A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 38 de 43

Páginas do PDF

A Grande Gripe

Epílogo

 

A enquanto eu escrevia este livro.

Quando comecei, o ano era 1997 e eu planejava usar os eventos de 1918 como base narrativa, levantando com isso várias questões que não necessariamente envolviam a gripe em si. Meu objetivo era enxergar como a sociedade norte-americana reagiu a um imenso desafio, uma guerra que a natureza havia declarado contra a humanidade, simultânea a uma guerra humana que nos jogava uns contra os outros. Queria entender como indivíduos que detinham algum poder lidaram com tudo isso, fossem políticos ou cientistas, e também os efeitos de suas decisões na sociedade. Queria descobrir quais lições ficaram de todo aquele momento.

A ameaça contínua de uma pandemia nova e possivelmente

letal tornou essas questões mais relevantes do que nunca. Entre 1959 e 1997, somente duas pessoas tiveram infecções por vírus aviários documentadas — ambas sobreviveram. Mas, em 1997, um vírus da gripe aviária H5N1, que ficaria conhecido apenas como “gripe aviária”, matou seis entre as 18 pessoas contaminadas em Hong Kong. Milhões de galinhas foram sacrificadas em um esforço malsucedido de conter a contaminação, e o vírus voltou para se vingar em 2003. Desde então, o H5N1 e, mais recentemente, o H7N9 infectaram humanos em escalas nunca vistas antes. Entre 2003 e 2017 — os últimos números disponíveis enquanto eu escrevia este livro —, ambos os vírus infectaram 2.342 pessoas, matando 1.053

delas, ou seja, uma taxa de mortalidade de 44,9%. 1 Essa taxa é alta porque ambos os vírus se ligam às células pulmonares, o que faz da pneumonia viral o primeiro sintoma da doença. As mortes ocorreram em lugares afastados entre si, como Azerbaijão, Egito e China.

Quase todas as vítimas foram infectadas depois de contato

direto com aves (alguns poucos casos ocorreram entre famílias), mas, toda vez que o vírus infecta uma pessoa, é dada a ele a oportunidade de desenvolver sua capacidade de se ligar a células humanas do sistema respiratório superior, como fazem os vírus influenza sazonais. Isso permitiria que ele fosse transmitido de pessoa para pessoa com extrema facilidade. Diante desse cenário, a taxa de mortalidade cairia — surgiriam mais vítimas de gripes normais em vez de pneumonia viral —, mas outra pandemia teria início.

Em 1918, um vírus desse tipo infectou humanos. Desde a

primeira edição deste livro, cientistas encontraram evidências (não é uma questão com conclusão definitiva) de que 7 dos 8

segmentos do vírus de 1918 tinham origem nas aves2 e que,

depois de ter pulado de espécie em espécie e interagido com

outros vírus, adquiriu o gene humano da hemaglutinina, aquele que permite que o vírus se ligue e depois infecte as células humanas. E descobriu-se que até mesmo o oitavo segmento tinha origens aviárias recentes. Essa interação teria acontecido quando um vírus de ave infectou um mamífero — humano, cavalo, porco, o que seja —, que também estava infectado com outro vírus influenza contendo o gene de hemaglutinina.

Em 1918, a população mundial era de 1,8 bilhão, e a

pandemia matou, provavelmente, 50 a 100 milhões de pessoas, com a menor estimativa moderna na casa dos 35 milhões. Hoje, a população mundial é de 7,6 bilhões. Um comparativo atual seria uma estimativa entre 150 e 425 milhões de mortes.

Se um vírus causasse uma pandemia como a de 1918,

dispondo dos suprimentos adequados de antibióticos que reduziriam a quantidade de infecções secundárias, a medicina moderna conseguiria impedir de modo significativo mais da metade das mortes causadas pela gripe espanhola — mas isso é uma suposição. Mesmo assim, dezenas de milhões morreriam. E uma grave pandemia de gripe atingiria a humanidade como um tsunami, lotando as unidades de tratamento intensivo (UTI) e adoecendo médicos e enfermeiros, colapsando os sistemas de saúde. Os hospitais, como qualquer indústria, tornaram-se muito eficientes no corte de gastos, o que significa que não pode haver excesso — considerando-se o tamanho da população, os Estados Unidos têm menos leitos hoje do que algumas décadas atrás. De fato, durante a época de gripe, o uso de respiradores aumenta em quase 100% — durante uma pandemia, muitas pessoas que precisarão de um respirador artificial não terão um disponível. (A tensão que a gripe gera na estrutura dos serviços de saúde me acompanhou de um jeito bem pessoal durante a divulgação deste livro. Em Kansas City, um surto sazonal de gripe comum forçou oito hospitais a fechar suas emergências, e isso foi apenas uma pequena fração do que uma pandemia poderia causar.) Problemas desse tipo — por exemplo, a presença de uma bactéria secundária resistente a antibióticos ou a escassez de itens aparentemente triviais, como agulhas hipodérmicas ou bolsas para reter líquidos intravenosos (uma escassez severa desse item se tornou um grande problema enquanto eu escrevia A grande gripe) — poderiam facilmente trazer à tona a discussão sobre os avanços médicos que tivemos desde 1918.

A doença também impactaria a economia com um efeito

desastroso. Ela atingiria de controladores de tráfego aéreo a motoristas de caminhão, os sistemas de registro entrariam em pane, as redes de fornecimento colapsariam, parte das linhas de produção seriam interrompidas, escolas e creches fechariam por semanas, e a sobrecarga daquilo que chamaremos de último cenário limitaria até mesmo o trabalho em home office.

Com o surgimento do H5N1, apenas a ameaça desse cenário

chamou a atenção de grandes empresas e governos, e providências começaram a ser tomadas para manter o abastecimento e criar planos de continuidade; os países em desenvolvimento começaram a investir em planos para enfrentar uma epidemia, incluindo pesquisa científica básica, produção de vacinas e estocagem de remédios. Mas, como a produção e a distribuição de uma vacina levaria, no mínimo, meses, e como não existem remédios antivirais efetivos, os governos também pediram às autoridades de saúde pública para elaborarem políticas que mitigassem o impacto de uma pandemia usando intervenções não farmacológicas, ou seja, o que poderia ser feito sem remédios. Já que muito dessa estratégia se baseou em análises do ocorrido em 1918, fui convidado a participar de uma equipe que reuniria pessoas com conhecimento em história, ciência laboratorial, saúde pública, relações internacionais, modelos matemáticos e política. Minha participação se estendeu por muitos anos, e trabalhei com essa equipe na National Academy of Sciences, em organizações de segurança nacional, agências estaduais e federais, gabinetes estratégicos e oficiais durante os mandatos Bush e Obama.

Os planejadores se preparavam para um furacão de categoria

5. A pandemia de gripe suína, a H1N1, de 2009, estava mais para tempestade tropical do que furacão e desequilibrou tudo. Bem mais suave, essa pandemia nos ensinou algumas coisas — inclusive a repensar algumas das intervenções não farmacológicas já propostas.

A pandemia de 2009 matou “apenas” cerca de 150 mil a 575

mil pessoas no mundo todo — 12 mil só nos Estados Unidos. (Entretanto, se analisarmos esse evento considerando a faixa etária dos mortos, e não só as mortes, podemos ver que ela foi muito mais severa: a idade das vítimas beirava os quarenta anos, e 80% delas tinham menos de 36 anos. Durante gripes sazonais, apenas 10% das mortes envolvem pessoas com menos de 35 anos.) Em comparação, a gripe sazonal comum mata cerca de 650 mil pessoas ao redor do mundo todos os anos — nos Estados Unidos, os números ficam entre 3 mil a 56 mil por ano, dependendo principalmente da letalidade do vírus e, em menor grau, da eficácia da vacina disponível naquele ano.

Essa experiência em 2009 deveria deixar todos alertas.

Parece que, ao longo da história, inúmeros surtos ocorreram sem chamar a atenção — somente os padrões modernos de supervisão e a biologia molecular permitiram que reconhecêssemos uma pandemia. Quando o Washington Post entrevistou Tom Frieden, na época diretor dos Centers for Disease Control and Prevention (CDCP) [Centros de Controle e Prevenção de Doenças] e perguntou o que mais o assustava, o que tirava seu sono, ele respondeu: “A maior preocupação é sempre uma pandemia de gripe (...). É realmente o pior cenário.”

Então, em que pé estamos hoje? Quais foram os

aprendizados?

 

Antes de responder a essas perguntas, precisamos entender os pontos em comum entre as poucas pandemias que conhecemos, sendo elas as de: 1889, 1918, 1957, 1968 e 2009.

Primeiro: todas vieram em ondas. 3 (Alguns cientistas

argumentam que a diferença na letalidade entre a primeira e a segunda ondas da pandemia de 1918 significa que foram causadas por vírus diferentes, mas há evidências que indicam o contrário. Aliás, a exposição à primeira onda gerou uma taxa de proteção de 94% em comparação com a segunda, ou seja, bem melhor do que a oferecida pelas melhores vacinas modernas — e isso é apenas uma parte da evidência de que o mesmo vírus causou ambas as ondas.)

Na verdade, alguns pesquisadores especulam que o vírus de

1918 circulou em humanos por vários anos antes que as mutações permitissem que ele se propagasse com tanta facilidade. Se isso for verdade, acabaria com a hipótese de que Haskell foi a origem de tudo. A epidemia do vírus de 1889 foi bem semelhante, resultando em dois anos e meio de surtos esporádicos em grandes cidades como Londres, Berlim e Paris antes de se transformar na pandemia que varreria o mundo entre 1891-92.

Também sabemos que cada onda de cada pandemia tem

leves diferenças. Em 1918, claro, essa diferença foi dramática; a de 1968, no entanto, parece ter sido mais intrigante. Nos Estados Unidos, 70% das mortes causadas pela pandemia de gripe

ocorreram em 1968-69, e o restante entre 1969-70. 4 Na Europa e na Ásia foi o oposto: com poucas mortes em 1968-69 e a maioria esmagadora entre 1969-70 — apesar de existir uma vacina na época. Aliás, a pandemia de 1968 nos apresentou o vírus H3N2, ainda responsável pela maioria das doenças graves causadas por vírus influenza em circulação desde então.

Especulações acerca do fenômeno se resumem ao fato de o

vírus sofrer mutações muito rapidamente, o que explicaria o mantra do Centers for Disease Control (CDC): “Ao passarmos por uma temporada de gripe, passamos por uma temporada de gripe.”

No fim, apesar de tudo que sabemos sobre a gripe — e

sabemos muito —, ainda não é o suficiente.

 

Existe uma resposta para isso: uma vacina universal, ou seja, uma vacina que sirva contra todo o tipo de vírus influenza.

As vacinas atuais focam na hemaglutinina, o antígeno mais

exposto ao sistema imunológico, que se parece com uma cabeça de brócolis. Infelizmente, as vacinas focam na cabeça, que sofre mutações com rapidez e é a parte do vírus que pode se modificar sem interferir na funcionalidade do todo. Essa parte é a razão das vacinas contra a gripe não serem tão eficientes: entre 2003 e

2017, a eficácia subiu apenas de 10 a 61%.5 (Mesmo com esse percentual, elas previnem milhões de casos e milhares de mortes, o que significa que a imunização é válida.) Para os idosos, cujo sistema imunológico é menos eficaz, em poucos anos a vacina já não funciona mais.

Contudo, as outras partes do vírus, incluindo o talo do brócolis,

ou seja, o talo da hemaglutinina, são “conservados”. Essas partes são encontradas em vários, se não todos, os vírus influenza — provavelmente porque, quando sofre mutação, o

vírus se torna incapaz de infectar uma célula e se replicar. Pesquisas atuais estão focadas no desenvolvimento de uma vacina que incite o sistema imunológico a caçar justamente esse talo. Se for bem-sucedida, ela irá funcionar contra todos os vírus influenza com histórico de infectar humanos — e seria bem mais eficaz do que as melhores vacinas das quais dispomos no momento, poupando centenas de milhares de vidas todos os anos.

É claro que se fosse fácil desenvolver uma vacina universal,

ela já teria sido criada, mas por décadas houve pouco investimento em uma pesquisa tão abrangente. Considere por um momento que antes do surgimento da H5N1, o governo norte-americano gastava mais dinheiro com o vírus do Nilo ocidental do que com o vírus influenza. Enquanto a gripe matava cerca de 56 mil norte-americanos por ano, o vírus do Nilo ocidental matou 284 pessoas em sua fase mais letal e sabe-se que ele nunca será uma grande ameaça — não é uma doença que vai atingir uma população humana de forma explosiva. Ainda assim, recebia mais capital de pesquisa do que o da gripe.

Esse cenário mudou. Hoje já observamos um progresso

significativo em direção a uma vacina universal, embora seja necessário destinar mais recursos a essa causa. Desenvolver essa vacina deveria ser a maior prioridade da pesquisa médica.

Mas, colocando essa questão um pouco de lado, em que pé

estamos hoje? Como nos preparamos para uma nova pandemia?

 

Eis o que deu certo:

a Organização Mundial da Saúde e os governos têm

desenvolvido um bom sistema de vigilância. O lado negativo é que esse sistema ainda está incompleto, uma vez que muitos países ainda estão de fora e o sucesso total dependeria de um

esforço de cooperação internacional. Em 2003, o sistema

detectou o SARS, inicialmente visto como um novo vírus influenza, e o conteve. Porém, o SARS foi infinitamente mais fácil de controlar do que seria um influenza. Na época, a China colocou o mundo inteiro em risco, pois a princípio o governo mentiu e escondeu a doença das autoridades mundiais. A transparência do governo chinês melhorou de forma significativa desde então, mas o país ainda não é completamente fiel a essa necessidade. E ele não é o único parceiro relutante.

É óbvio que a vigilância é importante. É ela que dá, o mais

rápido possível, o alerta para um vírus com potencial de se tornar pandêmico, acelerando a produção de vacinas — que, apesar de todas as falhas, são sempre a melhor defesa contra uma pandemia.

Mesmo poucas semanas podem fazer a diferença. A vacina

contra a pandemia causada pelo vírus de 2009 foi tão efetiva quanto a melhor das vacinas sazonais, mas chegou tarde, já durante a segunda onda.

Além da vigilância, hoje também se investe em tecnologias de

fabricação de vacinas melhores e mais rápidas. Por mais de setenta anos, e até hoje, os vírus influenza foram cultivados em ovos, coletados, mortos (uma vacina contendo o vírus vivo em sua forma mais branda é feita) e purificado. Mas a produção em ovos é lenta, e o vírus se adapta a esse meio — outro motivo de não ser mais efetivo nos humanos. Desde 2009, a produção começou a migrar para duas tecnologias melhores e mais rápidas. Uma produz o vírus em células de mamíferos, a outra usa técnicas biológicas de recombinação gênica para inserir o antígeno hemaglutinina em um vírus qualquer e depois inseri-lo em células de insetos, onde a hemaglutinina é então coletada.

Mesmo no melhor cenário, com as melhores tecnologias,

ainda levaria meses para que as vacinas sejam distribuídas em larga escala. Além disso, grande parte do estoque de vacinas dos Estados Unidos é produzida fora do país. Durante uma pandemia letal, o país onde a vacina é produzida permitiria a exportação antes que a própria população estivesse protegida?

Muitos medicamentos antivirais, como oseltamivir e zanamivir,

são aliados para diminuir a gravidade de um ataque e, tomados de modo profilático, também podem diminuir o risco de infecção, mas somente enquanto estão sendo administrados. Entretanto, ambos têm eficácia limitada e podem desenvolver resistência.

Os fármacos atuais ficariam muito aquém da solução de um

problema da escala de uma pandemia.

Então, o que mais pode ser feito? Nos últimos anos, vários

governos têm investido em intervenções não farmacológicas — ou seja, nos meios de mitigar o impacto de uma pandemia utilizando medidas de saúde pública.

Não há uma resposta simples. O vírus é transportado pelo ar,

então pode ser inalado — e esse parece ser o principal modo de transmissão. Mas ele também sobrevive em superfícies — em uma maçaneta ou em uma lata de cerveja, por exemplo — por horas ou, dependendo da temperatura e da umidade, por dias. Pode, portanto ser transmitido por alguém que dá um bocejo e depois abre a porta. O único jeito de evitar a transmissão é o isolamento social completo por seis a dez semanas depois do surgimento de um surto em determinada comunidade — o que significaria nada de entregas em domicílio, nada de ir à rua ou coisa do tipo.

O problema é que isso é inviável. Tão inviável quanto uma

comunidade se isolar de forma bem-sucedida e por completo do restante do mundo exceto em uma circunstância extraordinária. (Em 1918, poucas ilhas e comunidades obtiveram sucesso, mas um número reduzidíssimo seria capaz de algo assim nos dias de hoje.)

As intervenções não farmacológicas, sejam elas impostas pelo

governo ou tomadas de maneira individual, teriam utilidade limitada. Mas por mais limitada que uma intervenção bem-sucedida possa ser, ela deve ser mantida. Com base em estudos sobre as cidades norte-americanas que foram bem-sucedidas em 1918, os pesquisadores concluíram que “estratificar” várias intervenções — a maioria envolvendo diferentes tipos de “isolamento social” — ao menos estenderia a duração do surto de gripe em uma comunidade local, aliviando a pressão do sistema de saúde. Mas os dados históricos usados em alguns dos modelos eram falhos, e ao avaliar as ações tomadas em 1918, como o fechamento de escolas, nenhum modelo considerou que a população de nenhuma cidade que enfrentou a onda na primavera tinha alguma imunidade — o que afetou o resultado dos modelos.

Ainda assim, essas intervenções são as únicas formas de

ação que temos. Uma ação inútil, no entanto, é a quarentena generalizada. Para algumas doenças, essa medida faz sentido, e em algumas circunstâncias, teoricamente, ajuda nos casos de gripe — mas apenas teoricamente. Um estudo não publicado dos campos do exército feito em 1918 comprova isso. O exército tinha dados de 120 campos de treinamento — 99 tinham imposto

quarentena e 21, não. 6 Mas não houve diferença na mortalidade ou morbidade entre os dois segmentos nem no tempo que levou para a gripe tomar conta dos campos. Porém, a história não é tão simples: o epidemiologista que analisou não apenas os números, mas a prática real, descobriu que dos 99 campos que impuseram a quarentena, menos de dez a impuseram de modo rígido. Esses foram os que acertaram. Mas se a maioria esmagadora das bases do exército durante a guerra não impôs uma quarentena rígida o suficiente para ser benéfica, uma comunidade civil em tempos de paz é que não o faria.

Impedir a travessia de fronteiras também não funciona. Seria

impossível impedir o comércio ou que cidadãos retornem ao país de origem etc., o que afetaria de forma drástica a economia global e aumentaria os problemas de abastecimento — incluindo a importação de qualquer tipo de material de saúde, como medicamentos, seringas, roupas, tudo. Até mesmo para isso, os modelos mostram que 90% da fronteira fechada atrasaria a doença em apenas alguns dias, no máximo uma semana, enquanto o fechamento de 99% da fronteira a atrasaria por um mês, no máximo.

Não sobra muito para uma pessoa comum além de tarefas

mundanas, como lavar bem as mãos. Fazer isso de forma disciplinada, a cada hora, a cada dia, por semanas, é difícil. Mas disciplina é importante. O surto de SARS ilustra bem: a maioria dos mortos trabalhava na rede de saúde, e há fortes indícios de que grande parte deles se infectaram por não seguirem os protocolos de segurança que tanto conheciam. No primeiro encontro para discutir as intervenções não farmacológicas, o chefe do controle de infecção de um hospital em Hong Kong, de longe o melhor local com registro de segurança, enfatizou fazer questão de que todos seguissem os protocolos rigorosamente. (O mesmo pode ser dito a respeito de todas as infecções hospitalares — os hospitais com o melhor registro de controle de infecção têm equipes pagas para prestar atenção em detalhes e não pular passos para cortar caminho. O sucesso depende de rigor, ênfase e disciplina.)

Máscaras cirúrgicas são quase inúteis, exceto em situações

muito limitadas, principalmente em casa. Fazer uma pessoa doente usar uma máscara é eficaz somente porque esse bloqueio impede que algumas gotículas lançadas se espalhem em um cômodo — um fato comprovado por experimentos em 1918. Mas um pai vai colocar a máscara no filho doente mesmo sabendo que vai deixá-lo mais desconfortável? Talvez, se souber que assim protegerá o resto da família. A máscara cirúrgica quando combinada com a lavagem rigorosa das mãos pode resultar em algum nível de proteção para aqueles em contato direto com uma pessoa doente. As máscaras N95 seriam as mais apropriadas nessas situações — elas realmente protegem —, mas devem ser montadas e utilizadas da maneira correta, o que é mais difícil do que parece. Um estudo de profissionais usando a N95 para se proteger de mofo tóxico mostrou que mais de 60% deles não estavam usando a máscara direito. Além disso, sentiam-se muito desconfortáveis. Para alguns casos e para poucos indivíduos, o uso da N95 talvez faça sentido, mas não para o público em geral, considerando um período de várias semanas.

Outras recomendações são simples e óbvias: por exemplo,

crianças doentes não devem ir para a escola — e este é o comportamento padrão — e adultos doentes não devem ir para o trabalho — e este não é um comportamento padrão. Outra é treinar as pessoas a “tossirem com educação”, o que significa conter a tosse ou o espirro com o braço, não com a mãos, já que a pessoa irá tocar, em algum momento, em alguma coisa. O home office é outra ação óbvia, embora o último cenário talvez não comporte o aumento significativo do uso da internet.

Durante uma pandemia realmente letal, autoridades estaduais

e locais poderiam tomar medidas muito mais agressivas, como fechar cinemas, bares e até mesmo cancelar eventos esportivos — em 1919, a Stanley Cup foi cancelada — e cultos religiosos.

Possivelmente, a mais controversa das intervenções não

farmacológicas é o fechamento das escolas. As medidas supracitadas só aconteceriam diante de uma grande emergência, mas o cancelamento das aulas pode ocorrer em uma situação muito menos séria, tornando a decisão muito difícil.

O argumento para o fechamento das escolas é: como os

adultos têm muito mais proteção cruzada de outras exposições a vírus influenza, as crianças seriam contaminadas mais rapidamente. Além disso, elas são menos cuidadosas — crianças dificilmente usam lenço ao espirrar, lavam menos as mãos etc., e, portanto, espalhariam mais rápido gripe ou qualquer outra doença infecciosa — e não apenas entre si, mas também para os adultos. (A inoculação de crianças com uma vacina pneumocócica causou a queda de 38 a 94% dos casos de pneumonia entre idosos — seus avós.) Sem dúvida, as escolas tiveram um papel significativo na transmissão das pandemias de 1957, 1968 e 2009, e também da gripe sazonal.

Fechá-las, no entanto, eleva o fardo econômico dos pais que

trabalham fora, uma vez que, como as intervenções, é uma medida que deve ser mantida por semanas. Aceitar esse custo econômico pode até fazer sentido diante de uma pandemia letal, mas não em uma pandemia leve. Em 2009, o CDC recomendou, a princípio — a organização não tem autoridade de execução e pode apenas recomendar —, que, se uma escola tiver um único caso, deveria ficar fechada por duas semanas. O dr. D.A. Henderson, especialista em saúde pública que ganhou imensa notoriedade ao implantar o programa da Organização Mundial da Saúde que eliminou a varíola do globo, fez um escarcéu e o CDC voltou atrás, dizendo que os “fechamentos” não eram eficientes contra o vírus. Eu mesmo apoiei essa decisão. Agora, o CDC vai recomendar que a escola feche somente durante uma pandemia severa. Era a decisão correta.

Também temos informações sobre os agravamentos em 1889,

1918 e 1920 que minam a conclusão de que as crianças são “propagadoras” do vírus. Quatro estudos diferentes de três pesquisadores diferentes da Inglaterra, Boston e Detroit demonstram que, nos primeiros casos, 80 a 85% dos portadores do vírus eram adultos. Em Detroit, o estudo também demonstrou que com a progressão da doença, os adultos se tornam o percentual mais baixo, enquanto o de crianças aumenta — o que pode indicar que os adultos é quem estavam transmitindo o vírus para as crianças, e não o contrário. Infelizmente, quando eu disse isso ao pesquisador do CDC, ele respondeu: “Não acredito nessa informação.” E essa resposta não estava certa porque a informação é quase precisa; os estudos podiam ser discrepantes, anomalias estatísticas, mas bons epidemiologistas analisaram e compilaram os resultados. Suas descobertas precisam ser exploradas e entendidas e as implicações políticas são muito significativas. (Uma possível explicação é que os vírus de 1889 e 1918 eram tão diferentes dos anteriores que os adultos não tinham qualquer proteção cruzada, o que igualava seu sistema imunológico ao das crianças. Era como se absolutamente ninguém tivesse sido exposto a eles. Em 1920, por outro lado, todo mundo já havia sido exposto o que, mais uma vez, igualava os sistemas imunológicos.

Por fim, se alguma intervenção não farmacológica tiver

qualquer efeito, o público deve seguir as recomendações e sustentá-las. Sei que seria difícil. Em 2009, o governo da Cidade do México recomendou que a população usasse máscaras no transporte público (uma intervenção quase que inútil) e as distribuiu gratuitamente. No auge do pânico, o uso chegou a 65%

— e, quatro dias depois, caiu para 27%.7

Já o monitoramento contínuo do vírus é absolutamente

necessário. Qualquer mudança em seu comportamento — como aconteceu entre a primeira onda de 1918 e a segunda — pode levar a mudanças também em nosso modo de reagir a ele. A vigilância é crítica não apenas antes, mas também durante a pandemia.

Pode-se dizer que os problemas gerados por uma pandemia

são imensos, mas o maior deles está na relação entre governos e a verdade.

 

Parte dessa relação requer líderes políticos que entendam a verdade — e que consigam lidar com ela. Se houve uma lição aprendida com a pandemia de 2009, é que muitos governos foram incapazes de se comportar assim. Todo governo ocidental e muitos não ocidentais tinham planos para uma pandemia, assim como a Organização Mundial da Saúde. Eram planos razoáveis, com boas recomendações. Muitos deles tentaram limitar o papel da personalidade do líder, estabelecendo etapas explícitas a serem tomadas — ou não — baseadas em certos fatores. Mas ter um plano não é o mesmo que estar preparado, e muitos políticos ignoraram isso.

No começo, o coordenador de saúde emergencial do México

foi excluído de muitas reuniões de alto nível sobre a pandemia. O Brasil demorou a divulgar as informações, e sua região sudeste do país teve as maiores taxas de mortalidade do mundo. O ministro da Saúde chinês Chen Zhu disse que a pandemia era uma doença estrangeira que ele manteria fora da China, declarando: “Estamos confiantes e somos capazes de prevenir e conter a epidemia de gripe H1N1.” Os franceses queriam que a União Europeia cancelasse todos os voos partindo ou chegando do México. O Egito sacrificou todo o rebanho suíno do país. A Índia considerou instituir quarentenas nas vilas. Todas essas ações teriam levado a nada. O México gastou 180 milhões de dólares para combater a gripe, e sofreu com a perda econômica de 9 bilhões de dólares por causa da resposta irracional de seus parceiros comerciais (não é exatamente um reforço positivo se o

objetivo é incentivar a franqueza em uma futura ocasião). 8

Não se sabe se as ações evoluíram puramente do cálculo

político. No Egito, por exemplo, somente os cristãos coptas, isolados politicamente, comem carne de porco, e o abate desses animais permitiu que o governo aparentasse estar tomando alguma atitude — e que os funcionários públicos reagissem de forma emocional em vez de racional, ou ambas. Emoção não é falta de razão, mas a primeira corrompe a segunda.

Seja como for — um governante vê determinada vantagem e

conscientemente toma uma medida no mínimo improdutiva, outro age com incompetência ou guiado pelo medo — o fator humano, aquele que define a liderança política, é a fraqueza de todo e qualquer plano de ação. A experiência de 2014 com o ebola é outro lembrete disso.

Em 1918, o pavor — um pavor real — estava em andamento. A aleatoriedade da morte levou esse pânico para dentro das casas. E sua velocidade também. Assim como o fato de que os mais saudáveis e fortes pareciam ser os mais vulneráveis.

Mas, por pior que a doença em si fosse, as autoridades e os

meios de comunicação ajudaram a criar aquele pavor; não porque exageravam sobre a doença, mas porque minimizavam o cenário em uma tentativa de tranquilizar a população. Uma área especializada entre os consultores de relações públicas evoluiu nas últimas décadas, a da chamada “comunicação de risco”. Não tenho muito apreço pelo termo. Se existe uma lição deixada pelo episódio de 1918 é que os governos precisam falar a verdade durante uma crise e comunicação de risco implica em gerenciá-la. Mas verdade não se gerencia: se conta.

O pavor nasce na escuridão da mente, no monstro

desconhecido que nos caça na floresta. O medo do escuro é quase uma manifestação física disso. Os filmes de terror se baseiam no medo do desconhecido, na ameaça indeterminada e invisível que não conhecemos e da qual não podemos nos esconder. Mas, em todo filme de terror, depois que o monstro aparece, o terror se torna real e diminui. O medo continua, mas o pico de pânico criado pelo desconhecido é dissipado. O poder da imaginação cessa.

Em 1918, as mentiras das autoridades e da imprensa nunca

permitiram que o terror se tornasse real. O público não podia confiar em nada, então não sabia de nada. Mas a estrutura social é baseada em confiança e, quando ela se rompe, as pessoas alienam-se não apenas das autoridades, mas uma da outra. O pavor se infiltrou na sociedade que impediu uma mulher de cuidar da irmã; que impediu voluntários de doar comida para famílias muito doentes e que por isso morreram de fome; que impediu enfermeiros experientes de atender a maioria das chamadas urgentes. O medo, não a doença, ameaçou a ruptura da sociedade. Como Victor Vaughan — um homem cuidadoso, comedido e que não exagerou em suas argumentações — advertiu, a civilização poderia ter desaparecido dentro de semanas.

A lição derradeira de 1918, uma simples e ao mesmo tempo a

mais difícil de executar, é que as autoridades devem diminuir as chances de que o pânico aliene a todos. A sociedade não pode funcionar com cada um cuidando de si. Por definição, nenhuma civilização sobrevive assim.

Quem está no poder deve confiar no povo. Não deve distorcer

nada, nem enfeitar ou tentar manipular as pessoas. Lincoln já havia dito isso, e da melhor forma.

Um líder deve tornar real qualquer terror. Só assim as pessoas

serão capazes de enfrentá-lo.