A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 18 de 43

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A Grande Gripe

Parte V: A EXPLOSÃO

Parte V

 

A EXPLOSÃO

CAPÍTULO DEZESSETE

 

N 7 , 300 marinheiros chegaram ao estaleiro

da marinha na Filadélfia, vindos de Boston. 1 E o que aconteceu na Filadélfia a partir desse momento se mostraria — com acentuada frequência — um modelo do que aconteceria em outros lugares.

A Filadélfia já era um exemplo por suas experiências de

guerra. Todas as cidades recebiam uma multidão de pessoas e, somente na área da construção de navios, haviam entrado na Filadélfia dezenas de milhares de operários. Em poucos meses, um grande pântano se transformara no estaleiro de Hog Island, o maior do mundo, em que 35 mil trabalhadores labutavam entre fornalhas e aço e maquinaria. Perto dali, no estaleiro da New York Shipbuilding, empresa de construção de navios de Nova York, trabalhavam 11.500 homens, e em cada um dos doze outros estaleiros trabalhavam de 3 mil a 5 mil homens. E a cidade transbordava com outros grandes estabelecimentos industriais: diversas fábricas de munição, cada uma empregando milhares de trabalhadores em um único local, a J.G. Brill Company fabricava um bonde por hora e empregava 4 mil pessoas, a Midvale Steel tinha 10 mil funcionários, a Baldwin Locomotive, 20 mil.

Superlotada antes da guerra, com cada vez mais

trabalhadores e uma população de 1,75 milhão de habitantes, a Filadélfia literalmente fervilhava de gente. Em 1918, uma publicação nacional voltada para assistentes sociais julgou as condições de moradia nas favelas, onde a maioria dos cortiços

tinham anexos abrigando dezenas de famílias, 2 piores do que as do Lower East Side de Nova York. Os negros enfrentavam condições ainda mais degradantes, e a cidade tinha a maior população afro-americana de qualquer cidade do Norte, incluindo Nova York ou Chicago.

A habitação era tão escassa que os escoteiros

esquadrinhavam a área procurando quartos para mulheres recém-chegadas que tinham empregos relacionados com a guerra. Duas, três, quatro famílias inteiras se espremiam em apartamentos de dois ou três quartos, com crianças e adolescentes compartilhando uma cama. Em pensões, trabalhadores dividiam não só quartos, mas camas, frequentemente dormindo da mesma forma como trabalhavam — em turnos. Nesses mesmos cortiços, o próprio departamento de saúde da cidade admitira que, durante o inverno de 1917-1918, “a taxa de mortalidade (...) cresceu devido ao alto custo de vida e

à escassez de carvão”.3

A cidade oferecia serviços sociais para os pobres por meio do

Hospital da Filadélfia, conhecido como “Blockley”, um abrigo para pobres e um hospício. Mas não oferecia nada mais, nem mesmo um orfanato. A elite social e os progressistas administravam quaisquer atividades de caridade que existissem. Mesmo os serviços normais, como escolas, não atendiam a demanda. Das vinte maiores cidades da América do Norte, a Filadélfia, a cidade de Benjamin Franklin e da Universidade da Pensilvânia, gastava menos em educação do que todas as outras, exceto uma. Em todo o sul da Filadélfia, lar de centenas de milhares de italianos e

judeus, não haveria escola de ensino médio até 1934.4

Tudo isso fazia da cidade um solo fértil para qualquer doença

epidêmica. O mesmo pode-se dizer de um governo municipal incapaz de reagir a uma crise. O jornalista investigativo Lincoln Steffens chamou a Filadélfia de “a cidade com o pior governo da

América do Norte”. 5 É muito provável que tivesse razão.

Até mesmo o uso do poder da Tammany em Nova York fora

fortuito comparado ao da máquina política da Filadélfia, que voltara ao poder em 1916 após um único mandato de um reformista no cargo de prefeito. O dono do poder na Filadélfia era o senador republicano Edwin Vare. Ele havia vencido e ridicularizado pessoas que se consideravam superiores, que o desprezavam, pessoas com sobrenomes como Wharton, Biddle e Wanamaker.

Homem de estatura baixa, com peito e barriga roliços — seu

apelido era “camaradinha” —, Vare tinha sua base no sul da Filadélfia. Ele crescera naquela região antes da incursão dos imigrantes, em uma fazenda de criação de suínos em uma área então rural chamada “the Neck”. Ainda morava lá apesar da enorme fortuna, que vinha da política.

Todos os funcionários da prefeitura doavam uma parte do

salário para a máquina política de Vare. Para garantir que ninguém deixasse de pagar, os funcionários recebiam os salários não no lugar onde trabalhavam ou na prefeitura — um edifício vitoriano clássico e grandioso, com quinas arredondadas e janelas lembrando salgueiros-chorões —, mas na sede do partido republicano, que ficava no outro lado da rua. O próprio prefeito dava mil dólares de sua remuneração.

Vare também era o maior empreiteiro da cidade, e seu maior

contrato era para a limpeza das ruas, um contrato que já mantinha havia quase vinte anos. Em 1917, uma época em que uma família poderia viver confortavelmente com 3 mil dólares ao ano, Vare recebera mais de 5 milhões para a tarefa. Nem todo esse dinheiro ficava em seu bolso, mas até a parte que saía passava por ali e ele guardava uma taxa. Ainda assim, as ruas eram notoriamente imundas, principalmente na região sul da cidade — onde a carência era maior, onde tudo que não fosse esgoto in natura, e às vezes até mesmo isso, corria pelas sarjetas, e onde a máquina política era mais forte.

Por incrível que pareça, justamente a falta de serviços

públicos fortalecia a máquina política, já que ela provia o que a prefeitura não fazia: cestas básicas para os pobres, auxílio com empregos e favores, e ajuda com a polícia — o comissário de polícia e muitos magistrados recebiam dinheiro de Vare. As pessoas pagavam pelos favores com votos, os quais, como um alquimista medieval, Vare transformava em dinheiro.

A máquina política se mostrara tão lucrativa que Edwin Vare e

seu irmão William, um congressista, tornaram-se filantropos, doando tanto dinheiro à sua igreja na Moyamensing Avenue com a rua Morris, que ela foi renomeada como Abigail Vare Memorial Methodist Episcopal Church [Igreja Metodista Episcopal em Memória de Abigail Vare], em homenagem à mãe deles. Não existem muitas igrejas cujos nomes homenageiam meros mortais, mas esse era o caso.

No entanto, não havia nada de santo em tudo o que se

relacionasse à máquina política. No dia das eleições primárias de 1917, vários funcionários de Vare usaram porretes para constranger dois líderes de um partido da oposição, e depois espancaram até a morte um policial que interveio. O incidente revoltou a cidade. O tenente-chefe de Vare em 1918 era Thomas B. Smith. Durante seu único mandato, Smith seria indiciado, ainda que absolvido, em três acusações sem nenhuma relação uma com as outras, incluindo conspiração pela morte daquele policial. Essa mesma eleição, entretanto, deu a Vare controle absoluto sobre as duas Câmaras que compunham a legislatura da cidade, e vasta influência na legislatura do estado.

O diretor do Department of Public Health and Charities

[Departamento de Saúde Pública e Instituições Beneficentes] da Filadélfia, um cargo criado pelo prefeito e que se extinguiria junto com o mandato deste, era o dr. Wilmer Krusen — um político que fora nomeado para agir de acordo com os interesses do prefeito. Krusen era um homem respeitável, cujo filho se tornaria cirurgião na Clínica Mayo. Mas lhe faltava experiência, comprometimento ou entendimento dos assuntos de saúde pública, além de ser, por natureza, uma pessoa que achava que os problemas desapareceriam sozinhos. Não era alguém com ímpeto de resolver as coisas.

Ele não exerceria qualquer pressão na máquina política para

investir em saúde pública. Apesar de ser ginecologista, recusou-se até a ajudar o exército em sua grande campanha nacional contra a prostituição. Mesmo Nova Orleans havia sucumbido à pressão para fechar Storyville, onde a prostituição era legalizada, mas não havia pressão na Filadélfia, onde a prostituição continuava ilegal, que inibisse de alguma maneira tal indústria. Por isso, de acordo com um relatório militar, a marinha “tomou

efetivo controle dos assuntos da polícia” 6 no lado de fora de suas instalações.

A administração da cidade estava sufocada por corrupção,

com linhas de autoridade divididas entre Vare, capitães de polícia-transformados-em-empresários e o prefeito. O governo local não desejava agir, nem conseguiria se quisesse.

 

Quatro dias após a chegada dos marinheiros de Boston ao estaleiro da marinha, houve o relato de 19 marinheiros doentes com sintomas da gripe.

O capitão-tenente R.W. Plummer, médico e a principal

autoridade de saúde do distrito naval da Filadélfia, estava bem consciente do surto epidêmico em Commonwealth Pier e em Devens, e sua disseminação na população civil de Massachusetts. Determinado a conter o surto, ordenou o confinamento imediato dos soldados nos quartéis e a desinfecção meticulosa de qualquer coisa que tivessem tocado.

Na verdade, o vírus já tinha escapado, e não somente para a

cidade. No dia anterior, 334 marinheiros haviam deixado a Filadélfia rumo a Puget Sound — e muitos chegariam lá doentes,

em uma situação desesperadora. 7

Plummer também tomou a providência imediata de convocar

Paul Lewis.

Lewis estava esperando por aquilo.

Ele amava o laboratório mais do que qualquer coisa ou

pessoa, e tinha confiança total em Welch, Theobald Smith e Flexner. Lewis havia obtido a confiança deles por seu extraordinário desempenho como jovem cientista, sob o comando de todos eles, um de cada vez. Já tinha conquistado muita coisa, e prometia ainda mais. Também conhecia o próprio valor, não no sentido de ser presunçoso, mas no de reconhecer sua responsabilidade, tornando suas conquistas prometidas em um dever e uma ambição. Apenas uma oferta para estar à frente da fundação do novo Henry Phipps Institute (Phipps havia arrecadado milhões na U.S. Steel junto com Andrew Carnegie e, assim como este, se tornara um filantropo proeminente), associado à Universidade da Pensilvânia, o atraíra a ponto de largar o Rockefeller Institute e seguir para a Filadélfia. Ele estava projetando o Phipps com o modelo de outro instituto, embora o foco fosse muito mais dirigido para doenças pulmonares, principalmente tuberculose.

Ninguém precisava mostrar a Lewis como a situação

demandava urgência. Ele conhecia os detalhes dos marinheiros britânicos que tinham morrido no início de julho, e provavelmente tentara fazer a cultura da bactéria a partir deles e preparar um soro. Logo depois de saber que a gripe tinha aparecido no estaleiro da marinha, Lewis se dirigiu até lá.

Seu papel era assumir o processo, normalmente deliberado e

gradual, de rastrear o patógeno e tentar desenvolver um soro ou vacina. E não havia tempo para os procedimentos científicos normais.

No dia seguinte, 87 marinheiros caíram doentes. Em 15 de

setembro, enquanto Lewis e seus assistentes trabalhavam nos laboratórios da universidade e no hospital da marinha, o vírus havia acometido 600 marinheiros e fuzileiros navais, deixando-os doentes o suficiente para serem internados, e em poucos minutos mais homens contraíam a doença. O hospital naval ficou sem leitos. A marinha começou a enviar os marinheiros enfermos para o Hospital da Pensilvânia, na confluência das ruas Eighth e Spruce.

Em 17 de setembro, cinco médicos e catorze enfermeiras

daquele hospital civil ficaram doentes. Nenhum deles exibira qualquer sintoma anteriormente. Em um minuto estavam se sentindo bem e, no outro, estavam sendo carregados em agonia para os leitos do hospital.

 

O pessoal da marinha em Boston também fora transferido para outros pontos. Enquanto a Filadélfia experimentava uma explosão da doença, o mesmo acontecia com a Great Lakes Naval Training Station [Estação de Treinamento Naval dos Grandes Lagos], a cerca de 50 quilômetros acima de Chicago. Teddy Roosevelt criara a base em 1905, declarando que ela se tornaria a maior e melhor estação de treinamento naval do mundo. Com 45 mil marinheiros, certamente era a maior, e começava a criar uma história digna de orgulho. Os batalhões de construção da marinha e seus “Seabees” nasceram no local, e durante a guerra o tenente John Philip Sousa criou catorze bandas regimentais na base — algumas vezes todos os 1.500 músicos tocavam em massa em Ross Field, fazendo um espetáculo para dezenas de milhares de espectadores, que se aglomeravam para ouvi-los. Com o vírus da gripe se espalhando por toda a base, não haveria mais multidão, nem para os músicos nem para nada. Ali, a gripe irrompeu pelas casernas como uma explosão.

Robert St. John havia acabado de se integrar à marinha

quando se tornou uma das primeiras vítimas. Deitado em uma maca em um galpão de exercícios onde logo milhares de homens ficariam deitados sem atendimento, St. John relatou mais tarde: “Ninguém checava nossas temperaturas, e nunca vi um

médico.”8 Ele fez seu primeiro amigo na marinha, um rapaz no leito ao lado, doente demais para conseguir pegar água. O próprio St. John mal tinha forças para ajudá-lo a beber do cantil. Na manhã seguinte, um assistente do hospital declarou o amigo como morto e dois marinheiros colocaram o corpo dele em uma maca e o levaram embora. Naquela altura, o departamento médico já tinha anunciado que “pedira 33 caixões ao Naval Medical Supply Depot [Depósito de Suprimentos Médicos da

Marinha]”.9 Logo precisariam de bem mais do que isso.

Uma enfermeira que trabalhou na Base dos Grandes Lagos

mais tarde seria assombrada por pesadelos. A enfermaria tinha 42 leitos. Rapazes deitados em macas no chão, esperando que morressem os que ocupavam as camas para ficar em seu lugar. Toda manhã as ambulâncias vinham, e carregadores de macas levavam os marinheiros doentes para dentro e os cadáveres para fora. Ela se lembra de que, no pico da epidemia, as enfermeiras envolviam mais de um paciente vivo em lençóis e colocavam

uma etiqueta no dedão do pé esquerdo. 10 Economizava tempo, já que elas estavam exaustas. Eram etiquetas de transporte, listando o nome do marinheiro, sua posição e a cidade natal. Ela se lembrava de corpos “no necrotério, empilhados do chão ao teto, como lenha”. Nos seus pesadelos, imaginava “o que sentiria

o rapaz que estava na base” daquela pilha. 11

 

A epidemia estava se alastrando pelas instalações navais da Filadélfia com violência semelhante ao que acontecera em Boston. Ainda assim, naquela cidade, apesar das notícias sobre Boston, apesar da situação nos Grandes Lagos, apesar dos eventos no próprio estaleiro da marinha, o diretor de saúde pública da Filadélfia, Wilmer Krusen, não fizera absolutamente nada.

Nem todos os responsáveis pela saúde pública na cidade

continuavam alheios à ameaça. Um dia depois de o primeiro marinheiro ficar doente, o dr. Howard Anders, um proeminente especialista em saúde pública que menosprezava a máquina política de Vare — na qual não confiava nem um pouco —, escreveu para William Braisted, administrador geral da saúde da marinha, pedindo que “as autoridades (federais) da marinha, diante da ameaça de invasão de gripe, interferissem diretamente no caso e insistissem em proteger seus homens e, com isso,

também toda a população da Filadélfia (...)?”.12 (Braisted recusou o pedido.)

Krusen negou publicamente que a gripe oferecesse qualquer

risco para a cidade. Ele parecia acreditar nisso, pois não traçou nenhum plano de contingência em caso de emergência, não estocou nenhum suprimento e não compilou nenhuma lista da equipe médica disponível em uma emergência, apesar de 26% dos médicos da Filadélfia e um percentual ainda mais alto de enfermeiras estarem nas forças armadas. Na verdade, mesmo com a pressão crescente de Lewis, de Anders, dos médicos de toda a cidade, do corpo docente da Universidade da Pensilvânia e da Escola de Medicina Thomas Jefferson — que se recusou a liberar seis médicos desejosos de se voluntariar para o serviço

militar logo que a epidemia eclodiu —,13 só em 18 de setembro, uma semana inteira depois da doença aparecer na cidade, Krusen se dignou a agendar uma reunião com Plummer, Lewis, entre outros.

No escritório de Krusen, no quinto andar da prefeitura, eles

atualizaram uns aos outros, trocando informações. Em Massachusetts, aproximadamente mil pessoas já haviam morrido, com dezenas de milhares doentes, e o governador do estado acabara de emitir um pedido para médicos e enfermeiras das regiões vizinhas se apresentarem. Na Filadélfia, centenas de marinheiros estavam hospitalizados. Poucos sinais de doença haviam surgido entre civis, mas Lewis relatou que não havia encontrado uma cura com sua pesquisa.

Mesmo que Lewis tivesse sucesso na produção de uma

vacina, levaria semanas para ela ser produzida em quantidades suficientes. Dessa forma, somente ações drásticas poderiam conter a propagação da gripe pela cidade. Banir reuniões públicas, fechar escritórios e escolas, impor quarentena absoluta no estaleiro da marinha e nos civis infectados — todas essas providências faziam sentido. Existia um precedente recente. Apenas três anos antes, o antecessor de Krusen — durante o único mandato de um prefeito reformista — havia imposto e executado uma quarentena rigorosa por causa da eclosão de uma epidemia de pólio, uma doença que Lewis conhecia mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Ele aconselhava a quarentena.

Mas Plummer era o superior de Lewis. Ele e Krusen preferiam

esperar. Ambos temiam que tomar tais passos pudesse causar pânico e interferir nos esforços de guerra. Manter a população tranquila era o objetivo. As restrições por causa da epidemia de pólio foram impostas quando o país não estava em guerra.

A reunião terminou sem nada decidido, a não ser monitorar a

evolução dos casos. Krusen prometeu começar uma campanha em massa de publicidade contra tossir, cuspir e espirrar. Mesmo assim, levaria dias para ser organizada. E entraria em conflito com a minimização do perigo por parte de Krusen e das autoridades da marinha.

Em Washington, Gorgas, que provavelmente já ouvira falar de

Lewis, não estava satisfeito com esses desenvolvimentos. Naquele momento, a gripe havia irrompido em mais dois acantonamentos, Camp Dix, em Nova Jersey, e Camp Meade, em Maryland, ambos próximos à cidade. Lewis mantinha um contato bem próximo com a Philadelphia Tuberculosis Society [Sociedade de Tuberculose da Filadélfia], e Gorgas lhe pediu para imprimir e distribuir 20 mil grandes cartazes alertando sobre a gripe e recomendando uma precaução simples que poderia ajudar, mesmo em pequena escala: “Quando for obrigado a tossir ou espirrar, sempre coloque um lenço, um guardanapo de papel

ou um pedaço de tecido de qualquer tipo diante do rosto.” 14

Enquanto isso, o Evening Bulletin assegurou a seus leitores

que a gripe não representava nenhum perigo, era tão velha quanto a história e vinha acompanhada de um miasma respeitável, de ar contaminado e de pragas de insetos, três coisas que não estavam acontecendo na Filadélfia. Plummer assegurou aos repórteres que ele e Krusen iriam “confinar essa doença aos limites atuais, e temos certeza do nosso sucesso nessa providência. Não houve nenhum registro de morte entre os homens da marinha. Tanto os médicos do exército e da marinha quanto as autoridades civis não demonstram nenhum traço de

preocupação”. 15

No dia seguinte, dois marinheiros morreram de gripe. Krusen

liberou o Municipal Hospital for Contagious Diseases [Hospital Municipal de Doenças Contagiosas] para a marinha, e Plummer declarou: “A doença provavelmente atingiu seu pico. Acreditamos que a situação está bem controlada. De agora em diante, os

casos vão diminuir.” 16

Krusen insistiu com os jornalistas que as pessoas morreram

não por causa de uma epidemia. Disse que elas morreram de gripe, mas que era “a gripe de sempre”. No outro dia, 14 marinheiros morreram, assim como o primeiro civil, “um italiano não identificado”, no Philadelphia General Hospital [Hospital Geral de Filadélfia], nas ruas 34 South e Pine.

No dia seguinte, mais de vinte vítimas do vírus foram para o

necrotério. Uma delas era Emma Snyder, enfermeira que tinha cuidado dos primeiros marinheiros a chegarem ao Hospital da Pensilvânia. Tinha 23 anos de idade.

A face pública de Krusen permanecia tranquilizadora. Ele admitiu “alguns casos na população civil”, mas afirmou que os inspetores de saúde buscavam casos entre os civis “para cortar a epidemia pela raiz”. Só não disse como.

No sábado, 21 de setembro, a Board of Health [Diretoria de

Saúde] tornou a gripe uma doença “notificável”, exigindo que médicos reportassem as autoridades de saúde sobre todos os casos que tratavam. A medida forneceria informações sobre sua evolução. Trabalhar em um sábado já era incomum por si só, mas, apesar disso, a Diretoria garantiu à população que estava “convencida de que é correta a declaração emitida pelo diretor Krusen de que não há uma epidemia de gripe se espalhando entre a população civil no presente momento. Além do mais, a Diretoria tem uma forte sensação de que, se o público em geral seguir as recomendações de forma cuidadosa e rigorosa, para evitar contrair a gripe, pode-se evitar uma epidemia com sucesso”.

Os conselhos da Diretoria: fiquem aquecidos, mantenham os

pés secos e os intestinos abertos — esse último um vestígio da tradição hipocrática. Também houve um alerta para evitar multidões.

Sete dias mais tarde, em 28 de setembro, estava programada

uma grande parada denominada Liberty Loan, projetada para vender milhões de dólares em títulos de guerra. O evento consumira semanas de organização, e seria a maior parada da história da Filadélfia, com milhares de pessoas marchando e uma estimativa de centenas de milhares assistindo.

 

Eram tempos extraordinários, devido à Grande Guerra. Não se pode considerar a pandemia de gripe sem entender o contexto. Wilson tinha compreendido seus objetivos. Os Estados Unidos estavam inteiramente empenhados na guerra.

Dois milhões de soldados americanos já estavam na França.

Esperava-se que pelo menos mais dois milhões fossem necessários. Cada elemento da nação, de fazendeiros a professores primários, era recrutado, de bom grado ou não. Para Wilson, para Creel, para todo o governo e, na verdade, tanto para aliados quanto para inimigos, o controle da informação importava. A publicidade estava prestes a emergir como indústria. J. Walter Thompson — cuja agência de publicidade já tinha alcance nacional, e cujo representante se tornou um importante auxiliar de Creel — teorizava que a publicidade podia construir comportamentos. Após a guerra, a indústria iria alegar

sua capacidade de “modificar as ideias de populações inteiras”,17 enquanto Herbert Hoover afirmava que “o mundo vive por meio

de expressões” 18 e chamava as relações públicas de “uma ciência exata”.

O comprometimento total com a guerra exige sacrifícios e o

moral elevado torna os sacrifícios aceitáveis e, portanto, possíveis. Os sacrifícios incluíam desconfortos na vida cotidiana. Para contribuir para o esforço de guerra, os cidadãos do país suportavam os “dias sem carne” durante a semana, a “refeição sem trigo” diariamente. Todos esses sacrifícios, é claro, eram voluntários, completamente voluntários — ainda que a Food Administration [Agência de Alimentos] de Hoover pudesse de fato fechar os negócios que não cooperavam “voluntariamente”. E se alguém decidisse fazer um passeio no campo em um “domingo sem gasolina”, quando o povo “voluntariamente” se abstinha de dirigir, teria seu passeio interrompido na estrada por um policial hostil.

O governo Wilson tencionava fazer a nação aderir. Wilson

informou ao chefe dos Escoteiros que vender títulos de guerra forneceria “a cada escoteiro uma oportunidade fantástica em contribuir para o seu país com o slogan: ‘Todo Escoteiro

Salvando um Soldado’”.19 Os 150 mil integrantes do Four Minute Men de Creel, os porta-vozes que virtualmente abriam todos os eventos públicos, inclusive cinemas e espetáculos de variedades, estimulavam as doações. E quando o estímulo falhasse, outras pressões podiam ser exercidas.

A própria preservação do moral tornou-se um objetivo. Pois,

se ele vacilasse, poderia contaminar todo o resto. Então, a liberdade de expressão balançou. Mais do que no período de McCarthy, mais do que na própria Segunda Guerra Mundial, mais do que na Guerra Civil — quando Lincoln era sistematicamente difamado por opositores —, a liberdade de expressão de fato balançou. O governo tinha os 200 mil membros da American Protective League [Liga Protetora Americana], que se reportavam ao novo órgão de segurança interna do Departamento de Justiça, chefiado por J. Edgar Hoover e espionavam vizinhos e colegas de trabalho. A organização de Creel advertia aos cidadãos: “Qualquer um que afirme ter uma ‘informação privilegiada’ está blefando. Diga que é seu dever patriótico ajudar você a descobrir de onde aquela informação veio. Se encontrar uma pessoa desleal em sua busca, informe o nome dela ao Departamento de

Justiça em Washington e onde encontrá-la.”20

Os socialistas, os alemães e especialmente os sindicalistas

radicais do International Workers of the World (IWW) [Trabalhadores Industriais do Mundo] recebiam um tratamento muito pior. O New York Times declarou: “Os agitadores do IWW agem como verdadeiros agentes da Alemanha, e talvez o sejam de fato. As autoridades federais devem acabar de vez com esses

conspiradores e traidores dos Estados Unidos.” 21 O governo fez exatamente isso, invadindo reuniões de sindicatos, condenando quase 200 sindicalistas em tribunais em massa em Illinois, Califórnia e Oregon, aplicando pressão implacável contra todos os oponentes. Na Filadélfia, no mesmo dia em que Krusen pela primeira vez discutiu a gripe com autoridades da marinha, foram presos cinco homens que trabalhavam para o Tageblatt, um jornal de língua alemã da cidade.

O que o governo não fazia, os vigilantes se encarregavam de

fazer. Houve o caso de 1.200 membros do IWW trancados em vagões fechados no Arizona e abandonados em um ramal no deserto. Houve o caso de Frank Little, membro do IWW, amarrado a um carro e arrastado pelas ruas de Butte, Montana, até as rótulas de seus joelhos ficarem completamente raspadas, e depois enforcado na estrutura elevada de uma estrada de ferro. Houve o caso de Robert Prager, nascido na Alemanha, mas que tentara se alistar na marinha, atacado por uma multidão perto de St. Louis, espancado, despido, enrolado em uma bandeira americana e linchado porque proferiu uma palavra positiva sobre seu país de origem. E, depois que os líderes daquele tumulto foram absolvidos, houve o grito de um jurado: “Acho que agora

ninguém pode dizer que não somos leais!”22 Enquanto isso, um editorial do Washington Post comentou: “Apesar de excessos, como linchamentos, vemos um despertar saudável e benéfico no

interior do país.” 23

O socialista Eugene Debs, que recebera quase 1 milhão de

votos na eleição presidencial de 1912, foi sentenciado a dez anos de prisão por se opor à guerra. Em um julgamento sem conexão com este, o deputado de Wisconsin Victor Berger foi sentenciado a vinte anos pelo mesmo motivo. A Câmara dos Representantes o expulsou e se recusou a empossá-lo quando ele foi reeleito. Tudo para proteger o “estilo de vida americano”.

Poucas elites na América desfrutavam de mais luxos do que

as da sociedade da Filadélfia, com seus Biddles e Whartons. No entanto, o Philadelphia Inquirer noticiou com satisfação o seguinte: “Em um jantar na região de Main Line, com uns dez homens à mesa, teceu-se alguma crítica sobre a forma como o governo estava lidando com as coisas. O anfitrião se levantou e disse: ‘Senhores, não compete a mim lhes dizer o que falar, mas há quatro agentes do Serviço Secreto aqui hoje.’ Foi uma maneira diplomática de colocar um ponto final a uma conversa pela qual ele não tinha interesse.”

Enquanto isso, o Secretário do Tesouro William McAdoo

acreditava que, durante a Guerra Civil, o governo tinha cometido um “erro fundamental” em não vender os títulos para os cidadãos comuns: “Qualquer grande guerra deve necessariamente ser um movimento popular. É uma cruzada. E, como todas as cruzadas, carrega uma poderosa carga de romantismo. [Salmon, secretário do Tesouro de Lincoln] Chase não tentou capitalizar as emoções do povo. Nós nos dirigimos ao povo, englobando todo mundo — empresários, operários, fazendeiros, banqueiros, milionários, professores, trabalhadores. Capitalizamos o impulso profundo chamado patriotismo. É a qualidade da adesão que mantém uma nação como única. É uma das mais profundas e poderosas

motivações dos seres humanos.”24 Ele foi além e declarou: “Todo aquele que se recusa a contribuir, ou permite que um companheiro se recuse, age como amigo da Alemanha, e eu gostaria muito de dizer isso na cara dele. Um homem que não pode emprestar $1,25 por semana ao seu país, com uma taxa de

juros de 4%, não tem o direito de ser cidadão americano.” 25

 

A campanha de doação conhecida como Liberty Loan arrecadaria milhões de dólares apenas na Filadélfia. A cidade tinha uma cota a alcançar. A parada marcada para 28 de setembro era essencial para isso.

Diversos médicos — médicos na ativa, especialistas em saúde

pública em escolas de medicina, especialistas em doenças infecciosas — insistiram com Krusen para cancelar o evento. Howard Anders tentou gerar pressão da opinião pública para não deixá-la acontecer, contando aos jornalistas que o desfile iria espalhar a gripe e provocar mortes. Nenhum jornal publicou seu aviso — afinal de contas, tal comentário poderia afetar o moral dos cidadãos. Então, ele pediu a um editor que publicasse uma advertência de que o evento traria “uma massa inflamável pronta

para uma conflagração”. 26 O editor se recusou.

A gripe era uma doença que se espalhava em multidões.

“Evitem multidões” — era o conselho dado por Krusen e a Diretoria de Saúde da Filadélfia. Para evitar aglomerações, a Philadelphia Rapid Transit Company, a empresa de transportes públicos da cidade na época, apenas limitara o número de passageiros nos bondes.

As bases do exército já estavam tão sobrecarregadas por

causa da gripe que, em 26 de setembro, o marechal Enoch Crowder cancelou o chamado para novos alistamentos. Naquele mesmo dia, Samuel McCall, governador de Massachusetts solicitou formalmente ajuda federal, assim como o envio de médicos, enfermeiras e suprimentos dos estados vizinhos.

Se a gripe mal começava seu ataque na Filadélfia, já estava

bradando a velocidade máxima em todo o estaleiro da marinha. Por causa dela, 1.400 marinheiros estavam hospitalizados. A Cruz Vermelha estava transformando seu centro (o United Service Center) na confluência das ruas 22 e Walnut em um hospital de 500 leitos para uso exclusivo da marinha. Certamente Krusen via tais relatos e ouvia que queriam cancelar a parada, mas parecia não prestar atenção. Tudo o que fez foi proibir entretenimento dirigidos a soldados ou marinheiros por parte de qualquer organização ou indivíduo da cidade. No entanto, os militares podiam frequentar lojas, viajar em bondes, assistir a espetáculos de variedades ou entrar em cinemas.

Na Filadélfia, em 27 de setembro, um dia antes da parada, os

hospitais admitiram mais 200 pessoas acometidas de gripe — sendo 123 civis.

Krusen sofria uma pressão intensa e crescente para cancelar

a parada, vinda de colegas médicos, das notícias de Massachusetts, do cancelamento do alistamento. Era provável que a decisão de prosseguir ou não com a parada estivesse inteiramente em suas mãos. Se procurasse uma orientação com o prefeito, não teria conseguido nada. Pois um magistrado havia acabado de emitir um mandado de prisão contra o prefeito, que se encontrava a portas fechadas com o advogado, envolvido em outras preocupações e incomunicável. Anteriormente, para o bem da cidade e o esforço de guerra, fora forjada uma trégua desconfortável entre a máquina política de Vare e a elite da cidade. Mas a sra. Edward Biddle, presidente do Civic Club [Clube Cívico] e casada com um descendente do fundador do Banco dos Estados Unidos, renunciou ao cargo de um conselho para o qual o prefeito a designara, o que fez cessar a trégua e aumentou o caos na prefeitura.

Krusen ouviu também algumas boas notícias. Paul Lewis

acreditava estar fazendo progressos na identificação do patógeno, o causador da gripe. Se fosse verdade, a tarefa de criar um soro ou vacina poderia evoluir com rapidez. A imprensa deu manchete para essa boa notícia, embora não acrescentasse que Lewis, cientista cauteloso, não estava seguro quanto às suas descobertas.

Então, declarou que a parada e os eventos relacionados

aconteceriam.

Nem uma gota de angústia foi noticiada em qualquer um dos

cinco jornais diários da cidade e, se algum jornalista questionou Krusen ou a Board of Health sobre a prudência de manter a parada, nada foi publicado a respeito.

Em 28 de setembro, os participantes da maior parada da

história da cidade orgulhosamente marcharam em frente. Desfilaram por pelo menos três quilômetros, três quilômetros de bandas de música, bandeiras, escoteiros, corpo militar feminino, fuzileiros, marinheiros e soldados. Centenas de milhares de pessoas se amontoaram ao longo do trajeto da parada, apertando-se umas contra as outras para conseguir uma visão melhor, as fileiras traseiras gritando palavras de incentivo, por cima de ombros e rostos, para os valorosos jovens. Foi mesmo uma cena grandiosa.

Krusen lhes garantira que não havia perigo.

 

O período de incubação da gripe é de 24 a 72 horas. Dois dias após a parada, Krusen emitiu uma declaração sombria: “A epidemia agora está presente na população civil, assumindo o mesmo formato encontrado em acantonamentos e estações navais.”

Para compreender o real significado da declaração, é preciso

compreender exatamente o que ocorria nas bases militares.