os pesquisadores não haviam feito nada para se preparar. “Deveríamos ter sido capazes de recolher o máximo possível de informações científicas disponíveis ou que pudessem ter sido obtidas daqui a seis meses antes disso ter chegado até nós.”

Ele tinha certeza de que agora seriam capazes de lidar com o

problema e resolvê-lo.

Não seria tão fácil e já naquela primeira reunião os problemas

se apresentaram. Aquele grupo não sabia praticamente nada sobre a doença. Sequer conseguiam concordar quanto à sua natureza. A patologia era confusa demais. Os sintomas eram confusos demais.

Mesmo naquele momento, Cole ainda se perguntava se

realmente se tratava de uma gripe: “Todos os que viram casos no estágio inicial acham que estamos lidando com uma doença nova… Uma grande dificuldade é descobrir o que a gripe é e como fazer o diagnóstico… Temos repassado todos os casos durante esta epidemia e é muito difícil ver qual deles é gripe. O quadro é muito complexo.”

Um cientista da marinha observou: “Em vários lugares, os

sintomas eram semelhantes ao da peste bubônica.”

Um pesquisador de Harvard refutou as observações deles: “É

a mesma doença de sempre, e não muda em nada seu caráter.”

Mas ela mudava, sim, constantemente, de casos leves nos

quais as vítimas se recuperavam rapidamente a casos com sintomas estranhos nunca associados à gripe, de pneumonias virais violentas e repentinas ou SARA a invasores secundários que causavam pneumonias bacterianas. Todas essas condições estavam sendo vistas. Lewellys Barker, mentor de Cole na Hopkins, observou: “As amostras de pneumonia que vieram de diferentes regiões são muito diferentes. As de Devens são inteiramente diferentes das de Baltimore, e diferem das de várias outras bases militares. As lesões são bem diferentes em diferentes localidades.”

Não chegaram a um consenso sobre a doença e passaram a

discutir o provável patógeno; o resultado, no entanto, foi não terem sequer conseguido chegar a uma conclusão provisória. Os investigadores encontraram o bacilo da gripe de Pfeiffer, sim, mas Cole relatou que Avery também havia descoberto o B. influenzae em 30% das pessoas saudáveis no Rockefeller Institute. Isso não provava nada. Podia ser algo comumente encontrado naquele momento por causa da epidemia, mas ser um achado incomum em tempos não epidêmicos. Além disso, como todos sabiam, muitas pessoas carregavam pneumococos na mucosa oral e não tinham pneumonia. Pneumococos, estreptococos, estafilococos e outros patógenos também foram encontrados nos pulmões das vítimas da epidemia. Park se perguntava sobre as chances de um vírus filtrável ter causado a doença. Rosenau conduzia experimentos norteado por essa questão.

Eles sabiam muito, muito pouco. Sabiam apenas que o

isolamento funcionava. A Escola de Treinamento para Meninas do Estado de Nova York havia se colocado em quarentena, chegando a exigir que as pessoas que entregavam os suprimentos deixassem tudo do lado de fora. Não registraram nenhum caso. O Sanatório Trudeau, no norte de Nova York, adotou regras semelhantes. Nenhum caso. Uma instalação naval em uma ilha de San Francisco aplicava quarentena rígida. Nenhum caso. Isso tudo provava que a teoria do miasma, na qual nenhum deles acreditava, não era capaz de explicar a doença.

No entanto, findaram chegando a um acordo quanto às linhas

de abordagem e ao trabalho que precisava ser feito. O consenso era só esse: sabiam pouco.

 

Os pesquisadores pretendiam seguir dois caminhos: um explorando a epidemiologia da doença, o outro buscando pistas em laboratório. A primeira tarefa em ambas as linhas de ataque era penetrar o nevoeiro de dados que chegava.

Planejaram 6 investigações epidemiológicas precisas:

correlacionar medidas de saúde pública e mortes; realizar estudos extremamente detalhados em áreas selecionadas (por exemplo, isolar pequenas comunidades e investigar as 72 horas anteriores ao surgimento dos primeiros sintomas de gripe); anotar detalhadamente os históricos pessoais tanto das vítimas quanto dos não infectados; procurar relações com outras doenças, com ataques anteriores de gripe, com dieta. Esses estudos epidemiológicos trariam o benefício extra de estimular e transformar outro campo emergente da medicina. Em novembro de 1918, a Associação Americana de Saúde Pública criou um Comitê de Estudo Estatístico da Epidemia de Gripe, financiado em grande parte pela Metropolitan Life Insurance Company. Um membro do comitê chamou aquilo de “uma oportunidade de mostrar o que as estatísticas, especialmente as vitais e sua

metodologia, podem fazer pela medicina preventiva,” 7 enquanto um colega considerou o trabalho como uma “possível defesa da teoria das probabilidades e do método de amostragem aleatória”. Em janeiro de 1919, os generais médicos do exército, da marinha e os administradores do Serviço de Saúde Pública também se uniram ao Departamento do Censo para formar um comitê de gripe que se transformaria em um escritório de estatística permanente. No entanto, ao mesmo tempo um epidemiologista presente na primeira reunião do grupo Biggs declarava: “Entendo que o problema precisa ser resolvido em última análise em

laboratório.”8

 

Gorgas tivera um objetivo: tornar aquela guerra a primeira da história americana em que os soldados morressem mais em batalha do que doentes. Mesmo com um em cada 67 soldados do exército morrendo de gripe e com superiores ignorando amplamente seus conselhos, Gorgas havia conseguido por pouco — apesar de, quando as baixas da marinha e suas mortes por gripe foram adicionadas ao total, as mortes por doenças terem excedido as de combate.

Gorgas havia triunfado amplamente sobre todas as outras

doenças. Os soldados norte-americanos escaparam quase totalmente da malária, por exemplo, mesmo que ela tenha abatido dezenas de milhares de franceses, britânicos e italianos.

Agora, dois milhões de homens estavam voltando da Europa.

Depois de outras guerras, mesmo no final do século XIX, esses soldados traziam doenças para casa. Britânicos, franceses e russos haviam espalhado a cólera após a Guerra da Crimeia; prussianos levaram a varíola da Guerra Franco-Prussiana para casa; americanos haviam retornado da guerra hispano-americana com a febre tifoide e espalharam a mesma, além de disenteria e varíola, após a Guerra Civil.

Um dos últimos atos de Gorgas foi colocar em ação planos

para impedir que coisas desse tipo se repetissem. Os soldados eram vermifugados e isolados por sete dias antes de embarcarem nos navios para casa. Esses homens não entrariam

em casa trazendo doenças.9

 

Enquanto isso, a maior investigação científica já realizada estava tomando forma. A comissão de Biggs se reuniu mais três vezes. No último encontro, todos os membros também estariam servindo em outras comissões. A Associação Médica Americana, a Associação Americana de Saúde Pública, o exército, a marinha, o Serviço de Saúde Pública, a Cruz Vermelha e a Metropolitan Life Insurance Company lançaram importantes estudos além dos já em andamento, todos em âmbito complementar. Em todas as reuniões de todas as especialidades médicas de todas as organizações de saúde pública, em todas as edições de todas as revistas médicas, a gripe dominava a pauta. Na Europa a mesma coisa.

Todos os principais laboratórios dos Estados Unidos

continuavam focados na doença. Lewis, na Filadélfia, seguiu em frente, assim como outros na Universidade da Pensilvânia. Rosenau, em Boston, liderou uma equipe de pesquisadores de Harvard. Ludwig Hektoen e Preston Kyes, da Universidade de Chicago, continuaram pesquisando o tema. Rosenow, na Clínica Mayo, em Minnesota, continuou trabalhando. Todos os membros da comissão de pneumonia do exército retornaram à pesquisa civil e seguiram trabalhando. A Metropolitan Life Insurance Company forneceu subsídios a cientistas universitários e chegou a subsidiar a cidade de Nova York e o governo federal, custeando pesquisas de Park e Williams em seus laboratórios de Nova York e de George McCoy no Laboratório de Higiene do Serviço de Saúde Pública. O exército também fez “todos os esforços para coletar... amostras representando lesões

pulmonares em virtude da atual epidemia de gripe”, 10 não apenas extraídas dos campos militares, como também de fontes civis. Essas amostras seriam de extrema importância mais de três quartos de século depois, quando Jeffrey Taubenberger isolaria o vírus influenza de 1918 e sequenciaria seu genoma.

No Rockefeller Institute, Cole colocou “todos os homens

disponíveis” para atuar nesse esforço. Também designou Martha Wollstein para a pesquisa. Quando o capitão Francis Blake, que fazia parte da comissão de pneumonia do exército, visitou seus antigos colegas no Natal, encontrou todos “trabalhando com afinco na pesquisa da gripe, usando macacos e tudo mais”. Uma semana depois, fora do exército e de volta ao Rockefeller, disse: “Ficarei muito feliz quando terminarmos a pesquisa e pudermos nos livrar de tudo isso. Vou poder fazer outra coisa, para variar, já que parece que não tenho feito nada além de trabalhar, comer,

sonhar e viver pneumonia e gripe pelos últimos seis meses.”11

Mas Blake não estaria livre disso tão cedo.

 

Ao poucos, um corpo de conhecimento começou a se formar ao longo dos meses. Os pesquisadores começaram a aprender sobre a tempestade de fogo que havia percorrido o mundo e que continuava a arder.

Primeiro, confirmaram as próprias suspeitas: a doença letal do

outono americano era uma segunda onda da mesma doença que havia atingido o país na primavera. Basearam essa conclusão no fato de que as pessoas expostas à onda da primavera tinham imunidade substancial à posterior. Os melhores registros estavam no exército, mas como envolviam principalmente jovens, não foram úteis para responder a algumas perguntas. No entanto, diziam coisas a respeito da imunidade, e faziam isso muito claramente. O Camp Shelby, por exemplo, abrigou a única divisão nos Estados Unidos que permaneceu no país de março até o final do outono no hemisfério norte. Em abril de 1918, a gripe adoeceu 2 mil dos 26 mil soldados o suficiente para procurarem tratamento. É provável que muitos mais tenham tido infecções menores ou subclínicas, e todos os 26 mil homens foram expostos à doença. Durante o verão, 11.645 novos recrutas chegaram. Em outubro, a gripe “mal tocou” os solados antigos, mas dizimou os recrutas. Na Europa, na primavera, a gripe atacou os engenheiros do 11º Regimento, atingindo 613 homens de um total de 1.200 e matando dois, mas protegendo-os da onda letal. No outono, o regimento sofreu apenas 150 “resfriados” e registrou uma única morte. Camp Dodge tinha duas

unidades de soldados experientes. 12 A gripe havia atingido um grupo na primavera, e apenas 6,6% deles pegaram a doença no outono. O outro grupo escapou da onda da primavera, mas 48,5% deles tiveram gripe no outono. E havia muitos outros exemplos.

As estatísticas também confirmaram o que todo médico — na

verdade toda pessoa — já sabia: também na população civil, os jovens adultos haviam morrido a taxas extraordinárias e assustadoras. Os idosos, normalmente o grupo mais suscetível à gripe, não apenas sobreviveram aos ataques, como eram atacados com muito menos frequência. Essa resistência em pessoas mais velhas era um fenômeno mundial. A explicação mais provável é que uma pandemia anterior (análises posteriores de anticorpos provaram que não foi a de 1889–1890), tão leve que não chegou a chamar a atenção, havia sido suficientemente semelhante ao vírus de 1918 para criar imunidade.

Por fim, uma pesquisa de porta em porta feita em várias

cidades também confirmou o óbvio: pessoas que viviam em ambientes mais exíguos e habitados sofreram mais do que quem tinha mais espaço. Também parecia — embora isso não tenha sido estabelecido por uma base científica — que as pessoas que dormiram mais cedo, ficaram em repouso por mais tempo e receberam os melhores cuidados também sobreviveram em taxas mais altas. Essas descobertas significavam, é claro, que morreram muito mais pobres do que os ricos. (Análises relacionando raça e epidemia produziram informações contraditórias.)

Mas quase tudo o mais a respeito da doença permanecia

incerto. Até a interação entre a teoria germinativa da doença e outros fatores estavam em questão. Em 1926, um epidemiologista respeitado ainda defendia uma versão da teoria do miasma, alegando “uma correlação entre... a gripe e a

variação cíclica da pressão do ar”. 13

No laboratório, no entanto, o nevoeiro permanecia denso. O

patógeno continuava desconhecido. Uma quantidade enorme de recursos estava sendo despejada nessa pesquisa em toda parte. Na Austrália, Macfarlane Burnet viveu a epidemia na adolescência, um episódio que ficaria gravado em sua memória. Nas palavras do próprio ao receber o prêmio Nobel: “Para mim e para muitos outros interessados em bacteriologia e doenças infecciosas, o objetivo marcante da medicina durante anos foi... a

gripe.” 14

No entanto, todo aquele trabalho não havia penetrado no

nevoeiro.

O problema não estava na falta de pistas, estava em distinguir

as poucas pistas que levavam na direção certa das que levavam na direção errada. Não se tratava de uma peste bubônica, cujo patógeno foi um dos mais fáceis de descobrir: as bactérias que o causaram enxameavam nos bubões. Tratava-se apenas de gripe.

Quando a segunda onda se espalhou pelo mundo, milhares de

cientistas haviam se debruçado no problema. Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Austrália, Brasil, Japão, China. Mas, passados 1919, 1920, com a doença se tornando mais branda, um a um esses milhares começaram a se desligar. Consideravam o problema difícil demais de conceituar — descobrir uma maneira de resolvê-lo —, ou pensavam que as técnicas disponíveis eram inadequadas demais para resolvê-lo, ou estavam muito longe de seus antigos interesses ou base de conhecimento. Após dois anos de esforços extraordinários — e contínuos — por parte de muitos dos melhores pesquisadores do mundo, em 1920, Welch fez uma previsão frustrante: “Acho que essa epidemia provavelmente passará, e não estamos mais familiarizados com o controle da doença do que estávamos na

epidemia de 1889. É humilhante, mas é verdade.” 15

Centenas de pesquisadores continuaram investigando a

questão, mas concordavam em poucos aspectos. Tudo estava em disputa. E no centro dessas disputas estavam a antiga equipe de William Park e Anna Williams, de um lado, Paul Lewis e muitos dos pesquisadores do Rockefeller Institute, do outro.

A pesquisa de Lewis terminaria em ironia e tragédia. O

Rockefeller descobriria que maioria de seus próprios pesquisadores estava errada.

Mas Oswald Avery não. Avery faria a descoberta mais

profunda de todas.

 

* Florence Sabin foi a principal cientista médica do sexo feminino nos Estados Unidos, a primeira mulher a se formar na Hopkins Medical School, a primeira mulher professora catedrática em qualquer escola de medicina do país (Hopkins) e a primeira mulher eleita para a Academia Nacional de Ciências. Sabin não era bacteriologista nem esteve envolvida em pesquisas sobre gripe e, por esse motivo, não aparece nesta história.