A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 37 de 43

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A Grande Gripe

Capítulo trinta e seis

 

N após a pandemia, Paul Lewis continuou a

dirigir o Henry Phipps Institute na Universidade da Pensilvânia.

No entanto, Lewis não estava feliz. Ele fazia parte do grupo de

pessoas que ainda acreditavam que a doença fosse causada por B. influenzae e continuou a trabalhar nessa linha após a epidemia passar. Há uma ironia nesse fato, já que ele inicialmente relutou em admitir o papel etiológico do bacilo, suspeitando, ao contrário, de um vírus filtrável. Talvez a principal razão para a sua teimosia fosse sua própria experiência. Não só ele vinha encontrando o bacilo com regularidade, como também produzira uma vacina que parecia funcionar. Para falar a verdade, a marinha administrara uma vacina preparada conforme seus métodos para milhares e milhares de homens, e ela se mostrara ineficaz, mas não fora ele que produzira. Um lote menor, preparado e testado pessoalmente por ele — durante o auge da epidemia, não nos estágios posteriores quando muitas vacinas pareciam funcionar apenas porque a própria doença se

enfraquecia — forneceu provas consistentes de sua eficácia.1 Apenas três de sessenta pessoas que receberam a vacina desenvolveram pneumonia, e ninguém morreu — um grupo de controle teve dez pneumonias e três mortes.

Aqueles resultados o iludiram. No passado, nem sempre ele

fizera o julgamento científico acertado — nenhum pesquisador faz —, mas esse pode ter sido seu primeiro erro científico relevante. E pareceu marcar o início de um caminho ladeira abaixo.

Tal situação não ficou óbvia logo no começo. Ele já tinha

construído uma reputação internacional. O periódico científico alemão Zeitschrift für Tuberkulose traduziu e republicou sua obra. Em 1917, ele foi convidado a proferir a Harvey Lecture sobre tuberculose, uma importante palestra anual e uma grande honra (Rufus Cole, por exemplo, só receberia um convite semelhante uma década depois). Oitenta e cinco anos mais tarde, o cientista dr. David Lewis Aronson — cujo pai, um cientista detentor de prêmios, trabalhara nos melhores laboratórios europeus e considerava Paul Lewis o homem mais inteligente que conhecera e nomeara o filho em sua homenagem — se relembra de ler o discurso: “Você podia ver a mente de Lewis funcionando, sua profundidade, e visão, avançando bem além do que ocorria na

época.”2

De fato, as opiniões de Lewis tinham se expandido. Seus

interesses agora incluíam matemática e biofísica e, sem recursos próprios, ele pediu que Flexner “conseguisse apoio” para um físico que queria atrair para a medicina, a fim de examinar matizes fluorescentes e “o poder desinfetante da luz e o poder de

penetração da luz em tecidos animais”. 3 Flexner concordou. Ele continuava impressionado com o trabalho de Lewis e lhe mandou uma pronta resposta por carta, classificando como “interessante

e importante” 4 um artigo enviado por Lewis com a informação de que iria publicá-lo no Journal of Experimental Medicine.

Contudo, a vida de Lewis após a guerra começou a empurrá-lo

para longe do laboratório, frustrando-o. Henry Phipps, o magnata da U.S. Steel que dera o nome ao instituto dirigido por Lewis, não fez doações generosas. O próprio salário de Lewis se elevara bastante — de 3.500 dólares por ano, quando ele começou em 1910, para 5 mil dólares logo antes da guerra. Flexner ainda achava que ele era mal remunerado e providenciou para que, imediatamente após a guerra, a Universidade da Califórnia em Berkeley lhe oferecesse um cargo. Lewis recusou, mas a Universidade da Pensilvânia aumentou seu salário para 6 mil dólares, uma quantia considerável na época.

Porém, se seu próprio salário era mais do que adequado,

Lewis necessitava financiar um instituto inteiro, mesmo que pequeno. Precisava de dinheiro para centrífugas, vidrarias de laboratório, aquecedores, para não falar de jovens cientistas e “dieners” — uma palavra ainda usada para designar os técnicos. Precisava arrecadar dinheiro para tudo, com exceção da própria remuneração. Como consequência, ele se via cada vez mais arrastado para o ambiente social da Filadélfia, conquistando a simpatia das pessoas, angariando dinheiro. Estava se tornando, cada vez mais, um vendedor, vendendo tanto o instituto quanto a si mesmo. Ele detestava aquilo. Detestava o tempo desperdiçado fora do laboratório, o esgotamento de suas energias, as festas. E o país estava no meio de uma recessão profunda, com 4 milhões de soldados repentinamente jogados de volta ao mercado de trabalho, o governo não mais construindo navios e tanques, a Europa devastada e incapaz de comprar qualquer coisa. Levantar dinheiro era mais do que apenas difícil.

Em 1921, a Universidade de Iowa entrou em contato com

Lewis, queria se tornar uma instituição de pesquisa de primeira linha e o queria para dirigir o programa, montar a instituição. O estado forneceria os fundos. Flexner era mais do que somente um mentor para Lewis, e Lewis lhe confidenciou que o emprego em Iowa parecia “enfadonho, seguro e de inspiração limitada.

Você sabe muito bem que eu não progrido no meio da rotina”. 5 E que, no Phipps Institute, “acredito que parte da pesquisa em andamento tem grande potencial (...). Você vai perceber que estou tentando me convencer de que tenho o direito de me arriscar ficando aqui, em oposição a uma perspectiva de segurança monótona em Iowa City. Eu apreciaria muito ouvir sua opinião”.

Flexner o aconselhou a aceitar a oferta: “Tudo o que ouvi das

condições médicas em Iowa City é favorável (...) um contraste bastante acentuado com a [situação] na Filadélfia. É definitivo e estável (...). Não tenho dúvidas de que, sob a influência de sua vigorosa orientação, o departamento que você presidiria — apesar de bastante grande — se tornaria tão notável que o

estado o apoiaria em qualquer expansão.” 6

Flexner não contou a Lewis como achava que o emprego se

ajustaria ao colega, como eram extraordinários os dons de Lewis para um trabalho daquele tipo. A um colega mais graduado, porém, Flexner afirmou que Lewis “poderia de fato vir a exercer uma influência genuína no ensino e na pesquisa em medicina”. Talvez fosse por causa de algumas características que Welch vira nele, como o fato de Lewis ter “dons bastante incomuns para expor”. Possuía um vasto conhecimento, talvez até o transbordasse e, quer ele percebesse ou não, tinha o talento para inspirar as pessoas. Flexner acreditava que Lewis podia “ser um mestre da área”.

A Universidade da Pensilvânia contrapropôs uma oferta:

concedeu-lhe uma nova posição, elevou seu salário para 8 mil dólares, garantindo-o por cinco anos, e prometeu financiamento para o próprio instituto por dois anos. Lewis ficou. Flexner deu os parabéns a “ele e à Universidade, especialmente quanto ao novo título. Será que o novo posto vai aumentar suas obrigações na

Universidade?”. 7

A resposta era afirmativa. Em parte por esse motivo, Lewis

ficou apreensivo. Ele rejeitara a oferta em Iowa porque, embora o cargo pudesse lhe permitir montar uma instituição importante, o trabalho o manteria longe do laboratório. Agora encontrava-se em uma situação bastante semelhante na Universidade da Pensilvânia. Ele odiava lidar com os decanos e continuava a desempenhar o papel de criatura social. Os cientistas eram a nova moda. Figuras semelhantes a Fausto, capazes de criar mundos, e modernas o suficiente para serem exibidas na Main Line da Filadélfia. Lewis detestava ser exibido. Também em casa havia tensão com sua esposa. É impossível saber o quanto dessa tensão se originava de frustrações com suas pesquisas, ou do fato de sua esposa gostar da sociedade da Filadélfia da qual ele queria distância, ou do fato de a esposa simplesmente querer mais por parte dele.

Um projeto de pesquisa em particular parecia estar

caminhando bem e queria entregar-se a ele e abrir mão de todo o resto. Invejava Avery não apenas por ser capaz de se concentrar em uma coisa só, mas também por ter a oportunidade para isso. No caso de Lewis, tudo parecia pressioná-lo. Na realidade, tudo estava prestes a explodir.

Em 1922, Iowa voltou a lhe oferecer o cargo. Dessa vez, ele

aceitou. Sentindo ser sua responsabilidade deixar Phipps em boas mãos, recrutou Eugene Opie, da Universidade de Washington, para substituí-lo. Se Opie tinha alguma coisa, era uma reputação ainda maior do que a do próprio Lewis.

Flexner sempre respeitou Lewis, mas sempre houve certa

distância entre eles. E estavam se aproximando. Em determinado momento, Flexner lhe escreveu: “Quando precisar, deixe-me

ajudá-lo em algo.” 8 Lewis confidenciou: “Você assumiu o papel

de ‘pai’ para mim.”9 Agora, quando Opie concordou em ir para Phipps, Flexner pareceu ver Lewis sob uma nova ótica, competente não apenas como cientista, mas como alguém que poderia atuar bem em outras arenas, e lhe disse: “Opie me surpreendeu. Eu o supunha com um cargo permanente em St. Louis. Se você preparou o caminho para um homem tão bom

assumir o Phipps Institute, pode se sentir muito gratificado.” 10

Lewis não se sentia gratificado. Permanecia inquieto e

insatisfeito. O que realmente queria era se afastar de tudo que não fosse o laboratório. Talvez sem perceber direito, ele estava caminhando em direção a uma crise. Novamente, contou a Flexner que o que queria mais do que tudo no mundo era trabalhar na bancada de seu laboratório. Ele se afastou da Filadélfia. Agora tinha que se afastar de Iowa.

Em janeiro de 1923, escreveu a Flexner: “Está bem claro para

mim hoje que posso me dar ao direito de novamente passar pelo menos um breve período me dedicando a cultivar meus interesses pessoais (...). Escrevi ao reitor Jessup, da Universidade de Iowa, informando-lhe sobre minha mudança de planos, e tudo o que está sendo descartado (...). Vou tentar dar meu máximo para aproveitar a oportunidade de passar um ano estudando, em algum lugar o mais longe possível de quaisquer questões de ‘negócios e cargos’ (...). Não posso deixar de reiterar que, no próximo ano, vou buscar um cargo no sentido convencional do termo. O que realmente quero é (...) recuperar

uma mente mais ou menos ociosa.”11

Ele estava largando tudo, abandonando cargo, prestígio e

dinheiro, entrando em um mundo desconhecido sem nenhuma garantia de nada, desapegando-se de tudo, com 44 anos, uma esposa e dois filhos. Ele estava livre.

O local onde Lewis se sentira mais feliz na vida, onde fizera o melhor tipo de ciência, fora o Rockefeller Institute, que tinha uma Divisão de Patologia Animal em Princeton, perto da Filadélfia. Theobald Smith, o mesmo homem que recusara a oferta de Welch para se tornar o primeiro responsável pelo próprio Rockefeller Institute, largara Harvard e agora chefiava a divisão. Smith também fora o primeiro mentor de Lewis e o recomendara a Flexner muitos anos antes. Lewis aventou com Smith a possibilidade de ir para Princeton. Smith primeiro queria garantias de que Lewis desejava “dedicar-se ao trabalho de novo e (...) que todo aquele negócio de propaganda não [lhe] subira à

cabeça”.12 Ansioso, Lewis lhe deu tais garantias.

Flexner o incentivara a aceitar o emprego em Iowa, mas

respondeu: “Fico exultante em ver que você vai voltar ao laboratório, que é seu habitat natural, e onde vai realizar seu melhor trabalho, eficiente e duradouro. Parece-me uma completa lástima que homens que passaram anos dedicando-se à necessária preparação para a carreira em um laboratório sejam arrastados de modo inclemente para longe dele e tenham que

assumir cargos burocráticos.” 13 Também contou a Lewis que Smith estava “muito feliz com a perspectiva de voltar a tê-lo como companheiro de trabalho”.

Lewis não pediu absolutamente nenhuma remuneração,

apenas acesso livre aos laboratórios durante um ano. Flexner deu-lhe 8 mil dólares, seu salário no Phipps Institute, e um orçamento para equipamentos de laboratório, armário para arquivos, 540 jaulas para criar animais que seriam usados nas experiências, além de três assistentes. E lhe disse que não esperava absolutamente nada dele durante aquele ano, e depois conversariam sobre o futuro.

Lewis ficou em êxtase: “Recomeçar com o dr. Smith, da

maneira que for, me remete a 1905 — em um nível que espero ser muito mais elevado (...). Você verá, não me faltará empenho (...) Estou muito agradecido e feliz de me ver nas mãos de dois homens que, sem distinção, e com a única exceção de meus pais, me deram os meios, a educação e o direcionamento. Poucas pessoas têm uma chance como essa de se renovar.

Minha única esperança é continuar a merecer sua confiança.” 14

 

Na época, Princeton ainda era uma região rural, rodeada de fazendas. Era tranquila, quase bucólica. A sede do Rockefeller Institute não ficava longe do campus da Universidade de Princeton, que passava pela transformação de escola para a elite masculina, descrita por F. Scott Fitzgerald, em centro intelectual — o que apenas se concretizaria quase uma década mais tarde, quando o irmão de Flexner, Abraham, iniciou o Instituto para Estudos Avançados, tendo Einstein como seu primeiro membro. Porém, se o cenário era bucólico, se havia lavoura e diversos tipos de animais pastavam a poucos metros dos laboratórios — não apenas porquinhos-da-índia ou coelhos, mas também gado, porcos e cavalos —, o grupo Rockefeller em Princeton fervilhava. Smith continuava a produzir um trabalho de nível internacional. Só a presença dele já energizava Lewis. Pela primeira vez desde que deixara o Rockefeller Institute, sentia-se em casa. No entanto, estava sozinho. Sua esposa e seus filhos ficaram na Filadélfia. Ele estava sozinho para trabalhar, sozinho para ir ao laboratório no meio da noite, sozinho com seus pensamentos.

Durante quase um ano, porém, Lewis não produziu nada. Ele

e Flexner conversaram sobre o seu futuro. Ele estava com 45 anos. Sua próxima decisão provavelmente seria a última. Ele ainda podia voltar para a Universidade da Pensilvânia, se desejasse. Mas não era isso que queria. Escreveu a Flexner: “Só posso repetir que estou livre de qualquer ligação com aquele

lugar, até mesmo sentimentalmente.”15 A Universidade de Iowa também estendera sua oferta uma vez mais e aumentara a proposta de remuneração. Todavia, o que Lewis queria mesmo era ficar no Rockefeller. Ele progredira no projeto de tuberculose que trouxera da Filadélfia, só que o mais importante era que, como assegurara tanto a Flexner quanto a si mesmo, rejuvenescera. Informou a Flexner que, apesar do salário mais alto em Iowa, “o único cargo que me interessa é [aqui]”.

A presença de Lewis se encaixava perfeitamente nos próprios

planos de Flexner, conforme este explicou: “Sempre acreditei que nossos departamentos não deviam ser exclusivos de um homem só.” Em Nova York, dezenas de pesquisadores, ou mais, lideravam grupos de jovens cientistas, cada grupo trabalhando em um problema importante. A sede de Princeton não se desenvolvera no mesmo passo — à parte a própria contribuição de Smith, ela não ganhara relevo. Flexner disse a Lewis: “Sua vinda (...) [oferece] a primeira oportunidade de montar um

segundo centro lá.” 16

Além do mais, Smith completaria 65 anos naquele ano.

Flexner, o próprio Smith e até Welch davam sinais de que Lewis poderia sucedê-lo quando este se aposentasse. Flexner sugeriu que Lewis permanecesse mais um ano com um acordo temporário e depois veriam o que aconteceria.

Lewis respondeu: “Estou seguro, como nunca estive antes.”17

Ele acreditava estar em casa. Seria a sua última casa.

 

Se ia montar um departamento, Lewis precisava de um cientista jovem — alguém com mais do que habilidades no laboratório, alguém com ideias. Seus contatos em Iowa insistiram que ele tentasse um rapaz que provavelmente se tornaria famoso.

Richard Shope era filho de um médico que também era

fazendeiro. Formara-se em medicina na Universidade de Iowa e depois passara um ano lecionando farmacologia na escola de medicina e fazendo experiências em cães. Tendo se destacado no atletismo universitário, alto, confiante em si mesmo — algo que Lewis aparentemente nunca conseguiu ser —, Shope sempre manteve contato com a natureza, com a floresta, com a caçada. Não vivia apenas no laboratório, mas com uma arma nas mãos. Sua mente também era um pouco selvagem, como um menino brincando com um estojo de química querendo provocar uma explosão. Ele tinha mais do que uma mente curiosa, tinha uma mente original.

Anos mais tarde, o virologista Thomas Rivers, que não só

sucedeu Cole como diretor do Hospital do Rockefeller Institute, mas serviu como presidente de quatro diferentes associações científicas, afirmou: “Dick Shope é um dos melhores pesquisadores que já conheci (...). Um rapaz teimoso e obstinado (...). Assim que começava a trabalhar em um problema, Dick descobria algo fundamental. Nunca fez a menor diferença o local

onde se encontrava.”18 Na Segunda Guerra Mundial, Rivers e Shope aterrissaram em Guam, logo depois de as forças de combate a protegerem (e chegaram a ficar debaixo de fogo em Okinawa), para investigar doenças tropicais que poderiam ameaçar os soldados. Enquanto estava lá, Shope se ocupou isolando um agente de um fungo que mitigava algumas infecções virais. Mais tarde, seria eleito como membro da National Academy of Sciences [Academia Nacional de Ciências].

No entanto, mesmo com o auxílio de Shope, o trabalho de

Lewis não ia bem. Não se tratava de falta de inteligência. Shope conhecia bem Welch, Flexner, Smith, Avery e muitos ganhadores do prêmio Nobel, e considerava Lewis um nível acima. Como Aronson, cientista premiado que trabalhara no Pasteur Institute e conhecia Lewis da Universidade da Pensilvânia, Shope também considerava Lewis a pessoa mais inteligente que já conhecera.

Na Filadélfia, Lewis alcançara algumas conclusões provisórias

sobre a tuberculose. Ele acreditava que três, possivelmente quatro, fatores herdados afetavam a capacidade natural de porquinhos-da-índia de produzirem anticorpos — isto é, de resistirem à infecção. Planejara desvendar com exatidão qual era a natureza desses fatores. Tratava-se de uma questão importante, que potencialmente extrapolava a tuberculose e

chegava a um profundo entendimento do sistema imunológico. 19

Entretanto, quando ele e Shope repetiram os experimentos da

Filadélfia, obtiveram resultados diferentes. Examinaram cada elemento dos experimentos para verificar o que poderia explicar as diferenças e os repetiram. Depois repetiram mais uma vez o processo e os experimentos. Novamente obtiveram resultados diferentes, resultados a partir dos quais era impossível inferir uma conclusão.

Nada na ciência é tão prejudicial quanto a impossibilidade de

um pesquisador externo conseguir reproduzir os resultados de alguém. Nesse caso, Lewis não conseguia reproduzir os resultados que ele mesmo obteve na Filadélfia, resultados dos quais dependia. E muito menos podia usá-los como base e expandi-los. Ele atingira um beco sem saída.

Lewis começou a trabalhar com afinco no tema, assim como

Shope. Ambos eram obstinados o suficiente para persistirem. Mas não fizeram nenhum progresso.

Mais aflitivo para Smith e Flexner, que observavam tudo de

perto, era o modo como Lewis encarava o problema. Seus erros pareciam confundi-lo. Diferentemente de Avery, que decompunha seus problemas em partes menores que podiam ser resolvidas e aprendia com cada fracasso, Lewis parecia estar aplicando a força bruta, números gigantescos de experimentos. Ele procurou adicionar à equipe outros cientistas com conhecimentos específicos, mas não definiu o papel preciso que cada pessoa nova iria desempenhar. Diferentemente de Avery, que recrutava pessoas com habilidades específicas para atacar questões específicas, Lewis parecia querer jogar recursos humanos no problema, na esperança de que alguém o resolvesse.

Ele estava desesperado. Homens desesperados podem ser

perigosos, e até temidos, mas raramente são respeitados. Lewis estava perdendo o respeito dos outros, o que provocaria um colapso de todo o resto.

Perto de Lewis completar seu terceiro ano em Princeton,

Smith confessou sua decepção a Flexner: “Talvez ele esteja com objetivos mais altos do que permitem seu treinamento e equipamento, e isso resulta em uma demanda para se cercar de químicos tecnicamente treinados etc. É isso o que Carrel está fazendo [Alexis Carrel, do Rockefeller Institute em Nova York, e já ganhador de um prêmio Nobel], mas com outra cabeça [conseguindo] os resultados a partir de sua organização. Um

grupo bem-afinado requer que as ideias venham do líder.”20

Lewis tampouco parecia reconhecer o mérito de persistir em

questões secundárias potencialmente promissoras que suas experiências levantavam. Ele atribuía seus fracassos, por

exemplo, às dietas das cobaias,21 diferentes em Princeton e na Filadélfia. Tratava-se de algo potencialmente significativo, e era possível que estivesse correto. A relação entre dieta e enfermidade já fora observada antes, com as deficiências na alimentação podendo ser causa direta de doenças como escorbuto e pelagra. Lewis estava pensando em conexões bem mais sutis e indiretas entre dieta e enfermidade, incluindo doenças infecciosas. Porém, em vez de se ater a essa linha de investigação, ele continuou a martelar a antiga. Continuou, assim, sem conseguir resultados. Ele relatou ao Board of Scientific Directors [Conselho de Diretores Científicos]: “Decidi não modificar em nada minha linha de trabalho para o próximo

ano.”22

Flexner esperava algo diferente. Lewis estava se tornando um

homem marcado, e não de uma forma positiva. Não eram os seus erros que levavam a isso, e sim a maneira como errava — de forma obtusa, sem imaginação e sem aprendizagem em alguma outra coisa. Lewis já tinha mostrado o suficiente sobre seu comportamento, ou deixado de mostrar, o que levou Flexner a tomar uma decisão. Quando Smith se aposentasse, Lewis não o substituiria.

Flexner escreveu uma dura carta para Lewis. Ele escreveu

palavras cruéis. “Não há nenhuma obrigação expressa ou implícita na relação do Instituto com você, ou vice-versa, além do contratado para este ano (...). Como o cargo em Iowa ainda está em aberto e você é muito desejado lá, com a Universidade de Iowa fazendo um esforço supremo para contratá-lo, acredito ser justo que você seja informado com detalhes qual é a posição do Conselho de Diretores Científicos em relação à sua pessoa (...).

Existe uma dúvida quanto ao seu futuro em geral.”23

Mas não enviou a carta. Era cruel demais, até mesmo para

ele. Em vez disso, informou a Lewis que o Conselho estava “inequivocamente contrário à nomeação de alguém especializado

basicamente em patologia humana”24 — como Lewis — “para a chefia do Departamento de Patologia Animal”, e que, por conseguinte, ele não substituiria Smith. Mas também advertiu que o conselho não o promoveria à posição de “membro” do instituto, o que equivaleria a um professor catedrático. Ele permaneceria como associado. Sua nomeação expiraria em seis meses, em meados de 1926, e o conselho lhe concederia uma nomeação de três anos, até 1929. Talvez fosse melhor ele aceitar a oferta de Iowa, afinal de contas.

 

Em Fausto, Goethe escreveu o seguinte: “Velho demais estou para me contentar com jogar,/ Jovem demais para viver não molestado pelo desejo.”

Lewis se sentia assim. A carta de Flexner deve ter sido um

golpe excruciante. Ele esperava receber a notícia de que sucederia Smith. Tinha certeza de que seria promovido a “membro” do instituto. O laboratório lhe fornecera sua identidade e, no entanto, não lhe dava apoio, e sim uma rejeição fria. Os dois homens que ele mais admirava no mundo, dois homens que considerava como seus tutores científicos — sendo que um, ele via quase como um pai — julgaram que lhe faltava algo, faltava-lhe aquilo que o autorizaria a se juntar àquela irmandade, a se tornar um membro.

Naquela altura, a família de Lewis se mudara para Princeton,

mas seu casamento não ia bem. Talvez a culpa se devesse inteiramente a ele, àquilo que não era mais apenas falta de ambição, mas falta de amor.

Mais uma vez, recusou o emprego em Iowa. Ele sempre

gostara de se arriscar. Agora se arriscava para provar seu próprio valor para Flexner e Smith.

No ano e meio seguinte, ele trabalhou de forma intensa, mas

então... Algo dentro dele o fez se recolher. Seu filho Hobart, com 14 anos na época, passava por dificuldades emocionais e na escola, e uma mudança de escola poderia ajudar. E Lewis sofreu um acidente de carro que perturbou sua concentração.

Ele realizou pouco. De novo seus fracassos não eram como

aqueles com os quais Avery se confrontaria durante quase uma década. Avery estava se dedicando às questões mais fundamentais da imunologia e, no final das contas, da genética. Ele aprendia com cada experiência fracassada, talvez não muito, mas alguma coisa. E o que estava aprendendo extrapolava a necessidade de refinar uma experiência. O que aprendia a partir de seus erros tinha enormes ramificações, que se aplicavam a campos inteiros do conhecimento. Pode-se argumentar que nenhum experimento de Avery fracassou.

Lewis estava claudicando. Ele passava hora após hora no

laboratório. Sempre fora seu local predileto, seu lugar de repouso, de paz. Só que não mais e começou a evitá-lo. Seu casamento não ia nada bem. Ele e a esposa mal se comunicavam. Mas ele achou outros hobbies: jardinagem, marcenaria, coisas que nunca tinham lhe chamado a atenção antes. Talvez esperasse que se afastar clarearia sua mente, permitiria que visse através do nevoeiro de dados. Talvez pensasse assim. Porém, sua mente nunca parecia voltar ao problema.

Em agosto de 1927, confessou a Flexner: “Sinto que não

tenho sido muito produtivo — e que recebi um retorno pífio para muito trabalho árduo —, mas, de alguma forma, tudo o que tentei, na esperança de me trazer maior rapidez do que as tarefas tão lentas com as quais trabalhei por tanto tempo, ou foram uma decepção ou se transformaram em um outro grande

[problema].”25

Depois disse algo ainda mais surpreendente. Ele não ia mais

ao laboratório: “Passo a maior parte do tempo em uma casa velha com jardim que adquiri.”

Flexner respondeu de maneira amável. Já se passara mais de

um ano dos três da extensão de contrato. Ele alertou que o trabalho sobre tuberculose “se configurou como o seu problema principal por quatro anos. O resultado, mesmo que o estudo continue ainda por muitos anos, é incerto, e a produção de questões secundárias, frequentemente o mais proveitoso de tudo, tem sido baixa. Não acredito em insistir em um assunto tão pouco proveitoso. Um dos requisitos de um pesquisador é uma espécie de instinto que lhe diz definitivamente quando desistir, assim como quando persistir em um assunto. Seu tempo pode

ser empregado com mais proveito em outra linha de pesquisa”.26

Lewis não deu ouvidos ao conselho.

 

Em 30 de setembro de 1918, J.S. Koen, veterinário do órgão federal Bureau of Animal Industry [Agência de Indústria Animal], trabalhava no National Swine Breeders Show [Espetáculo dos Criadores Nacionais de Suínos], em Cedar Rapids. Muitos porcos estavam doentes, alguns à beira da morte. Nas semanas seguintes, ele calculou a expansão da doença, a morte de milhares de porcos, e concluiu que tinham gripe — a mesma doença que matava seres humanos. Os fazendeiros criticaram o seu diagnóstico, pois poderia lhes custar muito dinheiro. Mesmo assim, alguns meses mais tarde, ele publicou suas conclusões no Journal of Veterinary Medicine [Revista de Medicina Veterinária]: “No outono e inverno passados, fomos confrontados com uma nova situação, se não uma nova moléstia. Acredito que tenho material para comprovar tal diagnóstico em porcos assim como os médicos têm para comprovar um diagnóstico similar nos seres humanos. A semelhança da epidemia entre pessoas e a epidemia entre os porcos era tão próxima, os relatos tão frequentes, de que um surto na família seria imediatamente seguido por um surto entre porcos, e vice-versa, que revelam uma coincidência deveras espantosa, se não sugerem uma

relação estreita entre as duas situações.”27

A doença continuara a atingir os suínos no Meio Oeste. Entre

1922 e 1923, os veterinários do Bureau of Animal Industry transmitiram a doença de um porco para outro através de muco do trato respiratório. Filtraram o muco e tentaram transmitir a

doença com o muco filtrado. 28 Não conseguiram.

Shope observou a gripe suína durante uma viagem para sua

casa em Iowa. E começou a pesquisá-la. Lewis o ajudou a isolar um bacilo praticamente idêntico ao B. influenzae e o denominou B. influenzae suis. Shope também replicou as experiências dos veterinários e prosseguiu a partir delas. Achou que esse trabalho tinha um potencial muito interessante.

O trabalho de Lewis, porém, continuava a desmoronar. Flexner e Smith mantiveram suas avaliações sobre ele confidenciais. Para o resto do mundo — inclusive Shope —, eles o tinham na mais alta conta. Em junho de 1928, a Universidade de Iowa fez, pela quarta vez, uma oferta a Lewis, uma oferta excelente. Flexner o pressionou a aceitar. Lewis respondeu que seu interesse “inequívoco” permanecia em Princeton.

Flexner chamou Smith para discutirem “nosso futuro problema

com Lewis”.29 Os dois não conseguiam entendê-lo. Lewis não produzira nada em cinco anos. Realmente o tinham na mais alta conta — mas não mais por suas habilidades no laboratório. Flexner ainda acreditava que Lewis tinha um talento genuíno, uma visão ampla e profunda, uma capacidade extraordinária de se comunicar e inspirar. Ainda acreditava que Lewis poderia se tornar uma figura de destaque na pesquisa e no ensino da

medicina. Nesse campo, ele ainda podia ser um mestre. 30

Lewis demonstrara algumas das características de Welch.

Talvez grande parte delas. E talvez, no final, também carecesse do que Welch carecia: criatividade e visão organizacional para efetivamente dirigir uma importante pesquisa em laboratório.

Dois dias depois de Flexner e Smith conversarem, Flexner se

encontrou com Lewis. Foi franco com ele. Mas assegurou que a franqueza “era uma conclusão colocada diante [de você] com

toda a gentileza”. 31 A perspectiva de Lewis se tornar um membro do instituto era um sonho distante. A pesquisa dele fora “estéril” nos últimos cinco anos. A não ser que produzisse algo sólido e importante no ano seguinte, ele não seria renomeado nem mesmo para uma posição temporária. Lewis estava perto de completar cinquenta anos, e Flexner lhe disse: “As chances de [você] mudar em direção a ideias mais férteis [são] remotas.” Também acrescentou que Lewis não agira com “energia e determinação”. Não lutara. Depois, de maneira mais penosa, disse que ele “não tinha essencialmente o perfil de

pesquisador”.32

Flexner o pressionou — na verdade, quase ordenou — que

aceitasse o cargo em Iowa. Era uma oferta extraordinária: 10 mil dólares de salário por ano — mais do dobro da renda média para

os médicos 33 — e carta branca para organizar um departamento. Flexner lhe assegurou ainda acreditar que ele tinha grande talento. Grandioso. Ainda poderia dar uma contribuição fenomenal, importante e significativa. Em Iowa, poderia se tornar uma figura de peso, inspirar respeito e ser muito mais feliz.

Lewis ouviu com calma e pouco falou. Não protestou ou

argumentou. Estava quase passivo, mas firme. Havia um centro frio e inalcançável dentro dele. Com relação a Iowa, estava decidido. Iria recusar a oferta. Não tinha interesse em nada que não fosse o laboratório. Ele esperava que no ano seguinte justificasse uma renomeação.

Depois da conversa, Flexner ficou frustrado e com raiva.

“Coloquei toda a pressão que pude sobre ele, mas em vão”, escreveu para Smith. “Minha opinião é que nossas obrigações com Lewis já estão cumpridas e que, a não ser que aconteça uma mudança drástica, será nosso dever agir na próxima primavera. Ele se tornou uma verdadeira decepção para mim (...). Não deixei dúvidas quanto ao risco que ele assumiu, e ele

não me deixou dúvidas de que o compreende e o aceita.”34

 

Alguns meses antes da difícil conversa entre Flexner e Lewis, Hideyo Noguchi fora a Gana para pesquisar a febre amarela. Noguchi era talvez o que se pudesse chamar de “favorito” de Flexner. Eles tinham se conhecido quase trinta anos antes, quando Flexner ainda estava na Universidade da Pensilvânia e deu uma palestra em Tóquio. Sem ser convidado, Noguchi o seguiu até a Filadélfia, bateu à sua porta e anunciou que viera para trabalhar com ele. Flexner encontrou um posto para ele, e depois o levou para o Rockefeller Institute. Lá Noguchi desenvolveu uma reputação internacional, mas controversa.

Ele fizera ciência genuína com Flexner. Por exemplo,

identificaram — e nomearam — neurotoxina em veneno de cobras. E alegara avanços significativos por iniciativa própria, inclusive a capacidade de produzir vírus de pólio e raiva. (Ele não poderia tê-los produzido com suas técnicas.) Rivers, também do Rockefeller e a primeira pessoa a demonstrar que os vírus eram parasitas em células vivas, questionou tais alegações. Noguchi rebateu, dizendo que um homem que fizera pesquisa por muito tempo tinha cicatrizes das quais não conseguia se livrar. Mais tarde, Rivers descobriu um erro significativo no próprio trabalho e confessou a Noguchi que planejava se retratar por seu artigo. Noguchi aconselhou que não o fizesse, argumentando que ainda demoraria quinze anos para alguém descobrir que ele estava errado. Rivers ficou boquiaberto e disse posteriormente: “Não

acho que Noguchi fosse honesto.”35

Contudo, a alegação mais importante de Noguchi era de ter

isolado o patógeno que causava a febre amarela. Segundo ele, era uma espiroqueta, uma bactéria em forma de espiral. Anos antes, Walter Reed parecia ter provado que um vírus filtrável causava a doença. Reed já tinha morrido, mas outras pessoas criticaram a descoberta de Noguchi. Em resposta a uma dessas críticas, ele escreveu a Flexner: “As objeções dele eram bastante irracionais (...). Não tenho certeza de que esses homens de

Havana estão interessados em um debate científico.” 36

Ele não carecia de coragem. E assim partiu para Gana a fim

de mostrar que estava correto.

Em maio de 1928, ele morreu lá, de febre amarela. A morte de Noguchi aconteceu um mês antes de Flexner e

Lewis terem sua conversa. Atraiu atenção internacional, chegou às primeiras páginas de jornais em todo o mundo, inspirou tributos elogiosos em todos os jornais em Nova York. Ele teve o funeral de um guerreiro, uma glória fulgurante que apagou todas as questões sobre a qualidade de sua ciência.

Todo o Rockefeller Institute balançou com a perda. Apesar das

controvérsias científicas, Noguchi era animado, entusiasmado, sempre prestativo, benquisto por todos. Tanto Flexner quanto Lewis sofreram de modo especial. Noguchi fora, literalmente, como um filho para Flexner. Lewis o conhecia bem, muito bem, remetendo aos seus primeiros dias, felizes, em Nova York.

A morte de Noguchi também deixou aberta a pergunta se de

fato ele isolara o patógeno que causava a febre amarela. O instituto queria a resposta para essa questão.

Shope se voluntariou. Ele era jovem e se acreditava

invulnerável. E queria ação. Queria pesquisar a febre amarela.

Flexner se recusou. Ele tinha apenas 28 anos, com mulher e

filho pequeno. Era perigoso demais.

Então, Lewis se apresentou como voluntário. A dúvida

científica permanecia e era importantíssima. Quem seria mais qualificado para investigar isso do que ele, que se mostrara um especialista em cultivar bactérias? E, ainda mais importante, ele provara que a pólio era uma doença viral. Apesar do alegado por Noguchi, parecia que um vírus efetivamente causava a febre amarela. E, como se tratava de uma questão tão importante, também tinha limites embutidos — era o tipo de ciência estreita e focada que Flexner ainda tinha fé que Lewis fosse capaz de resolver.

A esposa de Lewis, Louise, se opôs. O laboratório já o tinha

afastado dela e dos dois filhos. Ela ainda estava furiosa com ele por ter recusado o cargo em Iowa. Mas aquilo... aquilo era algo completamente diferente.

Lewis nunca lhe dera ouvidos. Eles não tinham um casamento

de verdade fazia um bom tempo. Para ele, aquilo resolvia todos os seus problemas. Se tivesse êxito, iria se recuperar aos olhos de Flexner. Cinco anos antes ele se demitira do Phipps Institute e rejeitara a oferta de Iowa sem ter qualquer outra perspectiva. Fizera tudo aquilo com o intuito de realizar a única coisa que amava, voltar a trabalhar dentro de um laboratório. Ele queria se arriscar de novo. Estava se sentindo energizado de novo. E se encontrava mais desesperado do que nunca.

Em vez de Gana, porém, Lewis iria para o Brasil. Uma cepa

particularmente virulenta de febre amarela havia surgido ali.

 

No final de novembro de 1928, Flexner foi a Princeton para se despedir de Lewis. A atitude de Flexner em relação a ele já parecia ter se modificado, pois estava novamente desejoso de conversar sobre o futuro. Também queria, segundo disse, “saber

mais sobre a pesquisa de Shope em Iowa”. 37 Havia pouco tempo, Shope observara uma epizootia — uma epidemia em animais — de gripe incomumente violenta em porcos. A taxa de mortalidade de toda a população suína local atingira 4%. Em

alguns rebanhos, a taxa de mortalidade ultrapassara 10%.38 Tais números soavam bastante próximos aos da pandemia de gripe em seres humanos uma década antes.

Um mês depois, Lewis embarcou para o Brasil. Em 12 de

janeiro de 1929, Frederick Russell, o coronel que organizara grande parte da pesquisa científica do exército para Gorgas e que agora trabalhava para uma organização de saúde internacional patrocinada por Rockefeller, recebeu um telegrama afirmando que Lewis chegara e estava bem. O instituto repassou a notícia para a sua esposa, que ficara tão furiosa com a viagem que não queria ter nenhum contato com o Rockefeller e retornara a Milwaukee, onde tanto ela quanto o marido haviam crescido. Toda semana, Russell recebia notícias de Lewis e as repassava para ela.

Lewis instalou seu laboratório em Belém, uma cidade portuária

no rio Pará, a 120 quilômetros do oceano, mas o principal porto de entrada para a bacia amazônica. Os europeus haviam se instalado na região em 1615, e um incremento da indústria da borracha no século XIX levou à cidade mais uma grande leva de europeus, enquanto os índios se deslocavam entre interior e a cidade em canoas feitas de um só tronco. O clima era equatorial, úmido e com tanta precipitação quanto qualquer outro lugar no mundo.

Em 1o de fevereiro, Lewis escreveu para Flexner: “Cheguei

aqui na terça-feira e fui trabalhar imediatamente (...). Estou ocupado montando meu laboratório, aguardando materiais, encomendando uma filtragem adicional etc. (...). Devo começar a

pesquisa no início da semana que vem, espero.”39

Parecia o velho Lewis, eficaz e confiante. E toda semana

Russell recebia um telegrama com duas palavras: “Lewis bem.”40 Os telegramas chegaram durante os meses de fevereiro, março, abril e maio. Mas, apesar de dizer que estava bem, Lewis não enviava nenhuma palavra sobre sua pesquisa, sem dar um sinal de que a pesquisa estivesse indo bem.

Então, em 29 de junho, Russell mandou para Flexner, por um

meio de um mensageiro, um bilhete escrito à mão: “A seguinte mensagem do Rio de Janeiro, com relação ao dr. Paul Lewis, me foi enviada hoje, com o pedido que seja transmitida ao senhor. ‘Lewis está doente desde 25 de junho. Médicos afirmam ser febre amarela. Situação em 28 de junho, febre 39,8, pulso 80 (...).’ A Fundação está retransmitindo a mensagem ao dr. Theobald

Smith e também à sra. Lewis, em Milwaukee.”41

No mesmo momento em que Russell enviava esse bilhete a

Flexner, Lewis estava agonizando. Vomitava violentamente, o vômito quase preto, comum nos casos graves. Significava que o vírus atacou a mucosa de seu estômago, que sangrou, dando ao vômito aquela cor escura, e também a medula óssea, provocando dores violentas. Uma dor de cabeça intensa e lancinante não lhe dava sossego, exceto talvez quando delirava. Tinha convulsões. Seus colegas o cobriam de gelo e tentavam mantê-lo hidratado, mas havia pouco mais que pudessem fazer.

No dia seguinte, chegou outro telegrama: “Situação Lewis

crítica. Anurese sobreveio sábado.” 42

Seus rins estavam falhando e ele não produzia mais urina.

Todas as toxinas que o corpo normalmente expele agora estavam se amontoando em seu sistema. Mais tarde, naquele mesmo dia, Russell recebeu um segundo telegrama: “Lewis no

quarto dia de doença. Marcante comprometimento renal.”43 Ele estava ficando com icterícia, assumindo a clássica cor que deu nome à doença. Sintoma por sintoma, passo a passo, o corpo de Lewis estava definhando.

O dia 30 de junho de 1929 era um domingo. Lewis sofreu o dia

todo, contorcendo-se em delírio. Entrou em coma. Foi seu único alívio. Era o quinto dia de sua doença. Não haveria um sexto.

Pouco depois da meia-noite, o dr. Paul A. Lewis encontrou

paz.

Um telegrama para Russell não assinado relatou: “Febre

amarela típica. Provavelmente infecção em laboratório. Enviem

instruções em relação ao corpo.” 44

Shope desceu a rua Maple, na extremidade do campus de

Princeton, para informar a esposa de Lewis, que voltara de Milwaukee, e o filho Hobart, que permanecera em Princeton,

agora como estudante universitário. 45

A viúva de Lewis deu instruções simples e explícitas. Ela

voltaria imediatamente para Milwaukee e queria que o corpo fosse transladado diretamente para lá, onde estavam aqueles que se importavam com Paul. E declarou especificamente que não queria nenhuma cerimônia de homenagem organizada pelo Rockefeller Institute, nem em Nova York nem em Princeton.

Não houve nenhuma homenagem.

 

Shope acompanhou o corpo até Wisconsin. O gerente de negócios do Rockefeller lhe pediu: “Eu me pergunto se, quando o senhor chegar, poderia encomendar algumas flores para o velório

do dr. Lewis.” 46

As flores chegaram com um cartão assinado pelo “Conselho

de Diretores Científicos do Rockefeller Institute”.

A filha de Lewis, Janet, escreveu um bilhete de

agradecimento, aos cuidados dos “Caros senhores”.47 A mãe não conseguia ter qualquer contato com o instituto, muito menos na forma de um bilhete de agradecimento. O instituto pagou o salário de Lewis para a família até junho de 1930, assim como a anuidade de seu filho Hobart. (Como seu avô e a tia Marian, a primeira mulher a se formar na Rush Medical College [Escola Médica Rush], em Chicago, Hobart se tornou médico — mas clínico, não um cientista.)

No relatório seguinte do Conselho de Diretores Científicos do

Rockefeller Institute — um conselho que agora incluía Eugene Opie, que Lewis recrutara como seu sucessor no Phipps —, Flexner observou que o desligamento de um cientista “é lamentável, deixou sem continuação o estudo dos fenômenos da

luz”. 48

Lewis originalmente havia sugerido essa pesquisa a Flexner,

que mencionou um “ressurgimento da poliomielite”.49 Lewis mostrou que um vírus filtrável causava a doença.

Flexner prosseguiu item por item nos assuntos do instituto.

Assinalou que “havia um problema premente em conexão com a

pesquisa ainda inacabada do dr. Noguchi”.50 Não fez nenhuma menção a Paul A. Lewis, absolutamente nenhuma menção a ele.

Mais tarde, Flexner recebeu o relatório da autópsia de Lewis e

a notícia de que pesquisadores do instituto em Nova York obtiveram sucesso em transmitir o vírus de Lewis — que chamaram de “P.A.L.” — em macacos e continuavam a fazer experiências com ele. Flexner escreveu em resposta: “Obrigado por me enviarem o relatório sobre a comparação entre as cepas Rivas e P.A.L. do vírus da febre amarela. Quando quiserem, podemos discuti-lo. O dr. Cole acha conveniente pintar de branco e acrescentar outras melhorias às suas acomodações para

animais. Ele já fez algum comentário sobre isso?”51

 

Lewis havia trabalhado com patógenos mortais durante toda a sua vida adulta e nunca se infectara. Desde a morte de Noguchi, todos os que pesquisavam a febre amarela passaram a tomar cuidados especiais.

Nos cinco meses em que esteve no Brasil, Lewis não chegou

a relatar qualquer detalhe de sua pesquisa e suas anotações de laboratório não forneceram quase nenhuma informação. Ele morreu por causa de um acidente no laboratório. De algum modo, infectou-se com febre amarela.

Shope depois contou aos filhos de Lewis um boato de que ele,

fumante frequente, tivesse contaminado com o vírus um cigarro que viria a fumar. O vírus entrou na corrente sanguínea por meio de um corte nos lábios. David Lewis Anderson recorda que seu pai, amigo de Lewis na Filadélfia, também culpava os cigarros

pela morte de Lewis. 52

Três anos antes, Sinclair Lewis, sem parentesco com Paul

apesar do sobrenome, ganhou o prêmio Pulitzer por seu best-seller Doutor Arrowsmith, romance sobre um jovem cientista trabalhando em uma versão ficcional do Rockefeller Institute. Todo mundo na área de ciência médica, principalmente no instituto, conhecia o livro. No romance, a esposa do personagem principal morre ao fumar um cigarro contaminado com um patógeno mortal.

Flexner escreveu o obituário de Lewis para a revista Science,

no qual destacou suas “importantes observações, feitas em conjunto com Sewall Wright, acerca de fatores hereditários em

pesquisa sobre tuberculose”.53 A pesquisa de Lewis com Wright fora realizada na Filadélfia — Flexner não adicionou qualquer menção ao que Lewis fizera nos cinco anos desde que retornara ao instituto.

Enquanto isso, Shope voltou a Iowa para explorar a fundo a

gripe suína e observar outra epidemia entre os porcos.

 

Em 1931, dois anos após a morte de Lewis, Shope publicou três artigos em uma única edição do Journal of Experimental Medicine. Seu texto aparecia em boa companhia. Na mesma edição, havia artigos de Avery, da série de escritos sobre a pesquisa em pneumococo que levaria à sua descoberta do princípio transformante; de Thomas Rivers, o brilhante virologista; e de Karl Landsteiner, que acabara de ganhar o prêmio Nobel. Todos esses cientistas trabalhavam no Rockefeller.

Os três artigos de Shope abordavam a gripe. Ele colocou o

nome de Lewis como autor principal em um deles. Shope havia descoberto a causa da gripe, pelo menos nos suínos. Era um vírus. Sabemos agora que o vírus encontrado nos suínos descendia diretamente do vírus de 1918, o vírus que transformou o mundo inteiro em uma zona de morte. Ainda não está claro se foram os seres humanos que transmitiram o vírus para os porcos, ou se foram os porcos que passaram para os seres humanos, mas a primeira hipótese parece mais provável.

Naquela altura, o vírus já havia mudado para uma forma

branda, ou os sistemas imunológicos dos porcos já haviam se ajustado a ele, ou ambos os casos, uma vez que passava a provocar apenas doenças leves. Shope efetivamente demonstrou que, mesmo como um invasor secundário, o B. influenzae ainda

poderia ser letal.54 Mais tarde, ele iria demonstrar que anticorpos de pessoas sobreviventes da pandemia de 1918 protegeram os porcos da gripe suína.

O trabalho de Shope era instigante e de grande importância.

Assim que seus artigos foram publicados, ele foi procurado pelo cientista britânico C.H. Andrewes. Andrewes e vários colegas consumiam todos os seus esforços no estudo da gripe e acharam os estudos publicados por Shope convincentes. Andrewes e Shope se tornaram amigos próximos. Shope chegou a levar o colega para caçar e pescar no local onde costumava passar férias desde os seis anos de idade, em Woman Lake,

Minnesota.55

Em 1933, na Inglaterra, durante um leve surto de gripe

humana, Andrewes, Patrick Laidlaw e Wilson Smith, seguindo a metodologia de Shope, filtraram material humano recém-coletado e transmitiram gripe para furões. Eles encontraram o patógeno humano. Era um organismo filtrável, um vírus, como na gripe suína de Shope.

Se estivesse vivo, Lewis teria sido coautor dos artigos, junto

com Shope, e teria acrescentando abrangência e experiência aos mesmos. Teria ajudado a produzir outro artigo considerado como referência em virologia. Sua reputação teria permanecido intacta. Shope não era perfeito. Pois todas as suas realizações posteriores em gripe ou em outras áreas, algumas de suas ideias, inclusive aquelas ligadas à gripe, estavam erradas. Lewis, se estimulado, e mostrando uma vez mais seu esmero, poderia ter evitado tais erros. Mas não importa.

Shope logo foi aceito como membro do Rockefeller. Lewis

provavelmente também seria. Teria sido convidado para entrar no seleto santuário. Teria pertencido à comunidade daqueles que se dedicam à ciência. O lugar que lhe pertencia. Ele teria tudo que sempre quis.

William Park, Oswald Avery e Paul Lewis abordavam a ciência cada um a seu jeito.

Park, que por pouco não se tornou médico missionário, via a

ciência como um meio para atingir um fim maior. Era uma ferramenta para aliviar o sofrimento. Disciplinado e metódico, tinha como interesse primordial obter resultados imediatos úteis para atingir tal propósito. Suas contribuições, em particular as realizadas em dupla com Anna Williams, foram inestimáveis — só o desenvolvimento da antitoxina diftérica salvou centenas de milhares de vidas no século passado. Mas seu propósito também o limitou, e limitou o tipo de descobertas que ele e aqueles sob seu comando fariam.

Avery era dinâmico e obsessivo. Tinha um lado de artista e

outro de caçador, era visionário, ambicioso, paciente e persistente. Seu olhar artístico lhe permitiu contemplar o que acontecia a partir de outra perspectiva — e em requintados detalhes. Já o caçador que havia dentro de si alertava quando algo, por mais trivial que parecesse, estava fora de contexto, e se questionava. O questionamento o levava a sacrificar todo o resto. Não lhe restava outra escolha senão perseguir a solução. Era sua natureza. Cortar um nó górdio não lhe proporcionava qualquer satisfação. Seu desejo consistia em descobrir e compreender as coisas, não em destruí-las. Então, puxava um fio e continuava a puxá-lo, destrinchando-o, examinando para ver aonde o fio iria dar, até desmanchar todo o tecido. A partir daí, outros teciam um novo tecido para um mundo diferente. T.S. Eliot disse que qualquer trabalho de arte modifica ligeiramente a ordem existente. Avery conseguiu bem mais do que isso.

Paul Lewis era um romântico e um apaixonado. Desejava.

Desejava mais e amava com mais paixão que Park ou Avery. Contudo, como muitos românticos, gostava tanto ou mais da ideia da coisa do que da própria coisa. Amava a ciência, e amava o trabalho em laboratório. Mas este não cedia aos seus desejos. Os mais profundos segredos do laboratório só se mostravam a Lewis quando ele era guiado por outros, quando outros lhe abriam uma brecha. Mas essa brecha se fechou. Não conseguia encontrar a chave, o jeito certo de fazer as perguntas. O laboratório lhe apresentava um rosto impassível, não atendia às suas súplicas. E, quer sua morte tenha sido suicídio ou resultado de um acidente, sua vontade de conquistar o que amava o matou. Podemos considerar Lewis, em um certo sentido, a última vítima da pandemia de 1918.