A Grande Gripe
Capítulo vinte e nove
O na Filadélfia era o mesmo que em
toda parte. Naquela cidade densamente povoada, Isaac Starr não havia encontrado nem um único carro nas ruas durante os dezoito quilômetros do caminho do centro da cidade até sua casa. E do outro lado do mundo, as mesmas experiências — as mortes, o terror, a relutância em ajudar, o silêncio — eram replicadas. Alfred Hollows se encontrava em Wellington, na Nova Zelândia. “Fui designado para um hospital de emergência na rua Abel Smith. Era um salão (...) com uma equipe de voluntárias.” Tinha sessenta camas. “Nossa taxa de mortalidade era estarrecedora — algo em torno de uma dúzia de mortes por dia — e as voluntárias sumiram e não eram mais vistas. Encontrei-me em Wellington City às duas da tarde de um dia de semana, e não havia uma viva alma — nenhum bonde passando, nenhuma loja aberta — e a única coisa que trafegava era uma caminhonete com um lençol branco preso na lateral com uma grande cruz vermelha pintada nele, funcionando como ambulância ou carro fúnebre. Tinha se tornado realmente uma
Cidade dos Mortos.” 1
No Presbyterian Hospital, na cidade de Nova York, depois de
fazer sua ronda rotineira das manhãs, o dr. Dana Atchley ficara aturdido e amedrontado ao perceber que, pelo tempo que lhe pareceu uma eternidade, todos os pacientes na seção de cuidados intensivos — sem exceção — morreram durante a
noite, de um dia para o outro. 2
O governo federal não fornecia nenhuma orientação
considerada crível por qualquer pessoa razoável. Foram poucos os governos locais que fizeram mais do que isso. Com esse posicionamento, um vácuo surgiu. Um vácuo que foi preenchido pelo medo.
O contrário foi visto: os esforços do governo alimentavam esse
medo, pois desde o início da guerra o “moral” — definido do modo mais estreito e míope possível — tomava a precedência em todo pronunciamento público. Como disse o senador Hiram Johnson em 1917: “A primeira vítima de uma guerra é a
verdade.”3
Era um tempo em que a expressão “luta aguerrida” significava
que mais de 50% de uma unidade havia sido morta ou ferida. Era um tempo em que as memórias de uma enfermeira na linha de frente, publicadas em 1916, foram retiradas de circulação pelo editor depois que os Estados Unidos entraram na guerra por contar a verdade sobre as terríveis condições. Um tempo em que os jornais insistiam que “há bastante gasolina e óleo para os automóveis”, mesmo quando os postos de gasolina recebiam ordens para fechar “voluntariamente” à noite e aos domingos, além da existência de uma campanha nacional para que não se dirigisse nos “domingos sem gasolina” — e a polícia parava os
motoristas que “voluntariamente” não aceitavam aquilo.4
Os jornais informavam sobre a doença como sempre faziam:
misturando verdades e meias verdades, verdades e distorções, verdades e mentiras. E nenhuma autoridade nacional reconheceu de forma pública o perigo da gripe.
Mas, na comunidade médica, havia uma profunda
preocupação. No início, Welch, claro, temera se tratar de uma nova doença — que em breve reconheceria como a gripe. Muitos patologistas sérios na Alemanha e na Suíça consideraram a
possibilidade de ser a peste. 5 O diretor do laboratório do Bellevue Hospital indagava no Journal of the American Medical Association se “o mundo está enfrentando” não uma pandemia de uma gripe extraordinariamente letal, mas sim uma versão mais branda da peste, destacando: “A similaridade entre as duas doenças é reforçada pelas características clínicas, extremamente parecidas em muitos aspectos, e pela patologia de certos tecidos
afora os dos pulmões.” 6
O que os patologistas diziam nos periódicos médicos, os
clínicos balbuciavam entre si, e os leigos observavam um marido ou uma esposa se tornando quase enegrecidos. Um grande arrepio tomava conta, um arrepio de medo.
Enquanto isso, William Park permanecia em seu laboratório,
rodeado de placas de Petri, camundongos dissecados e culturas de patógenos, e citava Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe: “Em seu todo, segundo já disse, tudo mudou muito. A tristeza e a melancolia ocupavam todos os rostos; embora alguns não estejam ainda sobrecarregados, todos parecem muito preocupados. E como vimos aquilo se aproximando de nós, cada
um se considerava e a sua família diante de um imenso perigo.”7
Por mais aterradora que fosse a doença, a imprensa ajudou a torná-la ainda pior. Aterrorizaram ao dar pouca importância, pois autoridades e imprensa declaravam não haver relação com o que se via, o que se tocava, o que se cheirava e o que se suportava. As pessoas não podiam confiar no que liam. Da desconfiança surge a incerteza; da incerteza, vem o medo; e do medo, sob tais condições, o terror.
Quando a gripe atacou Massachusetts, o jornal local
Providence Journal reportou: “Todos os leitos hospitalares nos fortes do porto de Boston foram ocupados por pacientes com
gripe (...) Há 3.500 casos em Camp Devens.” 8 No entanto, também afirmava: “Tais relatos podem ser considerados reconfortantes em vez de alarmantes. O soldado ou o marinheiro vai para a cama ao receber ordens, do mesmo modo que cumpre tarefas de sentinela. Talvez não se considere doente, e pode ter razão, mas o médico militar não admite discussão e nesse momento o autocrata permite que os rapazes sob seus cuidados
corram quaisquer riscos.” 9
À medida que o vírus infestava o Great Lakes Naval Training
Station [Posto de Treinamento Naval dos Grandes Lagos], a Associated Press informou: “Para desfazer o alarme causado em todo o país por histórias exageradas (...), o capitão W. A. Moffat, comandante, declarou que, embora haja cerca de 4.500 casos da doença entre 45 mil jaquetas azuis no posto, a situação geral melhorou bastante. A taxa de mortalidade tem estado entre 1% e
1,5%, um coeficiente abaixo da mortalidade no leste.”10
Tal declaração tinha a intenção de reconfortar. É improvável
que tenha conseguido isso, além de omitir que quarentenas eram impostas no campo de treinamento, no vizinho Great Lakes Aviation Camp [Campo de Aviação dos Grandes Lagos] e em Fort Sheridan, acantonamento do exército, que combinados formavam a maior concentração militar do país. E as autoridades militares, naturalmente, garantiam tanto para os civis nas imediações bem como para o país inteiro que “a epidemia está decaindo”.
Dia após dia, sem parar, centenas de jornais repetiam de uma
forma ou de outra as palavras reconfortantes de Rupert Blue: “Não há motivo para alarme, se forem observadas as devidas precauções.”
Liam as palavras do coronel Philip Doane, o oficial
encarregado da saúde nos estaleiros do país, divulgadas pela Associated Press: “A chamada gripe espanhola não é nada mais
nada menos que a velha gripe.”11
Aquelas palavras também apareceram em centenas de
jornais. Mas as pessoas perceberam que a frase cheirava à morte. Depois, ficariam cara a cara com ela.
Bem na saída de Little Rock fica Camp Pike, onde 8 mil casos
deram entrada no hospital em quatro dias e o comandante da base parou de divulgar os nomes dos mortos. “Você precisa ver esse hospital hoje à noite”, escreveu Francis Blake, um dos quatro integrantes da comissão de pneumonia do exército sobre Pike. “Todos os corredores, e são corredores longos, com quilômetros, estão com fileira dupla de leitos e toda a enfermaria tem mais uma fileira no meio, com pacientes de gripe, e muitos dos alojamentos pela base se transformaram em enfermarias de emergência. O quartel fechou (...). Há apenas morte e
destruição.” 12
Camp Pike pediu que Little Rock enviasse enfermeiras,
médicos, roupas de cama e caixões, enquanto na cidade a Arkansas Gazette declarava nas manchetes: “A gripe espanhola
é uma gripe simples — com a febre e os calafrios de sempre”.13
Em Camp Dodge, nos arredores de Des Moines, em Iowa, a
gripe também estava matando centenas de jovens soldados. Dentro da cidade, um grupo chamado Comitê da Grande Des Moines, formado por empresários e profissionais que decidiram assumir o comando durante a emergência, incluía o procurador municipal que avisava aos editores (e seu alerta trazia a ameaça de um processo em potencial): “Recomendaria que se for necessário imprimir algo em relação a essa doença, que se limite a simples medidas de prevenção — algo construtivo e não destrutivo.” Um médico, outro integrante do comitê, declarou: “Com a atitude mental correta essas pessoas evitariam a doença. Não tenho dúvida de que muitos contraíram a doença pelo medo (...) O medo é a primeira coisa a ser superada, o primeiro passo
para vencer esta epidemia.” 14
O Bronxville Review Press and Reporter, no estado de Nova
York, não escreveu uma palavra a respeito da gripe, absolutamente nada, até 4 de outubro, quando informou que o
“flagelo” havia feito sua primeira vítima local.15 Como se o flagelo tivesse vindo do nada. No entanto, até o jornal reconhecia que, mesmo sem imprimir uma palavra, todos sabiam o que era. E ao mesmo tempo que a epidemia se consolidava em Bronxville, o jornal condenava o “alarmismo” e alertava: “O medo mata mais do que essa doença e os fracos e os tímidos costumam ser os
primeiros a sucumbir.”16
O diretor de saúde pública de Los Angeles dizia: “Se precauções comuns forem tomadas, não há motivo para alarme.” Quarenta e oito horas depois, ele fechou todos os locais públicos, incluindo escolas, igrejas e teatros.
O superintendente de saúde pública de Illinois tinha sugerido
— de modo particular, em uma reunião confidencial com outras autoridades de saúde pública do estado e com políticos de Chicago — o fechamento de todos os negócios para salvar
vidas. 17 O comissário de saúde pública de Chicago, John Dill Robertson, rejeitou com violência a sugestão, qualificando-a de indesejável e muito prejudicial ao moral. Em seu relatório oficial sobre a epidemia, escreveu: “Nada foi feito para interferir na
moral da comunidade.” 18 Explicou-se mais tarde para outros profissionais de saúde pública. “É nosso dever evitar que as pessoas tenham medo. A preocupação mata mais gente do que
a epidemia.” 19
A taxa de mortalidade no Cook County Hospital para todos os
casos de gripe — e não apenas para aqueles que desenvolveram
pneumonia — era de 39,8%.20
Um dos periódicos de maior circulação do país, o Literary
Digest 21 aconselhava: “O medo é nosso primeiro inimigo.”
“Não se apavore!” era o conselho impresso em praticamente
todos os jornais do país, e com destaque em grandes seções devotadas a “Conselhos para evitar a gripe”.
O Albuquerque Morning Journal deu instruções sobre “Como
driblar a gripe”. O conselho que recebeu maior destaque foi o
habitual “Não se apavore”. 22 Quase todos os dias, repetia-se: “Não deixe que a gripe o mate de medo”, “Não entre em pânico”.
Em Phoenix, o Arizona Republican monitorava a gripe a
distância. Em 22 de setembro, declarava: “O dr. W. C. Woodward, do Departamento de Saúde de Boston, teve uma atitude otimista hoje à noite (...) O dr. Woodward disse que o
aumento no número de casos de hoje não foi alarmante.” 23 Em Camp Dix, “as autoridades médicas afirmaram que têm a epidemia sob controle”. E o jornal registrou as primeiras vítimas da gripe em Nova Orleans dois dias antes do Item, diário da
própria cidade, mencionar qualquer morte local. 24
Depois do primeiro caso em Phoenix, o Republican se calou,
ficou em absoluto silêncio, sem informar nada sobre a gripe em nenhum lugar do país até que as notícias eram tantas que não
podiam mais ser silenciadas. 25 Seu concorrente, a Gazette, competia em palavras reconfortantes, citando o médico local Herman Randall que dizia: “Dez pessoas expostas à mesma corrente de ar estão expostas aos mesmos micróbios. Algumas sofrerão, talvez morram, enquanto outras não terão nada. (...) Durante uma epidemia, as pessoas mais assustadas costumam ser, segundo o testemunho dos médicos, as primeiras a sucumbir
à doença.” 26 E em Phoenix, mesmo depois do fim da guerra, o “Comitê dos Cidadãos” que assumira a cidade durante a emergência continuou a impor o silêncio, ordenando que “os comerciantes locais não mencionem a epidemia de gripe direta
ou indiretamente em seus anúncios publicitários”. 27
Enquanto isso, os anúncios de Vick VapoRub em centenas de
jornais transmitiam uma linha delicada de tranquilização ao mesmo tempo que prometiam alívio, chamando a epidemia de
“velha gripe com um novo nome”.28
Alguns jornais tentavam controlar o medo sem divulgar quase
nada. Em Goldsboro, na Carolina do Norte, segundo um sobrevivente: “Os jornais nem queriam publicar as listas com os nomes [dos mortos] (...) A informação sobre quem estava morrendo vinha pelo boca a boca, verbalmente, de uma pessoa
para a outra.”29
Um historiador que estudava o condado de Buffalo, Nebraska,
exprimiu estarrecimento porque “os jornais do condado manifestaram uma curiosa reticência em relação aos efeitos da gripe, o que talvez seja mais evidente no Kearney Hub. Presume-se talvez que os editores minimizaram a severidade do problema para desencorajar o pânico geral diante de uma situação
completamente assustadora”.30 Mesmo mais tarde, em 14 de dezembro, o mesmo jornal dizia para as pessoas não “entrarem em pânico”, afirmando que as autoridades municipais “não estavam propensas a ficar tão apavoradas quanto muitos
cidadãos”. 31
Como seria possível evitar o pânico? Antes mesmo que os vizinhos próximos começassem a morrer, antes que os corpos começassem a ser empilhados em cada comunidade, todas as informações apontavam a verdade, menos os jornais. Mesmo quando Blue recitava seu mantra — Não há motivo para alarme se forem tomadas as devidas precauções —, o fazia recorrendo às autoridades locais para “fechar todos os locais de reunião pública, se a comunidade está sendo ameaçada pela epidemia.
Isso evitará muito a disseminação da doença”.32 Apesar de o coronel Doane ter dito que a gripe espanhola não é nada mais nada menos do que a velha gripe, os jornais também citavam outras palavras dele: “Toda a pessoa que cospe está ajudando o
kaiser.” 33
E, enquanto Blue e Doane, governadores e prefeitos, e quase
todos os jornais insistiam que aquilo era só mais uma gripe, o Serviço de Saúde Pública fazia um esforço massivo para distribuir conselhos — quase todos inúteis. Preparou chapas prontas para a impressão e as enviou para 10 mil jornais — a maioria publicou. Preparou — a Cruz Vermelha pagou pela impressão e distribuição — cartazes e panfletos, incluindo 6 milhões de cópias de uma única circular. Os professores distribuíram o material nas escolas; os patrões o empilharam em lojas, agências postais e fábricas. Os escoteiros enfiaram dezenas de milhares de exemplares pelas frestas das portas. Os pastores mencionaram o assunto nos domingos. Carteiros os levaram para caixas de postagem gratuita nas zonas rurais. Os trabalhadores urbanos colaram cartazes nas paredes.
Mas um alerta do Serviço de Saúde Pública para evitar
aglomerações veio tarde demais para fazer algum benefício e o único conselho verdadeiramente útil permanecia o mesmo: aqueles que adoeciam deviam se deitar imediatamente e por vários dias, até que todos os sintomas desaparecessem. Tudo o mais nas circulares de Blue era tão genérico a ponto de ser inútil. No entanto, por todo o país, os jornais imprimiam sem parar: “Lembre-se dos 3 Ls: boca limpa, pele limpa, roupa limpa (...) Mantenha o intestino em funcionamento (...) A comida ganhará a guerra (...) Com escolha bem-feita e boa mastigação.”
O Journal of the American Medical Association sabia que não
era bem assim. Ele descartava as afirmações reconfortantes para o público e avisava: “O risco de vida representado pela gripe nessa epidemia é tão grave que é imperativo que se obtenha do paciente individual o mais completo isolamento possível.” E atacava “os conselhos e as instruções correntes dados ao público por fontes oficiais, entre outras” — o conselho de Blue, o conselho de autoridades locais de saúde pública que
minimizavam tudo —, considerando-os inúteis e perigosos.34
“Não se apavorem!”, diziam os jornais.
Enquanto isso, as pessoas liam — quem morava no Oeste viu
antes que o vírus chegasse — os apelos da Cruz Vermelha publicados pelos jornais, em geral em anúncios de meia página, que diziam: “A segurança desse país exige que todas as enfermeiras patrióticas disponíveis, auxiliares de enfermagem ou qualquer um com experiência própria de enfermagem se apresente imediatamente ao Governo (...) Pede-se com urgência aos médicos que dispensem do acompanhamento de casos crônicos e outros que não se encontram em estado crítico todos os profissionais de enfermagem sob sua supervisão que podem ser direcionados para essa missão. Enfermeiros diplomados, em formação, auxiliares e voluntários devem telegrafar a cobrar imediatamente (...) para a representação local da Cruz Vermelha ou para o quartel-general da Cruz Vermelha, em Washington, D.C.”
“Não se apavorem!”, diziam os jornais.35 Não se amedrontem.
Mas nem todos estavam prontos para confiar em Deus.
Em 2001, um atentado terrorista com antraz matou cinco pessoas e deixou os Estados Unidos em pânico. Em 2002, um surto do vírus do Oeste do Nilo matou 284 no país em seis meses e foi manchete durante semanas, além de produzir medo suficiente para alterar o comportamento das pessoas. Em 2003, a SARS matou mais de 800 pessoas pelo mundo, paralisou a economia asiática e apavorou milhões de pessoas em Hong Kong, Cingapura e em outras regiões, que passaram a usar máscaras nas ruas.
Em 1918, o medo se adiantou ao vírus como uma onda de
proa antecede à passagem de um barco. O medo conduzia as pessoas — o governo e a imprensa não conseguiam controlá-lo. E isso porque cada relato verdadeiro fora diluído em mentiras. E quanto mais as autoridades e os jornais tentavam tranquilizar, quanto mais diziam não haver motivo para alarme se as devidas precauções forem tomadas, ou Essa gripe não é nada mais nada menos do que a velha gripe, mais pessoas acreditavam estar à deriva, sem ter em quem confiar, à deriva em um oceano de morte.
Assim, elas assistiam à aproximação do vírus e temiam,
sentindo impotência à medida que ele avançava, como se fosse uma inexorável nuvem de gás venenoso. Encontrava-se a mais de mil quilômetros de distância, a 500 quilômetros, 50 quilômetros, 20 quilômetros.
No fim de setembro, viram registros publicados, enterrados em
páginas no meio dos jornais, em parágrafos minúsculos, mas ainda assim registros: 800 casos entre aspirantes em Annapolis (...) No estado de Nova York, tossir ou espirrar sem cobrir o rosto passou a ser punido com um ano de cadeia e multa de 500 dólares (...) trinta casos de gripe entre estudantes da Universidade do Colorado — mas, claro, a Associated Press garantia: “Nenhum dos casos, segundo foi dito, era sério.”
Mas era sério: 400 mortos num dia na Filadélfia (...) 20 mortos
no Colorado e no Novo México (...) agora 400 mortos em Chicago (...) todas as atividades sociais e entretenimentos suspensos em El Paso, onde houve sete funerais para soldados em um único dia (iria piorar) (...) um surto terrível em Winslow, Arizona.
Era como se tornar um alvo da artilharia, com o bombardeio se
aproximando cada vez mais.
Em Lincoln, Illinois, uma cidade a uns 45 quilômetros de
Springfield, William Maxwell previu: “Minhas primeiras conclusões sobre a epidemia eram que se tratava de algum problema entre os soldados. Não parecia haver motivos para achar que poderia ter qualquer relação conosco. No entanto, de forma gradual e implacável, ela continuou a avançar, ficando cada vez mais próxima. Rumores de uma situação alarmante alcançaram até mesmo uma cidadezinha no Meio Oeste (...) Era como, era
quase como se uma entidade estivesse se aproximando.”36
Em Meadow, no Utah, a 150 quilômetros de Provo, Lee Reay
recordou: “Ficamos muito preocupados em nossa cidade porque a morte avançava para o Sul, pela rodovia, e nós éramos os
próximos.”37 Eles viram as mortes em Payson, em Santaguin, depois em Nephi, Levan e Mills. Viram a morte se aproximar cada vez mais. Puseram uma grande placa na estrada mandando que as pessoas continuassem suas rotinas, para que não parassem em Meadow. Mas o carteiro parou.
Não importava onde se estivesse no país, ela se aproximava
— estava no vilarejo ao lado, no bairro ao lado, no quarteirão ao lado, no cômodo ao lado. Em Tucson, o Arizona Daily Star alertava os leitores para que não pegassem a “histeria espanhola”. “Não se preocupem!”, era o último conselho, o conselho oficial, sobre como evitar a doença, dado pelo comitê de saúde do Arizona.
Não se apavorem!, diziam os jornais em todo o país. Não se
apavorem!, diziam em Denver, em Seattle, em Detroit; na cidade de Burlington em Vermont, na cidade de Burlington no Iowa, na cidade de Burlington na Carolina do Norte. E na cidade de Greenville em Rhode Island, na cidade de Greenville, na Carolina
do Sul, e na cidade de Greenville no Mississippi. 38 E cada vez que os jornais diziam Não se apavorem!, as pessoas ficavam amedrontadas.
O vírus havia avançado para o Oeste e para o Sul a partir da
Costa Leste pela água e pelos trilhos. Ergueu-se em grandes picos e inundou as metrópoles em grandes ondas, que as fustigaram. Penetrou em rios selvagens e consumiu os vilarejos. Derramou-se por riachos até chegar em assentamentos. Fluiu por arroios até chegar em lares isolados. E, como acontece em uma grande enchente, cobriu tudo, com profundidades variadas, mas deixando tudo submerso, acomodando-se de forma
arrasadora.39
Albert Camus escreveu: “O que é verdadeiro sobre todos os males do mundo também é verdadeiro em relação à peste. Ajuda os homens a se superar.”
Um homem que se superou foi o dr. Ralph Marshall Ward, que
abandonara a medicina para tomar conta de um rancho onde criava gado. Deixar a medicina não foi uma decisão de negócios.
Intelectual particularmente interessado em farmacologia, ele
foi um clínico de destaque em Kansas City, com um consultório e farmácia no edifício Stockyard Exchange. Mas Kansas City era um grande centro ferroviário com armazéns muito próximos do consultório. Boa parte dos casos que ele atendia se relacionava com trabalhadores ferroviários feridos em acidentes. Executava um número enorme de amputações e parecia sempre atender homens deformados, homens destroçados pelo aço. Prestar atendimento a tanta agonia humana o destroçou também.
Ele estava cansado da prática da medicina e, por também
tratar vaqueiros feridos enquanto faziam o transporte do gado para o Norte até Kansas City, aprendera o suficiente sobre a criação de bois, a ponto de comprar um pequeno rancho antes da guerra, a mais de 1.600 quilômetros de distância, perto de San Benito, no Texas, junto à fronteira mexicana. Na longa viagem para o Sul, ele e a esposa fizeram um pacto: nunca mencionar que ele era médico. Mas, em outubro de 1918, a gripe o alcançou. Alguns trabalhadores ficaram doentes. Ele começou a tratá-los. A notícia se espalhou.
Poucos dias depois, sua esposa despertou com um som
perturbador, irreconhecível. Abriu a porta e, no lusco-fusco da madrugada, viu pessoas, centenas de pessoas, no horizonte. Pareciam cobri-lo e, à medida que se aproximavam, ela percebeu que eram mexicanos, alguns montados em mulas, mas a maioria a pé, mulheres com bebês, homens carregando mulheres, todos esfarrapados, derrotados, uma massa de humanidade, de terror e de sofrimento. Ela berrou, chamando o marido. Ele veio e ficou parado no alpendre. “Meu Deus!”, exclamou.
As pessoas vieram sem nada. Mas sabiam que ele era médico
e vieram. O casal Ward contaria mais tarde para a neta que parecia a cena do hospital em E o vento levou..., com fileiras e mais fileiras de pessoas feridas, moribundas, deitadas no chão, agonizando. Aquelas pessoas vieram sem nada, não tinham nada e estavam morrendo. Os Ward pegaram imensas panelas para ferver água do lado de fora, usaram todos os seus recursos para alimentá-las, tratá-las. Na vastidão árida e isolada perto da fronteira mexicana, os dois não tinham ajuda da Cruz Vermelha, nem do Conselho de Defesa Nacional. Fizeram o que foi possível e, quando tudo acabou, voltaram para Kansas City. Ward voltara
a atender.40
Houve outros como o casal Ward. Médicos, enfermeiras, cientistas cumpriram suas tarefas e o vírus os matou, ele os matou em tais números que cada edição semanal do JAMA estava literalmente repleta com páginas e mais páginas e mais páginas e mais páginas de nada além de breve obituários em
letras miúdas. 41 Centenas de médicos morreram. Centenas. Outros também ajudaram.
Mas, como sabia Camus, o mal e as crises não fazem com
que todos os homens se superem. A crise faz apenas com que se descubram. E alguns descobrem uma humanidade menos do que inspiradora.
Quando o pico da onda que devastou a Filadélfia começou a
arrasar o resto do país, foi acompanhado pelo mesmo terror que silenciara as ruas por lá. A maioria dos homens e das mulheres sacrificavam e arriscavam suas vidas apenas em nome daqueles que amavam mais profundamente: um filho, uma esposa, um marido. Outros, que amavam principalmente a si mesmos, fugiam aterrorizados até mesmo dos familiares.
Entretanto, alguns fomentavam o terror, acreditando que
culpar o inimigo — a Alemanha — poderia ajudar o esforço de guerra, ou talvez acreditando que a Alemanha era a responsável. O próprio Doane acusou “os agentes alemães (...) dos submarinos” de terem levado a gripe para os Estados Unidos. “Os alemães começaram epidemias na Europa e não há motivos
para que seja diferente com os Estados Unidos.” 42
Outros, por todo o país, repetiam essas mesmas palavras.
Starkville, no Mississippi, cidade de 3 mil habitantes em uma região montanhosa, foi construída em torno de uma serraria, de fazendas de algodão — não aquelas ricas e exuberantes plantações do Delta, mas em terra árida — e do Mississippi A&M College (que agora é a Universidade do Estado do Mississippi). Servia de quartel-general para o dr. M. G. Parsons, representante do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos para o nordeste do estado, que orgulhosamente informou Blue que fora bem-sucedido em fazer com que os jornais locais publicassem histórias que ele criava para ajudar o público “a formar um modo
de pensar adequado”. 43 Esse modo de pensar era o medo. Parsons queria criar o medo, acreditando que ele “preparava a
mente pública para receber e cumprir nossas sugestões”.44
Parsons conseguiu que a imprensa local dissesse: “O huno
recorre ao assassinato indesejável de não combatentes inocentes (...) Foi tentado a disseminar a doença e a morte pelos germes e fez isso em casos verificados (...) Doenças transmissíveis são mais uma arma para ser usada atrás das
linhas, em terra francesa, britânica ou americana.” 45 Blue não repreendeu Parsons por fomentar o medo nem sugeriu que recorresse a outro artifício. Outra matéria nos jornais dizia: “Os germes estão chegando. Uma epidemia de gripe está se espalhando ou sendo espalhada (nos perguntamos qual a opção
certa).”46
Tais acusações criaram comoção pública o suficiente para
obrigar os laboratórios do Serviço de Saúde Pública a desperdiçarem tempo e energia valiosos investigando possíveis agentes de guerrilha biológica nas aspirinas Bayer. O território de Parsons fazia fronteira com o Alabama, e por lá um caixeiro-viajante da Filadélfia, chamado H.M. Thomas, foi preso sob suspeita de ser um agente alemão e disseminar a gripe — a morte. Thomas foi solto, mas em 17 de outubro, um dia após a gripe ter matado 759 pessoas na Filadélfia, seu corpo foi encontrado em um quarto de hotel com os pulsos cortados — e a
garganta rasgada. A polícia qualificou sua morte como suicídio. 47
Em toda a parte, como ocorria na Filadélfia, dois problemas se apresentavam: o cuidado com os doentes e a manutenção de algum tipo de ordem.
Em Cumberland, Maryland, uma cidade industrial no coração
da região da mineração de carvão, à beira da ferrovia — onde era possível lançar uma pedra sobre o rio Potomac que aterrissaria na Virgínia Ocidental —, para prevenir a disseminação da doença, as escolas e as igrejas já haviam fechado, assim como todos os locais de reunião, e as lojas receberam ordens de fechar mais cedo. Mesmo assim, a epidemia explodiu no dia 5 de outubro. Ao meio-dia, o presidente da Cruz Vermelha local se encontrou com o tesoureiro do fundo de guerra da Cruz Vermelha e o chefe do Conselho de Defesa Nacional do lugar. A conclusão: “A questão parece estar muito fora de controle (...) Os relatos se espalhavam depressa de que ‘Fulano ou ‘Ciclano’ tinham morrido sem um médico ou enfermeira por perto e era de fato uma situação de pânico.”
Eles decidiram converter duas grandes construções na rua
Washington em hospitais de emergência. A partir dali, um punhado de mulheres assumiu o comando, encontrando-se menos de uma hora depois dos homens. Cada uma tinha uma tarefa: juntar roupa de cama, suprimentos para higiene, utensílios de cozinha ou farinha. Trabalharam com rapidez. Na manhã seguinte, os hospitais se encheram de pacientes.
Cerca de 41% da população de Cumberland adoeceu. Mas os
hospitais de emergência tinham apenas três enfermeiras. Os organizadores imploraram por mais enfermeiras. “Notificamos o Comitê de Saúde de que precisamos de mais enfermeiras, se desejamos prosseguir (...). No entanto, essa ajuda nunca se materializou, e até a data (...) 93 atendimentos, 18 mortes. A questão dos auxiliares é difícil. Simplesmente não há mais
disponíveis.”48
De volta a Starkville, Parsons se encontrou com o presidente
da universidade, o comandante do exército dos alunos — todos os alunos tinham sido convocados para o exército — e médicos. “Tivemos uma discussão aberta sobre os perigos e as melhores ações a serem tomadas. Eles me garantiram que fariam todo o
possível”, comunicou a Blue em um telegrama. 49 Pediu e recebeu 15 mil panfletos, cartazes e circulares, mais do que a população somada de Starkville, Columbus e West Point. Mas ele e os demais conquistaram pouca coisa. Dos 1.800 alunos, mais da metade teria a gripe. Em 9 de outubro, Parsons “encontrou condições inacreditáveis, com todos no poder atordoados”. Naquele momento, 800 alunos estavam doentes e 2% do total do corpo estudantil já tinha morrido — e muitas mortes ainda estavam por vir. Parsons constatou que “a gripe está em toda a região, na cidade, na aldeia, nos lares. As pessoas estão apavoradas, com motivos”. Em West Point, cidade com 5 mil habitantes, 1.500 ficaram doentes ao mesmo tempo.
Parsons confessou: “Pânico incipiente.”50
Em El Paso, um representante do Serviço de Saúde Pública
dos Estados Unidos informou a Blue: “Tenho a honra de informá-lo de que desde o dia 9 de outubro até esta data houve 275 mortes de civis devido à gripe em El Paso. Não estão incluídos nesse número os civis empregados pelo governo e que morreram no hospital de Fort Bliss, nem os soldados (...). A cidade inteira
está em pânico.”51
No Colorado, as cidades nas montanhas San Juan não
entraram em pânico. Encararam tudo com sombria seriedade. Elas tiveram tempo para se preparar. Guardas mantinham a cidade de Lake City livre da doença impedindo a entrada de qualquer pessoa. Silverton, com 2 mil habitantes, autorizou o fechamento dos negócios antes que um único caso emergisse. Mas o vírus se esgueirou, com fúria. Em uma única semana em Silverton, 125 pessoas morreram. A cidade de Ouray estabeleceu “uma quarentena com carabina”, contratando guardas para impedir a entrada de mineiros de Silverton e
Telluride. Mas o vírus também alcançou Ouray. 52
Mas não Gunnison. Não era uma cidade minúscula ou isolada.
Era cortada pela ferrovia, um centro de suprimentos para a região centro-oeste do estado, sede do Western State Teachers College. No início de outubro — muito antes de qualquer caso de gripe —, Gunnison e a maioria das cidades vizinhas emitiram ordens de fechamento e de proibição de aglomerações públicas. Depois, Gunnison decidiu se isolar por completo. Policiais bloqueavam todas as estradas. Os condutores de trem avisavam a todos os passageiros que se alguém pusesse o pé na plataforma em Gunnison para esticar as pernas seria preso e ficaria em quarentena por cinco dias. Dois homens de Nebraska que queriam atravessar a cidade de carro para ir ao condado vizinho desafiaram o bloqueio e foram parar na cadeia. Nesse ínterim, a cidade de Sargents, nos arredores, teve seis mortes
em um único dia — em uma população total de 130 habitantes. 53
No início da epidemia, ainda no dia 27 de setembro — parecia
ter sido anos antes —, o jornal de Wisconsin, Jefferson County Union, relatara a verdade sobre a doença e o general encarregado do Departamento de Moral do exército decretava que a reportagem era “prejudicial aos ânimos” e a remeteu para autoridades de policiamento para que “tomassem qualquer
iniciativa que julgarem apropriada”, inclusive processo criminal. 54 Naquele momento, depois de semanas de mortes e com o fim da guerra, o Gunnison News-Chronicle, ao contrário de praticamente todos os outros jornais do país, não brincava e avisava: “Essa doença não é uma piada, um motivo de troça, mas sim uma
terrível calamidade.” 55
Gunnison escapou sem uma morte.
Nos Estados Unidos, a guerra estava lá longe. A epidemia estava aqui.
“Mesmo que houvesse guerra...”, recordava-se Susanna
Turner, da Filadélfia. “A guerra se encontrava distante de nós, sabe (...) do outro lado (...). Essa malignidade, ela estava bem
nas nossas portas.”56
As pessoas a temiam e odiavam, aquele elemento estrangeiro
em seu meio. Estavam dispostas a eliminá-lo a qualquer custo. Em Goldsboro, na Carolina do Norte, Dan Tonkel recordou: “Nós tínhamos medo de respirar, os teatros estavam fechados, então não havia aglomerações. (...) Você tinha a sensação de estar caminhando sobre ovos, tinha medo até de sair. Não podia brincar com os amigos, os colegas, os vizinhos, tinha que ficar em casa e ser cuidadoso. O medo era tão grande que as pessoas não saíam de casa. Tinham medo de conversar. Era quase como se dissessem ‘não respirem na minha cara, não olhem para mim’. (...) Nunca se sabia, de um dia para o outro, quem seria o próximo na lista dos mortos. (...) Era a parte mais
terrível, as pessoas morriam bem depressa.”57
O pai dele era dono de uma loja. Quatro das oito vendedoras
morreram. “Os fazendeiros pararam de cuidar da terra, os lojistas pararam de vender mercadorias e tudo acabou mais ou menos fechado, enquanto prendíamos a respiração. Todo mundo prendia a respiração.” Seu tio Benny tinha 19 anos e morava com a família até ser convocado e partir para Fort Bragg, que o mandou para casa quando ele se apresentou. A base estava recusando todos os novos convocados. Tonkel lembra-se de que os pais não queriam permitir que Benny voltasse para casa. “Benny, não sabemos o que fazer com você”, disseram. “Pois bem, o que posso fazer. Aqui estou”, respondeu o tio. Deixaram que ele entrasse. “Estávamos amedrontados, sem dúvidas,
estávamos amedrontados.” 58
Em Washington D. C., William Sardo dizia: “As pessoas
ficavam afastadas. (...) Não havia vida social, você não tinha vida social, não tinha vida escolar, não tinha vida na igreja, não tinha nada. (...) Destruiu toda a vida familiar e comunitária. As pessoas tinham medo de se beijar, medo de fazer refeições juntas, estavam com medo de fazer qualquer coisa que envolvesse contato pois era assim que se pegava a gripe. (...) Destruía todos aqueles contatos e destruía a intimidade que existia entre as pessoas. (...) Você vivia com medo porque havia morte à sua volta, vivia cercado pela morte. (...) Quando não sabia se veria o dia seguinte quando o sol se pusesse. Aniquilava famílias inteiras desde o início do dia, pela manhã, até a hora de dormir, de noite — famílias inteiras desapareceram por completo, sem que sobrasse uma alma, e isso não acontecia apenas de forma intermitente, acontecia com todo mundo na vizinhança, era uma experiência apavorante. Devia ser chamada, com toda justiça, de uma peste porque era isso mesmo. (...) Você ficava de quarentena, era o que acontecia, por causa do medo, era tudo tão rápido, tão súbito. (...) Havia uma aura de medo constante e se vivia nela desde que se acordava, pela manhã, até a hora de
se deitar, à noite.” 59
Em New Haven, Connecticut, John Delano relembrou o
mesmo medo isolador: “Normalmente, quando alguém adoecia naqueles tempos, os pais, as mães levavam comida para as outras famílias, mas daquela vez foi diferente. (...) Ninguém
entrava, ninguém aparecia com comida, ninguém vinha visitar.”60
Prescott, no Arizona, tornou ilegal os apertos de mão.61 No
condado de Perry, no Kentucky, nas montanhas onde os homens cavavam a terra em busca de carvão ou arranhavam a superfície tentando plantar alguma coisa, apesar de o solo fértil ter apenas alguns centímetros de profundidade, um condado de pessoas duras, onde os laços familiares eram firmes, onde homens e mulheres eram leais e matariam em nome do orgulho e da honra, o presidente da Cruz Vermelha local implorou por ajuda, relatando “centenas de casos no alto das montanhas, que se
encontravam inacessíveis”. 62 Estavam inacessíveis não apenas porque o condado quase não tinha estradas. Os leitos dos rios na época da seca serviam de estrada e, quando enchiam, o transporte era inviável. Era mais do que isso: “Pessoas morrendo de fome, não por falta de comida, mas porque aqueles que estavam bem entraram em pânico e não se aproximavam dos doentes. Nas famílias atingidas os mortos ficavam
abandonados.”63 Ofereceram 100 dólares para que médicos viessem e atendessem durante uma hora. Nenhum apareceu. Até um funcionário da Cruz Vermelha, Morgan Brawner, chegou ao condado num sábado e partiu no domingo, aterrorizado. Tinha motivos para sentir medo: em algumas áreas, a mortalidade entre
civis chegara a 30%. 64
Em Norwood, Massachusetts, um historiador entrevistou os
sobreviventes anos depois. Um homem, um menino que entregava jornais em 1918, recordou que o gerente “dizia para mim que deixasse o dinheiro sobre a mesa e aplicava um spray nele antes de tocá-lo”. Outro sobrevivente disse: “Não havia muitas visitas. (...) Ficávamos sozinhos.” E outro: “Sabe, ele trazia qualquer coisa que meu pai tivesse necessidade e deixava na porta. Ninguém entrava na casa do outro.” E mais: “Tudo parou. (...) Não tínhamos permissão de passar pela porta. Tínhamos que nos afastar das pessoas.” “Um tira, um sujeito robusto (...) aproximou-se da casa e pregou uma grande placa branca, e nela se lia GRIPE em letras vermelhas. E pregaram na porta.” Uma placa deixava a família ainda mais isolada. E segundo outro sobrevivente: “Eu ia pela rua, caminhava pela rua com a mão cobrindo os olhos, pois havia tantas casas com tecido preto preso diante da porta.” “Era aterrorizante. Não era apenas o medo de sucumbir à doença, mas aquela sensação sinistra das
pessoas indo embora à sua volta.” 65
No condado de Luce, no Michigan, uma mulher cuidava do
marido e de três meninos, “quando adoeceu”, relatou um integrante da Cruz Vermelha. “Nenhum de seus vizinhos iria ajudar. Fiquei a noite inteira e, pela manhã, telefonei para a irmã da mulher. Ela veio, bateu no vidro da janela mas se recusou a falar comigo até se encontrar em uma distância segura. (...) Não
pude fazer nada pela mulher (...) exceto chamar o sacerdote.” 66
Monument e Ignacio, no Colorado, fizeram mais do que proibir
todas as aglomerações públicas. Proibiram que os consumidores entrassem nas lojas. As lojas ficaram abertas, mas os compradores gritavam os pedidos do lado de fora, depois esperavam pelos pacotes serem jogados.
Colorado Springs colocou placas nas casas com letreiros que
diziam “Doença”.67
Em nenhum setor industrial os trabalhadores ouviam mais sobre patriotismo, sobre a importância de seu trabalho para o esforço de guerra como os soldados na linha de frente e na construção naval. Nem havia outro setor em que os trabalhadores recebessem tantos cuidados. Em todos os estaleiros, os copos de água comuns foram destruídos e substituídos por dezenas de milhares de copos de papel. Hospital e instalações foram providenciados de antemão, forneceu-se vacina contra a gripe e talvez fosse o único ramo em que enfermeiras e médicos sobravam. Como resultado, segundo um representante do Serviço de Saúde Pública, “não há motivo para acreditar que muitos homens se ausentariam do trabalho pelo pânico ou pelo medo da doença, pois nosso programa educacional se preocupou em evitar que se amedrontassem. Eles aprenderam que estavam mais seguros no trabalho do que em qualquer outro
lugar”. 68
Naturalmente, não eram pagos a não ser que fossem
trabalhar. Mas em dezenas de estaleiros da Nova Inglaterra, os registros de absenteísmo eram notáveis. No L.H. Shattuck Company, 45,9% dos trabalhadores ficaram em casa. No George A. Gilchrist, foi 54,3%. Em Freeport Shipbuilding, 57%. Em
Groton Iron Works, 58,3%. 69
A quase 4.200 quilômetros de distância, situava-se Phoenix,
no Arizona. No início da epidemia, seus jornais se comportaram como os outros jornais, dizendo pouco, reconfortando, insistindo que o medo era mais perigoso do que a doença. Mas o vírus permaneceu ali mais tempo do que em outros lugares, até que, enfim, a imprensa exprimiu medo. Em 8 de novembro, o Arizona Republican alertava: “O povo de Phoenix está enfrentando uma crise. A [epidemia] alcançou proporções tão sérias que é o nosso primeiro problema. (...) Quase todos os lares da cidade foram atingidos pela peste. (...) Homens e mulheres sem medo
[precisam] servir à causa da humanidade.”70
Faltavam três dias para o fim da guerra e vários alarmes falsos
de paz foram anunciados. No entanto, era extraordinário que o jornal chamasse a gripe de “primeiro problema” enquanto a guerra prosseguia. E por fim a cidade formou um “comitê de cidadãos” para cuidar do problema.
No Arizona, os comitês de cidadãos eram levados a sério. Um
ano antes 1.500 membros armados de uma “Liga de Proteção dos Cidadãos” colocaram 1.221 mineiros grevistas em vagões e carros usados para transportar gado, abandonando-os sem comida nem água num ramal da ferrovia no meio do deserto, depois da fronteira com o Novo México. Em Phoenix, outro “comitê de cidadãos” perseguia aqueles que relutavam em comprar bônus de guerra, dando o exemplo com enforcamentos simbólicos nas ruas principais. Um homem se recusou a comprar bônus por questões religiosas e teve seu enforcamento simbólico com um cartaz que dizia “H. G. Saylor, renegado amarelo. (...) Tem condições mas não vai comprar títulos de guerra!” Saylor teve sorte. O comitê também prendeu o carpinteiro Charles Reas, amarrou suas mãos nas costas, pintou o rosto dele de amarelo e o arrastou pelas ruas do centro de Phoenix com um cartaz
dizendo “com essa exceção, somos 100%”.71
O comitê de cidadãos para a gripe tomou iniciativas parecidas.
Deu poderes a uma força policial especial e também convocou todos os “cidadãos patrióticos” para cumprir os regulamentos contra a gripe, exigindo inclusive que todas as pessoas usassem máscaras em público, prendendo qualquer um que cuspisse ou tossisse sem cobrir a boca, ditando que os negócios (aqueles que ainda estavam abertos) deixassem cerca de 35 metros cúbicos de ar para cada cliente e interrompendo todo o tráfego para a cidade. A entrada era permitida apenas para aqueles “com negócios autênticos por lá”. Logo o Republican descreveu “uma cidade de mascarados, uma cidade tão grotesca quanto um baile
de carnaval”.72
No entanto — por ironia —, a gripe tocou Phoenix com leveza,
em comparação com outras regiões. O pânico veio de qualquer modo. Os cães contavam a história de terror, mas não com seus latidos. Houve boatos dizendo que eles transmitiam a gripe. A polícia começou a matá-los nas ruas. E as pessoas começaram a matar os próprios cães, os animais que amavam, e se não tinham coragem os entregavam à polícia para serem sacrificados. “Com essa taxa de mortalidade de causas não
naturais, Phoenix ficará sem cães”, informou a 73 Gazette . De volta a Filadélfia, Mary Volz morava perto de uma igreja. Sempre amara “ouvir o repicar dos sinos, ressoando com tanto júbilo”. Mas naquele momento, com intervalo de poucos minutos, as pessoas entravam na igreja carregando um caixão, partiam, “e então voltavam com outro caixão”. Cada vez que isso acontecia, os sinos tocavam. “Os sinos eram minha alegria e então vinha aquele ‘BONG! BONG! BONG!’. Eu ficava apavorada, doente na minha cama ouvindo aquele ‘BONG! BONG! BONG!’. Será que o
sino vai tocar por mim?”74
A guerra estava lá longe. A epidemia estava aqui. A guerra
acabou. A epidemia prosseguiu. O medo cobriu todo o país como se fosse um cobertor gelado. “Alguns dizem que o mundo acabará em fogo, gelo/também é ótimo/ e bastaria”, escreveu
Robert Frost em 1920.75
Um relatório interno da Cruz Vermelha americana concluiu:
“Um medo e um pânico da gripe, semelhante ao terror durante a Idade Média em relação à peste bubônica, têm prevalecido em
muitas partes do país.” 76