A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 14 de 43

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A Grande Gripe

Capítulo treze

 

M C testou o novo soro em pacientes pela primeira vez, a substância se mostrou promissora. Ele e Avery imediatamente dedicaram-se a refinar seus procedimentos em laboratório, seus métodos de infectar cavalos e de produzir soro, sua maneira de administrá-lo. Começaram então uma cuidadosa série de testes com um produto finalizado e descobriram que a administração de grandes doses de soro — meio litro — por via intravenosa reduzia a taxa de mortalidade das pneumonias tipo I em mais da metade, de 23% para 10%.

Não era uma cura. Pneumonias causadas por outros tipos de

pneumococos não cederam tão facilmente. E, como Avery e Cole

declararam, “a proteção no homem é inferior à que há em ratos”. 1

Mas, de todas as pneumonias, as causadas por pneumococos

tipo I eram as mais comuns. Reduzir a taxa de mortalidade em mais da metade na pneumonia mais comum era um progresso, um progresso real, suficiente ao ponto de, em 1917, o instituto publicar uma monografia de 90 páginas assinada por Cole, Avery, Dochez e Henry Chickering, outro jovem cientista do Rockefeller, intitulada “Prevenção de pneumonia lobar aguda e tratamento sérico”.

Foi um trabalho histórico, pela primeira vez explicando passo a

passo uma maneira de preparar e usar um soro que poderia curar a pneumonia. E, além disso, que antecipou muito os surtos da doença em alojamentos do exército ao observar que: “A pneumonia provavelmente será a maior causa de mortes desta

guerra.” 2 Em outubro de 1917, Gorgas disse aos comandantes do hospital do exército que, “tendo em vista a probabilidade de a pneumonia ser uma das doenças mais relevantes entre as

tropas”,3 eles deveriam enviar ainda mais médicos ao Rockefeller Institute para que aprendessem a preparar e administrar o soro. Avery, ainda soldado, já estava desviando tempo de sua pesquisa para ensinar bacteriologia aos oficiais alocados nas bases militares. Agora, ele e seus colegas também ensinavam a soroterapia. Seus alunos, em vez de chamá-lo de “soldado”, dirigiram-se a ele respeitosamente como “professor”, apelido que já havia sido dado ocasionalmente a ele. Seus colegas abreviaram para “Fess”, apelido que o acompanhou pelo resto da vida.

Simultaneamente, Cole, Avery e Dochez desenvolviam uma

vacina para prevenir pneumonia causada por pneumococos tipos I, II e III. Depois de provar que funcionava em animais, eles e seis outros pesquisadores do Rockefeller se transformaram em cobaias e, para testar a segurança do uso da vacina em seres humanos, aplicaram doses maciças uns nos outros. Todos

tiveram reações negativas e três tiveram reações graves. 4 Decidiram então que a vacina era perigosa demais para ser administrada naquelas doses, mas planejaram outro experimento com doses mais baixas, uma vez por semana, durante quatro semanas, o que dava aos receptores tempo para aumentar gradualmente a imunidade.

Essa vacina chegou tarde demais para causar qualquer

impacto em larga escala na epidemia de sarampo, mas, em Camp Gordon, nos arredores de Atlanta, uma vacina contra a cepa de pneumococo que causava a maioria das pneumonias foi testada em cem homens com sarampo, sendo cinquenta

vacinados e cinquenta formando o grupo de controle. 5 Apenas dois dos vacinados desenvolveram a pneumonia em comparação com 14 não vacinados.

Enquanto isso, Cole escreveu ao coronel Frederick Russell —

que, durante sua própria carreira científica no exército, havia melhorado significativamente a vacina contra a febre tifoide — a respeito do “progresso que já fizemos na questão da vacinação

profilática contra pneumonia”. 6 Mas Cole acrescentou: “A fabricação de vacina em grandes quantidades será um grande problema, muito mais difícil do que a fabricação da vacina contra febre tifoide. Tenho feito uma organização para que grandes quantidades de meios necessários possam ser preparadas e para que a vacina possa ser produzida em larga escala.”

A organização de Cole estava pronta para um grande teste em

março de 1918, justamente quando a gripe começou a aparecer entre os soldados do Kansas. A vacina foi administrada a 12 mil homens na base de Upton, em Long Island, o que consumiu todas as vacinas disponíveis, enquanto 19 mil soldados serviram como controle, sem receber vacina. Nos três meses seguintes, nem um único soldado vacinado desenvolveu pneumonia causada por qualquer um dos tipos de pneumococos vacinados

contra. Os controles sofreram 101 casos.7 Não era um resultado absolutamente conclusivo, porém era mais do que sugestivo. E também um resultado muito melhor do que o alcançado em qualquer outro lugar do mundo. O Pasteur Institute também estava testando uma vacina contra pneumonia, mas sem

sucesso. 8

Se Avery e Cole conseguissem desenvolver um soro ou uma

vacina com eficácia comprovada contra o capitão da morte... Se conseguissem realizar esse feito, seria o maior triunfo já experimentado pela ciência médica.

 

Tanto a perspectiva de finalmente ser capaz de derrotar a pneumonia quanto impedir sua aparição nas bases militares apenas intensificou a determinação de Gorgas de encontrar um modo de limitar sua letalidade. Ele pediu para Welch criar e presidir um conselho especial sobre a doença. Gorgas queria que o conselho fosse administrado, literalmente, de dentro do próprio escritório: a mesa de Welch ficava no escritório pessoal de Gorgas.

Welch reclamou e telefonou para Flexner. Os dois

concordaram que o melhor homem do país, e provavelmente do mundo, para presidir esse conselho era Rufus Cole. No dia seguinte, Flexner e Cole pegaram um trem para Washington para

encontrar Gorgas e Welch no Cosmos Club.9 Lá, escolheram os membros do conselho de pneumonia, um conselho que receberia apoio de conhecimento e recursos de Gorgas, Welch, Flexner e das instituições que representavam.

E escolheram bem. Cada pessoa selecionada futuramente

seria eleita como membro da Academia Nacional de Ciências, sem dúvida a organização científica mais exclusiva do mundo.

Avery, é claro, lideraria as investigações laboratoriais e ficaria

em Nova York. A maioria dos demais trabalharia em campo. O tenente Thomas Rivers, formado na Hopkins e protegido de Welch, viria a se tornar um dos principais virologistas do mundo e sucederia Cole como diretor do hospital do Rockefeller Institute. O tenente Francis Blake, outro pesquisador do Rockefeller, se tornaria reitor da Faculdade de Medicina de Yale. O capitão Eugene Opie, considerado um dos mais brilhantes estudantes de patologia de Welch, já era reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington quando ingressou no exército. Colaborando com eles, embora não fossem membros de fato do conselho, estavam os futuros ganhadores do prêmio Nobel Karl Landsteiner, do Rockefeller, e George Whipple, da Hopkins. Anos depois, outro cientista do Rockefeller lembraria: “Foi realmente

um privilégio fazer parte da equipe de pneumonia.”10 Rotineiramente — se é que algo de tamanha urgência pudesse ser descrito como rotina —, Cole viajava até Washington para discutir as últimas descobertas com Welch e os oficiais médicos do exército no escritório de Gorgas. Cole, Welch, Victor Vaughan e Russel também realizavam visitas de inspeção mais rigorosas aos acantonamentos, verificando tudo, desde a qualidade dos médicos, bacteriologistas e epidemiologistas até a maneira como

a louça era lavada nas cozinhas. 11 Todas as recomendações que faziam eram imediatamente ordenadas para serem realizadas. Mas eles não ditavam simplesmente; muitos dos hospitais e laboratórios de campo eram dirigidos por homens que eles respeitavam, e, portanto, o grupo também estava aberto a ouvir suas ideias.

No final da primavera americana, Cole relatou à Associação

Médica Americana uma de suas conclusões sobre o sarampo: “parece tornar a membrana mucosa respiratória especialmente suscetível a infecções secundárias.” Ele também acreditava que essas infecções secundárias, como o próprio sarampo, “ocorrem principalmente em forma epidêmica. Todo novo caso de infecção aumenta não apenas a extensão, como também a intensidade da

epidemia”.12

Em 4 de junho de 1918, Cole, Welch e vários outros membros

do conselho de pneumonia apareceram no escritório de Gorgas mais uma vez, agora com Hermann Biggs, comissário de saúde do estado de Nova York, Milton Rosenau, o proeminente cientista de Harvard que na época era comandante da marinha, e L. Emmett Holt, um dos que contribuíram para a fundação do Rockefeller. Dessa vez, a discussão foi ampla, com foco em estratégias para minimizar a possibilidade de algo pior do que a epidemia de sarampo. Todos estavam preocupados com o pesadelo de Gorgas.

Não estavam particularmente preocupados com a gripe,

apesar de estarem rastreando os surtos da doença. Naquele momento, eram surtos leves, nem de perto tão perigosos quanto a epidemia de sarampo. Eles sabiam que, quando mata, a gripe mata por pneumonia, mas Gorgas já havia solicitado ao Rockefeller Institute que acelerasse o estudo e a produção do soro e da vacina, e tanto o instituto quanto a Escola de Medicina do exército haviam lançado grandes esforços para tal.

A conversa passou então do laboratório para questões

epidemiológicas. As visitas de inspeção dos campos convenceram Welch, Cole, Vaughan e Russell de que infecções cruzadas haviam causado muitas das mortes por pneumonia relacionadas ao sarampo. Para evitar esse problema, Cole sugeriu a criação de enfermarias de doenças contagiosas com equipes especialmente treinadas, algo que os melhores hospitais civis tinham. Welch observou que os britânicos tinham hospitais de isolamento com administrações totalmente separadas e sob rígida disciplina. Outra solução possível para deter a infecção cruzada envolvia o uso de cubículos em hospitais — criando um conjunto de partições em torno dos leitos.

Também discutiram a superlotação em hospitais e o

isolamento das tropas. Desde 1916, o exército canadense vinha isolando todos os soldados que chegavam à Grã-Bretanha durante 28 dias para impedir que infectassem soldados treinados

e prontos para irem para o front. 13 Welch aconselhou que fossem criados “campos de detenção semelhantes para novos recrutas, onde os homens seriam mantidos por períodos de 10 a 14

dias”.14

Todos reconheciam a dificuldade de convencer o exército a

fazer isso, ou de convencer o exército a acabar com o problema ainda mais sério da superlotação nos quartéis.

Mesmo assim, outro oficial médico do exército trouxe uma boa

notícia: segundo ele o problema de superlotação nos hospitais havia sido eliminado. Todos as instalações médicas do exército tinham pelo menos cem leitos vazios em 15 de maio, totalizando 23 mil leitos desocupados. Todas as estatísticas epidemiológicas coletadas pelo exército mostravam uma saúde geral melhorada. Esse oficial insistiu que as instalações e o treinamento eram adequados.

O tempo diria.

 

O homem pode ser definido como ‘moderno’ em grande parte na medida em que tenta controlar a natureza em vez de se ajustar a ela. Nessa relação, a humanidade moderna geralmente tem sido a agressora e a mais ousada, alterando o fluxo dos rios, construindo falhas geológicas e, hoje, trabalhando na genética de espécies existentes. De modo geral, a natureza tem sido lânguida em sua resposta, embora seja contenciosa quando despertada e, ocasionalmente, demonstre talento para a violência.

Em 1918, a humanidade era totalmente moderna e científica,

mas estava ocupada demais lutando contra si mesma para se voltar contra a natureza. A natureza, no entanto, escolhe seus próprios momentos. Ela escolheu aquele momento para agredir o homem, e não o fez com uma cutucada lânguida. Pela primeira vez, a humanidade moderna, uma humanidade praticando o método científico moderno, enfrentaria a natureza em sua fúria máxima.