A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 33 de 43

Páginas do PDF

A Grande Gripe

Capítulo trinta e dois

 

A vítimas, especialmente no mundo

ocidental, se recuperou rápida e totalmente. A doença era, afinal, apenas uma gripe.

Mas o vírus influenza às vezes causava uma complicação

final, uma sequela derradeira: afetava o cérebro e o sistema nervoso. É claro que todas as febres altas causam delirium, mas aquilo era diferente. Um médico do exército no Hospital Walter Reed, investigando distúrbios mentais graves e até psicoses que pareciam seguir um quadro de gripe, observou especificamente: “O delirium que ocorre no auge da doença e desaparece com a

cessação da febre não é considerado neste relatório.” 1

A conexão entre o influenza e várias instabilidades mentais

parecia clara. A evidência era quase inteiramente anedótica — o pior e mais fraco tipo de evidência —, mas convenceu a maioria dos observadores contemporâneos de que a gripe poderia alterar os processos mentais. O que os convenceu foram observações como as seguintes:

Da Grã-Bretanha: “... profunda inércia mental com intensa

prostração física. Delirium tem sido muito comum… variando de mera confusão de ideias de todos os graus de intensidade até

excitação maníaca.”2

Da Itália: “... as psicoses gripais do período agudo...

geralmente desaparecem em duas ou três semanas. A psicose, no entanto, pode passar a um estado de colapso mental, com estupor que pode persistir e se tornar demência real. Em outros casos... depressão e inquietação... a [que] pode ser atribuído o

grande número de suicídios durante a pandemia de gripe.”3

Da França: “... distúrbios mentais frequentes e graves durante

a convalescença de e como resultado da gripe… Os distúrbios mentais às vezes assumiam a forma de delirium agudo com agitação, violência, medo e excitação erótica e, outras vezes,

eram de natureza depressiva… mania de perseguição.”4

De diferentes bases militares do exército dos EUA: “... A condição mental era ou de apatia ou com delirium ativo.

A cerebração era lenta... As declarações e garantias do paciente não eram confiáveis, uma pessoa moribunda afirmando que se sentia muito bem... Em outros casos, a apreensão era mais

visível.”5

“... A depressão mental do paciente geralmente é

desproporcional em relação aos outros sintomas.” 6

“... Os sintomas nervosos apareceram cedo, com inquietação

e 7 delirium .”

“... melancolia, histeria e loucura com impulso suicida.”8 “... O envolvimento tóxico do sistema nervoso ficava evidente

em todos os casos mais graves.” 9

“... Muitos pacientes entravam em delirium murmurante que

persistia depois de a temperatura voltar ao normal.”10

“... Os sintomas relacionados ao sistema nervoso central eram

observados esporadicamente, como espasmos dos músculos dos dedos, antebraços e rosto... delirium ativo, até maníaco,

ocasional, ou mais geralmente do tipo de baixo murmúrio.”11

“... Psicose infecciosa foi observada em dezoito casos, desde

simples alucinações transitórias até frenesi maníaco com

necessidade de restrição mecânica do paciente.”12

Observadores contemporâneos também associaram a gripe a

um aumento na doença de Parkinson uma década depois. 13 (Existe uma teoria de que os pacientes de Tempo de despertar, livro de Oliver Sacks, foram vítimas da pandemia da gripe de 1918.) Muitos acreditavam que o vírus poderia causar esquizofrenia e, em 1926, Karl Menninger estudou as ligações entre influenza e esse quadro. O estudo foi considerado significativo o suficiente para que o American Journal of Psychiatry o identificasse como um artigo “clássico” e o republicasse em 1994. Menninger falou da “neurotoxicidade quase inigualável da gripe” e observou que dois terços das pessoas diagnosticadas com esquizofrenia após um ataque de gripe haviam se recuperado completamente cinco anos depois. A recuperação da esquizofrenia é extremamente rara, sugerindo que algum processo reparável tenha causado os sintomas iniciais.

Em 1927, a análise de centenas de artigos de revistas

médicas de todo o mundo feita pela Associação Médica Americana concluiu: “Parece haver um consenso geral de que a gripe atua no cérebro... Do delirium que acompanha muitos ataques agudos às psicoses que se desenvolvem como manifestações ‘pós-gripais’, não há dúvida de que os efeitos neuropsiquiátricos do influenza são profundos e variados... Seu efeito no sistema nervoso dificilmente é menos importante do que

sobre o trato respiratório.” 14

Em 1934, uma revisão abrangente de mesmo calibre realizada

por cientistas britânicos concordou: “Parece não restar dúvida de que a gripe exerce profunda influência sobre o sistema

nervoso.” 15

Em 1992, um pesquisador que estudava a conexão entre

suicídio e a guerra concluiu: “A Primeira Guerra Mundial não influenciou o suicídio: “o que aumentou a taxa de suicídios foi a

grande epidemia de gripe.” 16

Um livro de virologia de 1996 diz: “Um amplo espectro de

envolvimento do sistema nervoso central foi observado durante as infecções pelo vírus influenza A em seres humanos, variando de irritabilidade, sonolência, barulho e confusão às

manifestações mais graves da psicose, o 17 delirium e a letargia.”

O vírus de Hong Kong de 1997, que matou seis das 18

pessoas infectadas, forneceu algumas evidências físicas. As autópsias de duas vítimas mostraram “cérebros edematosos”. Edema significa inchaço. “O mais notável é que a medula óssea, o tecido linfoide, o fígado e o baço de ambos os pacientes estavam fortemente infiltrados com [macrófagos]… Um paciente chegou a apresentar essas células nas meninges — as

membranas que circundam o cérebro e a medula espinhal18 — e na substância branca cerebral. A razão mais provável para esses macrófagos terem se infiltrado no cérebro foi porque seguiram o vírus até lá para matá-lo. E esse relatório de patologia de 1997 ecoa alguns de 1918: “Nos casos acompanhados de delirium, as meninges do cérebro são ricamente infiltradas por líquido seroso

e os capilares são injetados... 19 A necropsia nos casos fatais demonstrou lesões congestivas com pequenas hemorragias meníngeas e, especialmente, em ilhas de edema na substância cortical que circunda os pequenos vasos muito dilatados... hemorragias na substância cinzenta das células do tecido

medular [cerebral] foram alteradas nessas zonas de edema.” 20

Em 2002, Robert Webster, um dos principais especialistas

mundiais em vírus no Hospital Infantil St. Jude, em Memphis, observou: “Esses vírus, de tempos em tempos, atravessam o

sistema nervoso central e causam o inferno.” 21 Ele lembrou uma criança em Memphis que era uma excelente aluna, teve gripe e se tornou “um vegetal. Já vi exemplos suficientes na minha vida para acreditar… que a gripe pode entrar no cérebro. É tênue, mas real. Inocule o vírus em uma galinha; se ele subir o nervo olfativo, a galinha está morta”.

O vírus de 1918 parecia de fato atingir o cérebro. A guerra

travada naquele campo de batalha poderia destruir as células cerebrais e dificultar a concentração, alterar o comportamento, interferir no raciocínio ou até causar psicose temporária. Mesmo que isso tenha ocorrido em apenas uma minoria de casos, o impacto do vírus no cérebro era real.

Mas, por uma terrível coincidência, esse impacto teria um

efeito realmente profundo.

 

Em janeiro de 1919, na França, o deputado William Borland, do Kansas, morreu. Era o terceiro congressista que perdia a vida por causa do vírus. Nesse mesmo mês, também em Paris, o “coronel” Edward House, o confidente mais próximo de Wilson, entrou em colapso com a gripe — mais uma vez.

House teve gripe durante a primeira onda, em março de 1918,

ficou em casa confinado por duas semanas, foi para Washington, teve uma recaída e depois passou três semanas de cama na Casa Branca. Embora um ataque na primavera em geral conferisse imunidade, depois do armistício House caiu doente pela segunda vez. Ele estava na Europa na época e, em 30 de novembro, conseguiu sair da cama pela primeira vez em dez dias e se reuniu com o premiê francês Georges Clemenceau durante 15 minutos. Depois, observou: “Hoje é o primeiro dia em que trabalho pessoalmente em mais de uma semana. Estou gripado há 10 dias e tenho me sentido péssimo... Muitas pessoas morreram desde que essa epidemia começou a açoitar o mundo.

Muitos funcionários meus, o pobre Willard Straight entre eles.” 22

Agora, em janeiro de 1919, ele era atacado pela terceira vez.

House ficou tão doente que alguns jornais o deram como morto. O próprio chamava os obituários, ironicamente, de “generosos

demais”.23 Mas o golpe foi duro: mais de um mês após sua suposta recuperação, ele escreveu em seu diário: “Quando adoeci em janeiro, perdi o rumo das coisas e não tenho certeza

de ter voltado totalmente.”24

Havia assuntos de certa magnitude para tratar em Paris no

início de 1919.

 

Representantes de nações vitoriosas, de nações fracas, de nações que esperavam nascer dos cacos de nações derrotadas, todos se reuniram em Paris para estabelecer os termos do tratado de paz. Milhares de homens de dezenas de países estavam envolvidos de alguma forma na tomada de decisões. A Alemanha, contudo, não teria papel algum e simplesmente cumpriria o que a mandassem fazer. E entre essa hoste de nações, essa Torre de Babel, um conselho das dez nações mais poderosas supostamente definiu a agenda. Mesmo dentro desse círculo fechado havia um ainda mais fechado, os “Quatro Grandes”: Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Itália. E, na realidade, apenas três dessas quatro nações eram importantes. De fato, apenas três homens importavam.

O primeiro-ministro francês, Georges Clemenceau, conhecido

como “o Tigre”, compareceu para negociar com uma bala no ombro, alojada ali em virtude de uma tentativa de assassinato durante a conferência de paz de 19 de fevereiro. O primeiro-ministro Lloyd George, da Grã-Bretanha, enfrentara esses problemas políticos em casa. George era descrito como “um

mármore lubrificado girando sobre uma mesa de vidro”. 25 E havia Wilson, que chegara à Europa como a figura política mais popular do mundo.

As reuniões se arrastaram por semanas, depois meses, e

dezenas de milhares de páginas de rascunhos, memorandos e entendimentos iam e vinham entre ministros e funcionários. Mas Wilson, Clemenceau e George não precisavam muito desse volume todo de papel. Eles não estavam simplesmente ratificando o que os ministros e funcionários estrangeiros haviam elaborado, nem estavam simplesmente tomando decisões sobre as opções que lhes eram apresentadas: estavam fazendo grande parte da negociação real pessoalmente. Estavam barganhando e lamentando, exigindo e insistindo, e rejeitando.

Muitas vezes, havia apenas cinco ou seis homens em uma

sala, incluindo tradutores. Muitas vezes, mesmo quando Clemenceau e George contavam com a presença de outras pessoas, Wilson representava os Estados Unidos sozinho, sem funcionários, sem secretário de Estado, sem o coronel House; todos haviam sido praticamente descartados como não confiáveis por Wilson. Interrompidas apenas pelo retorno relativamente breve de Wilson aos Estados Unidos, as discussões pareciam intermináveis. Mas o que estava em pauta ali era o futuro do mundo.

 

Em outubro, no auge da epidemia em Paris, 4.574 pessoas morreram de gripe ou pneumonia na cidade. A doença nunca havia deixado a capital francesa completamente. Em fevereiro de 1919, as mortes por gripe e pneumonia subiram para 2.676, mais da metade do número máximo de mortes. A filha de Wilson, Margaret, teve gripe em fevereiro. Ela ficou de cama, em Bruxelas, na missão diplomática americana. Em março, outros

1.517 parisienses morreram,26 e o Journal of the American Medical Association relatou que, em Paris, “era inquietante o recomeço de uma epidemia de gripe que havia declinado… Ela assumira proporções graves, não apenas em Paris, mas em

vários departamentos.”27

Naquele mês, a esposa de Wilson, a secretária de sua esposa

e dois funcionários da Casa Branca, o mordomo-chefe Irwin Hoover e o médico Cary Grayson — este último talvez o homem em quem Wilson mais confiava —, ficaram doentes. Clemenceau e Lloyd George pareceram ter casos leves de gripe.

Enquanto isso, as sessões com George e Clemenceau eram

muitas vezes brutais. No final de março, Wilson disse à esposa: “Graças a Deus, eu ainda posso lutar, e vou vencer.”

Em 29 de março, Wilson disse: “M. Clemenceau me chamou

de pró-germânico e saiu da sala.”

Wilson continuou brigando, insistindo: “O único princípio que

reconheço é o do consentimento dos governados.” Em 2 de abril, após o término das negociações do dia, ele chamou os franceses de “execráveis” — para ele, um homem profundamente religioso, era um epíteto extremo. E também disse ao porta-voz da imprensa, Ray Stannard Baker: “Precisamos que a paz seja baseada nos princípios estabelecidos e aceitos, ou então não

iremos fazê-la de modo algum.”28

No dia seguinte, 3 de abril, uma quinta-feira, às 15h, Wilson

parecia bem, de acordo com Cary Grayson. Então, de repente, às 18h, Grayson o viu “atacado por violentos acessos de tosse, tão fortes e frequentes que atrapalhavam sua respiração”.

O ataque ocorreu tão repentinamente que Grayson suspeitou

que Wilson havia sido envenenado, que se tratava de uma tentativa de assassinato. Logo ficou evidente, no entanto, que o diagnóstico era mais simples, ainda que pouco mais tranquilizador.

Joseph Tumulty, chefe de gabinete de Wilson, havia ficado em

Washington para monitorar a evolução política em casa. Grayson e ele trocavam telegramas diariamente, ocasionalmente várias vezes ao dia. Mas a informação da doença do presidente era sensível demais para um telegrama. Grayson mandou uma mensagem de telégrafo para ele: “Presidente teve resfriado muito

forte ontem à noite; confinado à cama.” 29 Simultaneamente, também escreveu uma carta confidencial para ser entregue em mãos: “O presidente ficou gravemente doente na última quinta-feira. Teve febre de mais de 39 graus e diarreia abundante… [Foi] o começo de um ataque de gripe. Aquela noite foi uma das piores da minha vida. Consegui controlar os espasmos da tosse, mas a

condição dele parecia muito séria.” 30

Donald Frary, assessor da delegação de paz americana, teve

gripe no mesmo dia que Wilson. Morreu quatro dias depois, aos 25 anos.

Por vários dias, Wilson ficou prostrado, sem conseguir se

levantar. No quarto dia, sentou-se. Grayson enviou uma mensagem para Tumulty: “Tomando todas as precauções com

ele… Sua ajuda e presença nunca foram mais necessárias.” 31

Pela primeira vez, Wilson estava bem o suficiente para

receber visitas. Quando alguns comissários americanos chegaram ao seu quarto, ele disse: “Senhores, esta não é uma reunião da Comissão de Paz. Está mais para Conselho de Guerra.”

Pouco antes de adoecer, Wilson ameaçou deixar a

conferência e disse que preferia retornar aos Estados Unidos sem assinar tratado do que ceder a seus princípios. Ele voltou a repetir a ameaça, dizendo a Grayson para ordenar que George Washington estivesse pronto para navegar assim que ele estivesse bem o suficiente para viajar. No dia seguinte, Gilbert Close, seu secretário, escreveu à esposa: “Nunca vi o presidente em um estado de espírito tão ruim como agora. Mesmo deitado

na cama, ele manifestava peculiaridades.”32

Enquanto isso, as negociações continuavam. Sem conseguir

participar, Wilson foi obrigado a confiar em House como substituto. (Wilson confiava ainda menos no secretário de Estado, Robert Lansing — a quem ignorava amplamente —, do que em House.) Por vários dias, continuou falando sobre deixar a França, dizendo à esposa: “Se eu perdi a luta, o que não teria acontecido se eu estivesse de pé, vou me retirar e aí nós iremos

para casa.” 33

Em 8 de abril, Wilson insistiu em voltar pessoalmente às

negociações, mas ele não podia sair. Clemenceau e George então foram ao seu quarto, mas as conversas não transcorreram bem. Sua ameaça pública de se retirar havia enfurecido Clemenceau, que em particular o chamou de “cozinheira que

mantém a mala pronta no corredor”.34

Grayson escreveu que, apesar “daquele infeliz ataque de

gripe, cujos efeitos insidiosos ele não estava em condições para resistir… [o presidente] insistiu em realizar conferências enquanto ainda estava confinado ao leito de convalescença. Quando conseguiu se levantar, começou a se esforçar tanto quanto antes, com reuniões pela manhã, à tarde e,

frequentemente, à noite”. 35 Herbert Hoover, que não fazia parte da delegação de paz americana, mas era uma grande figura em Paris porque tinha a tarefa de alimentar uma Europa desolada e árida, disse: “Antes desse período, em todos os assuntos com que tive de lidar, Wilson foi incisivo, rápido para entender o essencial, sem hesitar em conclusões e mais disposto a aceitar conselhos de homens em quem confiava... [Agora], outros, assim como eu, descobrimos que teríamos de pressionar uma mente relutante. Às vezes, quando precisava tomar decisões, eu sofria tanto por ter de fazer pressão quanto ele sofria para chegar a

conclusões.”36 Hoover acreditava que a mente de Wilson havia perdido “resiliência”.

O coronel Starling, do Serviço Secreto, percebeu que Wilson

“carecia de sua antiga compreensão ágil e se cansava

facilmente”.37 Tornou-se obcecado com detalhes, como, por

exemplo, quem estava usando os automóveis oficiais.38 Quando Ray Stannard Baker recebeu autorização para ver Wilson novamente, estremeceu diante dos olhos fundos do presidente, do cansaço, da aparência pálida e abatida, como a de um homem cuja carne tivesse definhado do rosto, exibindo o crânio.

O mordomo-chefe Irwin Hoover lembrava de várias ideias

novas e muito estranhas em que Wilson subitamente passou a acreditar, entre elas uma que supunha que sua casa estava cheia de espiões franceses: “Nada do que dizíamos era capaz de convencê-lo do contrário. Mais ou menos nessa época, ele também começou a achar que era pessoalmente responsável por todas as propriedades no imóvel mobiliado que ocupava… Vindo do presidente, a quem todos conhecíamos tão bem, eram coisas muito engraçadas, e nos restava apenas supor que algo estranho estava acontecendo dentro da cabeça dele. Mas uma coisa era certa: Wilson nunca mais foi o mesmo depois desse pequeno

período de doença.”39

Grayson confidenciou a Tumulty: “Este é um assunto que me

preocupa.” “Nunca vi o presidente tão abatido e cansado,”40 disse Ray Baker. À tarde, “ele não conseguia se lembrar do que o

conselho havia feito na manhã anterior sem fazer esforço”. 41

Então, abruptamente, ainda convalescendo e apenas alguns

dias depois de ameaçar deixar a conferência a menos que Clemenceau cedesse às suas exigências, sem aviso ou discussão com seus compatriotas, Wilson subitamente abandonou os princípios em que insistira anteriormente. Cedeu a Clemenceau tudo o que o outro queria, praticamente tudo a que havia se oposto anteriormente.

Na cama, aprovou uma fórmula que Clemenceau havia escrito

exigindo reparações alemãs e que a Alemanha assumisse responsabilidade total pelo início da guerra. A Renânia seria desmilitarizada; a Alemanha não poderia ter tropas a menos de 48 quilômetros da margem leste do Reno. Os ricos campos de carvão da região de Saar seriam minados pela França, e a região seria administrada pela nova Liga das Nações durante 15 anos, quando então um plebiscito determinaria se a região pertenceria à França ou à Alemanha. As províncias de Alsácia e Lorena, que a Alemanha havia tomado após a Guerra Franco-Prussiana, foram devolvidas da Alemanha de volta para a França. A Prússia Ocidental e Posen foram entregues à Polônia — criando o “corredor polonês”, que separava duas partes da Alemanha. A força aérea alemã foi eliminada, seu exército limitado a 100 mil homens, suas colônias arrancadas — mas não libertadas e sim redistribuídas a outras potências.

Até mesmo Lloyd George comentou sobre o “colapso nervoso

e espiritual de Wilson no meio da conferência”. 42

Grayson escreveu: “Tem sido dias terríveis para o presidente,

no âmbito físico e nos demais.”43

Enquanto Grayson fazia essa observação, Wilson concedia à

Itália grande parte de suas demandas e concordava com a insistência do Japão de assumir as concessões alemãs na China. Em troca, os japoneses ofereceram bom comportamento via promessa oral — nada por escrito —, uma promessa feita não a Wilson pessoalmente ou a qualquer chefe de Estado, mas ao secretário de Relações Exteriores britânico, Alfred Balfour.

Em 7 de maio, os alemães receberam o tratado. Reclamaram

que ele violava os próprios princípios que Wilson declarara invioláveis. O presidente saiu da reunião dizendo: “Que modos abomináveis... Foi o discurso mais sem diplomacia que já

ouvi.”44

No entanto, eles não haviam lembrado a Wilson e ao mundo

que, certa vez, o presidente mesmo dissera que uma paz duradoura só poderia ser alcançada por “uma paz sem vitória”, uma que ele mesmo pedira.

Wilson também disse a Baker: “Se eu fosse alemão, acho que

nunca assinaria o tratado.”45

 

Quatro meses depois, Wilson sofreu um acidente vascular cerebral grave e debilitante. Por meses, sua esposa e Grayson controlariam todo o acesso a ele e se tornariam de fato os formuladores de políticas mais importantes no país, indiscutivelmente.

Em 1929, o autor de um livro de memórias disse naquelas

páginas que dois médicos acreditavam que Wilson sofria de

arteriosclerose quando foi para Paris.46 Em 1946, um médico expressou a mesma opinião publicamente na imprensa. Em 1958, uma grande biografia de Wilson declarou que especialistas em arteriosclerose questionavam o diagnóstico de gripe de Grayson e acreditavam que Wilson havia sofrido uma oclusão vascular, um pequeno derrame. Em 1960, um historiador que escreveu sobre a saúde dos presidentes norte-americanos disse: “As opiniões atuais são de que [a desorientação de Wilson] tinha base em danos cerebrais, provavelmente causados pela oclusão

arteriosclerótica dos vasos sanguíneos.” 47 Em 1964, outro

historiador chamou o ataque de Wilson de “trombose”.48 Em um artigo de 1970 no Journal of American History, intitulado “Woodrow Wilson’s Neurological Illness” [Doença neurológica de Woodrow Wilson], outro historiador chamou o quadro de

“pequeno derrame”. 49

Apenas um historiador, Alfred Crosby, parece ter prestado

atenção aos sintomas reais de Wilson — entre eles febre alta, tosse severa e prostração total, todos perfeitamente compatíveis com a gripe e sem qualquer associação com acidente vascular cerebral — e o diagnóstico local de Grayson, um excelente médico altamente respeitado por homens como Welch, Gorgas, Flexner e Vaughan.

Mas apesar de Crosby, o mito que diz que Wilson sofrera um

pequeno derrame persiste. Mesmo um premiado relato da conferência de paz publicado em 2002 observa: “Wilson, por outro lado, envelheceu visivelmente, e seu tique na bochecha ficou mais pronunciado… Pode ter sido um pequeno derrame, um precursor do acidente vascular cerebral de grande porte que

ele teria quatro meses depois.” 50

Não houve derrame. Houve apenas gripe. De fato, o vírus

pode ter contribuído para o acidente vascular cerebral. Danos na vascularidade cerebral foram observados com frequência nos relatórios de autópsia em 1918, assim como em 1997. O próprio Grayson acreditava que o “ataque de gripe de Wilson em Paris provou ser uma das causas que contribuíram para seu colapso

final”.51

É claro que é impossível dizer o que Wilson teria feito se não

tivesse ficado doente. Talvez tivesse feito as concessões de qualquer maneira, renunciando aos princípios para salvar sua Liga das Nações. Ou talvez tivesse embarcado no navio de volta para casa como ameaçara fazer justamente quando começou a sucumbir à doença. E então, ou não teria acontecido tratado de paz ou sua saída teria forçado Clemenceau a se comprometer.

É impossível saber o que teria acontecido. Sabemos apenas o

que aconteceu.

A gripe visitou a conferência de paz. A gripe atingiu Wilson. A

gripe o enfraqueceu fisicamente e — justamente no ponto mais crucial das negociações — no mínimo tirou dele a resistência e a capacidade de concentração. Isso é certo. E é quase certo que a gripe afetou sua mente de outras maneiras, ainda mais profundas.

Historiadores são praticamente unânimes ao afirmar que a

dureza em relação à Alemanha no tratado de paz de Paris ajudou a criar as dificuldades econômicas, a reação nacionalista e o caos político que promoveram a ascensão de Adolf Hitler.

Não era preciso ver a situação em retrospecto para enxergar

os perigos. Eles eram óbvios mesmo na época. John Maynard Keynes deixou Paris chamando Wilson de “a maior fraude do mundo”. Mais tarde, escreveu: “Estamos na estação morta de nossas sortes… Nunca na existência do homem vivo o elemento

universal na alma humana ardeu tão pouco” 52. Herbert Hoover acreditava que o tratado derrubaria toda a Europa, e deixou isso claro.

Logo depois que Wilson fez suas concessões, um grupo de

jovens assessores e consultores diplomáticos americanos se reuniu, com desgosto, para decidir se deveriam pedir desligamento como forma de protesto. O grupo incluía Samuel Eliot Morison, William Bullitt, Adolf Berle Jr., Christian Herter, John Foster Dulles, Lincoln Steffens e Walter Lippmann. Todos já estavam ou viriam a estar entre os homens mais influentes do país. Iriam se tornar secretários de Estado. Bullitt, Berle e Morison renunciaram aos cargos. Em setembro, durante a luta pela ratificação do tratado, Bullitt revelou ao Senado os comentários privados do secretário de Estado Robert Lansing de que a Liga das Nações seria inútil, que as grandes potências simplesmente haviam organizado o mundo segundo seus próprios interesses.

Berle, que mais tarde viria a ser secretário de Estado

assistente, aceitou escrever a Wilson uma carta de demissão: “Lamento que não tenha combatido nossa luta até o fim e que tenha tido tão pouca fé nos milhões de homens, como eu, em todas as nações, que tinham fé no senhor. Nosso governo consentiu agora em entregar os povos sofridos do mundo a novas opressões, sujeições e desmembramentos — a um novo

século de guerra”53.

Wilson ficou gripado, apenas isso.