A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 21 de 43

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A Grande Gripe

Parte VI: A PESTILÊNCIA

Parte VI

 

A PESTILÊNCIA

CAPÍTULO VINTE

 

E , apenas uma gripe.

Esse novo vírus influenza, como a maioria dos novos vírus

influenza, era disseminado de modo rápido e generalizado. Como um epidemiologista contemporâneo já citado observara: A influenza é uma ocorrência especial entre outras doenças infecciosas. Esse vírus é transmitido com tanta eficiência que exaure o suprimento de hospedeiros vulneráveis. Isso significava que o vírus contaminara dezenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos — em muitas cidades, mais da metade das famílias tinha perdido pelo menos um membro vitimado pela gripe; em San Antonio, o vírus deixou mais da metade da população doente — e centenas de milhões no mundo.

Mas era uma gripe, apenas uma gripe. A maioria esmagadora

das vítimas ficou boa. Por vezes, as vítimas sofriam uma crise leve, por outras, uma mais grave, mas se recuperavam.

O vírus se disseminou pela vasta maioria da mesma maneira

pela qual os vírus influenza se disseminavam. Os doentes passavam vários dias de extremo desconforto (multiplicado pelo terror da possibilidade de complicações mais sérias) e então se recuperavam em dez dias. Na realidade, o ciclo da doença, nesses milhões de casos, convenceu os profissionais médicos de que não passava de uma gripe.

Mas na minoria de casos, e não apenas em uma ínfima

minoria, o vírus se manifestava como uma gripe fora dos padrões normais, diferente de qualquer outra já reportada, cujo ciclo era tão diferente do ciclo normal da doença que o próprio Welch, a princípio, temeu algum novo tipo de infecção ou peste. Se Welch ficou assustado, os que contraíram a doença ficaram aterrorizados.

Em termos gerais, no mundo ocidental, o vírus demonstrou

extrema virulência ou levou à pneumonia em 10 a 20% de todos os casos. Nos Estados Unidos, essa porcentagem representou de dois a três milhões de casos. Em outras partes do mundo, principalmente em áreas isoladas onde as pessoas raras vezes tinham sido expostas a diferentes vírus influenza — em povoados esquimós no Alasca, em aldeias na selva da África, em ilhas do Pacífico —, o vírus demonstrou uma virulência extrema em uma proporção bem superior a 20% dos casos. Esses números provavelmente representavam várias centenas de milhões de casos graves em todo o mundo em um planeta cuja população era menos de um terço da atual.

Mas ainda era gripe, apenas gripe. Os sintomas mais comuns,

tanto na época quanto hoje, são bem conhecidos. As membranas da mucosa nasal, da faringe e da garganta inflamam. A conjuntiva, a delicada membrana que reveste a parte interna das pálpebras, inflamam. As vítimas sofrem de dor de cabeça, dores no corpo, febre, muitas vezes completa prostração e tosse. Conforme um importante clínico observou em 1918, a doença foi “manifestada em dois grupos de sintomas: primeiro as reações costumeiras por uma grave doença febril — dor de cabeça, dor no corpo, calafrios, febre, mal-estar, prostração, anorexia, náusea ou vômitos; e em segundo, sintomas condizentes com uma intensa congestão das membranas mucosas da narina, faringe, laringe, traqueia e trato respiratório superior em geral e da

conjuntiva”.1 Outro observou: “A doença começava com uma prostração total e frio, febre, dor de cabeça, conjuntivite, dor nas costas e membros, rosto ruborizado (...) Em muitos casos, a tosse era constante. As vias respiratórias superiores ficavam obstruídas.” Um terceiro relatou: “Em casos não fatais (...) a temperatura variava de 37,8 graus a 39,4 graus. Os casos não

fatais, em geral, se recuperavam em cerca de uma semana.” 2

Mas havia os casos em que o vírus atacava com violência.

 

Para os que sofriam um ataque violento, em geral havia a dor, uma dor terrível, e ela podia tomar conta de quase todo o corpo. A doença também os isolava, levando-os a um lugar solitário e de alheamento.

Na Filadélfia, Clifford Adams relatou: “Eu não pensava em

nada (...) Cheguei a um ponto em que não me importava se morreria ou não. Apenas senti como se minha vida inteira não

representasse nada a não ser quando respirava.” 3

Bill Sardo em Washington, D.C., recorda: “Não esperavam que

eu sobrevivesse, assim como todos os outros que tinham pegado a doença (...) Você fica muito mal e não está em coma, mas encontra-se em um estado que no auge da crise não pensa direito e não reage normalmente, você entra em uma espécie de

delírio.”4

Em Lincoln, Illinois, William Maxwell sentiu que “o tempo era

um borrão enquanto eu estava deitado naquele quartinho no andar de cima e (...) não tinha ideia se era dia ou noite, eu me sentia mal e vazio por dentro e sabia pelas ligações telefônicas da minha tia, sabia o suficiente para ficar alarmado em relação à minha mãe (...) Ouvi quando ela disse ‘Ah, não, Will!’ e em seguida ‘se você quiser que eu...’ As lágrimas escorriam pelo seu

rosto, e ela não precisou me contar”.5

Josey Brown passou mal durante seu turno como enfermeira

no Great Lakes Naval Training Station [Centro de Treinamento Naval de Great Lakes] e seu “coração batia tão forte e estava tão disparado que parecia que ia pular” do peito; em consequência das febres terríveis, ela “tremia tanto que o gelo chacoalhava e

sacudia o prontuário preso no pé da cama”.6

Harvey Cushing, pupilo de Halsted, já detentor de relativo

destaque, ainda que precisasse consolidar sua reputação, serviu na França. Em 8 de outubro de 1918, escreveu em seu diário: “Alguma coisa aconteceu com a parte de trás das minhas pernas e eu tremo como um tabético” — como alguém sofrendo de uma doença lenta e devastadora, como algum portador de HIV necessitado de uma bengala — “e não consigo sentir o chão quando levanto trêmulo da cama pela manhã (...) Então esta é a sequência da gripe. Talvez possamos agradecer-lhe por nos ter ajudado a ganhar a guerra, caso tenha de fato atingido o exército

alemão com essa força [durante a ofensiva].”7 No caso dele, o que pareciam ser complicações eram, em grande medida, problemas neurológicos. No dia 31 de outubro, após três semanas de cama com dor de cabeça, visão dupla e pernas dormentes, Cushing observou: “É um negócio curioso, sem dúvida ainda em progresso (...) com considerável perda muscular (...) Tenho uma vaga percepção de familiaridade com a sensação — como se a tivesse encontrado em algum lugar em um sonho.” Quatro dias depois: “Agora minhas mãos acompanham meus pés — tão dormentes e desastradas que fazer a barba se tornou um perigo e abotoar a roupa exige muito esforço. Quando os nervos periféricos estão assim afetados, o cérebro também fica entorpecido e esquisito.”

Cushing nunca se recuperaria totalmente. Do outro lado da linha de combate, Rudolph Binding, oficial

alemão, descreveu sua doença como “algo semelhante à febre

tifoide e com horripilantes sintomas de intoxicação intestinal”.8 Durante semanas, ficou “nas garras da febre. Alguns dias me sinto relativamente livre; em seguida, a fraqueza volta a tomar conta de mim e, suando frio, mal consigo me arrastar para a cama e as cobertas. Depois vem a dor, e aí pouco me importo se estou vivo ou morto”.

Na época, Katherine Anne Porter trabalhava como repórter no

Rocky Mountain News. O noivo, um jovem oficial, faleceu. Contraiu a doença enquanto cuidava dela, também condenada à morte. Seus colegas no jornal escreveram seu obituário. Mas ela sobreviveu. Em “Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro”, descreveu seu percurso em direção à morte: “Ela jazia em um estreito parapeito à beira de um abismo que sabia não ter fim (...) e palavras suaves, cuidadosamente moldadas, como esquecimento e eternidade, são cortinas penduradas diante do nada absoluto (...) Sua mente cambaleou e escorregou de novo, desprendendo-se da base e girando como uma roda de ferro em uma vala (...) Ela mergulhou em camadas cada vez mais profundas de escuridão até cair como uma pedra no ponto mais distante do final da existência, sabendo estar cega, surda, muda, sem ter mais consciência dos membros do próprio corpo, inteiramente afastada de todas as preocupações humanas, mas ainda assim viva e com lucidez e coerência peculiares; todos os pensamentos da mente, (...) todos os laços de sangue e os desejos do coração dissolvidos e arrancados dela, de quem restava apenas uma minúscula partícula de ser ardendo aguerrida, que sabia estar sozinha, que dependia apenas de si para manter a força; uma partícula não suscetível a qualquer apelo ou estímulo, composta em sua integridade por um único motivo, a obstinada vontade de viver. Essa partícula ardente e imóvel estabeleceu-se, desamparada, para resistir à destruição, para sobreviver e ser, em sua própria loucura de ser, sem outro objetivo e plano além

desse único e essencial propósito.”9

Então, quando subiu à superfície, voltando do abismo

profundo: “A dor retornou, uma terrível e imperiosa dor correndo por suas veias como fogo, o fedor da deterioração invadiu suas narinas, o cheiro adocicado e enjoativo de carne em putrefação e de pus; abriu os olhos e viu uma luz pálida através de um pano branco e áspero sobre seu rosto; entendeu que o cheiro de morte emanava do próprio corpo e tentou a duras penas levantar a mão.”

 

Essas vítimas apresentavam uma extraordinária variedade de sintomas, sintomas desconhecidos por completo em gripe ou experimentados, mas com intensidade desconhecida. A princípio, médicos, médicos eficientes, médicos inteligentes que buscavam uma doença que se encaixasse nos indícios apresentados — o que não era o caso da gripe — costumavam diagnosticar equivocadamente a doença.

Os pacientes contorciam-se com dores agonizantes nas

articulações. Os médicos diagnosticariam dengue, também conhecida como “febre quebra-ossos”.

Pacientes sofriam de febre altíssima e fortes calafrios,

tremiam, tiritavam, encolhiam-se debaixo das cobertas. Os médicos diagnosticariam malária.

O dr. Henry Berg do Willard Parker Hospital, em Nova York,

localizado na calçada oposta ao laboratório de William Park, temia que as queixas dos pacientes quanto à “dor que queimava

acima do diafragma” fosse um sintoma de cólera. 10 Outro médico observou: “Muitos apresentavam vômitos; outros ficavam com o abdômen sensível, o que indicava uma patologia intra-

abdominal.” 11

Em Paris, enquanto alguns médicos também diagnosticavam a

doença como cólera ou disenteria, outros interpretavam a

intensidade e o local da dor de cabeça como febre tifóide.12 Embora mergulhados na epidemia, médicos parisienses continuavam relutantes no diagnóstico de gripe. Na Espanha, as autoridades de saúde pública também declararam que as complicações se deviam à febre tifóide, que tinha “se espalhado

por toda a Espanha”.13

Mas nem febre tifóide nem cólera, nem dengue nem febre

amarela, nem peste nem tuberculose, nem difteria nem desinteria, nada disso podia explicar os outros sintomas. Nenhuma doença conhecida podia.

Em Proceedings of the Royal Society of Medicine [Anais da

Sociedade Real de Medicina], um médico inglês registrou “algo que nunca tinha visto antes — a saber, a ocorrência de enfisema subcutâneo” — bolhas de ar acumuladas na camada logo abaixo da pele — “começando no pescoço e, por vezes, espalhando-se

por todo o corpo”. 14

Essas bolhas de ar vazando pelos pulmões rompidos faziam

os pacientes estalarem quando virados de lado. Mais tarde, uma enfermeira da marinha comparou o som a uma tigela de cereal de arroz crocante, e a lembrança do som era tão vívida para ela que, pelo resto da vida, não suportava ficar perto de alguém que

estivesse comendo esse cereal.15

Dores de ouvido excruciantes eram comuns. Um médico

observou nos pacientes que a otite média — inflamação da orelha média que provoca dor, febre e tontura — “se desenvolveu com surpreendente rapidez, e a ruptura da membrana do

tímpano ocorria, por vezes, poucas horas após o início da dor”. 16 Outro escreveu: “A otite média foi constatada em 41 casos. Os ontologistas de plantão dia e noite realizaram paracentese imediata [inserção de uma agulha para remover o fluido] nos

tímpanos inflamados (...).” 17 Outro relatou: “Secreção de pus na orelha externa também foi observada. Nas autópsias, praticamente todos os casos apresentaram otite média com perfuração (...) Essa ação destrutiva no tímpano me parece

similar à ação destrutiva nos tecidos do pulmão.” 18

As dores de cabeça latejavam profundamente, e as vítimas

tinham a sensação de que a cabeça fosse literalmente rachar, como se uma marreta abrisse uma fenda não na cabeça, mas de dentro para fora dela. A dor concentrava-se, em particular, atrás da órbita ocular e podia ser quase insuportável quando os pacientes mexiam os olhos. Havia áreas de visão cega, áreas em que o campo geral de visão ficava escuro. Paralisias dos músculos oculares eram frequentemente registradas, e a literatura médica alemã observou que os olhos eram afetados

com especial frequência, às vezes em 25% dos casos de gripe.19

A capacidade do olfato era afetada, às vezes por semanas. 20

Complicações mais raras incluíam falência renal aguda — e mesmo fatal. A síndrome de Reye atacava o fígado. Um relatório do exército mais tarde relatou apenas: “Os sintomas não eram

extremos só na variedade, mas também na severidade.” 21

Não apenas a morte, como também esses sintomas

disseminavam o terror.

 

Mas era gripe, apenas gripe. Entretanto, para leigos em casa — a mulher que cuidava do marido, o pai que cuidava do filho, o irmão que cuidava da irmã —, eram aterrorizantes os sintomas diferentes de tudo o que já tinham visto. E os sintomas aterrorizaram um escoteiro que foi entregar comida na casa de uma família incapacitada; aterrorizaram um policial que ao entrar em um apartamento encontrou um inquilino morto ou agonizante; aterrorizaram um homem que ofereceu o carro como ambulância. Os sintomas causavam calafrios nos leigos, calafrios trazidos pelos ventos do medo.

O mundo ficou escuro. A cianose o deixou assim. Os

pacientes podiam ter, no início da doença, alguns outros sintomas, mas, se enfermeiras e médicos constatavam cianose, começavam a tratar esses pacientes como terminais, como mortos-vivos. Se a cianose piorasse, a morte era certa. E os casos de cianose eram comuns. Um médico relatou: “A cianose intensa era um fenômeno impressionante. Lábios, orelhas, nariz, bochechas, língua, conjuntivas, dedos e às vezes o corpo inteiro

exibiam uma tonalidade escura, plúmbea.” 22 E outro descreveu: “Muitos pacientes apresentavam, ao serem internados, cianose intensa, impressionante, percebida sobretudo nos lábios. Não se tratava da palidez arroxeada comum nos casos de pneumonias debilitantes, mas [um] roxo profundo.” E um terceiro relatou: “Em caso com lesões bilaterais características da cianose, mesmo uma cor azul-marinho (...) A palidez era indicativa de prognóstico

ruim.”23

Além disso, havia o sangue, o sangue que jorrava do corpo.

Ver o sangue escorrer, e em alguns casos esguichar do nariz, da boca e até das orelhas e dos olhos de alguém só podia ser aterrorizante. Por mais assustador que fosse o sangramento, sintomas assim, a princípio não associados com a gripe, embora não significassem a morte, não deixavam de ser desconcertantes — mesmo para aqueles acostumados a pensar no corpo como uma máquina e tentando compreender o processo da doença. Porque, quando o vírus se tornava violento, havia sangue por

 

toda parte. *

Nos acantonamentos do exército norte-americano, de 5 a 15%

de todos os homens hospitalizados sofriam de epistaxe — sangramento nasal —, como o que ocorria em viroses hemorrágicas como o Ebola. Houve muitos relatos de que às vezes o sangue esguichava do nariz com tanta força que caía a vários metros de distância. Os médicos não encontravam explicação para esses sintomas. Apenas se limitavam a relatá-los.

“Quinze por cento dos pacientes foram acometidos de

epistaxe (...).”25 “Em cerca de metade dos casos, um líquido espumoso e manchado de sangue escorria do nariz e da boca quando o doente abaixava a cabeça (...).” “A epistaxe ocorre em um número significativo de casos, em uma das pessoas um litro

de sangue vermelho jorrou das narinas (...).”26 “Uma característica impressionante nos primeiros estágios desses casos era o sangramento de alguma parte do corpo (...) Seis pacientes vomitaram sangue; um deles morreu ao perder sangue

por conta disso.”27

O que era aquilo?

“Uma das mais impressionantes complicações era a

hemorragia das membranas da mucosa, em particular do nariz, estômago e intestino. Sangramento dos ouvidos e hemorragias petequiais na pele também ocorreram.”

Um pesquisador alemão relatou “hemorragias ocorrendo em

diferentes pontos da parte interna dos olhos” com grande

frequência.28 Um patologista americano observou: “Cinquenta casos de hemorragia subconjuntival [sangramento no revestimento dos olhos] foram registrados. Doze pacientes tiveram de fato hemoptise, sangue vermelho brilhante sem muco

misturado (...) Três apresentaram hemorragia intestinal (...).”29

“Pacientes do sexo feminino apresentaram corrimento vaginal

hemorrágico que, a princípio, foi confundido com o período menstrual, mas, posteriormente, interpretado como hemorragia

da mucosa uterina.” 30

O que era aquilo?

O vírus nunca causava apenas um único sintoma. O chefe de

diagnósticos do Departamento de Saúde de Nova York

sintetizou:31 “Casos com dor intensa parecem e reagem como nos casos de dengue (...) hemorragia nasal ou nos brônquios (...) A expectoração é, em geral, copiosa e pode apresentar traços de sangue (...) paresia ou paralisia de origem cerebral ou vertebral (...) o comprometimento de movimentos pode ser grave ou leve, permanente ou temporário (...) depressão física e mental. A prostração intensa e prolongada levou à histeria, à melancolia e à insanidade com tendências suicidas.”

O impacto no estado mental das vítimas seria uma das

sequelas observadas com mais frequência.

 

Durante a epidemia, 47% de todas as mortes nos Estados Unidos da América, cerca de metade das mortes em decorrência de todas as causas — câncer, doenças cardíacas, acidente vascular cerebral, tuberculose, acidentes, suicídio, assassinato e demais causas —, foram provocadas pelo vírus influenza e suas

complicações. 32 E a doença matou o bastante para reduzir em

mais de dez anos a expectativa média de vida no país. 33

Algumas das vítimas fatais da gripe e da pneumonia teriam

morrido mesmo que não houvesse epidemia. Afinal de contas, a pneumonia era a principal causa de óbito na época. Portanto, o ponto central é, na verdade, o saldo de “mortes em excesso”. Atualmente, pesquisadores acreditam que a epidemia de 1918-1919 nos Estados Unidos gerou um saldo de mortes em excesso de cerca de 675 mil pessoas. Na época, a população da nação girava em torno de 105 e 110 milhões enquanto em 2006 se aproximava de 300 milhões. Então, hoje, o número equivalente seria de aproximadamente 1.750.000 mortes.

E além dos números gritantes havia algo mais que conferia à

pandemia de gripe de 1918 um imediatismo aterrorizante, que entrou em cada lar, entrou em cada lar onde havia mais vida.

Quase sempre a gripe escolhe os mais fracos da sociedade

para matar, ou seja, os muito jovens e os muito velhos. Oportunista, a doença mata como um brutamontes. Quase sempre permite que escapem os mais vigorosos, os mais saudáveis, incluindo os jovens adultos enquanto grupo. A pneumonia era inclusive conhecida como “a amiga dos velhos” por matar, em especial, os idosos e por agir de modo relativamente indolor e pacífico, permitindo até tempo para as despedidas.

Mas a gripe de 1918 não concedia essa graça. Matou os

jovens e os fortes. Estudos em todo o mundo chegaram à mesma conclusão. Os jovens adultos, a parcela mais saudável e forte da população, eram os mais propensos a morrer. Aqueles que tinham mais motivos para viver — os robustos, os que estavam em boa forma física, os sadios, os que ainda tinham filhos e filhas pequenos para criar — eram os que morriam.

Nas cidades da África do Sul, a população na faixa etária entre

vinte e quarenta anos representava 60% dos óbitos. 34 Em Chicago, as mortes entre os que tinham de vinte a quarenta anos foram em número quase quintuplicado ao dos indivíduos entre 41

e sessenta anos.35 Um médico suíço “não constatou nenhum

caso grave em alguém com mais de cinquenta anos”. 36 Na “área de cadastro” dos Estados Unidos — estados e cidades com estatísticas confiáveis —, a população era dividida com cinco anos de intervalo; o maior número de óbitos ocorridos abarcava indivíduos dos sexos masculino e feminino entre os 25 e os 29 anos; a segunda faixa mais atingida incluía pessoas entre 30 e 34 anos; a terceira, entre 20 e 24 anos. E mais pessoas morriam em cada um desses grupos do que o total de óbitos entre todos com mais de sessenta anos.

Gráficos correlacionando as taxas de mortalidade e a idade

nos surtos de gripe sempre — sempre, com exceção do período de 1918–1919 — começam com um pico representando as mortes infantis, caindo depois e se estabilizando, para subir em seguida, com um segundo pico representando as pessoas acima de 65 anos. Com a mortalidade na vertical e a idade na horizontal, um gráfico dos óbitos se assemelharia a um U.

Contudo, em 1918, a situação era diferente. As crianças

morreram em grande número, assim como os idosos. Mas, em 1918, o grande pico concentrava-se no meio. Nesse ano, um gráfico de mortes por idade pareceria um W.

É um gráfico que conta a história da mais total e absoluta

tragédia. Mesmo no front, na França, Harvey Cushing reconheceu essa tragédia e chamou as vítimas de “duplamente

mortas por terem morrido tão jovens”.37

Considerando-se apenas os militares dos Estados Unidos, as

mortes por gripe ultrapassaram o número de americanos mortos em combate no Vietnã. Um em cada 67 soldados do exército morreram por causa da gripe e suas complicações, dos quais quase todos em um período de dez semanas, iniciado em meados de setembro.

Mas a gripe, é claro, não matou apenas militares. Nos Estados

Unidos, ela matou quinze vezes mais civis do que militares. E, entre os jovens adultos, outro dado demográfico chamou a atenção. De todas as pessoas, as mais vulneráveis à gripe, as com mais probabilidade de vir a falecer, eram as grávidas. Desde 1557, observadores associavam a gripe ao aborto natural e à morte de grávidas. Em treze estudos referentes a grávidas hospitalizadas durante a pandemia de 1918, a taxa de

mortalidade variou entre 23 e 71%. 38 Das gestantes

sobreviventes, 26% perderam o bebê. 39 E essas mulheres faziam parte do grupo com mais possibilidade de já ter outros filhos, ou seja, um número desconhecido, mas enorme, de crianças perdeu a mãe.

 

A palavra mais fértil em ciência é “interessante”. O termo sugere algo novo, intrigante e potencialmente significativo. Welch havia pedido a Burt Wolbach, o brilhante patologista-chefe do hospital de Boston, conhecido como “o Brigham”, que pesquisasse os casos em Devens. Wolbach referiu-se a eles como “a experiência

patológica mais interessante que já tive”. 40

A epidemiologia dessa pandemia era interessante. Os

sintomas inusitados eram interessantes. E as autópsias — e alguns dos sintomas só eram revelados na autópsia — eram interessantes. O dano causado pelo vírus e sua epidemiologia apresentavam um profundo mistério. Uma explicação chegaria — mas não por décadas.

Enquanto isso, a referida gripe, pois afinal de contas era

apenas uma gripe, não deixou quase nenhum órgão interno ileso. Outro proeminente patologista observou que o cérebro mostrava “hiperemia acentuada” — hemorragia no cérebro, provavelmente causada por uma reação inflamatória fora de controle —, acrescentando, “os giros cerebrais foram aplanados e os tecidos

do cérebro estavam visivelmente secos”. 41

O vírus inflamava ou afetava o pericárdio — o saco fibro-

seroso que protege o coração — e o músculo cardíaco em si, observaram outros. Em geral, o coração também estava “distendido e flácido, mostrando grande contraste com o ventrículo esquerdo, firme e contraído, quase sempre presente

post mortem 42 em pacientes vítimas fatais de pneumonia lobar”.

Os danos causados nos rins variavam, mas algum dano

“ocorria em quase todos os casos”. 43 Às vezes, o fígado tinha sido lesionado. As glândulas suprarrenais apresentavam “áreas necrosadas, hemorragias evidentes e, ocasionalmente, abcessos (...) Quando não estavam envolvidos no processo hemorrágico,

os órgãos costumavam apresentar congestão significativa”. 44

Os músculos na caixa torácica dilaceram-se tanto por

processos internos tóxicos quanto pelo esforço externo causado pela tosse; em muitos outros músculos, os patologistas constataram “necrose” ou “degeneração cerosa”.

Até os testículos apresentavam “alterações bastante

surpreendentes (...) encontradas em quase todos os casos (...) Era difícil entender por que ocorreriam lesões nocivas tão graves no músculo e nos testículos”.

E, por fim, os pulmões.

Os médicos tinham visto pulmões naquele estado. Mas os

pulmões analisados não eram de pacientes vítimas de pneumonia. Só uma doença conhecida — uma forma particularmente virulenta de peste bubônica, chamada peste pulmonar, que mata aproximadamente 90% de suas vítimas — despedaçava os pulmões como essa doença o fazia. Assim como armamentos de guerra.

Um médico do exército concluiu: “As únicas constatações

comparáveis são com a da peste pulmonar e com aquelas

observadas em mortes causadas por gás tóxico.”45

Setenta anos depois da pandemia, Edwin Kilbourne, cientista

muito respeitado que passou grande parte da vida estudando o vírus influenza, confirmou essa observação, declarando que o estado dos pulmões era “raro em todas as outras infecções virais respiratórias e é evocativa de lesões constatadas após a inalação

de gás venenoso”.46

Mas a causa não era o gás venenoso nem a peste pulmonar.

Era apenas uma gripe.

 

* Muitos mecanismos podem causar o sangramento das membranas mucosas, e a maneira exata de atuação do vírus influenza ainda é desconhecida. Alguns vírus também atacam as plaquetas — necessárias para a coagulação — direta ou indiretamente, e elementos do sistema imunológico

podem também, inadvertidamente, atacar as plaquetas. 24