A Grande Gripe
Capítulo vinte e três
L se voltaram para a gripe.
Émile Roux, pupilo de Pasteur, um dos que competiram com os alemães por uma antitoxina contra a difteria, chefiava o trabalho no Pasteur Institute. Na Grã-Bretanha, praticamente todos no laboratório de Almroth Wright trabalhavam naquilo, incluindo Alexander Fleming, cuja posterior descoberta da penicilina ele aplicou pela primeira vez na pesquisa de Pfeiffer do assim chamado “bacilo da gripe”. Na Alemanha, na Itália, até mesmo na Rússia devastada pela revolução, pesquisadores desesperados buscavam uma resposta.
No outono de 1918, entretanto, esses laboratórios podiam
funcionar apenas em escala reduzida. A pesquisa fora cortada e concentrou-se na guerra, no gás venenoso ou em como se proteger dele, na prevenção de infecções de ferimentos, em maneiras de prevenir doenças que incapacitavam as tropas, como a “febre da trincheira”, uma infecção relacionada ao tifo que não era grave em si, mas que tirara mais tropas da linha de frente do que qualquer outra doença. Os animais de laboratório ficaram indisponíveis; os exércitos os utilizavam para testar gás venenoso e outros propósitos desse tipo. A guerra também sugara para si técnicos e jovens pesquisadores.
Laboratórios na Europa e nos Estados Unidos foram afetados,
mas os europeus sofreram muito mais, com seu trabalho limitado pela escassez não apenas de pessoal como de tudo o mais, desde carvão para aquecimento a dinheiro para comprar placas de Petri. Ao menos, os americanos tinham esses recursos. E, se os Estados Unidos ainda ficavam atrás da Europa em número de pesquisadores, o mesmo não acontecia em relação à qualidade de seus pesquisadores. O Rockefeller Institute já se tornara indiscutivelmente o melhor instituto de pesquisa do mundo; do punhado de cientistas que ali trabalhavam, um deles já ganhara o prêmio Nobel e outros dois viriam a ganhá-lo. Na área de trabalho mais relevante, a pneumonia, o Rockefeller Institute assumia uma clara liderança em relação ao resto do mundo. E os cientistas do instituto não eram os únicos americanos a realizarem um trabalho de classe mundial.
Welch, Victor Vaughan, de Michigan, Charles Eliot, de
Harvard, William Pepper, da Penn e um punhado de colegas que tanto pressionaram pela mudança foram bem-sucedidos. Eles haviam transformado a ciência da medicina americana. Se essa transformação acabara de ocorrer, se apenas recentemente alcançara o nível da Europa, também tinha a vitalidade que advém da conversão recente. E a nação em geral não estava tão exausta quanto a Europa. Não estava nem um pouco exausta.
Enquanto a gripe estendia suas garras por todo o país e
começava a esmagar vidas com elas, quase todo cientista médico sério — e muitos médicos comuns com inclinação científica — começou a procurar uma cura. Estavam determinados a provar que a ciência poderia realmente realizar milagres.
Muitos deles simplesmente não eram bons o bastante para
enfrentar o problema com alguma esperança de sucesso. Mas tentaram de qualquer modo. Sua tentativa foi heroica. Exigia não apenas habilidade científica, mas coragem física. Eles andavam entre os mortos e moribundos, esfregavam swabs na boca e nas vias nasais dos desesperadamente doentes, mergulhavam em sangue nas salas de autópsia, cavavam fundo nos cadáveres e lutavam para, a partir de swabs, sangue e tecido, encontrar a origem do patógeno que matava mais humanos do que qualquer outro na história.
Alguns desses pesquisadores, possivelmente algumas dúzias,
eram inteligentes o suficiente, criativos o suficiente, versados o suficiente, talentosos o suficiente e dispunham de recursos suficientes para não entrar em uma busca inútil. Eles poderiam enfrentar aquela doença com ao menos uma esperança de sucesso.
Em Boston, Rosenau e Keegan continuaram a estudar a
doença no laboratório. A maior parte da comissão de pneumonia do exército fora enviada para Camp Pike, no Arkansas, onde, mesmo quando Welch chegou a Devens, começaram a
pesquisar “uma nova broncopneumonia”.1 A equipe do Rockefeller trazida para Devens por Welch voltou para Nova York, onde foi reforçada por Martha Wollstein, uma respeitada bacteriologista também associada ao Rockefeller Institute e que estudava o bacilo da gripe desde 1905. Em Chicago, no Memorial Institute for Infectious Diseases, Ludwig Hektoen mergulhou no trabalho. E, na Mayo Clinic, E. C. Rosenow fez o mesmo. A única instituição civil de pesquisa do governo, o Laboratório de Higiene do Serviço Público de Saúde, e seu diretor, George McCoy, se uniram a eles.
Entretanto, de todos os que trabalhavam nos Estados Unidos,
talvez os mais importantes fossem Oswald Avery, no Rockefeller, William Park e Anna Williams, no Departamento de Saúde Pública de Nova York, e Paul Lewis, na Filadélfia.
Cada um deles trouxe um estilo diferente para o problema, um
método diferente de fazer ciência. Para Park e Williams, o trabalho chegava tão perto da rotina quanto algo poderia chegar em meio a uma crise extrema como aquela; seus esforços não teriam impacto algum nas próprias vidas em nenhum sentido pessoal, embora ajudassem a colocar a pesquisa sobre a gripe em um caminho que acabaria levando à resposta certa. Para Avery, o trabalho o colocaria em uma direção que ele seguiria por décadas, primeiro décadas de enorme frustração, mas, então, de uma descoberta crucial — na verdade, uma descoberta que abriu a porta para um universo inteiro que mesmo agora está só começando a ser explorado. Para Lewis, embora ele não tivesse como saber, seu trabalho sobre a gripe marcaria um momento decisivo em sua vida, que levaria a uma grande tragédia, para a ciência, para sua família e para si mesmo.
Não era um bom momento para enfrentar uma nova grande ameaça na Secretaria de Laboratórios do Departamento de Saúde Pública de Nova York, divisão que Park administrava e na qual Williams trabalhava. Eles tinham um problema especial: a política da cidade de Nova York.
Em 1º de janeiro de 1918, a Tammany Hall recuperou o
controle da cidade. O apadrinhamento veio primeiro. Hermann Biggs, o pioneiro que construíra o departamento, saíra um ano antes para se tornar representante de saúde do estado; Biggs permaneceu intocável porque tratara de um dos principais líderes da Tammany, que protegera todo o departamento durante as administrações anteriores da Tammany. Seu sucessor não era intocável. O prefeito John Hylan o substituiu duas semanas após assumir o controle. Contudo, muitos cargos no Departamento de Saúde não eram posições de apadrinhamento, então, para criar vagas, a Tammany começou a prejudicar o melhor departamento de saúde municipal do mundo. Logo Hylan exigiu a demissão de chefes de divisão e a remoção de médicos altamente respeitados na junta de assessoria.
Até mesmo o novo representante de saúde indicado pela
Tammany recusou-se a concordar com isso e renunciou, deixando o departamento sem liderança. O prefeito estava de pé na calçada do lado de fora da prefeitura quando um camarada lhe apresentou Royal Copeland, disse que era um homem leal à Tammany e sugeriu que o prefeito o nomeasse como novo representante de saúde. Mas Copeland, decano de uma faculdade de medicina homeopática, não era nem mesmo médico.
No entanto, o prefeito concordou em indicá-lo. Os três homens
subiram os degraus até seu escritório e Copeland foi
empossado. 2
O melhor departamento municipal de saúde pública do mundo
agora era dirigido por alguém que não acreditava na medicina científica moderna e cujas ambições não estavam na saúde pública, mas na política. Se a Tammany queria que as vagas fossem preenchidas com partidários leais, era isso que ele lhe daria. (Certa vez, Copeland explicou sua lealdade à Tammany em termos simples: “O homem é um animal social e não pode trabalhar sem cooperação. A organização é uma necessidade, e
a minha organização é a Tammany.” 3 Alguns anos depois, a Tammany retribuiria sua lealdade alçando-o ao Senado dos Estados Unidos.) Então, ele deu continuidade aos esforços da máquina para desmontar o departamento. Um dos melhores chefes de divisão foi ameaçado com acusações criminais e, quando isso não deu certo, foi levado a uma audiência do serviço público civil sob a acusação de “negligência no cumprimento do dever, ineficiência e incompetência”.
Park dirigia a divisão de laboratórios do departamento desde
1893, nunca se envolvera em política e era intocável. Ele continuou a fazer ciência de alta qualidade em meio a essa turbulência; logo depois de Avery e Cole e outros membros do Rockefeller desenvolverem seu soro contra o pneumococo dos tipos I e II, Park desenvolveu um procedimento tão simples para “classificar” o pneumococo que qualquer laboratório decente poderia realizá-lo em trinta minutos, permitindo o uso quase
imediato do soro certo para tratamento. 4
Agora, porém, ele precisava defender o departamento. Ele
ajudou a organizar uma defesa, e esta se tornou nacional. As críticas choveram sobre a Tammany, vindas da cidade, do estado, de Baltimore, de Boston e de Washington. Welch e quase todas as figuras importantes da medicina atacaram a Tammany. Rupert Blue, chefe do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, pediu publicamente que o prefeito renunciasse.
A Tammany recuou, e Copeland embarcou em uma campanha
de relações públicas para reparar os danos a si e à sua “organização”, fiando-se no patriotismo para reprimir as críticas. Ao fim do verão, o frenesi desaparecera, mas aquele que fora o melhor departamento de saúde pública do mundo estava desmoralizado. O diretor internacionalmente respeitado da Secretaria de Educação de Saúde Pública renunciou. O vice-representante de saúde, que ocupava o cargo havia vinte anos, renunciou, e o prefeito o substituiu por seu médico pessoal.
Em 15 de setembro, ocorreu a primeira morte por gripe na
cidade de Nova York. A essa altura, havia muito que a doença começara a se espalhar das bases do exército e da marinha para a população civil de Massachusetts.
Em duas epidemias de poliomielite na década anterior, as
autoridades de saúde pública praticamente fecharam a cidade. Mas, naquele momento, Copeland não fez nada. Três dias depois, quando os hospitais começaram a se encher de casos de gripe, ele relatou doenças relacionadas à gripe e à pneumonia ao mesmo tempo em que afirmava que “outras doenças brônquicas e não a chamada gripe espanhola são responsáveis pela doença da maioria das pessoas que foram declaradas doentes com tal
gripe...”5
Mais alguns dias, e nem mesmo Copeland era capaz de negar
a realidade. As pessoas podiam ver a doença ao seu redor. Finalmente, ele alertou: “O departamento de saúde está preparado para obrigar os pacientes que podem ser uma ameaça
à comunidade a serem hospitalizados.” 6 Ele também garantiu a todos os envolvidos “que a doença não está saindo do controle do departamento de saúde, e está diminuindo”.
Park sabia mais. Quando estudante em Viena, em 1890, ele testemunhara aquela pandemia de gripe matar um de seus professores e escreveu: “Lamentamos por ele e por nós
mesmos.” 7 E agora, ele e outros em seu laboratório acompanhavam o progresso da doença havia vários meses. Ele estava bem ciente da transformação do City of Exter em um necrotério flutuante, assim como de casos graves em julho e agosto em navios que chegavam ao porto de Nova York. Esses casos trouxeram algo de positivo: aliviaram o laboratório da pressão política e permitiram que ele se concentrasse no trabalho.
Ao fim de agosto, ele e Anna Williams começaram a se
dedicar por completo à doença. Em meados de setembro, foram chamados até Camp Upton, em Long Island. A doença acabara de chegar por lá, e poucas mortes haviam ocorrido — ainda —, mas, em um único alojamento, repleto de soldados de Massachusetts, já havia dois mil casos.
Àquela altura, Park e Williams trabalhavam juntos havia um
quarto de século e se complementavam perfeitamente. Ele era um homem tranquilo, de olhos castanhos, uma postura um tanto reservada, até aristocrática. Ele tinha direito de fazer parte da elite social; os antepassados de seu pai chegaram aos Estados Unidos em 1630; os de sua mãe em 1640. Ele também sentira o chamado. Três tias-avós haviam sido missionárias e foram enterradas no Ceilão, um primo de quem ele era muito próximo tornara-se pastor, e o próprio Park chegou a pensar em se tornar um médico missionário.
Ele tinha um propósito sério e não era a curiosidade por si só
que movia esse propósito. Sua busca pelo conhecimento no laboratório servia ao seu propósito apenas na medida em que, como ele o via, este servisse ao propósito de Deus. Park doava seu salário como professor de bacteriologia na Universidade de Nova York para o laboratório, ou ao menos o entregava para alguns de seus profissionais que viviam em dificuldades com os salários pagos pela cidade. Ele também se envolveu diretamente com os pacientes, muitas vezes trabalhando nas alas de difteria do Willard Parker Hospital, administrado pela cidade, que ficava do outro lado da rua, em frente ao seu laboratório. O hospital era um lugar novo e reluzente, 35 estrados de ferro para cada ala, com lavabos e banheiras de mármore com forro de porcelana, o piso de madeira polida era lavado todas as manhãs com uma solução de 1:1.000 de bicloreto de mercúrio, a mesma solução em que os próprios pacientes eram lavados em sua admissão e ao receberem alta.
Metódico, um tanto obstinado, ele era um mestre burocrata no
melhor sentido da palavra; ele dirigia a Secretaria de Laboratórios do Departamento de Saúde havia décadas e sempre procurou maneiras de fazer o sistema funcionar. O que o motivava era o desejo de levar as pesquisas de laboratório aos pacientes. Ele era um pragmático. Goethe observou que se procura onde há luz. Alguns cientistas tentam criar uma nova luz para iluminar os problemas. Park não era um desses; seu forte era fazer explorações exaustivas com a luz existente.
Foi seu trabalho e o de Williams que levou à produção em
massa de uma antitoxina barata contra a difteria. Foi seu trabalho que marcou a aceitação dos Estados Unidos como um igual científico da Europa, quando a conferência internacional endossou seus pontos de vista sobre tuberculose em detrimento dos de Koch. Seus trabalhos científicos eram exatos, se não bastante elegantes, e ele combinava sua precisão com uma mente profundamente investigativa e cuidadosa.
Foi essa precisão e o senso de certo e errado de missionário
que, alguns anos antes, o levaram à sua disputa pública com Simon Flexner e o Rockefeller Institute por causa do soro de meningite. Em 1911, Park criara o Laboratório de Terapia e Pesquisas Especiais, ao menos em parte para rivalizar com o Rockefeller Institute. Ele estava alguns anos mais velho agora, embora não mais dócil. Ele e Flexner permaneceram “bastante ácidos” um com o outro, notou um cientista que os conhecia bem, com “nenhuma afeição entre si”, mas, apesar da animosidade, ambos cooperaram um com o outro sempre que necessário, e
nenhum deles omitia informações. 8
(Essa abertura estava muito longe da atmosfera de alguns
outros laboratórios, incluindo o Pasteur Institute. O próprio Pasteur uma vez aconselhara um pupilo a não compartilhar informações com pessoas de fora, dizendo: “Mantenha seus cadáveres para si mesmo.” Quando Anna Williams visitou o lugar, foi-lhe recusado qualquer informação sobre um antissoro para pneumonia até sua publicação, e ela também precisou prometer que, depois que partisse, não diria nada do que vira até a publicação. Biggs escreveu para Park: “Marmorek ensinou-a como é feito — é secreto, obviamente. Como sempre, omitiu o
essencial em seu artigo.”) 9
Se Park era quase estagnado, Anna Williams injetou alguma
selvageria e criatividade no laboratório. Ela adorava andar de avião com pilotos de acrobacias — um ato imprudente nos aviões anteriores à Primeira Guerra Mundial — e adorava viradas rápidas repentinas e descidas descontroladas. Ela adorava dirigir e estava sempre em alta velocidade; quando o tráfego estava parado, ela simplesmente seguia pela contramão, e havia uma série de multas de trânsito para provar isso. Certa vez, ela fez um curso de mecânica e decidiu desmontar o motor de seu Buick — mas não conseguiu montá-lo outra vez. Em seu diário, escreveu:
“Desde pequena, eu gostava de ir a lugares.10 Quando não podia ir, sonhava em ir. E esses sonhos selvagens raramente eram concebidos por qualquer outra criança.”
Apesar de — ou, mais provavelmente, por causa de — sua
natureza selvagem, ela se estabeleceu como a principal cientista médica dos Estados Unidos. Mas sua conquista teve um preço.
Ela era infeliz. E também solitária. Aos 45 anos, escreveu:
“Disseram-me hoje que era bastante patético eu não ter um
amigo em particular.” 11 Ela e Park trabalhavam juntos havia décadas, mas mantinham uma distância cuidadosa. Para seu diário, ela confidenciou: “Há graus para tudo, inclusive para as amizades (...) Não há sentimentalismo em relação às minhas
amizades e muito pouco sentimento.” 12 A religião não lhe trazia alívio algum. Ela esperara muito desse campo. Dissera para si mesma que Jesus sabia que a angústia dele era momentânea e que, em troca, salvaria o mundo. “Esse conhecimento (...) se tivéssemos certeza, ah! o que não estaríamos dispostos a
sofrer.”13 Claro que ela não tinha esse conhecimento. Ela só conseguia se lembrar de “todas as coisas boas que me ensinaram (...) [e] a agir como se fossem verdadeiras”.
No entanto, no final, embora invejando aqueles que viviam
uma vida normal, ela ainda preferia “o descontentamento do que
a felicidade através da falta de conhecimento”.14 Em vez disso,
contentou-se com o fato de que “tive minhas fortes emoções”. 15 Analisando a si mesma, confidenciou no diário que o que mais lhe importava era “o amor pelo conhecimento”, “o amor pela apreciação”, “o amor pela vitória”, “o medo do ridículo” e “o poder de fazer e pensar coisas novas”.
Essas não eram as motivações de Park, mas ela e Park
formavam uma combinação poderosa. Ao menos na ciência, ela realmente teve muitas emoções.
Em 1918, ela estava com 55 anos. Park tinha a mesma idade.
A emoção não tinha lugar durante a longa viagem pelas estradas irregulares de Manhattan até Camp Upton, apesar de Park ter cedido e permitido que ela dirigisse. No acampamento, os médicos militares, sabendo do que acontecia em Devens, imploravam por conselhos.
Park e Williams eram especialistas em terapia de vacina.
Mesmo durante as epidemias de poliomielite, realizaram um excelente trabalho científico, mesmo que apenas para provar o contrário; Park tentara desenvolver diversos tratamentos, mas em vez disso conseguiu apenas provar a ineficácia deles. Dessa vez, eles se sentiam esperançosos; seu trabalho com estreptococos e pneumococos, como aquele do Rockefeller Institute, era promissor. Mas Park e Williams ainda não tinham conselhos para dar; podiam apenas tirar amostras de gargantas e vias nasais dos doentes em Upton, retornar ao laboratório e
prosseguir dali em diante. 16
Eles também obtiveram material de outra fonte, que Williams
nunca esqueceu. Foi sua primeira autópsia de gripe; como escreveu mais tarde, o corpo era de “um jovem bonito do Texas” que compartilhava seu sobrenome. Ela ficou olhando os traços delicados do rapaz, conjecturando sobre ele, imaginando se não seria algum parente distante e observando: “A morte ocorria tão rapidamente que deixava pouca ou nenhuma marca da doença
em qualquer outro lugar, exceto nos pulmões.”17
Ela não conseguia olhar para a forma perfeita do jovem —
perfeita, a não ser pela morte — sem se perguntar o que o país estava prestes a enfrentar. No caminho de volta a Nova York, com o carro repleto de swabs com amostras de membranas mucosas, escarro e amostras de tecidos de uma doença misteriosa e letal, provavelmente alternavam entre a conversa intensa e o silêncio; conversando enquanto planejavam seus experimentos e silêncio ao pensarem no silêncio do laboratório que os aguardava.
De fato, não havia nada no mundo parecido com o laboratório de Park. Da rua, Park podia olhar com orgulho para o prédio de seis andares, os andares de laboratórios, sabendo que fora construído por seus sucessos. Inteiramente dedicado a testes de diagnóstico, pesquisas médicas e produção de soros e antitoxinas, sua criação se situava ao pé da East Sixteenth Street com o lotado cais do East River logo adiante.
Bondes, carruagens puxadas por cavalo e automóveis
passavam, e o cheiro de estrume ainda se misturava ao de gasolina e óleo. Pairava ali todo o suor, ambição, fracasso, coragem e dinheiro de Nova York, tudo o que fazia a cidade ser o que era.
Dentro do prédio, Park supervisionava uma indústria virtual.
Mais de duzentos trabalhadores se reportavam a ele, quase metade desse pessoal cientistas ou técnicos de um laboratório ou de outro, cada um com suas mesas de laboratório dispostas em fileiras horizontais, queimadores a gás em uso quase constante em cada mesa, utensílios de vidro empilhados nas prateleiras acima das mesas e das paredes, as salas muitas vezes assobiando com vapor e umidade das autoclaves utilizadas para a esterilização.
Nenhum outro laboratório em qualquer lugar, em nenhum
instituto, em nenhuma universidade, que não fosse patrocinado por nenhum governo, que não fosse administrado por nenhuma empresa farmacêutica, tinha a combinação de competência científica, conhecimento epidemiológico e de saúde pública e capacidade de realizar pesquisas direcionadas — voltar todos os recursos para uma questão e não se desviar dessa pesquisa, independentemente de quão atraente ou importante pudesse vir a ser uma descoberta — concentradas em resultados práticos imediatos.
Seu laboratório também poderia funcionar em crise extrema.
Já tinha acontecido antes: prevenindo surtos de cólera e febre tifoide, triunfando sobre a difteria, ajudando em epidemias de meningite. Isso ocorrera não apenas em Nova York, mas em todo o país; quando solicitado, Park enviava equipes para combater surtos de doenças em outros lugares.
Outra habilidade também tornava o departamento único. Se
uma solução fosse encontrada, o laboratório era capaz de produzir soro e vacinas em quantidades industriais tão rapidamente quanto — e de melhor qualidade que — qualquer fabricante de medicamentos do mundo. De fato, foi tão bem-sucedido na produção de antitoxinas que os fabricantes de drogas e os médicos da cidade se uniram para usar todo seu poder político a fim de limitar essa produção. Mas, agora, Park podia reagir com rapidez. Devido a seu compromisso de produzir soro para o exército, ele acabara de quadruplicar o número de
cavalos que poderia infectar e, então, sangrar. 18
Portanto, não surpreende que, logo após Park voltar de Camp
Upton, ele tenha recebido um telegrama de Richard Pearce, chefe da seção de medicina do Conselho Nacional de Pesquisa. Pearce estava se agarrando a qualquer informação que pudesse obter dos franceses, dos ingleses e até mesmo dos alemães e distribuindo-a para pesquisadores em toda parte. Ele também estava dividindo as perguntas sobre a gripe em pedaços e pedindo a cada um dos poucos pesquisadores que se concentrasse em uma única parte. De Park, ele queria saber “a natureza do agente causador da chamada gripe espanhola (...) [e] culturas puras do organismo causador se possível (...) Será que seu laboratório poderia realizar os estudos bacteriológicos necessários e se reportar o mais rapidamente possível ao
signatário?” 19
Imediatamente, Park telegrafou em resposta: “Faremos o
trabalho.”20
Era como se o laboratório tivesse entrado em guerra, e Park estava confiante na vitória. Ao revisar todos os fragmentos de dados sobre a doença publicados e não publicados por laboratórios de todo o mundo, ele não se impressionou e
descartou a maioria quase com desprezo.21 Convencido de que seu laboratório poderia fazer melhor e acreditando que a negligência de outras pessoas contribuía ao menos em parte para a incapacidade delas de entender a doença, ele estabeleceu planos extraordinariamente ambiciosos. Além de encontrar o patógeno, além de encontrar uma vacina, soro ou ambos, além de produzir esse medicamento em grandes quantidades, além de comunicar aos outros sobre os procedimentos precisos a serem seguidos para que pudessem produzi-los, ele pretendia ainda mais. Ele pretendia realizar o estudo mais completo de um surto de doença nunca feito, selecionando uma grande amostragem de pessoas e, como muitas delas inevitavelmente adoeciam, monitorando-as através dos meios laboratoriais e epidemiológicos mais sofisticados possíveis. A carga de trabalho seria enorme, mas ele acreditava que seu departamento poderia lidar com isso.
Entretanto, após alguns dias, quase algumas horas, a doença
começou a sobrecarregar o departamento. Park já compensara a perda de força de trabalho para a guerra, analisando todos os sistemas e maximizando a eficiência (instalando, por exemplo, uma bomba de vácuo que em quinze minutos poderia encher três mil tubos com doses individuais de vacina) e até mudando os
métodos contábeis. 22 Agora, porém, conforme a gripe atingia primeiro um zelador ou técnico ou cientista de cada vez, então quatro de cada vez, depois quinze de cada vez, o laboratório ficou abalado. Não muito tempo antes, quando o Departamento de Saúde rastreara um surto de tifo até a origem, quatro de seus funcionários morreram de tifo — provavelmente por infecção em laboratório. Agora, as pessoas no laboratório de Park estavam novamente doentes, algumas morrendo.
A gripe o humilhara, e com rapidez. Ele abandonou a
arrogância quanto ao trabalho de outras pessoas e os próprios planos ambiciosos. Agora ele estava tentando entender apenas uma coisa, a coisa importante. Qual era o patógeno?
Enquanto isso, o mundo parecia tremer sob seus pés. Para
Park e Williams e para outras pessoas em outros laboratórios que corriam para encontrar uma resposta, deveria ter parecido que viam essa grande catástrofe se aproximando, mas tinham que permanecer congelados no lugar, quase incapazes de fazer qualquer coisa para derrotá-la ou evitá-la. Era quase como se alguém tivesse o pé preso sob pedras em uma poça de maré enquanto a maré subia — a água chegando até os joelhos, até a cintura, a pessoa respirando profundamente e depois se curvando para tentar soltar o pé, então se erguendo e sentindo a água no pescoço, o borrifo de uma onda passando sobre sua cabeça...
Nova York estava em pânico, aterrorizada.
Copeland tentava tranquilizar o povo anunciando uma
quarentena total, embora nenhuma quarentena fosse de fato implementada. Havia literalmente centenas de milhares de pessoas doentes ao mesmo tempo, muitas delas desesperadamente doentes. O número de mortos chegara a 33 mil somente na cidade de Nova York, e esse cálculo subestimava o número de modo considerável, já que, mais tarde¸ os estatísticos pararam arbitrariamente de contar pessoas como vítimas da epidemia, mesmo que elas ainda estivessem morrendo da doença em taxas epidêmicas — ainda morrendo meses depois e em taxas mais altas do que em qualquer outro
lugar do país.23
Era impossível conseguir um médico, e talvez ainda mais
impossível conseguir uma enfermeira. Chegavam relatos de que enfermeiras estavam sendo mantidas à força nas casas de pacientes assustados e desesperados demais para permitirem que elas fossem embora. Enfermeiras estavam sendo
literalmente sequestradas.24 Não parecia haver possibilidade de se colocar mais pressão no laboratório. Contudo, mais pressão veio.
A pressão levou Park a abandonar mais do que seus planos ambiciosos. Ele sempre fora meticuloso, nunca se comprometera, construíra grande parte de sua reputação científica ao expor o trabalho defeituoso de outras pessoas, sempre avançando com cuidado, baseando seus próprios experimentos em premissas bem estabelecidas e com o mínimo possível de suposições. “Com base em fatos experimentais”, ele
sempre dizia, “nos fundamentamos em...”25
Agora Park não tinha tempo para se fundamentar. Se ele
pretendia causar algum impacto no curso da epidemia, precisaria adivinhar — e adivinhar certo. Portanto, aqueles em seu laboratório, como registrou, “estudariam de perto apenas os tipos mais dominantes que foram demonstrados por nosso procedimento (...) Reconhecemos que nossos métodos (...) não levaram em conta (...) até agora, organismos não descritos que
poderiam ter uma relação etiológica com essas infecções.” 26
O laboratório tinha apenas duas constantes. Uma era um
suprimento infinito de amostras de cotonetes, de sangue, de escarro e de urina de pacientes vivos e órgãos dos mortos. “Lamento dizer que tínhamos muito material”, observou Williams
laconicamente.27
E eles tinham sua rotina. Apenas a necessidade de manter a
disciplina salvou o laboratório do caos total. Não havia nada de empolgante naquele trabalho; era puro tédio e pura monotonia. E, no entanto, cada passo envolvia contato com algo que poderia matar, e cada passo envolvia paixão. Os técnicos coletavam amostras de escarro de pacientes no hospital e imediatamente — não podiam esperar nem mesmo uma hora, ou bactérias da boca do paciente podiam penetrar no escarro e contaminá-lo — começavam a trabalhar com aquilo. As etapas começavam com a “lavagem”: colocar cada pequena bolota de muco em uma garrafa de água estéril, removendo-o e repetindo o processo cinco vezes, então rompendo o muco, lavando-o mais, passando-o por um aro de platina — um círculo fino de platina, como aqueles usados para fazer bolhas de sabão — a fim de transferi-lo para um tubo de ensaio, pegando outro aro e repetindo a etapa meia dúzia de vezes. Cada etapa levava tempo, tempo em que as pessoas morriam, mas eles não tinham escolha. Precisavam de cada passo, precisavam diluir a bactéria para impedir que muitas colônias crescessem no mesmo meio de cultura. Depois, levavam mais tempo, mais etapas, isolando cada uma dessas culturas.
Tudo era importante. As tarefas mais tediosas eram
importantes. A lavagem dos vidros era importante. Utensílios de vidro contaminados podiam arruinar um experimento, ser um desperdício de tempo e custar vidas. No decorrer desse trabalho, 220.488 tubos de ensaio, garrafas e frascos seriam
esterilizados.28 Tudo era importante, e, no entanto, ninguém sabia quem viria ao trabalho a cada dia, quem não viria — e quem seria transportado de repente para o hospital do outro lado da rua — e, se alguém deixasse de vir ao trabalho, era quase impossível realizar tarefas simples como remover culturas em crescimento das incubadoras.
Havia dezenas de maneiras de cultivar bactérias, mas em
geral apenas uma maneira de cultivar um tipo específico. Algumas crescem sem oxigênio, outras apenas com um suprimento abundante dele. Algumas requerem meios alcalinos, outras, ácidos. Algumas são extremamente delicadas, outras, estáveis.
Cada passo, cada tentativa de cultivar o patógeno significava
esforço, e esforço significava tempo. Cada hora incubando uma cultura significava tempo. E eles não tinham tempo.
Quatro dias depois de aceitar a tarefa de Pearce, Park
telegrafou: “Os únicos resultados até agora que são de real importância foram obtidos em dois casos fatais, um homem vindo do estaleiro do Brooklyn e um médico do hospital da marinha em Boston. Ambos desenvolveram uma pneumonia séptica aguda e morreram em uma semana após o início da primeira infecção. Nos dois casos, os pulmões apresentaram uma pneumonia inicial e, em amostras, estreptococos muito abundantes (...) Não havia absolutamente nenhum bacilo de gripe em nenhum dos
pulmões.” 29
O fracasso em encontrar o “bacilo da gripe” enlouquecia Park.
Sua melhor esperança de produzir uma vacina ou soro seria encontrar um patógeno conhecido, e o suspeito mais provável era aquele que Pfeiffer chamara de Bacillus influenzae. Pfeiffer ficara e ainda estava confiante de que aquilo causava a doença. Park não hesitaria em excluir a B. influenzae se não encontrasse boas evidências para isso, mas tinha grande respeito por Pfeiffer. Trabalhando nessas circunstâncias desesperadoras, ele queria confirmar o trabalho de Pfeiffer, em vez de rejeitá-lo. Ele queria que a resposta fosse o bacilo de Pfeiffer. Isso lhes daria uma chance, uma chance de produzir algo que salvaria milhares de vidas.
A B. influenzae é uma bactéria particularmente difícil de isolar.
É pequena, mesmo para os padrões das bactérias, e em geral ocorre isoladamente ou em pares, não em grandes grupos. Requer fatores específicos, incluindo sangue no meio de cultura para que a mesma cresça. Ela se desenvolve apenas dentro de uma faixa muito estreita de temperaturas e suas colônias são mínimas, transparentes e sem estrutura. (A maioria das bactérias formam colônias distintas com forma e cor específicas, o suficiente para que possam ser identificadas às vezes só de olhá-las, da mesma maneira que algumas espécies de formigas podem ser identificadas pela forma do formigueiro.) A B. influenzae cresce apenas na superfície do meio de cultura, pois depende muito de oxigênio. Também é difícil de tingir, portanto difícil de ver no microscópio. É um alvo fácil de errar, a menos que você o esteja procurando especificamente e a menos que use uma técnica excelente.
Enquanto outras pessoas no laboratório procuravam diversos
organismos, Park pediu a Anna Williams que se concentrasse em encontrar o de Pfeiffer. Anna Williams encontrou. Ela os encontrava constantemente. Em última análise, uma vez aperfeiçoada sua técnica, ela os encontraria em 80% de todas as amostras do Willard Parker Hospital, em todas as amostras do Hospital da Marinha e em 98% das amostras do Home for
Children.30
Por mais que ele quisesse que Williams estivesse certa, não
deixaria seu desejo corromper sua ciência. Ele deu um passo adiante, para “o teste mais delicado de identidade (...) a
aglutinação”. 31
“Aglutinação” refere-se a um fenômeno no qual os anticorpos
em um tubo de ensaio se ligam ao antígeno da bactéria e formam aglomerados, em geral grandes o suficiente para serem visíveis a olho nu.
Como a ligação de anticorpos a um antígeno é específica,
uma vez que os anticorpos para o bacilo da gripe se ligam apenas a essa bactéria e a nenhuma outra, é uma confirmação precisa de sua identidade. Os testes de aglutinação provaram, sem dúvida, que Williams havia encontrado o bacilo da gripe de Pfeiffer.
Menos de uma semana depois de relatar seu fracasso em
encontrá-lo, Park mandou um telegrama para Pearce dizendo
que o 32 B. influenzae “parece ser o ponto de partida da doença”.
Mas ele sabia muito bem que seus métodos tinham sido menos do que completos, acrescentando: “É claro que existe a possibilidade de que alguns vírus filtráveis desconhecidos possam ser o ponto de partida.”
O relatório teve consequências. O laboratório de Park começou a luta para produzir um antissoro e uma vacina contra o bacilo de Pfeiffer. Logo, cultivavam litros e litros de bactérias, transportando-os para o Norte e injetando-os nos cavalos da fazenda de 71 hectares do Departamento de Saúde, cem quilômetros ao norte da cidade.
Mas a única maneira de saber com certeza que o B.
influenzae causava a doença era seguir os postulados de Koch: isolar o patógeno, usá-lo para recriar a doença em um animal experimental e, depois, voltar a isolar o patógeno do animal. O bacilo matou ratos de laboratório. Mas seus sintomas não se assemelhavam aos da gripe.
Os resultados, por mais sugestivos que fossem, não
satisfaziam totalmente os postulados de Koch. Nesse caso, o animal experimental necessário era o homem.
Os experimentos com humanos haviam sido iniciados. Em
Boston, Rosenau e Keegan já tentavam transmitir a doença a voluntários de uma brigada da marinha.
Nenhum deles ainda adoecera. Um dos médicos que
conduziram o estudo sim. Na verdade, morreu de gripe. No entanto, em termos científicos, sua morte não demonstrou nada.