A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 29 de 43

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A Grande Gripe

Capítulo vinte e oito

 

A F pelo ataque da gripe, isolada e

sozinha. Lá, não havia sinal de qualquer esforço da Cruz Vermelha nacional ou do Serviço de Saúde Pública para ajudar. Nenhum médico recrutado pelo Serviço de Saúde Pública foi enviado. Nenhuma enfermeira recrutada pela Cruz Vermelha foi para lá. Essas instituições não deram ajuda à Filadélfia.

Todo dia as pessoas ficavam sabendo de amigos e vizinhos

que estavam perfeitamente saudáveis uma semana — ou um dia — antes e agora estavam mortos. O que devo fazer? Todos estavam em pânico, desesperados. Quanto tempo isso vai durar?

O prefeito, detido nos primeiros dias da epidemia e depois

também doente, não fizera absolutamente nada. A análise de cinco jornais diários — Press, Inquirer, Bulletin, Public Ledger e North American — não encontrou uma declaração sequer sobre a crise vinda do prefeito. A administração inteira da prefeitura não fez nada. Wilmer Krusen, chefe do departamento de saúde da cidade, não tinha mais a confiança de ninguém. Alguém tinha de fazer algo.

Paul Lewis sentiu a pressão, sentiu a morte sobre ele. Ele

percebia ao menos alguma pressão desde que os marinheiros do City of Exeter começaram a morrer, o que parecia ter ocorrido muito tempo antes. No início de setembro, com o vírus matando 5% de todo o corpo da marinha da Filadélfia que apresentava qualquer sintoma da gripe, a pressão se intensificou. Desde então, ele e todos abaixo dele praticamente só saíam do laboratório para casa. Descobrir o B. influenzae foi o ponto de partida de seu verdadeiro trabalho, não a conclusão.

Ele nunca ficara tão sobrecarregado no laboratório. Paul

iniciou seus experimentos com o pneumococo. Começou a explorar a possibilidade de que um vírus filtrável causava a gripe. Continuou a examinar o bacilo da gripe. Ele e outros desenvolveram uma vacina. Estava tentando produzir um soro. Isso tudo ocorreu simultaneamente. O que ele não tinha era tempo. Ninguém mais tinha tempo.

Se Lewis tinha alguma fraqueza científica, era a de receber de

bom grado orientações daqueles que ele respeitava. Uma vez, quando pediu mais conselhos de Flexner, este o esnobou dizendo: “Eu prefiro que você organize os planos (...) Eu não planejei nada especificamente para o seu período, mas prefiro deixar para você mesmo a decisão quanto ao que fazer.” Lewis tinha respeito por Flexner. Assim como também por Richard

Pfeiffer. 1

Na grande maioria dos casos, ele agora encontrava o B.

influenzae de Pfeiffer em swabs com amostras de pacientes vivos e em pulmões que passaram por autópsia. Ele não encontrava o bacilo necessariamente sozinho, ou nem sempre o achava. Não era uma prova cabal, mas ele acreditava cada vez mais que essa bactéria de fato causava a doença. E, por causa da pressão do tempo, ele abandonou sua pesquisa e passou a investigar a possibilidade de que um vírus filtrável causava a gripe.

Mas ele amava a pesquisa. Embora odiasse a doença, amava

isso. Ele acreditava que tinha nascido para a pesquisa. Amava trabalhar madrugada adentro em meio a fileiras de vidros, monitorando o crescimento das bactérias em uma centena de frascos e placas de Petri, administrando uma dúzia de experimentos de maneira escalonada, coordenando-os como o condutor de uma sinfonia. Até amava o resultado inesperado que poderia jogar tudo por água abaixo.

A única coisa que Lewis não gostava no cargo de diretor de

um instituto era atrair as famílias abastadas da Filadélfia para fazer doações filantrópicas, comparecendo às festas e agindo como o cientista de estimação dos ricos. O laboratório era onde ele se sentia à vontade. Agora passava muitas horas do dia lá. Acreditava que passara muito tempo envolvido com as famílias abastadas da Filadélfia.

Na verdade, essas famílias ricas da cidade mereciam mais

respeito. Elas estavam prestes a assumir o controle.

O escritor Christopher Morley uma vez disse que a Filadélfia se “baseia na confluência das famílias Biddle e Drexel”. Em 1918, essa descrição não estava muito longe da realidade.

 

De todas as grandes cidades dos Estados Unidos, a Filadélfia

reivindicava ser a mais “americana”. Sem dúvida, tinha a maior porcentagem de americanos nascidos no país entre as grandes cidades e, em comparação a Nova York, Chicago, Boston, Detroit, Buffalo e outras cidades, tinha a menor porcentagem de imigrantes. A Filadélfia não era diferente das outras quanto ao fato de as famílias mais antigas e ricas da cidade controlarem as caridades, as organizações de serviço social — incluindo a Cruz Vermelha local — e o Pennsylvania Council of National Defense [Conselho da Pensilvânia de Defesa Nacional]. Mas, com a inexistência do governo da prefeitura, o que se mostrava incomum é que essas famílias achavam que tinham a obrigação de usar o Conselho de Defesa Nacional para assumir o controle.

No nível nacional, essa organização tinha sido o veículo pelo

qual, antes da guerra, Wilson fizera planos com o intuito de controlar a economia, usando-a para coletar dados do país sobre fábricas, transporte, emprego e recursos naturais. Mas cada estado tinha o próprio conselho, que muitas vezes eram dominados por seus inimigos políticos. Quando a guerra começou, Wilson criou novas instituições federais, deixou essa organização de lado, e esta, por sua vez, perdeu poder. O conselho da Pensilvânia, no entanto, tinha uma influência extraordinária, embora praticamente não oficial, sobre tudo, desde os cronogramas das vias férreas até lucros e salários de cada empresa de grande porte do estado, embora também fosse controlado pelos inimigos de Wilson. O conselho tinha esse poder principalmente porque era comandado por George Wharton Pepper.

Ninguém tinha um pedigree melhor. Seu trisavô liderou a

milícia do estado na Guerra Revolucionária, a esposa era descendente de Benjamin Franklin, e a estátua de seu tio William — que trabalhara junto a Welch para reformar a educação em medicina e levara Flexner para a Universidade da Pensilvânia — hoje fica acima da longa escada da Free Library no centro de Filadélfia. George Wharton Pepper era hábil. Advogado que trabalhou em meia dúzia das maiores empresas do país, ele não era implacável, mas sabia comandar. Uma demonstração de sua envergadura aparecera alguns meses antes, quando recebeu um dos três títulos honorários concedidos pelo Trinity College em Hartford, Connecticut; os outros agraciados foram J. P. Morgan e o ex-presidente dos Estados Unidos e futuro presidente da Suprema Corte William Howard Taft.

O gabinete da Filadélfia do Conselho de Defesa Nacional do

estado era controlado pelo juiz J. Willis Martin. Sua esposa, Elizabeth, organizara o primeiro clube de jardinagem do país e foi amplamente responsável por fazer da praça Rittenhouse um espaço verde na cidade. Ela também chefiava a Divisão das Mulheres do conselho e a Emergency Aid (Assistência de Emergência), a agência social privada mais importante da cidade.

Quase todas as agências sociais eram comandadas por

mulheres, fortes, inteligentes, enérgicas e nascidas em famílias com certa posição social, mas excluídas de todas as ocupações, a não ser a caridade. O prefeito criara um comitê para que as mulheres da sociedade respondessem às emergências. O comitê incluía a esposa de Pepper junto à sra. John Wanamaker; a sra. Edward Stotesbury, cujo marido era o principal banqueiro da cidade e presidente da Drexel & Co.; e a sra. Edward Biddle, presidente do clube cívico e cujo marido era descendente de Nicholas Biddle, criador do primeiro Bank of the United States, que, para seu inimigo Andrew Jackson, era a personificação da sinistra potência rica da nação. Essas mulheres desprezaram a máquina política de Vare e cooperaram apenas para mostrar união durante a guerra. No entanto, como os representantes da cidade não tomavam nenhuma atitude em relação à epidemia, as mulheres renunciaram aos cargos, o que acabou dissolvendo o comitê. Como escreveu Elizabeth Martin ao prefeito: “Seu comitê não tem um propósito de fato (...) Portanto, eu rompo relações

com ele.” 2

Agora, no lugar do governo municipal, Pepper, os Martins e

seus colegas convocaram os chefes de uma dúzia de organizações privadas em 7 de outubro até a sede da Emergency Aid no número 1.428, na Walnut Street. Lá as mulheres assumiram o controle, e Pepper se uniu a elas. Para vender títulos de guerra, elas já tinham organizado praticamente a cidade inteira, chegando aos quarteirões, fazendo com que cada um desses quarteirões residenciais fosse responsável por “uma provável líder não importasse a nacionalidade” — ou seja, uma irlandesa é uma vizinha irlandesa, uma afro-americana é uma vizinha afro-americana e assim por diante.

A intenção era usar a mesma organização para distribuir tudo,

desde recursos médicos a alimentos. 3 A ideia era introduzir organização e liderança no caos e no pânico. Junto à Cruz Vermelha — que aqui, diferentemente de qualquer lugar no país, se esforçou para ser incorporada à Emergency Aid —, elas também apelavam por enfermeiras, declarando: “A taxa de mortalidade de um dia apenas na Filadélfia era maior do que o número de mortos do exército americano inteiro na França no

mesmo período.”4

O Conselho de Defesa Nacional do estado já tinha compilado

uma lista com todos os médicos na Pensilvânia, incluindo aqueles que não estavam atuando. O comitê ad hoc de Martin buscou cada um da lista para ajudar. O comitê tinha dinheiro e acesso a mais dinheiro para pagar pela ajuda. Foi instalada uma bancada telefônica que funcionaria 24 horas na loja Strawbridge & Clothier, que cedeu o uso de suas linhas telefônicas; os jornais e cartazes pediam que as pessoas discassem “Filbert 100”, um serviço disponível 24 horas por dia, para obter informações e indicações. O comitê transformou as cozinhas de escolas públicas — que estavam fechadas — em cozinhas públicas onde eram preparadas refeições para dezenas de milhares de pessoas que estavam doentes demais para cozinhar. O comitê dividiu a cidade em sete distritos e, para economizar o tempo dos médicos, organizou os profissionais de acordo com a geografia, ou seja, os médicos não atendiam os respectivos pacientes.

O comitê passou a ser um lugar para onde os voluntários

podiam ir. Cerca de quinhentas pessoas ofereceram seus carros para que fossem usados como ambulância ou para serem motoristas dos médicos — eles receberam bandeiras verdes que lhes concedia passagem preferencial em relação aos outros veículos. Os organizadores do desfile dos títulos de guerra, Liberty Loan, destinaram quatrocentos carros para ajudar. Milhares de indivíduos ligaram para a sede e se ofereceram para fazer o que fosse necessário.

 

Krusen não compareceu à reunião dos grupos privados no dia 7 de outubro e tinha demonstrado uma ação lenta antes. Mas ele mudou. Talvez as mortes tenham enfim alterado seu jeito. Talvez o fato de que outra pessoa estivesse assumindo o controle o tenha forçado a agir. De repente, ele não parecia mais se preocupar com a máquina política de Vare, com a venda de títulos de guerra, com a burocracia ou o próprio poder. Ele apenas queria parar a doença.

Ele cedeu ao grupo o controle de todas as enfermeiras,

centenas delas, que trabalhavam na cidade. 5 Krusen confiscou — em violação ao estatuto da cidade — o fundo de emergência de 100 mil dólares e outros 25 mil de um fundo de emergência de guerra e usou o dinheiro para abastecer os hospitais de emergência e contratar médicos, pagando a eles o dobro do que era oferecido pelo Serviço de Saúde Pública. Ele enviou esses médicos para cada posto policial no sul da Filadélfia, a região mais afetada. Krusen enviou telegramas para o exército e a marinha pedindo que nenhum médico da Filadélfia fosse convocado até que a epidemia tivesse diminuído, e que aqueles que já tivessem sido convocados, mas não tivessem se apresentado ainda, ficassem na cidade porque “a taxa de mortalidade na semana passada [tinha sido] a maior de acordo

com os registros do município”. 6

O Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos ainda não

tinha uma presença na Filadélfia e não fizera nada para se inserir na cidade. Agora Rupert Blue fazia a única coisa que faria pela cidade diante desse sofrimento: ligou para o general médico da

marinha para “reforçar de todo o coração” o pedido de Krusen. 7 As mortes falaram com muito mais ênfase do que Blue. As forças armadas permitiram que a Filadélfia mantivesse seus médicos.

Krusen também limpou as ruas. No sul da Filadélfia, elas

literalmente fediam a excremento e podridão. Os vitorianos consideravam axiomático que as ruas sujas em si tivessem relação com a doença. Os especialistas mais modernos em saúde pública — Charles Chapin em Providence, Biggs em Nova York e outros — rejeitaram categoricamente essa ideia. No entanto, o dr. Howard Anders, que antes havia sido ignorado pela imprensa quando advertiu que o desfile dos títulos de guerra espalharia a gripe, recebeu destaque na primeira página do Ledger, em 10 de outubro, declarando: “As ruas sujas, a sujeira que se acumula, repleta de germes e capaz de procriar doenças, é carregada pelo primeiro golpe de vento. Aí está uma das

principais causas de epidemias terríveis.”8 Outros médicos da Filadélfia concordaram: “A condição das ruas dissemina a

epidemia.”9

Então Krusen enviou caminhões e homens para as ruas com

sprays de água e aspiradores quase diariamente, fazendo o trabalho que Vare havia sido pago várias vezes para realizar, mas não fez. Krusen, a Emergency Aid e a Igreja Católica se uniram para mais uma coisa — a mais importante delas. Começaram a recolher os corpos.

 

Os corpos foram postos em funerárias, ocupando cada área dessas instalações e se acumulando em alojamentos; em necrotérios de hospitais, já invadindo os corredores; nos necrotérios da cidade, já invadindo as ruas. E havia corpos nas casas também. Estavam na varanda, no armário, nos cantos do chão, nas camas. As crianças fugiam da vista dos adultos para observá-los, tocá-los; as mulheres deitavam ao lado do marido morto, sem querer mexer no corpo ou deixá-lo. Os corpos, lembretes da morte e responsáveis por trazer terror e dor, repousavam sobre o gelo a temperaturas semelhantes às do verão na Índia. A presença deles era constante, um terror desmoralizante para a cidade; um horror do qual não era possível escapar. A cidade enfim tentou resgatá-los.

Krusen enviou a polícia para retirar das casas os corpos que já

estavam lá por mais de um dia, empilhando-os nas carrocerias das patrulhas, mas os policiais não conseguiram acompanhar o número de mortes e ficaram bem para trás. A polícia usava uma máscara cirúrgica fantasmagórica, espantando a população, mas a máscara não tinha efeito algum contra o vírus, e até meados de outubro 33 policiais haviam morrido, com mais mortes por vir. Krusen abriu um “necrotério complementar” em um frigorífico na esquina das ruas Twentieth e Cambridge; abriria mais cinco necrotérios suplementares. Krusen implorou pelos embalsamadores do exército. Pepper e Martin convenceram a Brill Company, que fabricava bondes, a construir milhares de caixas simples que serviriam como caixões, e reuniram alunos de escolas de embalsamamento e coveiros que foram buscar a uma distância de 240 quilômetros. Mais caixões chegaram de trem, vigiados por homens armados.

E túmulos foram cavados. Em primeiro lugar, as famílias dos

mortos pegavam a enxada e escavavam a terra, os rostos marcados por suor, lágrimas e areia, uma vez que não havia coveiros trabalhando. O relatório anual oficial da cidade observou que “as funerárias acharam impossível contratar pessoas dispostas a manusear corpos, devido ao estado de

decomposição deles”.10 Quando a tia de Anna Lavin morreu, “eles a levaram ao cemitério. Meu pai levou meu irmão, que também teve a gripe, e eu. Meu irmão foi embrulhado — meu pai o carregava — em um cobertor até o cemitério para fazer uma oração para os mortos (...) As famílias tinham que cavar a própria

cova. Era horrível”.11

Pepper e Martin ofereceram dez dólares por dia para qualquer

um que tocasse em um corpo, mas isso não se mostrou eficaz, e os corpos iam se empilhando. Seminaristas se voluntariaram para ser coveiros, mas ainda não conseguiam alcançar o ritmo. A cidade e a arquidiocese recorreram a equipamentos de construção usando pás a vapor para escavar valas comuns destinadas a enterros em massa. Michael Donohue, um agente funerário, disse: “Trouxeram uma pá a vapor para o Holy Cross Cemitery e, na verdade, escavaram (...) Eles traziam os caixões, faziam as orações nas valas e os enfileiravam, um atrás do outro, esta era a resposta para ajudar as famílias a passarem pelo

processo.”12

Os corpos que apodreciam nas casas e empilhavam-se nos

necrotérios estavam prontos para enfim ir para debaixo da terra.

Para recolhê-los, o arcebispo Denis Doughterty, que acabara

de assumir o posto algumas semanas antes — depois passou a cardeal da arquidiocese —, enviou padres para as ruas a fim de remover os corpos das casas. Eles se juntaram à polícia e a alguns pouco ousados, que faziam o mesmo.

Às vezes, recolhiam os corpos em caminhões. “Tantas

pessoas morreram que a instrução foi pedir caixões de madeira e

pôr os corpos na varanda da frente”, relembrou Harriet Ferrell.13 “Um caminhão aberto passava pelo bairro e pegava os corpos. Não havia lugar para colocá-los, não havia espaço.”

E às vezes recolhiam os corpos em carroças. Daniel, irmão de

Selma Epp, morreu: “[A]s pessoas eram colocadas nessas carroças guiadas por cavalo, e minha tia viu as carroças passando. Ele foi colocado em uma delas; todos estavam fracos demais para protestar. Não havia caixões na carroça, mas os corpos foram embrulhados em uma espécie de aniagem e postos ali, um em cima do outro, pois eram muitos. As carroças eram

conduzidas por cavalos e levavam os corpos embora.”14

Era impossível olhar para o caminhão e as carroças

carregando corpos — enrolados em tecido, empilhados de qualquer jeito sobre outros corpos também enrolados em tecido, braços e pernas em protrusão, corpos rumo a cemitérios para o enterro em valas comuns — ou ouvir o choro dos enlutados e a súplica pelos mortos, e não pensar em outra peste: a peste da Idade Média.

Sob o efeito inicial da explosão de energia, a cidade parecia reagir, responder com vigor e coragem agora que a liderança e a organização pareciam em ordem.

Mas a epidemia não amenizou. A limpeza das ruas não surtiu

efeito, pelo menos não em relação à gripe, e o médico-legista — o homem de Vare — culpou a proibição da venda de bebidas alcoólicas — decretada pelo representante estadual da saúde pública — pelo crescente número de mortes, alegando que o álcool era o melhor tratamento para a gripe.

Praticamente em todas as casas tinha alguém doente. As

pessoas já estavam se evitando, virando de lado se precisassem falar, isolando-se. A empresa de telefonia aumentou o isolamento: com 1.800 empregados das empresas de telefonia fora do trabalho, apenas chamadas de emergência eram permitidas; os operadores ouviam as ligações de maneira aleatória e cortavam a chamada dos que faziam ligações rotineiras. E o isolamento aumentou o medo. Clifford Adams relembrou: “As pessoas foram impedidas de se comunicar, de ir a igrejas, as escolas foram fechadas (...) todos os bares foram

fechados (...) Tudo estava quieto”. 15

Muito provavelmente, meio milhão — possivelmente um

número maior — de cidadãos da Filadélfia ficaram doentes. É impossível ser mais preciso: apesar da nova exigência legal de notificar os casos, os médicos estavam muito ocupados para isso e, de forma alguma, conseguiram atender todas as vítimas. Nem as enfermeiras conseguiram.

As pessoas precisavam de ajuda e, não obstante os esforços

da Emergency Aid, do Conselho de Defesa Nacional e da Cruz Vermelha, era impossível conseguir ajuda.

O Inquirer clamou nas manchetes: “Enfermagem científica

interrompe a epidemia.” 16

Mas não havia enfermeiras.

O registro de uma única organização que enviou enfermeiras

relatou, sem comentar: “O número de chamados recebidos é de

2.955 e o número de chamados não atendidos é de 2.758.” 17 Chamados recebidos: 2.955; chamados não atendidos: 2.758. O relatório ainda apontava que até esses números — 93% de chamados não atendidos, 7% atendidos — eram parcialmente verdadeiros, uma vez que “os chamados atendidos” (...) não representam o número de enfermeiras necessário, já que muitos chamados solicitavam que várias delas fossem para um lugar; dois chamados foram para cinquenta enfermeiras cada”.

As enfermeiras eram necessárias, extremamente necessárias.

Um estudo com 55 vítimas da gripe que não estavam hospitalizadas descobriu que nem uma delas sequer foi atendida por uma enfermeira ou um médico. Dez dos 55 pacientes

morreram. 18

 

A sensação era de que não existia vida antes da epidemia. A doença permeava a ação de cada pessoa na cidade.

O arcebispo liberou freiras para trabalharem nos hospitais,

incluindo os hospitais judeus, e permitiram que elas violassem as regras das ordens religiosas para passar a noite fora do convento e quebrar votos de silêncio. Elas não aliviaram em nada a necessidade.

A essa altura, muitos dos que correram para se voluntariar já

tinham se retirado. Ou o trabalho era repugnante, ou muito árduo, ou eles ficaram doentes. Ou estavam assustados demais. Todos os dias os jornais publicavam apelos cada vez maiores e mais desesperados por voluntários.

Apenas em um dia, em 10 de outubro, a epidemia matou 759

pessoas na Filadélfia. Antes do surto, as mortes decorrentes de todas as causas — todas as doenças, todos os acidentes, todos os suicídios, todos os assassinatos — eram em média de 485 por semana.

O medo começou a fragmentar a cidade. Laços de confiança

se romperam. Começaram a surgir sinais não só de nervosismo, mas de raiva, não só de dedos apontados ou proteção dos próprios interesses, mas sinais de egoísmo em face da calamidade geral. As centenas de milhares de doentes na cidade passaram a ser um fardo pesado demais para carregar. E a cidade começou a explodir em caos e medo.

Os apelos por voluntários ficaram cada vez mais melancólicos

e estridentes. Sob a manchete “Emergency Aid convoca

enfermeiras amadoras”, 19 os jornais publicaram o pedido da sra. Martin: “Nesta crise desesperadora, a Emergency Aid convoca (...) todas aquelas que não estiverem cuidando de doentes em casa e que estejam em boas condições físicas (...) para comparecerem ao número 1.428, na Walnut Street o mais cedo possível no domingo de manhã. O escritório estará aberto o dia todo, e as candidatas serão cadastradas e imediatamente enviadas para trabalhar na emergência.”

Krusen declarou: “É o dever de toda mulher de bem da cidade

que pode se afastar de suas atividades servir como voluntária para essa emergência.”

Mas quem ainda dava ouvidos a ele?

A sra. Martin pediu a ajuda de “todas as pessoas com duas

mãos e dispostas a trabalhar”. 20

Poucas compareceram.

Em 13 de outubro, o Bureau of Child Hygiene implorou

abertamente para que vizinhos aceitassem ficar, pelo menos temporariamente, com crianças cujos pais estavam morrendo ou tinham morrido. A resposta foi quase nula.

Elizabeth Martin apelou: “Simplesmente, precisamos de mais

ajudantes voluntários (...) Já não estamos mais cuidando dos casos ordinários da doença (...) Essas pessoas estão quase todas à beira da morte. Você não poderia pedir a qualquer mulher de boa saúde na Filadélfia, com experiência ou não em

enfermagem, para nos ajudar?”21

Poucas responderam.

A necessidade não era apenas de cuidado médico, mas de

cuidado geral. Famílias inteiras estavam doentes e não tinham quem as alimentasse. Krusen implorou publicamente: “Toda mulher saudável na cidade que possa sair de casa pode servir para combater a epidemia.”

Todavia, àquela altura, a cidade já tinha ouvido apelos o

suficiente e se fechou em si mesma. Não havia confiança, confiança alguma, e sem ela, todas as relações humanas se fragmentam.

Os profissionais continuaram a cumprir seu dever. Uma

médica do Philadelphia Hospital disse que tinha certeza de que morreria se continuasse e fugiu. Mas era raro isso acontecer. Médicos morreram e outros continuaram trabalhando. Enfermeiras morreram, e outras continuaram trabalhando. O Philadelphia Hospital tinha vinte alunas enfermeiras do Vassar College. Duas já tinham morrido, mas as outras “se comportavam

esplendidamente (...) Elas dizem que vão trabalhar muito duro”.22

Outros profissionais fizeram sua parte também. A polícia

realizava seu trabalho com heroísmo. Antes da epidemia, os policiais agiam com frequência como um exército privado submisso à máquina política de Vare. A polícia ficou praticamente sozinha no país quando se posicionou contra a ação da marinha para coibir a prostituição perto das instalações militares. No entanto, quando quatro voluntários foram solicitados ao departamento de polícia para “remover os corpos das camas, colocá-los nos caixões e depois nos veículos”, quando souberam que muitos desses corpos já estavam em decomposição, 118

policiais se ofereceram.23

Todavia, em geral, os cidadãos pararam de responder. Muitas

mulheres foram a um hospital de emergência e deram apenas um plantão. Nunca mais retornaram. Algumas desapareciam no meio do turno. Em 16 de outubro, a enfermeira-chefe do maior hospital da cidade disse a um conselho consultivo: “[A]s voluntárias nas enfermarias são inúteis (...) [E]las têm medo. Muitas pessoas se voluntariaram, mas depois se negavam a ter

contato com os pacientes.” 24

A taxa de perda de voluntários mesmo quando não havia

contato com o doente — nas cozinhas, por exemplo — era um pouco melhor. A sra. Martin por fim tornou-se amarga e insolente: “Centenas de mulheres que estão se contentando em ficar de braços cruzados (...) tiveram sonhos incríveis no papel de anjo misericordioso, tiveram vaidade inconcebível para imaginar que fossem capazes de um grande espírito de sacrifício. Nada parece despertá-las agora. Elas foram avisadas de que há famílias com todos os membros doentes, em que as crianças estão de fato morrendo de fome porque não há ninguém para alimentá-las. A taxa de mortalidade é muito alta, e elas ainda estão

hesitantes.”25

Susanna Turner, que se voluntariou em um hospital de

emergência e permaneceu ajudando, indo para lá todos os dias, recordou: “O medo no coração das pessoas apenas as definhava (...) Elas tinham medo de sair, medo de fazer qualquer coisa (...) Vivia-se um dia de cada vez, fazia-se o que tinha que ser feito e não se pensava sobre o futuro (...) Se você pedisse ajuda a um vizinho, não haveria ajuda porque ninguém estava se arriscando. Se não tinham a doença em casa, não levá-la para dentro (...) Não havia o mesmo espírito de caridade que se tem na normalidade — quando alguém estava doente, você ia ajudar —, mas naquela época as pessoas ajudavam a si mesmas. Foi uma

época de horror.”26

Os profissionais eram heróis. Os médicos, as enfermeiras e os

alunos de medicina e de enfermagem, que morriam aos montes, não cruzaram os braços de forma alguma. E havia outras pessoas. Ira Thomas era o receptor do time de beisebol do Philadelphia Athletics. A temporada de beisebol fora encurtada por Crowder com sua ordem de “trabalhar ou combater”, uma vez que o esporte foi considerado trabalho não essencial. A esposa dele tinha 1,83 metro de altura, ossatura larga e era forte. Eles não tinham filhos. Todos os dias ele levava os doentes em seu carro até o hospital e ela trabalhava em um hospital de emergência. É claro que havia outras pessoas, mas eram

poucas. 27

“Ajudar?”, disse Susanna Turner. “Ninguém ia arriscar, todos

se recusavam por estar com tanto pânico, de fato estavam, tinham receio de que os parentes morressem, porque muitos morreram — simplesmente caíam mortos.” Ninguém podia comprar as coisas. Os distribuidores de mercadoria, carvão e donos de mercearias fecharam “porque os compradores estavam doentes ou com medo, e eles não tinham razão para ter medo”.

Só na semana de 16 de outubro, 4.597 cidadãos da Filadélfia

morreram de gripe ou de pneumonia, e a gripe matava mais indiretamente. Seria a pior semana da epidemia. Mas ninguém sabia disso naquela época. Krusen disse muitas vezes que o ápice já havia passado. A imprensa já divulgara muitas vezes o triunfo sobre a doença.

Até mesmo as indústrias de guerra, apesar de as campanhas

de propaganda em massa dizerem aos operários que a vitória dependia da produção deles, sofreram com ausências maciças. Anna Lavin disse: “Não trabalhávamos. Não podíamos ir ao trabalho. Ninguém vinha trabalhar.” Até os que não estavam doentes “ficavam em casa. Todos estavam com medo”.

Entre 20 e 40% dos operários da Balwin Locomotive, da

Midvale Steel, da Sun Shipbuilding, cada fábrica empregando milhares, faltaram ao trabalho. Em praticamente toda empresa empregadora de grande porte, enormes porcentagens de funcionários estavam ausentes. Três mil e oitocentos funcionários da Pennsylvania Railroad não compareciam ao trabalho. As ferrovias de Baltimore e Ohio construíram os próprios hospitais de emergência ao lado dos trilhos. Todo o sistema de transporte para a região do Médio Atlântico cambaleou e estremeceu, pondo em risco a maior parte da produção industrial do país.

A cidade estava se esfacelando. Os órfãos tornavam-se um

problema. As agências de serviço social que, sem sucesso, tentaram alimentar e levar as pessoas até os hospitais, começaram a fazer um planejamento para os órfãos também.