A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 4 de 43

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A Grande Gripe

Capítulo três

 

O W rapidamente se tornou muito popular. Alunos de todas as três faculdades de medicina da cidade de Nova York logo formaram filas para participar das aulas, atraídos, assim como Welch, por essa nova ciência, pelo microscópio, pelos experimentos. E Welch não só ensinava como também era uma inspiração. Seus comentários pareciam tão sólidos, tão bem fundamentados, tão bem justificados. Um colega observou que

“ele transbordava conhecimento”.1 E empolgação! Cada vez que um aluno fixava uma amostra em uma lâmina e a observava pelo microscópio, um universo inteiro se abria para ele! Para alguns, descobrir aquele universo, entrar nele e começar a manipulá-lo era como criá-lo; eles devem ter se sentido como deuses.

O College of Physicians and Surgeons teve de oferecer um

curso em laboratório para competir com as aulas de Welch. A instituição implorou para que ele fosse o professor. Por lealdade à Bellevue, ele recusou a oferta, mas recomendou a contratação de T. Mitchell Prudden, um americano que conhecera — e considerava um rival para a vaga na Hopkins — na Europa. Foi a primeira das incontáveis ofertas de trabalho que ele articulou. Um de seus alunos se lembrou “do olhar sério e ávido, do sorriso no rosto e do interesse pelos jovens que o cercavam. Ele estava sempre disposto a largar qualquer tarefa em que estivesse envolvido para responder até a perguntas triviais sobre qualquer tema — na verdade, ninguém ficava sem resposta, uma vez que ele tinha o conhecimento de uma enciclopédia. Meu instinto me dizia que a permanência dele em Bellevue era um desperdício, e

seu destino era ter um círculo maior de ouvintes”. 2

No entanto, apesar da multidão de alunos motivados que

faziam os dois cursos, nem Prudden nem Welch prosperaram. Passaram-se dois, três, quatro anos. Para pagar as contas, Welch realizava autópsias em um hospital estadual, era assistente de um médico importante e atuava como monitor de estudantes de medicina na preparação para as provas finais. Aos trinta anos, não fazia ciência de verdade, mas ia construindo uma reputação, e estava claro que, se ele se concentrasse na prática, ficaria rico. Fazia-se pouca pesquisa na área de medicina nos Estados Unidos — ainda que o pouco realizado fosse significativo —, mas Welch não tinha participação alguma nisso. A ciência na Europa marchava de um avanço a outro, de uma descoberta a outra. A mais importante era a teoria do germe da doença.

 

Comprovar e desenvolver a partir da teoria do germe acabaria abrindo o caminho para confrontar todas as doenças infecciosas. Também criaria um arcabouço conceitual e produziria ferramentas técnicas que Welch e outros usaram depois para combater a gripe.

Resumindo, a teoria do germe dizia que minúsculos

organismos vivos invadiam o corpo, multiplicavam-se e causavam uma doença e que um germe específico provocava uma doença específica.

Havia a necessidade de uma nova teoria da doença. Com o

avanço do século XIX, quando as descobertas feitas por autópsias foram correlacionadas a sintomas relatados ao longo da vida, os órgãos de animais e cadáveres foram observados sob as lentes de um microscópio, os órgãos normais foram comparados àqueles doentes e as doenças passaram a ser mais definidas, localizadas e específicas, os cientistas enfim descartaram as ideias relativas à doença sistêmica e à teoria dos humores de Hipócrates e Galeno e começaram a buscar explicações mais elaboradas.

Três teorias rivalizaram com a teoria dos germes. A primeira envolvia o “miasma”. Algumas variações desse

conceito já existiam, mas elas basicamente argumentavam que muitas doenças eram causadas por algum tipo de putrefação na atmosfera ou por alguma influência climática ou por vapores tóxicos provenientes de materiais orgânicos em decomposição. (Na China, o vento era originalmente considerado o demônio que causava doenças.) Os miasmas, em especial, soavam como uma boa explicação para a epidemia, e a insalubridade de regiões pantanosas parecia dar suporte à teoria. Em 1885, quando Welch considerou que a teoria do germe estava comprovada, o Conselho de Saúde da cidade de Nova York advertiu que “instalar todos os fios de telefonia na rede subterrânea em apenas uma estação do ano (...) seria altamente prejudicial à saúde da cidade (...) por causa da exposição da atmosfera a uma quantidade excessiva de subsolo saturado, como é a maior parte dele, de gases nocivos (...) Os edifícios no Harlem [tinham] um volume suficiente de sujeira em putrefação capaz de gerar gases

fétidos e envenenar metade da população”. 3 Até a década de 1930, um epidemiologista britânico renomado e muito respeitado continuava a defender a teoria miasmática e, após a pandemia da gripe em 1918, as condições climáticas foram esmiuçadas em busca de correlações.

A teoria “da sujeira” da doença foi quase uma conclusão da

teoria miasmática. Também se encaixava com mais perfeição nos costumes vitorianos. O medo do “gás do pântano” — muitas vezes um eufemismo para o cheiro de fezes — e a instalação de banheiros internos foram parte de um impulso vitoriano para melhorar as condições sanitárias e separar o corpo humano de qualquer coisa que os vitorianos considerassem repugnante. E sujeira em geral está associada a doença: os piolhos transmitem tifo; a água contaminada espalha a febre tifoide e a cólera; as pulgas dos ratos propagam pestes.

As teorias miasmática e da sujeira tinham adeptos

sofisticados, incluindo autoridades de saúde pública e alguns cientistas extremamente talentosos, mas o maior rival científico da teoria do germe explicava a doença em termos de química puramente, pois via a doença como um processo químico. Essa teoria tinha muitos atrativos.

Não só os cientistas usaram a química como uma lente que

pôs grande parte da biologia em foco, mas também algumas reações químicas pareciam imitar a maneira como as doenças agiam. Por exemplo, os defensores da teoria química da doença argumentavam que o fogo era um processo químico e que um simples fósforo poderia gerar uma reação em cadeia que incendiaria uma floresta ou cidade inteira. A hipótese deles sugeria que substâncias químicas a que chamavam de “zimos” agiam como um fósforo. Um zimo iniciava uma série de reações químicas no corpo que poderiam iniciar o equivalente à fermentação — infecção. (A teoria química da doença, sem esse nome, tem, na realidade, sido amplamente validada. Os cientistas demonstraram com clareza que as substâncias químicas, a radiação e os fatores ambientais podem causar doenças, embora em geral apenas por meio de exposição maciça e a longo prazo, e não de acordo com a hipótese da teoria zimótica, ao subitamente desencadear um efeito em

cascata.)4

No final das contas, essa teoria foi desenvolvida a ponto de

sugerir que os zimos poderiam se reproduzir no corpo; portanto, agiam como catalisadores e organismos vivos. De fato, essa versão mais sofisticada da teoria zimótica, em essência, descreve o que se chama hoje de vírus.

No entanto, essas teorias deixaram muitos cientistas

insatisfeitos. A doença, em geral, parecia germinar, crescer e se espalhar. Não deveria então haver um ponto de origem, uma semente? Em seu ensaio de 1840, “On Miasmata and Contagia” [Sobre a teoria miasmática e contágio], Jacob Henle primeiro formulou a teoria moderna do germe; ele também mostrou evidências para ela e estabeleceu critérios que, se atendidos, poderiam comprová-la.

Então, em 1860, Pasteur comprovou que os organismos vivos,

e não uma reação química em cadeia, causavam fermentação, o que conquistou adeptos à teoria do germe. Um dos primeiros e mais importantes adeptos foi Joseph Lister, que imediatamente aplicou essas descobertas à cirurgia, instituindo condições antissépticas nas salas de operação e reduzindo de maneira drástica a porcentagem de pacientes que morriam de infecção após a cirurgia.

No entanto, o trabalho de Robert Koch foi o mais convincente.

O próprio Koch era convincente. Filho de um engenheiro e brilhante a ponto de aprender a ler sozinho aos cinco anos, Koch estudou sob a supervisão de Henle, recebeu ofertas para trabalhar como pesquisador, mas tornou-se médico para sustentar a família. Todavia, ele não parou de investigar a natureza. Trabalhando sozinho, conduziu uma série de experimentos que atendiam aos testes mais rígidos e descobriu o ciclo de vida completo do bacilo do antraz, mostrando que ele formava esporos que poderiam permanecer inativos no solo durante anos. Em 1876, Koch entrou no laboratório de Ferdinand Cohn, um dos mentores de Welch, e apresentou suas descobertas, que lhe deram fama instantânea.

Em seguida, ele estabeleceu o que ficaria conhecido como “os

postulados de Koch”, embora Henle tenha proposto quase o mesmo anteriormente. Os postulados de Koch determinam que, antes de se dizer que um micro-organismo causa determinada doença, primeiro os pesquisadores têm que encontrar o germe em todos os casos da doença; em segundo lugar, eles precisam isolar o germe em cultura pura; em terceiro, devem inocular um animal suscetível ao germe e esse animal então tem que pegar a doença; e, em quarto lugar, o germe precisa ser isolado do animal sendo testado. Os postulados de Koch passaram a ser um padrão quase imediatamente. (Atender ao padrão não é simples; encontrar um animal para testes que apresentou os mesmos sintomas dos humanos quando infectados com um patógeno humano, por exemplo, nem sempre é possível.)

Em 1882, a descoberta de Koch sobre o Mycobacterium

tuberculosis, a causa da tuberculose, estremeceu o mundo científico e confirmou depois a teoria do germe. A tuberculose matava. Os leigos a chamavam de “consumpção” [em inglês consumption], e esse nome dava uma ideia do terror da doença, que consumia as pessoas. Assim como o câncer, atacava jovens e idosos, sugava-lhes a vida, transformava-os em esqueletos caquéticos e depois os matava.

É inegável a importância da descoberta de Koch àqueles que

acreditam em bacteriologia. Em Nova York, um dos amigos de Welch foi correndo até o quarto dele com um jornal que noticiava a descoberta. Welch pulou da cama, e os dois correram para dar a notícia para outro amigo. Logo depois, Welch sentiu a empolgação de perto. Ele demonstrou a descoberta para sua turma ao copiar o método de Koch, e os alunos observaram um vapor subindo da placa enquanto ele pingava carbolfuscina no escarro de um paciente tuberculoso. A coloração ficou aglutinada ao bacilo e se tornou visível em uma lâmina. Eis a novidade e a grandiosidade das descobertas! Os alunos analisaram a lâmina pelo microscópio, viram o que Koch havia observado e ficaram eletrizados — muitos deles se lembravam do momento com detalhes anos depois. Um desses alunos era Hermann Biggs, que se tornou um gigante pelos próprios méritos; naquele momento, ele decidiu dedicar a vida à bacteriologia.

Entretanto, para Welch, reproduzir a descoberta de Koch

trouxe, provavelmente, um gosto um pouco amargo. Ele conhecia os alemães e praticamente todos aqueles homens que se aventuraram no desconhecido da ciência. Todavia, agora ele estava apenas acompanhando o trabalho deles, e não desenvolvendo o próprio.

Depois, em 1833, Koch alcançou o primeiro grande triunfo da

ciência sobre a doença. Mais cedo, ainda no século XIX, duas epidemias de cólera devastaram a Europa e os Estados Unidos. Quando uma nova epidemia no Egito ameaçou as fronteiras da Europa, a França despachou os pesquisadores nesse novo campo da bacteriologia para rastrear a causa da doença. A Alemanha enviou Koch.

Antes disso, os grandes sucessos da medicina apareceram

quase por acaso, a começar com uma observação. Com a varíola, Jenner começou a levar a sério as experiências do povo do campo que se inoculava. Mas não lá. Nesse caso, o alvo havia sido estabelecido antes. Tanto os franceses quanto Koch desenvolveram racionalmente uma abordagem e depois voltaram as ferramentas gerais do laboratório e da bacteriologia para um alvo em particular.

Os franceses falharam. Louis Thuillier, o membro mais jovem

da expedição, morreu de cólera. Apesar da rivalidade nacionalista e feroz entre Pasteur e Koch, este retornou para a França com o corpo de Thuillier, carregou o caixão no velório e jogou no túmulo uma coroa de louros, “como a que é concedida

aos bravos”. 5

Koch então retornou ao Egito, isolou o bacilo da cólera e o

seguiu até a Índia para explorar seus achados com mais profundidade. Um estudo epidemiológico anterior, de John Snow, em Londres, comprovou apenas em parte que a água contaminada causava a doença. Agora, junto à evidência de Koch, a teoria do germe parecia ter sido demonstrada com a cólera e, por implicação, a própria teoria do germe parecia comprovada.

A maioria dos principais médicos do mundo todo, incluindo os

dos Estados Unidos, concordou com uma declaração de um importante especialista americano em saúde pública em 1885: “O

que era teoria tornou-se fato.” 6

No entanto, uma minoria, tanto nos Estados Unidos quanto na

Europa, ainda resistia à teoria do germe, acreditando que Pasteur, Koch e outros haviam comprovado que os germes existiam, mas não que causavam doenças — ou pelo menos que

 

não eram a única causa da doença. *

O crítico mais notável foi Max von Pettenkofer, que fizera

importantes e verdadeiras contribuições científicas. Ele insistiu que as bactérias de Koch eram apenas um dos muitos fatores causadores da cólera. Sua disputa com Koch se tornou muito amarga e apaixonada. Com um quê de Barnum e de um equilibrista na corda bamba, Pettenkofer, determinado a mostrar que estava certo, preparou tubos de ensaio com uma grande quantidade de bactéria letal causadora de cólera. Em seguida, ele e outros alunos beberam a solução. Incrivelmente, embora dois alunos tenham desenvolvido casos secundários de cólera, todos sobreviveram. Pettenkofer cantou vitória e declarou vingança.

Isso custou caro. Em 1892, a cólera contaminou a água que

abastecia Hamburgo e Altona, na época uma cidade adjacente menor. Em Altona, a água foi filtrada, e os cidadãos escaparam da doença; já em Hamburgo, não, e 8.606 pessoas morreram de cólera. Pettenkofer não só foi ridicularizado como insultado. Tempos depois, ele se suicidou.

Ainda não havia cura para a cólera, mas naquele momento a

ciência demonstrava — os mortos em Hamburgo eram a evidência final — que proteger o abastecimento de água e fazer testes bacteriológicos seriam ações preventivas contra a doença. Depois disso, apenas um grupo isolado e desacreditado de teimosos continuou a rejeitar a teoria do germe.

Àquela altura, Welch já tinha chegado à Hopkins. Não foi uma

jornada fácil até Baltimore.

 

Quando a oferta enfim surgiu em 1884, Welch já estava confortável em Nova York, e a riqueza estava a seu alcance. Praticamente todo aluno que participara de seu curso em algum momento tinha o maior respeito por ele, e agora muitos eram médicos. Ele já construíra uma reputação, que, junto a seu charme, foi a porta de entrada para a sociedade, como ele desejava.

O amigo mais próximo era o colega da escola preparatória,

Frederick Dennis, filho abastado de um magnata da via férrea e também médico que estudara na Alemanha. Em toda oportunidade, Dennis impulsionava a carreira de Welch, enaltecendo seu talento para os editores de periódicos científicos e usando seus contatos na sociedade para ajudá-lo em Nova York, às vezes até o subsidiando de forma indireta. De fato, Dennis se comportou mais como um amante tentando ganhar afeto do que como um amigo, mesmo um amigo próximo.

Mas Dennis sempre exigiu um tipo de lealdade, e Welch

estava disposto, até então, a atendê-lo. Dennis exigiu que Welch ficasse em Nova York. Com a não concordância imediata de Welch, Dennis orquestrou uma campanha elaborada para mantê-lo lá. Ele convenceu o pai de Welch a aconselhar o filho a ficar, convenceu Andrew Carnegie a doar 50 mil dólares para um laboratório de Bellevue e convenceu a própria Bellevue a garantir outros 45 mil dólares; essa quantia se equipararia à de qualquer outro laboratório em Baltimore. E não foi só Dennis que implorou para Welch ficar. Um advogado importante cujo filho fora aluno de Welch alertou-o de que ir para Baltimore seria “o erro de sua vida. Em um século, nenhum homem de sua idade adquiriu a reputação que você conquistou”. Até mesmo o presidente da United States Trust Company enviou uma mensagem dizendo que “por mais brilhante que seja o futuro em Baltimore, ainda é um breu quando comparado à carreira” que o aguardava em

Nova York.8

A pressão surtiu efeito. Dennis conseguiu fazer com que

Welch estabelecesse condições que, se atendidas, fariam com que ele ficasse. Welch tinha suas dúvidas, algumas relacionadas à própria aptidão. Ele quase não tinha feito ciência de verdade desde que retornara da Alemanha. Ele apenas falou por anos sobre como a necessidade de se sustentar o impedia de conduzir uma pesquisa original.

A Hopkins esperava mais do que conversa. Já estava aberta

havia oito anos e, por menor que fosse, já tinha adquirido reputação internacional. Welch confessou à madrasta: “Esperam-se tantas coisas grandiosas do corpo docente da Johns Hopkins quanto a conquistas e à reforma da educação em medicina que sinto o peso da responsabilidade. Uma reputação lá não será

conquistada tão facilmente quanto em Bellevue.” 9

No entanto, exatamente por essa razão a Hopkins ofereceu,

escreveu ele, “sem dúvida, a melhor oportunidade do país”. A recusa revelaria sua hipocrisia e covardia. Enquanto isso, em Nova York, as condições que ele estabelecera não tinham sido atendidas, embora Dennis as desse como algo já resolvido.

Welch aceitou a oferta da Hopkins.

Dennis ficou furioso. A amizade com Welch tinha sido, pelo

menos por parte de Dennis, de grande profundidade e intensidade emocional. Agora ele se sentia traído.

Welch confidenciou à madrasta: “Sofro pelo fato de a amizade

de uma vida toda chegar ao fim, mas (...) parece que o dr. Dennis pensava que era dono do meu futuro. Quando ele apelou para o que fizera por mim, eu lhe disse que aquele era um assunto que

de forma alguma eu discutiria com ele.” 10

Depois Dennis enviou uma carta a Welch rompendo relações

formalmente, uma carta escrita com tanta intensidade que Dennis pediu que Welch a queimasse após ler.

Para Welch, o fim da amizade também foi intenso. Ele não

teria outro amigo. Ao longo da maior parte da metade seguinte do século, o colaborador mais próximo de Welch seria seu pupilo, Simon Flexner. Juntos, alcançariam grandes feitos. E mesmo assim Flexner também foi obrigado a se manter distante. Após a separação de Welch e Dennis Flexner escreveu: “Ele nunca mais permitira a aproximação de qualquer pessoa, mulher ou colega (...) O cientista bacharel se transferiu para um plano elevado de

solidão que pode ter mantido parte de seu poder em segredo.”11

Pelo resto da vida, Welch permaneceria sozinho. Mais do que

apenas sozinho, ele nunca se aprofundava, nunca se entrincheirava, nunca criava raízes.

Ele nunca se casou. Apesar de trabalhar com os outros de

uma forma que as pessoas colaboram entre si como camaradas, com a única exceção possível do grande e estranho cirurgião William Halsted — sendo esta apenas uma possibilidade

 

aventada — ninguém tinha conhecimento de qualquer relação **

íntima, sexual ou de qualquer outro tipo de Welch com um homem ou uma mulher. Embora tivesse morado em Baltimore por cerca de cinquenta anos, Welch nunca teve uma casa ou apartamento próprio; apesar de ter acumulado uma boa quantidade de dinheiro, ele morava como pensionista e ocupava dois quartos na casa da mesma proprietária, tendo a acompanhado quando ela se mudou e permitindo que a filha dela o herdasse como hóspede na casa. Jantava quase todos os dias em um clube de cavalheiros, restringindo-se a um mundo de homens, charutos e conversas triviais pelo resto da vida. E, como observou um jovem colega, ele “deliberadamente rompia as

relações que poderiam se estreitar”.12

Embora superficialmente tivesse uma vida comum, na

verdade, ele não era comum. Ele era livre, não apenas sozinho, mas livre, sem os entrelaçamentos com as pessoas, livre do ônus dos bens, completamente livre.

Era livre para fazer coisas extraordinárias.

 

Na Hopkins — ao longo de décadas, passou a ser chamada apenas de “Hopkins” — esperava-se que Welch criasse uma instituição que alteraria a medicina dos Estados Unidos para sempre. Quando ele aceitou esse cargo em 1884, tinha 34 anos.

A Hopkins continuou a conquistar seus objetivos direta e

indiretamente. Servia de lar, ainda que temporariamente, à grande parte da primeira geração de homens e mulheres que começavam a transformação da ciência da medicina dos Estados Unidos. E seu exemplo forçou outras instituições a seguir o mesmo caminho — ou a desaparecer.

Durante o processo, Welch foi acumulando grande poder aos

poucos, como quando um colecionador monta uma coleção. O primeiro passo foi voltar para a Alemanha. Já tendo trabalhado como subordinado de Cohn, para quem Koch havia levado os estudos sobre o antraz, Carl Ludwig e Cohnheim — três dos principais cientistas no mundo —, e tendo conhecido o jovem Paul Ehrlich, o das mãos multicoloridas que pingavam corante e cujas ideias combinavam com seu conhecimento de química, foi possível para Welch fazer algumas das maiores contribuições teóricas à medicina.

Welch passou a visitar quase todo pesquisador importante na

Alemanha. Ele tinha voz agora e relatou alegremente que a Hopkins “já tinha uma reputação na Alemanha, enquanto as faculdades de medicina de Nova York nem eram conhecidas pelo

nome”.13 Ele conseguia entreter as pessoas com histórias, recitar um soneto de Shakespeare ou convencer a aplicar uma enorme e crescente gama de conhecimento científico. Até os cientistas mais competitivos e quase paranoicos abriram as portas de seus laboratórios e lhe confidenciaram suas pesquisas. A combinação de sua amplitude e inteligência permitia-lhe enxergar a profundidade dos trabalhos e as mais amplas implicações.

Ele também aprendeu bacteriologia com dois pupilos de Koch.

Um deles deu uma “aula” para alunos que eram cientistas de diversos lugares do mundo, muitos deles já renomados. Nesse grupo, Welch também brilhou, pois os colegas lhe concederam a honra de oferecer o primeiro brinde em homenagem ao professor em um banquete de despedida. E Welch aprendera muito com Koch, o maior nome na ciência, que o aceitou em seu famoso curso — oferecido apenas uma vez — para cientistas que

ensinariam bacteriologia aos outros.14

Então, lá em Baltimore, anos antes de os próprios hospitais ou

faculdades de medicina abrirem de fato, mesmo sem pacientes e sem alunos, a Hopkins começou a apressar a mudança. Embora o hospital Johns Hopkins tenha começado a funcionar a partir de 1889, e a escola de medicina em 1893, o laboratório abriu quase imediatamente. Isso já bastava.

Somente no primeiro ano, 26 pesquisadores que não

integravam o corpo docente da Hopkins usaram os laboratórios. O jovem assistente de Welch, William Councilman — que mais tarde recriou a faculdade de medicina de Harvard à semelhança da Hopkins —, mantinha o abastecimento de órgãos conduzindo seu triciclo para outros hospitais, recuperando os órgãos e carregando-os de volta em baldes pendurados no guidom. Muitos desses convidados ou alunos de pós-graduação se tornaram pesquisadores de nível internacional, incluindo Walter Reed, James Carroll e Jesse Lazear, três dos quatro médicos que derrotaram a febre amarela. Alguns anos depois, cinquenta médicos realizavam ao mesmo tempo pesquisas na pós-graduação.

E a Hopkins começou a formar um corpo docente. A visão

institucional combinada ao jeito de Welch permitiu que a Hopkins recrutasse profissionais extraordinários, sendo Franklin Mall um deles.

 

Em 1883, aos 22 anos, Mall se formou em medicina na Universidade de Michigan, foi para a Alemanha e trabalhou com Carl Ludwig, fez um pouco de pesquisa na pós-graduação no Hopkins e já tinha se destacado. Ele esperava — exigia — os maiores padrões concebíveis, e não só dos próprios alunos. Victor Vaughan, decano da faculdade de medicina de Michigan e abaixo apenas de Welch no poder de influência sobre a educação em medicina dos Estados Unidos, considerava que o laboratório de química da faculdade era o melhor do país e comparável ao que havia de melhor no mundo. Com desdém, Mall considerava-o “um pequeno laboratório de química” e classificava o ensino em Michigan como o equivalente àquele de

uma boa escola do ensino médio.15

Quando Welch ofereceu um emprego a Mall, este estava na

Universidade de Chicago, onde planejava gastar 4 milhões de dólares, uma quantia enorme — cujo principal doador era John D. Rockefeller — para fazer o que Welch buscava: construir uma grande instituição. Mall respondeu à oferta de Welch propondo-o, em vez disso, a deixar a Hopkins e ir para Chicago, além de receber um aumento salarial considerável.

Por outro lado, a Hopkins estava desesperada para obter

recursos, mas Welch rejeitou a proposta de Mall e replicou: “Só consigo pensar em um motivo que possa influenciá-lo a trabalhar conosco, que é o desejo de morar aqui e uma crença em nossos ideais e nosso futuro (...) Eles não vão atrair a maioria do público, nem mesmo a maior parte da área médica, por um bom tempo. O que consideramos um sucesso não terá a mesma avaliação por

parte da massa de médicos.”16

Mall pensou nas alternativas. Em Chicago, ele já tinha, como

disse a Welch, “criado o departamento de biologia, comprado os equipamentos por 25 mil dólares e praticamente planejado sua construção, que custaria 200 mil dólares”, tudo financiado por

mais doações de Rockefeller.17 Na Hopkins, havia um corpo docente na faculdade de medicina e, àquela altura, um hospital, mas não havia dinheiro disponível nem para abrir a primeira. (Esta abriu apenas quando um grupo de mulheres, muitas delas recentemente fundadoras do Bryn Mawr College, ofereceu uma doação de 500 mil dólares desde que a faculdade de medicina aceitasse mulheres. O corpo docente e os credores aceitaram com certa relutância.) Mas lá estava Welch.

Mall enviou um telegrama para ele dizendo: “Devo me juntar à

Hopkins (...) Considero-o a principal atração. Você cria as

oportunidades.”18

No entanto, não era a pesquisa de Welch em laboratório que

atraía, que criava oportunidades, uma vez que, para o desconhecimento de Gilman e Billings, que o contrataram, e até do próprio Welch, ele tinha um defeito.

Welch conhecia bem os métodos da ciência, conseguia

compreender imediatamente a importância de um resultado experimental, podia ver e fazer o projeto de outros experimentos para confirmar uma descoberta ou investigar com mais profundidade. Mas ele tivera essas habilidades durante os seis anos que passou em Nova York, quando não fazia ciência. Ele dissera a si mesmo e aos outros que as exigências de se sustentar impossibilitaram a pesquisa.

No entanto, ele não tinha família para sustentar, e outros

fizeram ciência magnífica tendo fardos muitos mais pesados. Nenhum cientista encarou condições tão adversas quanto George Sternberg, um autodidata a quem Welch chamava de “o verdadeiro pioneiro do trabalho em bacteriologia moderna neste país (...) [que] dominava a técnica e a literatura por meio de

absoluta persistência e habilidade inata”. 19

Em 1878, quando Welch conheceu Billings na mesma

cervejaria em que a lenda diz que Fausto conheceu o Diabo, Sternberg era um médico oficial do exército que participou do combate com os índios Nez Perce. De lá, ele viajou de carruagem por cerca de 720 quilômetros — aguentando dias e dias de odor de suor, solavancos de tremer os ossos e chacoalhar a coluna e comendo poeira — só para alcançar um trem, e depois, de trem, aguentar mais quatro mil quilômetros de calor desconfortável, cotovelos se encostando e comida intragável. Ele suportou tudo isso para comparecer a uma reunião da Associação de Saúde Pública dos Estados Unidos. Enquanto Welch lamentava a falta de recursos em Nova York, Sternberg construía um laboratório, em grande parte com dinheiro do próprio bolso, em um posto de fronteira do exército. Em 1881, ele se tornou o primeiro a isolar o pneumococo, algumas semanas antes de Pasteur e Koch. (Nenhum dos três reconheceu a considerável importância da bactéria.) Sternberg também observou antes que os leucócitos absorviam as bactérias, uma peça-chave para entender o sistema imunológico. Ele falhou ao não seguir essas observações, mas suas diversas outras conquistas foram notáveis, em especial o trabalho pioneiro de tirar fotografias por meio de microscópios e os experimentos criteriosos que determinavam em que temperatura diversos tipos de bactéria morriam e o poder de diferentes desinfetantes para matá-las. A informação permitiu a criação de condições antissépticas tanto em laboratório quanto no trabalho em saúde pública. Sternberg também começou esse trabalho em um posto de fronteira.

Enquanto isso, na cidade de Nova York, Welch jurava que, se

não tivesse preocupação financeira, sua pesquisa prosperaria.

Em Baltimore, seu trabalho não prosperou, uma vez que lá,

mesmo com a ajuda de jovens pesquisadores talentosos, seus defeitos começaram a aparecer.

O defeito era o seguinte: na ciência, assim como no resto da

vida, ele vivia superficialmente e não criava raízes. Sua atenção nunca era voltada para uma questão importante ou profunda.

A pesquisa que Welch realizava era excelente, mas apenas

excelente — criteriosa, bem desenvolvida e até irrefutável, mas não profunda ou provocativa ou intensa o suficiente para estabelecer novos caminhos, para mostrar o mundo de uma nova maneira, para decifrar grandes mistérios. Suas descobertas mais importantes seriam a bactéria, agora chamada de Bacillus welchii, a causa da gangrena gasosa, e o achado que os estafilococos ficam nas camadas da pele, o que significa que um cirurgião tinha que desinfetar não apenas a superfície da pele durante uma cirurgia, mas também as camadas mais internas. Estes não foram achados insignificantes e, mesmo na falta de qualquer outro sucesso brilhante, se tivessem representado uma pequena parte de dimensão maior de trabalho comparável, eles poderiam ter contribuído o suficiente para classificar Welch como um gigante.

Em vez disso, seriam os únicos resultados verdadeiramente

significativos da pesquisa de Welch. Levando em consideração uma vida inteira, em especial em um tempo em que havia todo um universo a ser explorado, esse trabalho não somou muito.

O maior desafio da ciência, sua arte, reside no fato de se fazer

uma pergunta importante e moldá-la de forma que seja possível dividi-la em partes gerenciáveis, em experimentos que podem ser conduzidos e que podem, por fim, levar a respostas. Fazer isso requer determinado tipo de genialidade, daquele que faz sondagem verticalmente, mas que vê de forma horizontal.

A visão horizontal permite que qualquer um assimile e una

pedaços de informação que são aparentemente desconexos. Isso possibilita que um pesquisador veja o que os outros não veem e dê saltos de conectividade e criatividade. A sondagem vertical, que se aprofunda cada vez mais em algo, cria novas informações. Às vezes, o que alguém descobre brilhará o suficiente para iluminar o mundo inteiro.

Pelo menos uma pergunta conecta o vertical ao horizontal. A

pergunta é: “E daí?” Como uma palavra no jogo de palavra cruzada, essa pergunta pode se conectar a várias outras e suscitar o movimento em muitas direções. Isso pode eliminar uma parte de informação considerada não importante ou, pelo menos para o pesquisador que está fazendo a pergunta, irrelevante. Pode impulsionar um pesquisador a sondar mais profundamente a fim de compreender uma parte da informação. Também pode forçá-lo a dar um passo atrás e verificar como encaixar uma descoberta em um contexto mais amplo. Observar as perguntas dessa forma exige o querer saber, uma curiosidade profunda enfatizada pela disciplina, como uma lente que concentra o raio de sol em um pedaço de papel até que ele pegue fogo. Isso requer um tipo de mágica.

Einstein uma vez disse que seu principal talento científico era

a capacidade de olhar para uma enorme quantidade de experimentos e artigos, selecionar os poucos que eram corretos e importantes, ignorar o resto e construir uma teoria com base

nos que estavam certos.20 Nessa avaliação das próprias habilidades, Einstein muito provavelmente estava sendo mais do que modesto. No entanto, parte de sua genialidade vinha do instinto pelo que importava e da habilidade de buscar isso verticalmente e fazer conexões horizontais.

Welch tinha uma curiosidade ampla e vital, mas não possuía

esse “querer saber” mais profundo. O grandioso lhe despertava, mas ele não conseguia enxergar o grande no pequeno. Nenhuma pergunta de fato despertara uma grande paixão nele, nenhuma passou a ser uma compulsão, nenhuma o forçou a persegui-la até a exaustão ou a novas questões. Em vez disso, examinava um problema e depois passava para a próxima etapa.

Nos primeiros anos na Hopkins, ele constantemente se referia

a seu trabalho, à necessidade de retornar ao laboratório. Mais tarde, ele abandonou essa pretensão e parou até de tentar fazer pesquisa. No entanto, nunca aceitou de todo essa escolha e até o fim da vida expressou algumas vezes o desejo de ter se dedicado ao laboratório.

Todavia, apesar dessa falta de conquistas científicas, a vida de

Welch não foi como aquelas que começavam com uma grande promessa e terminavam em amargura e descontentamento. Apesar da produção mínima de pesquisa em laboratório, pessoas como Mall eram atraídas até ele. Como disse um cientista importante, “todos concordam que Welch em si era a grande atração do departamento de Patologia (...) [S]eu exemplo, sua inteligência e seu conhecimento abrangente formaram o princípio

do arco da medicina científica nos Estados Unidos”. 21

Para William Welch, a verdadeira genialidade dizia respeito a

duas áreas.

 

Em primeiro lugar, ele não tinha só conhecimento, mas também discernimento. Ele possuía uma capacidade extraordinária de ouvir alguém descrever um experimento, ou de ler um artigo, e imediatamente definir os pontos cruciais ainda obscuros, as séries fundamentais de experimentos necessários para esclarecê-los. Era como se, embora sozinho, não conseguisse fazer mágica, ele soubesse as técnicas de mágica e conseguisse ensiná-las.

Ele tinha uma habilidade igualmente extraordinária para

avaliar pessoas, para identificar aquelas que eram promissoras para fazer o que ele não tinha feito. Em grande parte, ele escolheu o corpo docente da faculdade de medicina e o fez de forma brilhante. Todos eram jovens quando foram selecionados. Welch tinha 34 anos; o canadense William Osler, indiscutivelmente um dos mais famosos clínicos da era moderna, tinha quarenta; William Halsted, um cirurgião que mudou o pensamento dos cirurgiões, tinha 37 anos; Howard Kelly, ginecologista e pioneiro em radioterapia, tinha 31 anos; J. J. Abel, um químico e farmacologista que descobriria a adrenalina e ajudaria a revolucionar a farmacopeia, tinha 36; W. H. Howell, um fisiologista, tinha 33 anos; e Mall, 31. (Howell, Abel e Mal também foram alunos de pós-graduação na Hopkins.)

Em segundo lugar, Welch era uma inspiração para todos. Ele

inspirava sem saber, simplesmente sendo ele mesmo. Nos primórdios da faculdade, Welch já era pesado, mas não gordo ainda, baixo e tinha olhos azuis brilhantes que se sobressaíam na barba negra chamada de “imperial” — um bigode e um cavanhaque pontiagudo. Ele se vestia de forma conservadora, mas elegante, com roupas escuras, e em geral tinha um chapéu-coco nas mãos. Apesar da robustez, as mãos e os pés eram visivelmente pequenos, fazendo-o parecer quase delicado. Contudo sua qualidade mais peculiar não era física. Ele parecia tão centrado e confortável consigo mesmo que confortava aqueles a seu redor. Welch exalava confiança sem arrogância, convencimento ou soberba. Em suas disputas — e ele tinha muitas com os intrusos que resistiam a mudanças — ele nunca levantava a voz, nunca parecia sentir, de acordo com um homem que o observou por décadas, “a alegria exuberante de derrubar

um oponente”.22

Tudo nele era positivo. A inteligência, a profundidade e a

amplitude de seu conhecimento também estimulavam a maneira como ele ensinava. Ele entrava em sala de aula sem as observações ou a preparação, em geral sem saber que assunto deveria ensinar, e em um instante começava a discursar de forma lúcida e lógica de forma a empolgar e incitar o pensamento. Era paternal sem ser paternalista. Os médicos enviavam a ele uma amostra para análise patológica e pagavam uma taxa substancial. Seus assistentes realizavam o trabalho; ele escrevia os resultados e lhes dava dinheiro. Ele adorava comer e era o anfitrião de jantares luxuosos no Maryland Club, que contavam com a presença de colegas mais jovens ou alunos de pós-graduação. Um deles considerava esses jantares como

uma de suas “lembranças mais felizes” por causa das conversas de Welch, sua capacidade de fazer com que os alunos sentissem

“a riqueza do mundo” 23 — o mundo da arte e da literatura, assim como da ciência.

O efeito total, disse Simon Flexner “era uma atmosfera de

conquistas (...) O desejo de ser como Welch, de obter sua aprovação, esses eram os principais incentivos para os jovens

ávidos que lotavam o laboratório dele”. 24

No fim das contas, havia certo mistério em Welch. Embora

isso não fosse parte da genialidade dele, explicava um lado de seu impacto. Apesar de toda a cordialidade, ele permanecia distante. A cordialidade em si era uma barreira que os outros não podiam penetrar. Ele reparava pouco, e cada vez menos, nos alunos até que eles fizessem algo que lhe chamasse a atenção. Ele parecia despreocupado, até mesmo negligente. Ficava tão animado nas conversas que as guimbas do charuto costumavam cair no casaco, onde repousariam sem ser notadas. Welch estava sempre atrasado. A mesa vivia empilhada de correspondências sem respostas havia meses. Os colegas mais jovens lhe deram um apelido, um que se espalhou da Hopkins até os jovens cientistas de todos os lugares. Eles o chamavam, nunca na frente dele, de “Popsy”.

Era um apelido reconfortante, próximo e paternal. Mas, se ele

era acolhedor, não aceitava isso de ninguém. Embora ajudasse todos que achava que mereciam e ainda que fosse rodeado de pessoas, Welch não estimulava nem permitia que ninguém lhe confidenciasse problemas pessoais. E ele não se abria para ninguém. Mall uma vez escreveu para a irmã dizendo que gostaria de ter uma amizade verdadeira com Welch, e não apenas ser conhecido dele. Nem Mall conseguiu essa proeza. Welch viajava sozinho para Atlantic City, onde curtia a cafonice do lugar.

Os alunos tinham um bordão: “Ninguém sabe onde Popsy

come/ Ninguém sabe onde Popsy dorme/ Ninguém sabe quem Popsy sustenta/ A não ser Popsy.”

 

A faculdade de medicina da Hopkins ficava fora da cidade, em um morro, a quilômetros do campus principal da universidade e do centro. O prédio principal, o Laboratório de Patologia, era feio e atarracado, com dois andares de pedra, seis janelas grandes em cada andar e chaminés quadradas em cima do edifício. Dentro havia um anfiteatro para autópsias projetado de forma a parecer que vazava do prédio, e os alunos no andar de cima podiam olhar por entre as grades; cada andar tinha uma sala grande — o laboratório de patologia no primeiro andar e o de bacteriologia no segundo.

Mesmo sem a faculdade de medicina, quando o hospital foi

inaugurado em 1889, contando com dezesseis prédios e mais de cinco hectares, uma pequena comunidade começou a se formar. Todos os dias, as pessoas tomavam café da manhã e almoçavam juntas, e muitas vezes até se encontravam de noite. Toda segunda à noite, um grupo um pouco mais formal de trinta a quarenta pessoas se reunia, incluindo o corpo docente, os alunos que já tinham mestrado e doutorado e os médicos. Eles discutiam pesquisas ou casos atuais, e os comentários costumavam suscitar novas perguntas. Os professores mais experientes às vezes jantavam com vestimentas adequadas para a noite na “mesa alta” em uma janela de sacada que dava para o jardim. Os mais jovens jogavam pôquer, se divertiam e iam para a “Igreja” juntos — o restaurante e bar Hanselmann’s, na esquina das ruas Wolfe e Monument, onde bebiam cerveja. Um professor de Harvard comparou a Hopkins a um monastério. Harvey Cushing disse: “Na história da medicina nunca houve nada

igual.”25 E eles tinham de fato uma missão.

Elias Canetti, ganhador do prêmio Nobel de Literatura,

observou em seu livro Massa e poder que grandes movimentos muitas vezes eram gerados pelo que se chamava de “cristais da massa, (...) os grupos pequenos e rígidos de homens, estritamente limitados e de grande constância, que servia para precipitar massas. A estrutura é tão definida que eles podem ser compreendidos e assimilados de uma só vez. A unidade é mais importante do que o tamanho. O papel deles deve ser familiar; as pessoas devem saber para que estão ali (...) O cristal da massa é constante (...) Seus membros são treinados na ação e na fé (...) A clareza, o isolamento e a constância do cristal formam um contraste incomum com o fluxo empolgado da massa ao redor”.

Da mesma forma que os precipitados caem da solução e se

misturam ao redor de um cristal, os indivíduos com habilidades extraordinárias e uma visão compartilhada se misturaram ao redor de Welch na Hopkins. Juntos, com um punhado de outras pessoas por todo o país, eles queriam precipitar uma revolução.

 

* Os críticos levantaram algumas questões válidas. Claramente, o organismo que ataca não determina por completo se alguém fica doente. O mesmo organismo pode atacar duas pessoas, matar uma e não causar qualquer sintoma em outra. Os genes e o sistema imunológico de um indivíduo, o meio ambiente que o cerca e até fatores como estresse afetam a susceptibilidade.

Até 1911, o diretor da escola de qualificação em saúde pública dos médicos do exército francês afirmava que os germes sozinhos eram “inofensivos para

gerar uma epidemia”. 7 Mas essa visão particular era na época uma opinião idiossincrática e não simplesmente da minoria.

 

** Halsted conheceu bem Welch em Nova York; os dois tentavam aplicar ciência à medicina. Entretanto, Halsted começou a estudar sobre a cocaína e desenvolveu adição. A vida dele desmoronou, e ele se mudou para Baltimore a fim de ficar perto de Welch. Quando Halsted controlou o vício, Welch lhe deu uma oportunidade na Hopkins, onde ele estabeleceu uma ligação entre cirurgia e pesquisa em fisiologia e se tornou o cirurgião mais influente do país e, possivelmente, do mundo. Halsted casou-se, mas, como era excêntrico e instável, acabou se viciando em morfina. Não ficou claro se Welch sabia sobre esse vício.