A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 28 de 43

Páginas do PDF

A Grande Gripe

Capítulo vinte e sete

 

N detido a gripe que varria os Estados Unidos

ou o resto do mundo — mas uma intervenção implacável e quarentenas poderiam ter interrompido o progresso e criado ocasionais lacunas.

Ações implacáveis como aquelas tomadas em 2003 para

conter o surto de uma nova doença chamada síndrome

respiratória aguda severa, SARS, poderiam ter dado resultado. A gripe não poderia ter sido contida como ocorreu com a SARS — por ser mais contagiosa. Mas qualquer interrupção na disseminação da gripe teria um impacto significativo, pois o vírus iria enfraquecendo ao longo do tempo. Apenas retardar sua chegada em uma comunidade ou desacelerar a disseminação uma vez que estivesse lá — apenas pequenas ações bem-sucedidas — teriam salvado milhares e milhares de vidas.

Havia precedentes para uma ação enérgica. Apenas dois anos

antes, as cidades da Costa Leste lutaram contra um surto de poliomielite adotando medidas mais rigorosas. As autoridades públicas trabalharam incansavelmente onde quer que houvesse ameaça de poliomielite. Mas isso foi antes de os Estados Unidos entrarem na guerra. Não haveria um esforço comparável para a gripe. Blue nem sequer tentou interferir no trabalho da guerra.

O Serviço de Saúde Pública e a Cruz Vermelha ainda tinham

uma única chance de conquistar algo importante. No início de outubro, os primeiros surtos no outono e a memória daqueles ocorridos na primavera já tinham sugerido que o vírus atacava em ciclos; levava cerca de seis semanas desde o surgimento dos primeiros casos até o pico da epidemia e então o declínio nas áreas civis, e de três a quatro semanas em bases militares com alta concentração de pessoas. Após o declínio da epidemia, os casos ocorriam de forma intermitente, mas não em quantidade tão grande a ponto de sobrecarregar todos os serviços. Então os responsáveis pelos planos da Cruz Vermelha e do Serviço de Saúde Pública esperavam que o ataque fosse escalonado assim como a chegada do vírus era, chegando ao pico em diferentes partes do país em momentos distintos. Durante o auge da epidemia, as comunidades individuais não seriam capazes de cooperar; não importava o grau de organização, elas seriam extremamente afetadas. Mas, se a Cruz Vermelha e o Serviço de Saúde Pública conseguissem concentrar médicos, enfermeiras e suprimentos em uma comunidade mais necessitada, talvez fosse possível retirar a ajuda à medida que a doença declinasse e se direcionar para a próxima cidade em apuros, e depois para outra.

Para fazer isso, Blue e Frank Persons, diretor da assistência

aos civis e chefe do comitê da nova gripe da Cruz Vermelha, dividiram o trabalho. O Serviço de Saúde Pública buscaria, pagaria e alocaria todos os médicos. Decidiria quando e para onde enviar enfermeiras e suprimentos, a quem os enfermeiros deveriam se dirigir e lidaria com as autoridades de saúde pública locais e do estado.

A Cruz Vermelha buscaria e pagaria as enfermeiras,

abasteceria os hospitais com suprimentos médicos sempre que as autoridades locais não conseguissem fazê-lo e assumiria a responsabilidade por praticamente todas as etapas seguintes, incluindo a distribuição de informações. A Cruz Vermelha estipulou um limite quanto à própria responsabilidade: não atender aos pedidos das bases militares. Essa estipulação foi esquecida por completo; até a Cruz Vermelha logo deu prioridade aos militares em vez dos civis. Enquanto isso, o Conselho de Guerra ordenou que cada uma de suas 3.864 unidades estabelecessem um comitê da gripe até mesmo — na verdade, em especial — onde a doença ainda não tinha chegado. O conselho deu instruções sobre a organização daqueles comitês e declarou que “cada comunidade deve depender totalmente dos

próprios recursos”. 1

Persons tinha um modelo: Massachusetts. Lá James Jackson,

o diretor da unidade da Cruz Vermelha na Nova Inglaterra, havia feito um trabalho incrível, principalmente levando em consideração que a região foi atingida sem aviso pelo que, a princípio, era uma doença desconhecida. Enquanto as unidades faziam máscaras com gazes — as máscaras que logo estariam em todos os lugares e se tornariam um símbolo da epidemia —, Jackson tentou primeiro, ele mesmo, oferecer enfermeiras e médicos. Quando não conseguiu, formou uma organização guarda-chuva ad hoc incluindo o Conselho de Defesa Nacional do estado, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, autoridades de saúde pública locais e estaduais e a Cruz Vermelha. Esses grupos uniram seus recursos e os alocaram para as cidades conforme a necessidade.

Jackson trouxera enfermeiras de Providence, New Haven,

Nova York e até de Halifax e Toronto. Ao menos, conseguiu aliviar um pouco a falta de pessoal. Mas Massachusetts tivera sorte. Quando a epidemia surgiu lá, nenhuma outra localidade precisava de ajuda. Na quarta semana da epidemia, Jackson relatou: “Ainda não podemos transferir enfermeiras ou suprimentos para as comunidades. Em Camp Devens (...) há quarenta enfermeiros doentes lá com muitos casos de

pneumonia.”2

Ele também aconselhou a sede da Cruz Vermelha em

Washington: “O mais importante nessa crise é que mais funcionários se dirijam até as casas rapidamente e ajudem as famílias. Consequentemente, enviei um telegrama duas vezes para todas as unidades com relação à mobilização de mulheres que têm treinamento em primeiros socorros e em saúde domiciliar ou quaisquer outras que quiserem prestar serviço

voluntário.”3

E confidenciou: “O serviço federal de saúde pública (...) não

tem conseguido lidar adequadamente com toda a situação (...)

[Eles] não estão inseridos no trabalho.”4

Ele enviou o telegrama em outubro. Na época, todos já

precisavam de enfermeiras ou estavam prestes a precisar, e sabiam disso. Na época, todos já precisavam de médicos ou estavam prestes a precisar, e sabiam disso. E precisavam de recursos. A principal tarefa continuou sendo buscar médicos, enfermeiras e recursos. Todos precisavam dos três.

Mesmo diante da pandemia, os médicos podiam ajudar. Eles podiam salvar vidas. Se fossem bons o suficiente, se tivessem os recursos certos, se tivessem a ajuda correta, se tivessem tempo.

 

É verdade que nenhum medicamento ou terapia poderia aliviar

a infecção viral. Todos os que morreram em decorrência de uma infecção violenta ao vírus influenza em si, da pneumonia viral à progressão para a síndrome da angústia respiratória aguda (SARA), teria morrido de qualquer maneira. Em 1918, a SARA tinha uma taxa de mortalidade de praticamente 100%.

Mas havia outras causas de morte. De longe, a mais comum

era decorrente da pneumonia causada por infecções bacterianas secundárias.

Dez dias, duas semanas, às vezes até mais do que duas

semanas após o ataque inicial do vírus, após se sentirem melhor, começava a recuperação, de repente as vítimas ficavam gravemente doentes de novo. E estavam morrendo. O vírus acabava com o pulmão e o sistema imunológico delas; pesquisas mais recentes sugerem que ele facilitava o alojamento de alguns tipos de bactéria no tecido pulmonar também. A bactéria levava vantagem, invadindo os pulmões e matando. As pessoas descobriram — e médicos aconselhavam e jornais alertavam — que, mesmo quando um paciente parecia recuperado, sentindo-se normal, bem o suficiente para voltar a trabalhar, ele ainda precisava descansar, continuar em repouso absoluto. Caso contrário, estaria arriscando a própria vida.

Se isso ocorresse uns seis anos antes, a medicina teria sido

inútil nesse caso, tão inútil que Osler, em sua edição mais recente do texto clássico sobre a prática médica, ainda optaria pela sangria de pacientes com pneumonia. Mas, naquele momento, para os que desenvolviam uma infecção bacteriana secundária, algo poderia ser feito. A mais avançada medicina prática e os melhores médicos podiam ajudar — se tivessem os recursos e o tempo necessários.

Avery, Cole e outros no Rockefeller Institute haviam

desenvolvido uma vacina que mostrara um resultado muito promissor em testes realizados em Camp Upton, na primavera, e a Faculdade de Medicina do Exército estava produzindo essa vacina em larga escala. Avery e Cole também desenvolveram o soro que reduziu a mortalidade decorrente das pneumonias causadas pelos pneumococos dos tipos I e II, que eram responsáveis por dois terços das pneumonias lobares em circunstâncias normais. No entanto, não se tratava de condições normais; as bactérias que quase nunca causavam pneumonia agora chegavam ao pulmão sem oposição, desenvolvendo-se e prosperando lá. Mas os pneumococos dos tipos I e II ainda causavam muitos casos da pneumonia, e nesses, o soro podia ajudar.

Outros pesquisadores tinham desenvolvido outras vacinas e o

soro também. Alguns, como os desenvolvidos por E. C. Rosenow na Mayo Clinic e usados em Chicago, não prestaram. Mas outras soluções surtiram algum efeito.

Os médicos também tinham outros recursos para os quais

apelar. Os cirurgiões desenvolveram novas técnicas durante a epidemia que são usadas até hoje para drenar empiemas, bolsas de pus e infecção que se formam no pulmão e envenenam o corpo. E havia medicamentos que aliviavam alguns sintomas ou estimulavam o funcionamento do coração; os principais hospitais tinham aparelhos de raios X que poderiam ajudar no diagnóstico e na triagem; e alguns hospitais tinham começado a administrar oxigênio para auxiliar na ventilação das vítimas — uma prática que não era amplamente difundida ou administrada de forma tão eficaz quanto deveria, mas que tinha seu valor.

No entanto, para um médico usar esses recursos, qualquer um

deles, ele precisava tê-los à sua disposição — e também ter tempo. A falta de recursos físicos era difícil de contornar, mas a falta de tempo era mais. Não havia mais tempo. O soro do Rockefeller precisava ser administrado com precisão e em um grande número de doses. Não havia mais tempo. Não com pacientes lotando enfermarias, ocupando macas nos corredores e nas entradas, não com médicos que ficavam doentes e também ocupavam essas macas. Mesmo se tivessem os recursos necessários, não tinham mais tempo.

E os médicos encontrados pelo Serviço de Saúde Pública não

tinham recursos nem tempo. Nem era simples encontrar médicos. As forças armadas já tinham se apossado de pelo menos um quarto — em algumas áreas, um terço — de todos os médicos e das enfermeiras. E o exército, por sua vez, sob ataque violento do vírus, não enviaria nenhum de seus médicos para as comunidades civis, independentemente do grau de desespero das circunstâncias.

Restava então contar com uma mão de obra de cerca de cem

mil médicos para a convocação — mas uma mão de obra com qualidade limitada. O Conselho de Defesa Nacional obrigara os comitês médicos locais a avaliar os colegas em sigilo. Esses comitês julgaram que cerca de setenta mil eram inaptos ao serviço militar, a maioria considerada incompetente para a função.

O governo tinha um plano para identificar os melhores entre os

que restaram. Como parte da mobilização da nação inteira, em janeiro de 1918, o Conselho Nacional de Defesa criou o “Serviço Médico Voluntário”. Era uma tentativa de listar todos os médicos dos Estados Unidos, mas, em particular, queria acompanhar médicas jovens ou médicos que tinham algum tipo de deficiência física — em outras palavras, aqueles que provavelmente seriam bons médicos, mas que não se alistaram ou foram rejeitados na seleção.

O direcionamento em massa surtiu efeito. Em oito meses,

72.219 médicos juntaram-se ao serviço.5 Eles aderiram, no entanto, apenas como prova de patriotismo, não como um compromisso de fazer algo de fato — uma vez que a afiliação não exigia nada de concreto deles, e eles recebiam um pedaço de papel bonito, ideal para ser emoldurado e exibido no consultório.

Mas o plano para identificar e ter acesso a bons médicos

nesse grupo fracassou. O vírus penetrava em todos os lugares, médicos eram necessários em todos os lugares, e nenhum médico responsável (ou em poucas ocasiões, médica) abandonaria seu paciente necessitado, desesperadamente necessitado. Além disso, o governo federal estava pagando apenas 50 dólares por semana — valor nada magnífico mesmo em 1918. De cerca de cem mil médicos civis, 72 mil se juntaram ao Serviço Médico Voluntário, mas destes, apenas 1.045 médicos atenderam aos apelos do Serviço de Saúde Pública. Embora alguns fossem bons jovens médicos que ainda não tinham prática suficiente e esperavam por convocação, muitos desse grupo eram os menos competentes ou tinham o treinamento mais precário no país. De fato, o número de médicos que trabalhavam para o PHS era tão ínfimo que Blue depois retornaria ao Tesouro 115 mil dólares do montante de 1 milhão que ele antes considerara insuficiente.

O Serviço de Saúde Pública enviou esses 1.045 médicos a

lugares em que não havia médico algum, a locais tão devastados pela doença que qualquer ajuda — qualquer uma — era bem-vinda. Mas os profissionais foram enviados quase sem recursos, certamente sem as vacinas e o soro do Rockefeller e sem o treinamento necessário para produzi-los ou usá-los, certamente sem aparelhos de raios X, sem oxigênio e meios para administrá-lo. O enorme número de casos sobrecarregou os médicos, pesou sobre eles e os fez continuar agindo.

Eles faziam o diagnóstico. Tratavam com todas as formas da

matéria médica. Ainda assim, a única coisa que de fato podiam fazer era aconselhar. O melhor conselho era este: fique em repouso absoluto. E depois os médicos seguiam para o próximo leito ou para a próxima cidade.

Quem podia ajudar, mais do que médicos, eram as

enfermeiras. Elas podiam reduzir o esforço do paciente, mantê-lo hidratado, em repouso e calmo, além de fornecer uma alimentação adequada, baixar a febre alta. Elas podiam dar às vítimas da doença a melhor chance de sobreviver. As enfermeiras podiam salvar vidas.

Mas era mais difícil encontrar enfermeiras do que médicos.

Para começar, havia um quarto a menos de enfermeiras. A recusa anterior das mulheres que controlavam a profissão de enfermagem em permitir o treinamento de um grande número de pessoas para se tornarem auxiliares de enfermagem ou o equivalente a técnico em enfermagem impediu a criação do que deveria ser uma grande força de reserva. O plano era formar milhares de auxiliares e técnicas; em vez disso, a Escola de Enfermagem do Exército foi aberta. Até então, contava com 221 alunos de enfermagem e nenhum de pós-graduação.

Então, logo antes de a epidemia se alastrar, o combate se

intensificara na França, aumentando, portanto, a necessidade de enfermeiras por parte do exército. A necessidade passou a ser tão premente que, em 1o de agosto, Gorgas, apenas para atender às exigências da época, transferiu mil enfermeiras dos acantonamentos nos Estados Unidos para hospitais na França e, ao mesmo tempo, convocou “mil enfermeiras por semana” durante oito semanas.

A Cruz Vermelha era a rota de suprimento de enfermeiras para

as forças armadas, em especial o exército. A organização já estava recrutando com vigor enfermeiras para as forças armadas. Após o pedido de Gorgas, a Cruz Vermelha lançou uma campanha de recrutamento ainda mais incisiva. Cada divisão, cada unidade da divisão, recebia uma cota. Os profissionais da Cruz Vermelha sabiam que sua carreira estaria em risco se não atendessem a essa cota. Os recrutadores já tinham uma lista de todas as enfermeiras do país, suas funções e locais. Esses recrutadores as pressionaram a sair de seu emprego e se juntar às forças armadas; pressionaram os médicos a abrir mão dessas profissionais; fizeram os pacientes ricos que contavam com o serviço particular de enfermagem se sentirem não patrióticos e forçaram hospitais privados a liberar enfermeiras.

O estímulo funcionou: removeu da vida civil um grande

número de enfermeiras que poderiam se deslocar — não tinham família ou outras responsabilidades — e deixar o emprego. O incentivo estava funcionando tão bem que acabou com a mão de

obra dos hospitais. 6 Muitos hospitais particulares do país ficaram com um número de funcionários tão ínfimo que até foram fechados, permanecendo assim até o fim da guerra. Um recrutador da Cruz Vermelha escreveu: “O trabalho na sede nacional nunca foi tão difícil e agora está nos sobrecarregando (...) De uma ponta a outra dos Estados Unidos, [estamos em busca] de qualquer possível enfermeira que esteja escondida (...) Não haverá mais enfermeiras na vida civil se o ritmo permanecer

assim.”7

O recrutador escreveu isso em 5 de setembro, três dias antes

de o vírus explodir em Camp Devens.